16 julho 2017

A REPÚBLICA ISLÂMICA DO PSD

Analisar a actual situação política interna do PSD é um exercício que se assemelha ao equivalente que fiz tantas vezes a respeito da República Islâmica do Irão. Quando se investigam os débeis movimentos de contestação interna que surgem, na esperança de uma abertura, percebe-se que eles são ainda mais radicais e antipáticos do que as correntes predominantes: é que a contestação protagonizada pela deputada Manuela Tender à próxima eleição de Hugo Soares para a liderança da bancada parlamentar do PSD é apenas metade da história; a outra metade da história é a que nos conta que os desejos dessas opiniões menos conformadas do núcleo duro do PSD era para o aparecimento de uma candidatura de Marco António Costa, o carismático «big MAC». As opções de quadros de que o PSD agora dispõe são como os aiatolás: não os há bons; há os maus e a melhor opção é viver com eles porque a única alternativa são os péssimos. Porque, para que as metáforas não sejam apenas iranianas, Marco António Costa a chegar ao poder há de ser muito parecido a ter o partido tomado pela 'Ndrangheta calabresa.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (28)


15 julho 2017

OS SEMPITERNOS «DOUTORES EZEQUIEIS PRADO» DA POLÍTICA PORTUGUESA


Mesmo quem viveu aqueles tempos longínquos de há quarenta anos já se deve ter esquecido como a popularidade da telenovela brasileira Gabriela não foi um fenómeno imediato. A sua estreia teve lugar em 16 de Maio de 1977, teve um acolhimento bastante desdenhoso por parte da intelectualidade instalada e foi só a pulso que, nos meses seguintes, a telenovela (que era transmitida cinco vezes por semana, por volta da hora de jantar) foi ganhando paulatinamente a sua audiência. Só em pleno Verão de 1977 (ou seja, há precisamente quarenta anos) é que ela alcançara o estatuto de estrelato (há quem a designe por Fase de Tematização), antes de se vir a tornar icónica, lá mais para o Outono de 1977, absolutamente obrigatória de acompanhar, alterando os horários dos teatros e as marcações das reuniões parlamentares. Por essa altura até o reconhecidamente circunspecto e sisudo Álvaro Cunhal se permite desculpar-se de um atraso a um compromisso da própria agenda televisiva por ter ficado a assistir à telenovela Gabriela.
Mas o que é interessante recuperar para a história que hoje publico é o carácter pedagógico político de que a telenovela se podia revestir. Apesar da sua origem brasileira (os modelos sociais sul-americanos não são de transposição fácil para a realidade europeia) e apesar da acção decorrer numa sociedade rural que se situava cinquenta anos antes da data da transmissão (década de 1920), havia uma predisposição benévola do auditório para transpor os estereótipos do ecrã para a realidade portuguesa, embora naturalmente distorcidos em função das convicções políticas próprias: para o major Otelo Saraiva de Carvalho, o vilão da telenovela, o Coronel Ramiro Bastos, era uma figura parecida com o General António de Spínola; e do outro lado do espectro político, Ribeiro e Castro do CDS, pedia que não se partidarizasse a telenovela. De facto, lembro-me que, a respeito de Gabriela e em termos de opinião política, acabava por lá caber tudo. E esse tudo acabou varrido da memória, mesmo o que era verdadeiramente interessante.
Tomemos o exemplo incontornável desta personagem acima, o doutor Ezequiel Prado, que na novela era protagonizada pelo actor Jaime Barcelos. O doutor Ezequiel Prado era um insigne causídico de Ilhéus, reputado pelas suas ideias liberais e libertinas e por isso arqui-rival do seu colega Maurício Caires (Paulo Gonçalves - o rosto do conservadorismo moralista na cidade), mas muito superior a ele na exuberância, na pena e na eloquência, que alegadamente melhorava até quanto mais etilizado se apresentasse o advogado, e isso independentemente do valor e da justiça da causa que abraçasse. Era das personagens mais simpáticas do elenco mas nós, os telespectadores atentos que ali tentávamos aprender alguns rudimentos práticos de política, bem depressa compreendemos que contar com o doutor Ezequiel Prado para a disputa política que se travava em Ilhéus era tempo perdido. Todo aquele brilhantismo formal (que o tempo até tornara anacrónico) de nada servia em prol da causa da modernidade representada pelo doutor Mundinho (José Wilker).

Por muito que o acompanhasse com uma lucidez que faltaria aos demais, o doutor Ezequiel Prado era inútil para o combate político que então se travava em Ilhéus mas isso não seria defeito dele, era apenas feitio e opção: as suas prioridades iriam para o bataclã. Era divertido ouvi-lo mas era estúpido levá-lo a sério, algo que, se calhar, nem o próprio faria. Saber distinguir entre os actores e os comentadores políticos foi uma lição antiga que aprendi com Gabriela, que me esforço por não esquecer e que regularmente vejo por aí esquecida, com os papéis misturados. Tome-se o (um) exemplo de Vasco Pulido Valente que (também) de há quarenta anos para cá consegue ofuscar alguns sectores da nossa intelectualidade com o seu brilhantismo também formalmente escorreito e com o teor ribombante das opiniões (controversas...) que emite. As admirações que suscita parecem despertar nele próprio um efeito inebriante que, a contrário do que aconteceria com Ezequiel Prado, fazem-no levar-se a sério nessa sua embriaguez (que não se é apenas) retórica...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (27)

Note-se que, para benefício de um detalhe suplementar da narrativa, é bom que Obélix seja um glutão e coma o resto do bolo: como o bolo estava efectivamente envenenado, assim não há hipóteses de que alguém possa comer ainda os seus restos. Contudo, nem mesmo por uma boa consequência, Obélix se livra de levar uma descompostura de Astérix.

14 julho 2017

A CRÍTICA E O CRÍTICO

Eu concordo com a crítica de Pedro Passos Coelho: o parlamento não é o local apropriado para que António Costa proceda a uma admoestação pública a uma grande empresa portuguesa nos moldes em que a fez. Mas, depois de quatro anos e meio de governo é impossível esquecer o rasto deixado pelo crítico, como será o caso que abaixo se evoca, uma ocasião de um «cumprimento muito amigo e muito especial» a um grande empresário português bem sucedido... Assim como há admoestações que não se devem fazer em público, há cumprimentos que acabam por manchar a reputação de quem os produz.

ALGUÉM SABE POR ONDE ANDA MARIA LUÍS ALBUQUERQUE?

Lá fora brilha o Sol do Verão mas há situações da política portuguesa que parecem embrulhadas num nevoeiro espesso, daquele onde não se consegue ver nada: alguém tem dado nos últimos meses por Maria Luís Albuquerque? Ocorreu-me perguntar por ela depois do episódio recente em que Pedro Passos Coelho se foi inspirar numa publicação do facebook de Miguel Poiares Maduro para a sua intervenção parlamentar na sessão sobre o Estado da Nação. Nada tendo de mau em si, o episódio é, pelo menos, indiciador de que não abundarão ideias nem inspiração - nem se registará satisfação... - entre o staff próximo de Pedro Passos Coelho, ao ponto de se ir buscar algumas (ideias) que devem ter parecido jeitosas ao facebook de um ex-ministro. Uma dessas ideias é uma narrativa nova sobre o ciclo económico depois da sua saída do governo: segundo essa narrativa, a constituição da geringonça terá atrasado a dinâmica da recuperação económica que agora se vive, recuperação essa que o seu governo preparara de antemão. Será plausível, mas só será consistente para quem se dispuser a esquecer que houve um outro discurso, aquele que postulava, precisamente há um ano, que vinha aí o Diabo. Outra inflexão é a das críticas à execução orçamental que, por causa das assertividades de Maria Luís Albuquerque no ano passado, até se tornou objecto de uma paródia, envolvendo a própria e o também presciente José Gomes Ferreira (abaixo). Este ano, as assertividades (que podem ser tão bem fundamentadas quanto as outras...) afiguram-se flagrantemente favoráveis ao governo. Mas é precisamente o encadeado destes factos que torna mais pertinente ouvir a opinião e saber do paradeiro mais recente de Maria Luís Albuquerque, não se fique com a impressão que o presidente do PSD está cada vez mais politicamente isolado...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (26)

13 julho 2017

OS SENADORES MAUS e OS SENADORES BONS ou então OS «ULEMÁS»

Quando acompanhado em continuidade já se sabe que não se pode classificar José Manuel Fernandes como um modelo de coerência. Vêmo-lo aqui abaixo, há menos de três anos, a renegar o conceito de senador e a utilidade de debater as ideias das venerandas figuras caso ele fosse aplicado a uma pessoa como Diogo Freitas do Amaral. Hoje, em contraste, podíamos vê-lo como num êxtase a prestar um tratamento deferencial a António Barreto que desempenha no happening do Observador um papel que não se iria distinguir particularmente da entrevista de Freitas do Amaral que lhe suscitara tão antipática reacção em 2014. Pelos vistos, ele haverá senadores que dizem coisas de que José Manuel Fernandes gosta, enquanto para ter senadores dos quais discorda ele «preferirá os plebeus». Se houvesse um Senado mesmo a sério e ele fosse constituído à imagem dos desejos do publisher do Observador seria uma câmara de gente idosa, decerto, mas também um bocadinho facciosa, ou não será?...
O resultado da entrevista, dada por António Barreto ao Observador, que aparece condensada num encadeado de tweets (a fazer lembrar os processos modernaços agora tão popularizados por Donald Trump...), é um resultado interessante mas dela não se poderá dizer que contenha grandes novidades que justificassem o êxtase prévio de José Manuel Fernandes. Ainda no princípio do mês de Junho passado, António Barreto dera uma outra entrevista ao Expresso que pouco se diferencia desta de hoje. Ninguém, nem mesmos estes senadores (os que agradam a José Manuel Fernandes...) pensará em catrefas de ideias novas e interessantes a cada mês que passe. Por isso, as entrevistas mimetizam-se, desde a descrição dos antigos períodos de há 40 anos, logo depois do PREC, em que houve necessidade da rectificação dos excessos da Reforma Agrária, até à antipatia e desconfiança veemente de António Barreto pelos comunistas, que condiciona a forma como aprecia a situação política actual, a famigerada geringonça.
Mas o que acho mais irónico de todas estas entrevistas, assaz repetitivas e previsíveis, a pessoas com o perfil de retirados a quem prestam atenção de menos (ou então de mais...), é o hábito de qualificar pessoas com aquelas características por senadores. Trata-se de um tratamento de cortesia, visto que as pessoas assim designadas, para além do respeito propiciado pela idade e sabedoria acumulada, na verdade não têm quaisquer responsabilidades legislativas. Ora, não fosse o nosso eurocentrismo e a nossa aversão por conhecer outras civilizações que não a Ocidental e estas pessoas sábias e de pensamento fortemente conservador poderiam ser muito mais exemplarmente tratadas informalmente por ulemás (acima). O Ulemá aparece definido na respectiva página da wikipedia como «um teólogo ou sábio e versado em leis e religião, entre os muçulmanos». Entre os sunitas, a importância de um ulemá é informal e é função da sua audiência e do respeito que suscita entre a comunidade dos crentes, qual espécie de rating da audiência televisiva moderna. No caso concreto de António Barreto até se pode acrescentar que ele tem uma barba a condizer...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (25)

Com Cleópatra não vale a pena discutir: tem mau feitio, mas um nariz tão bonito! Na política portuguesa existem várias figuras femininas proeminentes com as quais também não se pode discutir... mas não por causa do nariz.

O 75º ANIVERSÁRIO DE UM ACTOR ESPECIALIZADO EM PAPÉIS DE ACÇÃO

Para aqueles admiradores de Harrison Ford que aguardam com fervor o seu reaparecimento no papel de Rick Deckard em Blade Runner, previsto para o próximo Outono (abaixo) ou então no papel de Indiana Jones em mais um filme da série que está por sua vez prometido para 2019 (mais abaixo), permitam-me a curiosidade de assinalar que hoje - 13 de Julho - Harrison Ford completa 75 anos. É uma efeméride que costuma ser designada por bodas de diamante.

Por muito que eu o aprecie naqueles filmes, tenho uma certa dificuldade em imaginar vê-lo a desempenhar agora tais personagens com aquela mesma diligência que tanto apreciei e que outrora o tornou célebre...

12 julho 2017

IMAGENS DA MAIS ANTIGA ALIANÇA

Fauquembergues, pequena comuna no extremo norte de França, 12 de Julho de 1917 em plena Primeira Guerra Mundial. Um destacamento do Corpo Expedicionário Português (CEP) faz a guarda de honra a Jorge V. Os soldados portugueses não impressionam pelo seu garbo: se olharmos para os mais próximos da objectiva, do lado direito da foto, as espingardas em ombro arma que deveriam estar em paralelo apontam cada uma em sua direcção; um dos soldados, pela forma como os enfia para dentro, parece mesmo ter os pés-chatos. Mas o que verdadeiramente parece incomodar na fotografia – que é de origem britânica ­– e que terá levado a dispensá-la como imagem da mais antiga aliança para efeitos de propaganda é o palmo de altura que o general Fernando Tamagnini de Abreu leva sobre sua majestade com o seu metro e 66.

A «CAIXINHA» QUE ORIENTAVA A VOSKHOD-1

Perdida entre os apetrechos que equipavam a nave espacial soviética Voskhod-1, a primeira a colocar simultaneamente três cosmonautas no espaço, encontrava-se uma caixa (assinalada com a seta na fotografia acima) que orientava a sua navegação quando em órbita.
Era uma caixa com um aspecto ao mesmo tempo complexo mas rústico, se tomarmos para comparação os equipamentos actuais - recorde-se que o voo orbital da Voskhod teve lugar em Outubro de 1964. E secreta: repare-se que a coluna com os mostradores amarelos e verdes à direita foi apagada na fotografia inicial.
Concentrando-nos naquilo que parece ser o seu núcleo principal, as informações parecem simples e sucintas. Há uma esfera com o globo terrestre que indicará a localização da nave. Do lado direito, um interruptor parece destinado a proceder a correcções à sua trajectória (КОРРЕКЦИЯ).
No canto inferior direito, um contador assinala o número de órbitas já realizadas (47). Mas o que surpreenderá definitivamente o leitor será o seu aspecto interior: quase totalmente analógico, nem sequer electrónico, como se fosse um ábaco sofisticado. Completamente à prova de hackers, caso os houvesse...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (24)

Note-se, para o capítulo da história das trocas comerciais da Antiguidade, que o Egipto, conhecido por ser um grande exportador de cereais naquela época, seria um importador de javalis, para o visível gáudio de Obélix. A maneira como este último esfrega as mãos de contentamento antecipado faz lembrar um expatriado português perante a perspectiva de uma jantarada de bacalhau.

11 julho 2017

KILAMBA KIAXI - A DEMONSTRAÇÃO QUE ENTRE OS GOVERNANTES ANGOLANOS NÃO PREDOMINAM SÓ OS CORRUPTOS. TAMBÉM ABUNDAM OS INCOMPETENTES.


Como explica a página da Wikipedia que lhe é dedicada, Kilamba Kiaxi é uma nova cidade a cerca de 40 km de Luanda que foi oficialmente inaugurada em 11 de Julho de 2011 (vídeo acima, hoje é o seu sexto aniversário) pelo presidente José Eduardo dos Santos. Segundo o projecto inicial concebiam-se vir a construir 82 mil apartamentos com as respectivas infraestruturas (redes viárias, creches, escolas, lojas, estações de água, de saneamento e de energia) para albergar as várias centenas de milhares de habitantes projectadas para ali viver. Pelo que se pode apreciar na foto abaixo, é uma daquelas obras faraónicas, de fazer lembrar os colossais projectos dos antigos países comunistas. Ajuda a essa imagem arquitetónica bisonha, o facto da empreitada das fases iniciais - que está avaliada nuns 3,5 mil milhões de dólares - ter sido entregue, inteira, a uma grande construtora chinesa. O resultado pode ser apreciado na foto e sobretudo no vídeo mais abaixo, em que as imagens colhidas do automóvel dão a impressão que ele está a passar sempre pelo mesmo sítio (para mais ao som depressivo da Bitter Sweet Simphony dos The Verve).
Mas a monotonia da paisagem urbana de Kilamba, a repetir erros que se deixaram de cometer noutros lugares do Mundo há 40 anos, é, foi, ou terá sido, o menor dos problemas associados ao grandioso projecto. Concebido numa época de vacas gordas para Angola, o grande projecto notabilizou-se por se ter tornado num fracasso imobiliário de dimensão correspondente nos anos imediatamente seguintes à sua inauguração: os milhares de apartamentos foram postos à venda a preços completamente fora das possibilidades dos angolanos* e a cidade tornou-se famosa, mas por se ter tornado numa cidade fantasma e como exemplo de um empreendimento megalómano perdido no meio de uma África negra pobre e carente de quase tudo, que ali malbaratava os seus recursos. Muito se fala da venalidade das elites angolanas mas aqui o que realça é a sua incompetência e estupidez, ao conceberem um projecto para uma classe média angolana... que não existia. Claro que esse problema específico da ocupação acabou sendo ultrapassado com uma redução acentuada (40%) do preço das casas - agora, adivinhe-se é quem suportará os prejuízos do projecto?...

É difícil, senão mesmo quase impossível, acompanhar as vicissitudes acima descritas com o projecto de Kilamba Kiaxi através daquilo que foi sendo publicado na comunicação social angolana ao longo dos anos. É mais fácil ter uma imagem do fiasco seguindo uma reportagem da CNN do que seguindo uma da televisão estatal angolana, a TPA (não percam esta última, especialmente as declarações do ministro do Urbanismo e Construção a querer convencer-nos que o secretário-geral da ONU de então, o coreano Ban Ki Moon era um entendido da Remax angolana...). Porém, quatro anos depois da inauguração e tendo Angola atingido em 2015 o período das vacas magras, com a queda substancial do preço do petróleo, as notícias mais recentes da centralidade de Kilamba descrevem-na, surpreendentemente, como uma cidade africana normal nas suas anormalidades, com os seus tradicionais problemas de criminalidade (abaixo) ou de falta de manutenção das infra-estruturas como as tradicionais faltas de recolha do lixo.

* 125 a 200 mil dólares por apartamento.

A EVOLUÇÃO DA VERDADE

Numa primeira fase, os três secretários de Estado envolvidos no escândalo das viagens pagas da Galp ao Europeu de 2016 demitiam-se e até pediam a sua constituição como arguidos. Numa segunda fase, o Ministério Público esclarecia que a sua constituição como arguidos não fora nada a pedido, que ela teria tido lugar independentemente do desejo dos visados. E finalmente, numa terceira fase, tornava-se notícia que a sua constituição como arguidos precedera mesmo as suas demissões, quanto mais as expressões manifestadas quanto ao seu estatuto na investigação. São três histórias tão diferentes que só uma delas pode estar certa - ou, se calhar, nem isso, que ainda vamos a tempo de aparecer uma quarta versão. De qualquer maneira, eu desconfio de quais são as versões que, para já, me parecem mais distorcidas: na constatação evidente que Costa não está a avançar coisa nenhuma, está é a reboque dos acontecimentos... E quanto à pergunta que inquieta Carlos Abreu Amorim pelo PSD, sobre a oportunidade do desencadear destes acontecimentos, suspeito que a resposta mais verdadeira será também a mais prosaica: porque este é um dos três ritmos de investigação do Ministério Público: devagar, devagarinho e parado.

10 julho 2017

NÃO SÓ O TROFÉU MAS TAMBÉM O MELÃO

10 de Julho de 2016. A associação que abaixo se faz entre as imagens do golo de Éder e a música de Salvador Sobral pode hoje ainda parecer estranha mas acredito que a História de Portugal do futuro as poderá compactar como símbolo conjunto de uma época em que os portugueses tornaram a acreditar que podiam ser bons em algumas coisas. Fazia falta essa dose de confiança, depois de anos sob a doutrina que «havíamos vivido acima das nossas possibilidades». Fora verdade, mas, como se veio a provar, não era toda a verdade.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (23)

É interessante o conceito de discrição de Cleópatra que veio fazer uma visita incógnita, com toda a simplicidade.

09 julho 2017

AS GRANDES DECISÕES DE UMA PRESIDÊNCIA

9 de Julho de 2004. Acompanhado da solenidade de uma comunicação ao país, o presidente Jorge Sampaio informa os portugueses da sua decisão de indigitar Pedro Santana Lopes para formar um novo governo no seguimento da resignação de Durão Barroso, que queria ir para a Comissão Europeia. «Foi uma decisão complexa, dada a controvérsia sobre a melhor forma de resolver o problema. Qualquer das alternativas comportava custos. A opinião pública tinha a percepção destes custos e, por isso, dividiu-se entre os dois caminhos para resolver a crise. (...) Nestas circunstâncias, o Presidente da República tem de avaliar e decidir, de acordo com a Constituição e com a sua interpretação do interesse nacional.» A opinião pública estaria dividida mas apenas um dos lados da opinião pública é que estaria certo. E era o lado que discordava da decisão do presidente. Dali por apenas cinco meses o mesmo Jorge Sampaio estava a demitir o governo e a dissolver o parlamento, invocando «a falta de credibilidade» do executivo que empossara nesse mesmo Verão.
Quanto apreciadas a esta distância e como se se tratasse de um capitão de um navio de longo curso, os presidentes acabam por ser julgados pela História só por algumas (poucas) das suas decisões, mas sempre pelas decisões que se vêm a revelar (como esta) as cruciais do seu mandato. São o género de decisões onde é a própria posterioridade que acaba por apreciar sem controvérsia o acerto da decisão - ou então a desmenti-lo. Jorge Sampaio cometeu há precisamente treze anos o primeiro de dois grandes erros políticos. Decidiu mal invocando boas razões para depois, no segundo erro, em Dezembro desfazer o que fizera, aí decidindo bem, mas pelas más razões - a fundamentação engrolada da sua decisão deixou Santana Lopes com um capital de queixa de que até hoje ele não prescinde. Porque Sampaio goza da reputação de ser pessoa de bom fundo (algo que não se poderá dizer nem do seu antecessor, nem do seu sucessor), parece haver um alargado entendimento social tácito para não lhe bater com muita força por causa disto. Sampaio é tido pessoalmente por uma boa pessoa, melhor do que Soares e muito melhor do que Cavaco, mas, quando precisámos dele, foi um mau presidente. Não nos devemos esquecer do que aconteceu. Tanto mais que existe em todo o episódio uma componente pedagógica que vale a pena preservar: a de que, por muito ambição política que se tenha, nem todos têm capacidade para ser primeiro-ministro. Trump, esse tendo uma legitimidade incontestável, anda por aí a demonstrá-lo.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (22)

A sugestão de Obélix para que o obelisco do templo de Luxor passasse a enfeitar o centro da praça da aldeia associa duas piadas: por um lado, porque um dos obeliscos enfeita de facto a place de la Concorde, a maior praça de Paris (abaixo); por outro lado, Astérix designa-o enfaticamente por «este objecto» talvez para dar mais realce que obelisco em francês se diz... obélisque.

08 julho 2017

ALGUMAS SAÍDAS, AINDA À ESPERA DE EVENTUAIS ENTRADAS


Na mesma semana em que foi notícia que o antigo primeiro-ministro israelita Ehud Olmert fora libertado antecipadamente da prisão, não foi notícia que se vencera mais um prazo estabelecido para a conclusão da acusação ao antigo primeiro-ministro português José Sócrates (para mais pormenores, ampliar a notícia da Visão abaixo de há três meses e meio).