17 de Agosto de 1987. Rudolf Hess suicidava-se na prisão de Spandau em Berlim onde cumpria pena de prisão perpétua. Tinha 93 anos. Era o último dos condenados dos julgamentos de Nuremberga que ali cumpria a sua pena e não propriamente dos mais argutos daquele grupo. Desde 1966, com a libertação de Albert Speer e Baldur von Schirach, que a prisão funcionava exclusivamente por sua causa. Outros condenados a prisão perpétua haviam sido soltos por razões de saúde, casos de Erich Raeder e Walther Funk. Ao longo dos últimos anos da detenção haviam-se conjugado razões humanitárias e económicas propondo a libertação do último grande dirigente nazi. Sem efeito - a culpa era atribuída aos russos. E, aquela percepção de que o transcorrer do tempo, só por si, é um precioso auxiliar da História, soltando os detalhes que, na época dos acontecimentos, haviam permanecido obscuros por interesse de uma das partes, neste caso de Rudolf Hess é coisa que não parece aplicar-se. À data do seu suicídio, 46 anos depois dos acontecimentos e 42 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, permaneciam (quase) as mesmas dúvidas iniciais sobre as razões que haviam levado Rudolf Hess a pilotar pessoalmente e com grandes riscos pessoais um avião para se dirigir a um país inimigo (Reino Unido), para aí promover conversações de paz para as quais ninguém o havia mandatado. 30 anos depois da sua morte, melhores propostas para explicar o que aconteceu não apareceram, nem há perspectivas de que venham a aparecer. Também a sua morte é outra controvérsia. Há opiniões que defendem que ele não se suicidou. Mas então, por que se esperou tanto tempo para o suicidar? (Tanto mais que Hess já fizera uma tentativa em 1977?)
17 agosto 2017
16 agosto 2017
QUANDO OS REVOLUCIONÁRIOS ERAM MAIS IMPORTANTES QUE AS ESTRELAS ROCK
Ainda 16 de Agosto de 1977. Morria num acidente em Moçambique Ramiro Correia, que fora um dos militares de Abril. Não propriamente um militar do 25 de Abril (era primeiro-tenente médico...), mas um dos militares do depois do 25 de Abril, do PREC. Foi marcante o seu desempenho à frente da 5ª Divisão, que se tornara o órgão doutrinador da facção comunista do MFA. Tornara-se por isso um dos derrotados do 25 de Novembro. Por causa da coincidência das datas, é interessante fazer a comparação de como era feita a cobertura noticiosa no Diário de Lisboa (um jornal comunista) daqueles dois óbitos.
«Todos os portugueses que para sempre se integraram no "25 de Abril de 1974" estão hoje de luto.» Era assim que começava, logo na página 2, a notícia da morte acidental de Ramiro Correia aos 39 anos, que era até precedida de uma chamada de primeira página (acima, à esquerda).
«Milhões de admiradores estão hoje de luto pela morte de Elvis Presley, o rei do "rock-roll" e ídolo de uma geração». Mas, apesar do preâmbulo, e porque não tinha qualquer outro destaque, a tal geração tinha que ter folheado o jornal até à página 13 para ler a notícia da morte do seu ídolo.
Tempos de critérios editoriais bem bizarros.
«I REMEMBER ELVIS PRESLEY»
16 de Agosto de 1977. A meio de um Agosto sempre parco de notícias, as redacções internacionais e as domésticas de há 40 anos animam-se com a notícia da morte de Elvis Presley aos 42 anos (1935-1977). O pesar é grande mas a história da decadência do artista é confrangedora. Apanha-se uma dose cavalar das músicas do defunto, algo adicionalmente penoso, já que não há tempo para filtrar o material vindo do Estados Unidos onde, aí de facto, o artista fora genuinamente popular. A Europa associa-se assim à comoção e ao pesar pelo acontecimento, mas por uma boa dose de inércia de estar tudo de férias. Pináculo dessa solidariedade europeia pela perda dos norte-americanos, um holandês vai gravar dai por umas semanas uma marcante canção alusiva ao passamento de Elvis Presley que irá atingir os topes... europeus.
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OS LOUROS DE CÉSAR (10)
Convém comentar que, se a táctica de Obélix de há duas pranchas - entrar pelo palácio de Júlio César e partir aquilo tudo até encontrar a coroa de louros - parecia ser de uma simplicidade infantil, este plano de Asterix não estará desprovido das suas críticas. Tornarem-se escravos para entrar no referido palácio deixa por explicar como é que posteriormente vão recuperar a sua alforria. No entretanto, realce-se do quanto esta página é marcante pela sua amoralidade: o comércio de escravos é retratado como se se tratasse de um outro negócio qualquer, um mercado com pregões e em que há casas selectas que se distinguem pela sobriedade do seu mostruário. A mercadoria não sai embrulhada, mas pode sair acorrentada. O produto diferencia-se pela origem - Tifus promove «um lote de bretões, acabado de chegar». Lembrei-me muitas vezes das imagens desta página quando do apogeu da promoção dos gurus locais do liberalismo, há uma meia dúzia de anos. Por eles, não havia razão para nos condoermos por aqueles que estavam no sopé da sociedade.
15 agosto 2017
OS LOUROS DE CÉSAR (9)
Um escravo que se mostra, para além de resignado, contente e mesmo algo orgulhoso, da sua pessoa («...sou de óptima qualidade, mas pouco dócil...») e da sua função («...não é que me aborreça, mas o meu ofício é de um tal servilismo.») constitui um desvio àquilo que seria (e creio que ainda é) o pensamento admissível a respeito do tema da escravatura. Está a banalizá-la.
A INDEPENDÊNCIA DA ÍNDIA E DO PAQUISTÃO
15 de Agosto de 1947. Há precisamente 70 anos a Índia e o Paquistão alcançavam simultaneamente a independência, dividindo entre si os territórios do subcontinente que haviam estado submetidos ao raj britânico. Os desejos de John Bull no cartoon abaixo não se concretizaram. a partição da Índia esteve muito longe de ser pacífica.
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14 agosto 2017
A HISTÓRIA (IMERECIDAMENTE) ESQUECIDA DO PoSAT-1
Não sei quantos se recordarão ainda do PoSAT-1, um micro-satélite com uns 46 kg que foi lançado para o espaço a partir de Kourou, na Guiana, a 26 de Setembro de 1993, por um foguetão Ariane-4 da Agência Espacial Europeia (ESA). Do ponto de vista estritamente astronáutico, o satélite quase nada teria de importante: o PoSAT-1 era apenas um dos sete satélites da carga daquele Ariane-4 e, só naquele ano de 1993, realizar-se-iam mais seis lançamentos de outros foguetões Ariane-4 naquela mesma base de Kourou. Se adicionarmos ao programa desenvolvido pela ESA, os lançamentos que eram efectuados em paralelo pelas suas rivais norte-americana (NASA), russa (Roscosmos), chinesa, japonesa, indiana, etc., teremos uma melhor ideia da banalidade do feito. Mas isso seria apenas a questão técnica da façanha.
Politicamente porém, tratava-se do primeiro programa exclusivamente português no género e aí, para benefício da propaganda doméstica (na altura, imperava o cavaquismo), a história foi explorada até ao tutano. Também nada que fosse especificamente doméstico: um dos companheiros do PoSAT-1 era o Kitsat-2, outro micro-satélite, o segundo a ser enviado para o espaço pela Coreia do Sul. Dir-se-ia que estava na moda cada país ter os seus satélites. O português ainda fora montado em Inglaterra (o coreano já fora montado na própria Coreia), custara uns 8,5 milhões de euros (a preços actuais) e, para efeitos de propaganda, tinha um «pai». Só o pai, como acontece agora com Cristiano Ronaldo. O pai do primeiro satélite português. Nos artigos a propósito (acima), não se podia falar do engenho sem se falar do pai e (de preferência) com o pai. O pai (era) é Fernando Carvalho Rodrigues.
Acontece que, para além de outros predicados que o terão levado a chefiar a equipa responsável pelo PoSAT-1, Fernando Carvalho Rodrigues era extremamente parecido com o tenor Luciano Pavarotti (1935-2007) como se pode ver acima. E foi essa característica e não outras mais abonatórias, que, estranhamente, esteve na origem deste poste. Associando-o à Festa do Pontal do PSD de ontem, lembrei-me que foi na sua edição do ano seguinte ao do lançamento do primeiro satélite português (1994), que o vi a fazer um play-back do famoso tenor italiano. Tratando-se de um comício político foi bizarro e teve uma graça que o correr dos anos foi esbatendo. Fernando Carvalho Rodrigues revela-se uma pessoa estimável, mas o PoSAT tornou-se um consórcio que, descontado o seu efeito de propaganda à época, fracassou nos seus objectivos de uma intervenção de Portugal autónoma no espaço: admita-se que 24 anos é tempo demasiado para ainda estar à espera de um PoSAT-2...
Nota suplementar: já agora, para comparação e porque o referi, veja-se por este meu poste, até onde evoluiu entretanto o programa espacial sul coreano. Desenvolveram os seus próprios foguetões e, em 2009, um deles colocou pela primeira vez um satélite sul coreano em órbita. No ano anterior, um protocolo com os russos tinha dado oportunidade a que, pela primeira vez, um cosmonauta sul-coreano viajasse até ao espaço, por sinal, uma mulher.
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A BATALHA DE ALJUBARROTA
14 de Agosto de 1385. Data da Batalha de Aljubarrota. Há cerca de uns cinquenta anos, o desenhador português Vítor Péon contava a história da batalha em três pranchas de BD.
Repare-se o contraste como é desenhado o rei português que aparece no quadrado da esquerda imediatamente acima e o rei castelhano, também do lado esquerdo mas imediatamente abaixo.
Há quase cinquenta anos que me lembro da imagem, mas não consigo identificar o que enfeita a espada ensanguentada do combatente da imagem do meio. Serão as tripas de algum inimigo?...
OS LOUROS DE CÉSAR (8)
Obélix é incapaz de perceber a ironia do plano apresentado por Astérix mas, em contrapartida, é capaz de ter a perspicácia de identificar os que estão mais vocacionados para sair do que para entrar.
13 agosto 2017
A "PICHAGEM" COMO RESPOSTA MAIS EFICAZ À DESFAÇATEZ POLÍTICA
Confesso que ver estes outdoors afixados com toda a desfaçatez me desperta uma vontade tremenda de os ir lá pichar, com alguns dos aspectos mais relevantes da escroqueria de Isaltino Morais. Para quem já se tenha esquecido do que foi o episódio do terreno cabo-verdiano que foi doado «a título pessoal» a Isaltino Morais (acima), ele encontra-se desenvolvido aqui no Expresso. O muito mais conhecido caso do sobrinho taxista que detinha uma conta na Suíça por onde passaram milhões (abaixo), esse pode ser recordado aqui do Diário de Notícias. Não deixa de ser engraçado que aquele que é tradicionalmente considerado o mais feroz jornal para estes casos de corrupção, o Correio da Manhã, se mostrou imensamente benigno quer num caso, quer noutro. Tenho a certeza que, se a Tânia Laranjo tivesse tratado os representantes de Isaltino Morais daquela mesma forma que ela trata João Araújo, o representante de Sócrates, as notícias não teriam saído assim...
OS LOUROS DE CÉSAR (7)
Esta prancha é a primeira de várias desta história em que as cores aparecem desmaiadas porque se passam de noite. As repetidas cenas nocturnas acabarão por conferir à narrativa um aspecto lúgubre. E, mais uma vez, recordando a perspectiva mais infantil de ir acompanhando a história (i.e., analfabeta, apenas vendo e interpretando as imagens), este retorno ao presente, depois do flashback, é mais um desafio para a sua compreensão.
HÁ QUARENTA ANOS, A «ANÁLISE» DA SITUAÇÃO POLÍTICA PELO MSU, ESSA SIGLA MISTERIOSA
Edição do Diário de Lisboa de 13 de Agosto de 1977. Com o destaque de uma página 2, o conhecido vespertino, cuja opinião se vinha progressivamente a fechar cada vez mais na órbita dos comunistas, publicava um documento de análise que fora distribuído por um tal de MSU - Movimento Socialista Unificado. Quem?... Por esta vez, vamos deixar o conteúdo do tal «documento» para o fim, tão previsível ele seria, pela época e pelo jornal onde aparece. A pergunta principal é a identificação da sigla que o assina, tarefa que não deveria ser árdua numa época em que o conhecimento das siglas era indispensável para a compreensão da actividade política: houve 12 formações políticas (e 12 siglas) concorrentes às eleições de 1975, 14 siglas às de 1976, para além de outras siglas - casos da LUAR ou do PRP/BR - que se recusavam a concorrer a «eleições burguesas», por eles resolvia-se tudo à metralhadora!... Mas este MSU escapara ao radar mais atento, aproveitara-se inteligentemente do vácuo noticioso de Agosto e fornecera um conteúdo (para usar uma terminologia que só virá a ser conhecida várias décadas depois) ideologicamente compatível ao Diário de Lisboa que o trouxera para as suas páginas principais. Mais do que isso, o artigo primava por não identificar ninguém da organização, por não deixar nem uma pista sobre a identidade dos analistas - que usavam o linguajar típico da extrema esquerda na época e arreavam no governo do PS com fervor, PS que eles consideravam que se «esgotaria» e «desagregaria». Mas isso eram as banalidades que se diziam entre a esquerda comunista e as várias extremas esquerdas. Quem eram afinal as caras desse misterioso MSU? Começando por um precoce (20 anos) António Vitorino, os autores prováveis de tanto empenho revolucionário terão passado depois, no Portugal pós-revolucionário, a ser conhecidos por exemplos de ponderação, como Joel Hasse Ferreira (que tinha então 33 anos), José Maria Brandão de Brito (30) ou Rui Namorado (36). Em retrospectiva, é engraçado como, com uma simples sigla apensa, um apurado sentido de oportunidade e mais uns contactos, e as opiniões de um pequeno grupo de amigos que não se representavam senão a si próprios já então se podiam projectar publicamente - desde que essas opiniões estivessem na conformidade da linha editorial (ideológica) do Diário de Lisboa! O que é que terá mudado nestes quarenta anos?...
Por um lado, a conformidade ideológica de hoje é a oposta. Oposta, mas de uma rigidez igual: onde outrora se criticava (a formação de) «preços acompanhando livremente as flutuações do mercado» hoje será um anátema defender a intervenção na formação dos preços, mesmo quando exista uma situação descarada de oligopólio concertado, por exemplo. Mas, a maior diferença formal, quando leio as páginas actuais dos simétricos do velho Diário de Lisboa, o i ou do Observador, é o desaparecimento do valor social da camuflagem das opiniões por detrás de siglas... O Pedro Marques Lopes ou o Paulo Pinto de Mascarenhas dispensam-nas.
Por um lado, a conformidade ideológica de hoje é a oposta. Oposta, mas de uma rigidez igual: onde outrora se criticava (a formação de) «preços acompanhando livremente as flutuações do mercado» hoje será um anátema defender a intervenção na formação dos preços, mesmo quando exista uma situação descarada de oligopólio concertado, por exemplo. Mas, a maior diferença formal, quando leio as páginas actuais dos simétricos do velho Diário de Lisboa, o i ou do Observador, é o desaparecimento do valor social da camuflagem das opiniões por detrás de siglas... O Pedro Marques Lopes ou o Paulo Pinto de Mascarenhas dispensam-nas.
O Secretariado Nacional do Movimento Socialista Unificado, em documento recentemente distribuído, analisa a situação política actual, nomeadamente a evolução recente do PS, ilustrada pelas legislativas «que já atingiram e irão atingir as transformações de conteúdo progressista que a sociedade portuguesa sofreu na sequência do processo desencadeado com o 25 de Abril».
«O PS», comenta o MSU, «viu progressivamente restringir-se o seu campo de actuação autónomo, sendo obrigado a realizar uma aliança de facto com o PPD/PSD, a qual atinge neste momento uma importância cada vez mais difícil de escamotear. Tal facto é acompanhado naturalmente pelo apoio expresso ou pela tolerância colaborante do CDS».
«Na realidade», prossegue o documento, «abre-se assim o caminho à reconstrução de poderosos grupos capitalistas “gratificados” com dezenas de milhares de contos, à reprivatização de sectores económicos, ao desemprego e à arbitrariedade patronal, à tentativa de destruição das expressões ainda existentes de Poder e controlo operário, à eliminação das transformações estruturais que, nos campos, haviam permitido aos jornaleiros do Alentejo e Ribatejo, aos pequenos e médios agricultores e aos rendeiros principiarem a libertar-se da sua sujeição de séculos».
O Secretariado Nacional do MSU acentua que a tradução destes factos, a nível do poder político, está patente no recurso, cada vez maior, «a uma prática autoritária e intolerante» que se exprime nas «acções censórias» nos órgãos de informação nacionalizados, na «repressão policial», nos «atentados às liberdades fundamentais» como a liberdade de expressão, associação e manifestação.
O MSU, depois de lembrar que não é a primeira vez na História que a social-democracia, pressionada pelos próprios condicionalismos da luta de classes, é forçada a abandonar a sua ambiguidade e os seus malabarismos centristas e a colocar-se abertamente ao lado da burguesia, «oprimindo e reprimindo os trabalhadores», refere o prometido empréstimo de 750 milhões dependente «da aceitação das condições impostas pelo FMI: contenção de salários, desemprego, preços acompanhando livremente as flutuações do mercado, fomento da iniciativa privada, desvalorização da moeda, aumento dos preços dos produtos essenciais».
O MSU considera, no entanto, que existe em Portugal um forte Movimento Sindical «que nenhuma “Carta Aberta” conseguiu seriamente abalar», um movimento operário «combativo e ainda não esmagado». Logo, é de admitir que «as consequências da passagem à prática dessas condições, assim como de medidas como a contra-reforma agrária no Alentejo, irão precipitar e desencadear tensões sociais e conflitos de dimensões imprevisíveis».
Segundo o MSU, por esgotamento e desagregação do PS, «outra fórmula governamental se imporá a curto prazo, e será de admitir que, pelas suas contradições internas ou por não desejarem sofrer o desgaste que o exercício do Poder, nestas circunstâncias, produz, os demais partidos da burguesia procurarão encontrar uma forma transitória de Poder de tipo presidencialista».
12 agosto 2017
OS LOUROS DE CÉSAR (6)
A tirada incondicional e entusiástica de Obélix em apoio do seu chefe tornou-se uma referência que é frequentemente usada nos comentários da política francesa, um comentário cínico, tanto mais que a exuberância de Obélix se deve ao facto de ele estar embriagado. Assim, por exemplo, depois da onda de popularidade que recentemente elegeu Macron à presidência, acompanhado de uma Assembleia Nacional compatível com o seu programa, não é despropositado imaginar um seu adversário a saudá-lo ironicamente nos dias seguintes com os dizeres «Farpaitement! Macron a Raison... Hips!», à espera do refluxo da tal onda de popularidade que, por acaso, parece não ter demorado a aparecer...
11 agosto 2017
O QUINTETO QUE É FANTÁSTICO E O QUE É FANTÁSTICO NO QUINTETO
Todos os membros do Quinteto Fantástico têm os seus poderes mágicos de super-heróis. Esse seria o aspecto principal a explorar da notícia na informação clássica. Mas aquilo que atrairá mais a atenção dos modernos leitores on-line é mesmo imaginar qual a dimensão do coiso do Hulk. É assim que se faz a informação nos dias que correm. E a fotografia com o quinteto no urinol é o clickbait. Por fim, o que distingue o Correio da Manhã da concorrência e lhe dá a liderança das audiências é que ele publica mesmo a fotografia com a pila do Hulk.
MAIS UM «LOTE» DE FUZILADOS NA FORTALEZA DE MONT-VALÉRIEN
11 de Agosto de 1942. Na edição de há 75 anos do diário colaboracionista francês Le Matin, há um aviso quase que perdido entre as várias notícias da Segunda Guerra Mundial em curso. As notícias têm aquela objectividade que um publisher como José Manuel Fernandes lhes conferiria, no caso de ter optado por torcer pelos alemães, mas o aviso vai muito para além daquilo que se possa ter já lido no Observador.
«Mau grado as sucessivas advertências, a calma foi de novo perturbada em diversos pontos da França ocupada. Atentados foram cometidos contra soldados alemães por terroristas comunistas a soldo da Inglaterra.
Conforme o que já fora anunciado por diversas vezes, foram adoptadas as medidas mais severas para responder a cada atentado. Por consequência, fiz fuzilar 93 terroristas de que havia o convencimento de terem cometido actos terroristas ou de serem seus cúmplices.
Convido a população francesa, no seu próprio interesse, a ajudar, através de uma vigilância extrema, à descoberta das maquinações terroristas, sem o que serei obrigado a adoptar medidas de que toda a população virá a sofrer.
Der Hoehere SS Und Polizeifuehrer In Bereich Des Militaerbefehlshaber In Frankreich»
Conhecido o conteúdo, impressiona a discrição jornalística como o aviso foi tratado, como se de uma casualidade se tratasse. O jornal não o diz, mas os fuzilamentos das 88 (e não 93, alguns perdões de última hora...) pessoas, que haviam sido detidos a diversos títulos e em diversas circunstâncias pelas autoridades militares alemãs, tiveram lugar na fortaleza de Mont-Valérien, que se situa nos arredores de Paris. Estas execuções de 11 de Agosto de 1942 foram apenas mais um «lote» de execuções naquele local, cujo total veio a ultrapassar o milhar ao longo dos quatro anos de ocupação alemã (1940-44). Hoje existe ali um memorial com os nomes de todo esse milhar de executados.
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OS LOUROS DE CÉSAR (5)
A conversa continua no mesmo tom, passando agora para propostas de uma gastronomia que é mais exuberante do que propriamente apetitosa (caudas de castor com framboesas ou empadão de casco de boi com creme...), mas preste-se atenção à discreta empregada doméstica, caricatura da bonne portuguesa emigrante em França daqueles anos - abaixo uma delas, original, formas compactas, buço e cabelo de um negro azeviche enrolado na nuca, fotografada em 1965 numa bidonville dos arredores de Paris por Gérald Bloncourt.
10 agosto 2017
OS MELHORES DA EUROPA
É uma grande injustiça falar-se agora tanto do Euro 2016, do festival de 2017, dos défices do Centeno e esquecermo-nos de como, no tempo de Passos Coelho (2011-2015), já Portugal tinha tido outras razões para se destacar na Europa. O que seria diferente eram as prioridades e os destaques, acima recuperados de alguns jornais. Era mais o pão e menos o circo. Essa é uma maneira de olhar para aquele passado. Outra maneira é admitir o nosso desapontamento se se vier a descobrir no futuro que Eder afinal tinha jogado dopado, que a canção de Salvador Sobral era um plágio, ou que os resultados da execução orçamental de Centeno não eram o brinco que nos haviam querido fazer crer. Isso é que era um grande desapontamento retrospectivo...(sugestão: consultem-se as ligações em hipertexto)
«ALL THOSE YEARS AGO»
A propósito dos Campeonatos do Mundo de Atletismo que estão a decorrer em Londres e de alguns comentários nostálgicos que tenho ouvido a propósito, remetendo-nos para o período de há mais de 25 anos, em que as provas se disputavam também por blocos ideológicos, gostaria de responder a quem já se dispôs a esquecer os senãos dessa época, chamando a atenção para este gráfico abaixo. É um gráfico (na verdade são dois, um para mulheres e outro para homens) um pouco complexo, mas que se explica com alguma facilidade. Em abcissas estão as temporadas de atletismo desde os anos 60 e em ordenadas as várias disciplinas do atletismo (corridas de velocidade e meio fundo, saltos, lançamentos). Por cada ano existe um quadradinho que é progressivamente mais escuro em função da maior valia dos resultados alcançados nessa temporada. E depois há uma divisória central: o ano a partir do qual se passaram a realizar controlos anti-doping mesmo em períodos fora das competições (1989).
A medida foi adoptada nesse ano como consequência do escândalo da descoberta do doping do sprinter canadiano Ben Johnson nos jogos olímpicos de Seul em 1988. Concluíra-se que a descoberta só fora possível porque aquele atleta se lesionara e tivera que atrasar o seu processo de preparação (e de dopagem...), não conseguindo por isso chegar à altura da competição completamente limpo como já acontecera anteriormente (tornara-se recordista mundial dos 100 metros). Esta nova possibilidade de testar os atletas fora das competições terá dissuadido alguns atletas, terá apanhado outros, o que se torna evidente no gráfico acima, especialmente no sector feminino, é que as prestações desportivas da modalidade no seu conjunto (e de algumas disciplinas em particular) nunca mais foram as mesmas que haviam sido até aí. O facto de o bloco Leste, que tanto investia na promoção da sua imagem através dos resultados desportivos, ter colapsado por essa mesma altura, também ajudará ao panorama.
Eu próprio sou um nostálgico, mas confesso que aprecio mais o sentimento quando ele é balanceado com a necessária dose de rigor. Ouvir nos comentários televisivos evocações a esses tempos antigos do atletismo acompanhados de um juízo desculpabilizador quanto à limpeza dos resultados então alcançados é algo que não é justo e que me desagrada. As fraudes não foram detectadas à época, mas isso não serve de argumento de absolvição - já então o doping era considerado fraudulento e o método indiciário acima torna a sua prática mais do que provável. Ontem lembrei-me mais uma vez disso quando da disputa da final da corrida de 400 metros femininos (acima). Numa pista molhada (é certo), a norte-americana Phyllis Frances venceu-a em 49,92. Há precisamente 34 anos (10 de Agosto de 1983) a marca que ontem a tornou campeã mundial dar-lhe-ia para ficar num honroso 5º lugar, a 15 metros atrás da vencedora, na primeira edição dos campeonatos mundiais que se disputaram em Helsínquia...
OS LOUROS DE CÉSAR (4)
Astérix e Obélix são tão espectadores daquilo que está a acontecer quanto o leitor. E o que está a acontecer é que o cunhado de Abraracourcix se está a revelar alguém verdadeiramente insuportável, o que desperta toda a nossa empatia pelo chefe da aldeia. Na sua crítica social e na verosimilhança da situação, todo o episódio poderia passar por um acto de uma peça daquele que é designado por Teatro de Boulevard.
09 agosto 2017
AINDA A CAMPANHA AUTÁRQUICA NÃO COMEÇOU E JÁ «OEIRAS MARCA O RITMO»
De quatro em quatro anos costumo sentir-me um privilegiado por morar no mesmo concelho de Isaltino Morais. Nada como ele e os seus apaniguados para conferirem às campanhas autárquicas uma ressonância e uma atmosfera muito próprias. Para as próximas eleições apresentar-se-ão três listas independentes (abaixo, do lado esquerdo), qual delas a mais recomendável: uma encabeçada pelo próprio Isaltino Morais, outra por aquele seu discípulo que o traiu, Paulo Vistas, e ainda uma terceira dissidência que é encabeçada por uma outra vereadora da equipa chamada Sónia Amado Gonçalves. Serão três opções de voto distintas mas há nelas um denominador comum: terá sido uma injustiça Isaltino Morais ter ido passar uma temporada para a Carregueira. Quanto às candidaturas apresentadas pelos partidos tradicionais o panorama também não se afigura animador (abaixo, do lado direito): o PS transferiu Joaquim Raposo, o antigo presidente da Amadora, para concorrer em Oeiras este ano, mas atenção: transferiu-o tal qual estava, congelado no tempo, os seus cartazes para esta campanha de 2017, nos dizeres e no design, são iguaizinhos aos de 2009 para a Amadora(!); o PSD (que concorre coligado com o CDS) tem a lista encabeçada por Ângelo Pereira, um membro do aparelho que ainda não tem estatuto para servir de alvo para um ataque político de vulto, mas que já apanhou por tabela, por causa de um escândalo de umas viagens à China a expensas de uma empresa local (Huawei). Ao limpar-se, terá aproveitado para sujar Paulo Vistas (primeira notícia acima). O endosso de Passos Coelho, considerada a popularidade de que ele mostra gozar nas sondagens, deve-lhe servir de muito. O PCP entretanto foi escolher Heloísa Apolónia, o que será uma excelente opção de voto (considero-a uma excelente parlamentar, pelo menos) mas só para aqueles que não embirrem com a mistificação - velha de mais de 25 anos! - de que existe um PEV distinto do PCP, as melancias. Entretanto houve duas das três candidaturas independentes (a excepção é a de Paulo Vistas) cuja admissão foi rejeitada judicialmente. Perante o chumbo, Isaltino pareceu ter uma carta na manga preparada e veio brandir uma ligação entre o magistrado e o seu rival (segunda notícia). O Conselho Superior da Magistratura anunciou no dia seguinte que vai abrir um inquérito. Tanta celeridade em pleno mês de Agosto, não sei se é de elogiar, se é de suspeitar. Mas bem se podia afixar um outdoor por todo concelho com esta senhora desagradada a apertar o nariz por causa do mau cheiro.
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