22 novembro 2016

A SAGA DO PAQUETE QUANZA

O Quanza foi um navio de passageiros (um paquete, com então se designavam tais navios) que foi construído em 1928/9 em Hamburgo, na Alemanha, nos estaleiros da Blohm & Voss ao abrigo das reparações de guerra concedidas a Portugal pelo Tratado de Versalhes. O navio, destinado à Companhia Nacional de Navegação (CNN) recebeu originalmente o nome de Portugal, como se verifica na quilha da fotografia acima, tirada ainda em águas alemãs, mas, como já existia um outro navio português registado com aquele nome, a proprietária foi forçada a alterá-lo para Quanza, em alusão ao rio angolano. Caracterizava-o as 6.657 toneladas de arqueação bruta, os 133,5 metros de comprimento e 16 de largura. Tinha capacidade para acomodar até 429 passageiros nas três classes que oferecia. Podia atingir uma velocidade máxima de 13 nós e meio. Os seus motores funcionavam a carvão. O navio estava vocacionado para operar nas rotas de África: a sua viagem inaugural, com a saída de Lisboa em 20 de Outubro de 1929, teve apropriadamente como destino Angola. Muitas outras se seguiriam.
Mas, aquela que porventura será a viagem mais interessante da sua existência, ocorreu durante a maturidade do Quanza, em Agosto e Setembro de 1940. E, para a contar, vale a pena recordar o que acontecera nos meses anteriores: a partir de 10 de Maio desse ano, a Alemanha invadira a Bélgica, o Luxemburgo, os Países Baixos e, posteriormente, a França. Os exércitos alemães empurraram à sua frente uma torrente de refugiados – muitos deles judeus – que, por receio do comportamento das autoridades alemãs, tinham acabado – aqueles mais persistentes mas que que tiveram também mais sorte... – sendo escorraçados até Portugal. Por isso, naquele Verão de 1940, a cidade de Lisboa fervilhava com muitos milhares de refugiados, normalmente abonados e fugidos à guerra, temerosos que as vicissitudes da Guerra também se estendessem proximamente à Península Ibérica e ansiosos de colocar todo um Oceano (Atlântico) entre eles e essa eventualidade.
Por causa dessa procura de segurança e do mercado representado por esse novo género de clientela, a CNN acabou por deslocar naquela altura uma das unidades da sua frota, o Quanza, das rotas tradicionais de África (e também da América do Sul) para destinos menos concorridos na América do Norte. O anúncio acima, publicado nos primeiros dias de Agosto no Diário de Lisboa, é um exemplo disso e publicitava a saída do Quanza no dia 9 de Agosto com destino a Nova Iorque e à cidade de Vera Cruz no México. O navio saiu de Lisboa com 317 passageiros. Entre eles o casal de actores franceses Marcel Dalio (que era judeu) e Madeleine Lebeau (que reconheceremos em 1942 a cantar A Marselhesa em lágrimas numa famosa cena de Casablanca). Outros eram ainda menos conhecidos. Uma percentagem deles (que nunca veio a ser contabilizada) deveria a sua presença a bordo aos (hoje) famosos vistos emitidos em Bordéus pelo nosso cônsul Aristides de Sousa Mendes.
Tombadilho e Salão de Música da 1ª Classe
Aliás, a autenticidade de alguns dos vistos com que alguns dos passageiros pretendiam desembarcar no novo Mundo era ainda mais duvidosa. Tanto isso era sabido que a própria Companhia Nacional de Navegação insistira em muitos casos que os passageiros comprassem também bilhetes de regresso, para a eventualidade de eles não receberem autorização de desembarque num dos portos de destino. O Quanza chegou a Nova Iorque a 19 de Agosto de 1940. Houve 196 passageiros a quem foi permitido desembarcar – incluindo 66 que eram cidadãos norte-americanos. Mas aos restantes 121 foi-lhes negada a autorização. O navio seguiu depois para Vera Cruz, como estava previsto, onde chegou a 30 de Agosto. Aí, as autoridades mexicanas autorizaram o desembarque a 35 outros passageiros entre os quais Dalio e Lebeau (onde vieram a descobrir que os vistos chilenos que haviam obtido em Lisboa eram falsos - mas essa é toda uma outra história...). Restavam ainda 86 passageiros a bordo, que na sua maioria eram judeus belgas, muitos deles de Antuérpia onde sempre existira uma importante comunidade judaica ligada ao comércio e lapidação de diamantes. E que ficaram naturalmente desesperados com a perspectiva de ter de regressar à Europa.
Sala de Jantar e Salão de Fumo da 1ª Classe
Não se tem registo de que tivesse havido passageiros que tivessem embarcado no México para a viagem de retorno. Mas antes dela e vindo de Vera Cruz, o Quanza teve que fazer uma escala técnica no porto de Norfolk na Virgínia, outra vez nos Estados Unidos, para se reabastecer de carvão. Foi aí que Jacob Morewitz, um advogado marítimo judeu, se lembrou do expediente de intentar uma acção judicial em nome de quatro dos passageiros ainda a bordo (a abastada família Rand, de origem polaca), visando a CNN por incumprimento contratual de os não ter levado até Vera Cruz(...). Os procedimentos judiciais seguraram o Quanza no porto. A ideia era ganhar tempo. Nesse compasso de espera, um dos passageiros a bordo atirou-se à água e nadou até atingir terra. As autoridades portuárias rapidamente capturaram o fugitivo e o ambiente a bordo agravou-se com o incidente, pois o capitão Alberto Harberts foi forçado a colocar homens armados nos deques para que o gesto não se repetisse.
Salas de Jantar da 2ª e da 3ª Classes
Mas enquanto isso, o lóbi judaico nos Estados Unidos movimentou-se eficazmente para chamar a atenção para o drama daqueles 86 refugiados. Conseguiram alcançar Eleanor Roosevelt, a primeira-dama, e, por inerência, o próprio presidente Franklin D. Roosevelt. Este despachou um funcionário do Departamento de Estado para se inteirar do caso, Patrick Murphy Malin, um funcionário que acompanhara a situação dos refugiados da Guerra Civil de Espanha e que era, desde aí, conhecido pelas suas posições simpáticas para com as causas dos refugiados. Mandatado para investigar o incidente, Malin não tardou a conceder o estatuto de refugiado político aos 86 passageiros que ainda viajavam no Quanza. Com isso todos poderiam desembarcar, o que aconteceu a 14 de Setembro de 1940. Ironicamente, houve 6 refugiados que não quiseram aproveitar essa oportunidade e preferiram, depois de tudo, regressar a Portugal.
Não fosse o evidente patrocínio presidencial e o gesto generoso de Malin tê-lo-ia feito sofrer consequências negativas na sua carreira, porque a política oficial de acolhimento dos Estados Unidos por aqueles anos era a oposta da que ele praticou. Mas, pelo preço de 80 admissões suplementares, evitou-se que o caso viesse a assumir proporções desagradáveis junto da opinião pública norte-americana. Tanto mais que se aproximavam as eleições presidenciais, dali por dois meses. O Quanza acabou por ser o veículo essencial de todo este relativamente desconhecido episódio. O paquete voltou às suas tradicionais e menos acidentadas viagens da carreira de África até Junho de 1968, tendo estado afecto nos últimos anos da sua existência ao transporte de tropas. Na sua última viagem transportou elementos do Batalhão de Cavalaria 1884 de regresso de Angola. Consta que, depois de quase 40 anos de bons e leais serviços à Patria, viajar no Quanza era uma viagem inolvidável.
Fotografias recolhidas de Paquetes Portugueses de Luís Miguel Correia, Ed. Inapa, Lisboa 1992

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