15 setembro 2007

AS CARACTERÍSTICAS DOS ROLLS-ROYCE

Suponho que os Rolls-Royce possuem uma reputação tal que não seja preciso aqui detalhar as suas características ímpares de espaço, conforto, potência, qualidade de construção e de acabamentos. Claro que depois há outras características menos entusiasmantes, como sejam os custos de aquisição, manutenção e operação, Será o caso, num exemplo mais concreto, do consumo de combustível do motor V12 que equipa a última versão da série….

Mas não custa perceber que começar e restringir um debate a respeito de Rolls-Royces exclusivamente a estes últimos aspectos se tornará num gesto despropositado que levanta a suspeita que quem assim procede o faz por motivos outros que não apenas os da análise fria e equilibrada dos factos. O que nos leva a procurar os motivos que estarão por detrás desse raciocínio distorcido. No caso dos Rolls-Royce costuma ser a inveja e o despeito por não poder comprar um…

Mas a Wikipedia não é um Rolls-Royce; pelo contrário, é a mais popular e completa de um conceito recente de enciclopédias virtuais que se encontram ao alcance de todos os utilizadores da net. Não tenho visto grandes controvérsias associadas aos seus vários outros predicados, como sejam a sua dimensão (2 milhões de artigos na versão inglesa), o custo (gratuita), a acessibilidade ou as ligações opcionais para outros endereços, onde os assuntos são tratados com mais detalhe.

Só que o debate, para pessoas como José Pacheco Pereira, que se tem mostrado obsessivamente crítico pelo projecto, parece começar e cingir-se às características democráticas da criação e manutenção da Wikipedia: existe uma grande liberdade para que o leitor comum intervenha na feitura e correcção dos artigos. Objectivamente, esta característica combina a vantagem de actualizações mais flexíveis com a desvantagem de não haver certificação de quem introduz as correcções.

E é precisamente por essa desvantagem que começam (e, sendo tão empolada, também é por ela que normalmente acabam) as censuras dos críticos da escola José Pacheco Pereira: o responsável pela publicação da notícia não precisa possuir qualquer qualificação especial na matéria sobre a qual escreveu; em consequência, concluem, a Wikipedia regista uma taxa de incidência de artigos controversos e errados que é muito superior ao normal.

Há cerca de um ano, José Pacheco Pereira procurou substanciar, em três postes, as suas críticas à Wikipedia no seu blogue, utilizando como exemplo um artigo histórico sobre o PCP que foi publicado na Wikipedia e que está fortemente carregado do ponto de vista ideológico. Pelo conteúdo (com trechos usados no blogue), o artigo parecia ter sido directamente transcrito da saudosa Enciclopédia Soviética, que até nem possuía o problema do défice da falta de controlo sobre o material publicado…

Mas o melhor será ler os comentários de leitores, a seguir inseridos pelo mesmo José Pacheco Pereira. Na sua maioria são discordantes e há um, assinado por Daniel Nunes que acho suficientemente interessante para o citar aqui:

Eu sei as razões porque o Dr. Pacheco Pereira tem de dizer mal da Wikipedia. A primeira é porque a Wikipedia veio mostrar que o saber não é propriedade de uma meia dúzia de pessoas que têm acesso fácil aos meios de comunicação tradicionais (como televisão) e que por isso podem brilhar. A Wikipedia mostra que existem milhares de Pachecos Pereiras tão bons ou melhores que o original Pacheco Pereira.

Não sei se serão milhares e creio mesmo que não haja maneira segura de os contar, nem sei se a sua existência importunará José Pacheco Pereira, mas não me ficam dúvidas que o processo que selecciona o acesso aos meios de comunicação tradicional (como a televisão) a pessoas como ele, é imensamente mais falível do que aquele que controla os artigos publicados na Wikipedia … E que tanta preocupação sua com os utilizadores quanto ao rigor da Wikipedia me parece tão verosímil como a que costuma ser manifestada com os custos suportados pelos proprietários dos Rolls-Royce…

14 setembro 2007

O SEGREDO DO KAISER

Guilherme II (1859-1941, acima) foi o último Imperador da Alemanha e Rei da Prússia (1888-1918) e é normalmente conhecido pelo primeiro título, em língua alemã, sem demais complementos: o Kaiser. Kaiser é a palavra germânica para imperador, uma corrupção da palavra latina Caesar, do nome de Júlio César, que depois veio a tornar-se num título. Apesar de não se costumar usar qualquer especificação, havia um outro Kaiser de língua alemã contemporâneo de Guilherme II, Franz Joseph I (Francisco José, 1830-1916), Imperador da Áustria, mais discreto e menos carismático.

Se há que pensar num traço físico que identifique Guilherme II a escolha recai obviamente no seu reconhecível bigode ondulado, que só podia ser resultado de muito cuidados de manutenção, incluindo uma rede que se aplicava à noite para não o destruir durante o sono… As poses que escolhia para as fotografias oficiais, como a de cima, levaram um ministro francês a comentar perante uma fotografia sua, pouco depois de subir ao trono, em 1890: parece-se com uma declaração de guerra! E a fotografia era muda… o ministro não tinha o privilégio de ouvir Guilherme II…
Porque Guilherme II adorava dizer coisas: Estamos destinados a fazer grandes coisas. Conduzo-vos para belos dias!. Ou Se o vosso imperador o ordenar, devereis disparar sobre o vosso pai ou sobre a vossa mãe!... Guilherme tinha uma espécie de toque de Midas* congénito em que conseguia sempre irritar alguém importante com cada uma das suas proclamações… A verdade é que parecia que o ego de Guilherme II precisava de um fluxo contínuo de lisonja e adoração fornecido pelos cortesãos que depois se expressava assim em proclamações despropositadamente agressivas.

O problema ampliava-se porque o sistema constitucional alemão, que fora montado por Otto von Bismarck (1815-1898) depois da unificação alemã em 1871, era para funcionar com um monarca carregado de poderes, mas receoso de os exercer, Guilherme I (1797-1888), avô de Guilherme II, mas auxiliado por um chanceler à frente do governo que sabia perfeitamente o que queria e para onde ia: o próprio Bismarck, retratado abaixo. Ele detinha o poder sem quase ter que prestar contas diante de um parlamento. A subida ao trono de Guilherme II em 1888, com o entusiasmo e a disposição de governar ele mesmo, levou Bismarck ao desespero e à demissão em 1890, depois de ter sido chanceler durante 19 anos.
Apesar do lendário feitio difícil, a culpa, por esta vez, parecia não ser de Bismarck mas das intenções descontroladas e erráticas do monarca: o seu sucessor Leo von Caprivi (1831-1899) esteve no cargo por quatro anos (1890-94) e o chanceler seguinte, o príncipe Hohenlohe (1819-1901), aguentou seis (1894-1900). Para chefes de governo que não dependiam de aprovação parlamentar, é um ritmo interessante… Conhecido por não engolir desaforos, as últimas palavras ficaram reservadas para o ex-chanceler no seu epitáfio, concebido por si para o enorme funeral de estado que lhe foi prestado, em 1898: Aqui jaz um alemão, fiel servidor do Kaiser Guilherme I

Na verdade, por detrás de todas essas demonstrações gratuitas de exercício de autoridade, Guilherme II era um complexado. A fotografia abaixo é uma das raras em que se nota a deficiência de nascença que possuía no braço esquerdo, discretamente camuflada nas outras fotografias deste poste. Numa hipotética inspecção militar, um qualquer outro cidadão do Reich que apresentasse tal deficiência teria ficado desobrigado do cumprimento do serviço militar… Guilherme II provavelmente sabê-lo-ia e isso não é o tipo de ideia que reconforte aquele que, por inerência, era o Comandante Supremo das Forças Armadas Imperiais alemãs...
* O toque de Midas é uma alusão a um episódio mitológico em que o rei Midas transformava em ouro tudo aquilo em que tocava. Aqui é usado em sentido figurativo, por analogia a um efeito – a irritação – que é provocado de forma involuntária.

13 setembro 2007

A AVIAÇÃO MILITAR EUROPEIA

Entalados entre os dois colossos militares durante a Guerra-Fria, os construtores aeronáuticos militares dos países da Europa Ocidental tentaram responder aos seus rivais norte-americanos, predominantes nas selecções no âmbito da NATO, associando-se entre si em empresas multinacionais, para o desenvolvimento de projectos que fossem multi-funcionais, em contraste com os aparelhos especializados, produzidos do outro lado do Atlântico e do outro lado da cortina de ferro.
Um dos melhores exemplos desses projectos duplamente mistos (na nacionalidade e na funcionalidade) foi o SEPECAT Jaguar (acima), uma parceria anglo-francesa para um avião de ataque ao solo com capacidade supersónica, mas que também fosse um bom avião de instrução, a que se adicionava a capacidade para a descolagem em curtas distâncias (STOL*) e em pistas improvisadas. O Jaguar, não sendo excelente em nenhuma dessas funções, era bom nelas todas.
Outro excelente exemplo é o do Panavia Tornado (acima), em que a parceria começou com alemães, holandeses, belgas, italianos e canadianos e acabou por envolver apenas alemães, britânicos e italianos e onde as especificações incluíam também a capacidade STOL* (comum na época, na eventualidade dos soviéticos inutilizarem as pistas convencionais em caso de conflito…), e bons desempenhos como caça-bombardeiro e, simultaneamente, como interceptor.
A geração seguinte de aviões multifuncionais europeus, cuja fase preliminar ainda data da década de oitenta e dos cenários da Guerra-Fria, envolveu quase todos os construtores aeronáuticos da Europa ocidental, mesmo os suecos, tradicionalmente ciosos dos seus projectos independentes. O Eurofighter Typhoon (acima), que entrou finalmente ao serviço em 2003, depois de um percurso cheio de vicissitudes, é um projecto que agrega alemães, britânicos, italianos e espanhóis.
Para trás ficara um doloroso divórcio com os franceses, em que estes acabaram por criar um aparelho distinto, o Dassault Rafale (acima, muito semelhante ao Eurofighter) que entrou em serviço em 2000, porque as suas necessidades obrigavam a que, entre outras características, houvesse uma versão naval que pudesse equipar os novos porta-aviões nucleares da sua marinha de guerra… Mesmo contrariado, o charme tecnológico da Europa ocidental parece ser mesmo esse: soluções concorrentes…

Quem foram os responsáveis pelos dois melhores sistemas de transmissão de televisão a cores, o PAL e o Secam**?...

* Short take-off and landing: descolagem e aterragem curtas.
** A Alemanha e a França, respectivamente…

12 setembro 2007

QUÉNIA, A TERCEIRA POTÊNCIA MUNDIAL… EM ATLETISMO

Quem consultar o palmarés dos Campeonatos Mundiais de Atletismo de 2007, realizados recentemente em Osaka, no Japão, constata que, para além da tradicional Rússia, a grande potência capaz de desafiar a hegemonia norte-americana não é a Alemanha, herdeira das tradições atléticas da saudosa RDA do passado, nem a emergente China do futuro, mas o prosaico Quénia, cujos atletas conquistaram 5 títulos mundiais, de um total de 13 medalhas averbadas pela sua equipa naquele certame.

Como é tradicional nos países da África sub-sahariana, a história da nação é recente, embora se possa fazer remontar a da região que hoje constitui o país a alguns séculos atrás. No caso do Quénia, os primeiros registos escritos existentes acerca da região são árabes, datam do Século VII e concentram-se sobre as povoações costeiras – destinadas a tornarem-se portos disputados no futuro – que os comerciantes muçulmanos visitavam e onde se começaram a registar algumas conversões à fé.

No entanto, as relações comerciais entre as costas orientais de África, a Arábia, o Egipto e a Índia devem ter-se iniciado em data muito anterior, possivelmente no Século I da era cristã. Mas os conhecimentos que existem sobre a evolução dos acontecimentos que ali foram tendo lugar até ao Século XIX estão muito distorcidos pelo destaque dado ao que aconteceu na sua província costeira – que apenas representa 1/7 da área total do Quénia moderno, albergando menos de 9% da sua população.
Assim, a chegada dos portugueses, nos princípios do Século XVI, que capturaram quase todos portos comerciais ao longo da costa oriental como Mombaça, Melinde, Zanzibar ou Quiloa, acabou por não ter reflexos significativos na situação política que regia entre as populações do interior, que mantiveram o mesmo padrão de comércio (ouro, marfim e escravos) já existente. A mesma lógica se aplica quando os omanitas – que também estiveram sobre suserania portuguesa – recuperaram as suas posições originais, nos finais do Século XVII.

Contudo, se a disputa pelo controlo das feitorias comerciais se travou entre estrangeiros, a língua franca na qual se passou a comerciar era distintamente local, o suaíli, de origem banto na sua estrutura e gramática, embora possuísse inúmeros vocábulos de origem árabe, persa, portuguesa, gujarati, tamil ou malaiala (as três últimas são línguas indianas). Escrita originalmente em caracteres árabes (Século XVI), foi já nos inícios do Século XX que se criou uma pronúncia de referência (a de Zanzibar), usando o alfabeto latino.

O conhecimento do interior por parte dos europeus só começou verdadeiramente na segunda metade do Século XIX. Os nomes de baptismo dos lagos Vitória e Alberto, então soberana (1837-1901) e príncipe-consorte do Reino Unido servem de registo quanto a presença britânica naquelas regiões tem menos de 200 anos. Mas as condições climáticas afiguraram-se promissoras para a colonização europeias e entregues a uma companhia britânica: apesar de situado sobre o Equador, boa parte do Quénia é um planalto de clima temperado, devido à altitude (1.600 metros em média).
Em 1895 o Quénia tornou-se um protectorado e em 1920 passou a ser uma Colónia da Coroa. A capital fora transferida em 1905 da insalubre Mombaça, na costa, para a muito mais confortável (para os europeus…) Nairobi, situada a 1.660 metros de altitude. Foram os tempos gloriosos dos pioneiros europeus que se arriscavam em projectos agrícolas tal qual foram descritos por Karen Blixen em Out of Africa, livro depois passado para o cinema…Mas a sociedade do Quénia colonial era bastante mais complexa do que a descrita no filme de Sidney Pollack

Havia evidentemente a sociedade europeia, anglófona, proprietária de terras e com o controlo político exclusivo, que chegou a atingir mais de 100.000 pessoas. Depois havia, evidentemente, a sociedade africana negra, numericamente de uma maioria esmagadora – talvez mais de 97% da população. No filme, a ameaça da sua revolta é sublimada no aparecimento dos indomáveis caçadores masai. Mas havia também a comunidade de descendentes dos comerciantes árabes que, dificeis de identificar porque quase completamente assimilados, continuava a dominar informalmente a sociedade no litoral.

E, finalmente, havia uma outra remessa de imigrantes, estes indianos e que, também membros do Império Britânico, haviam substituído a comunidade anterior apropriando-se de quase todo o pequeno comércio no Quénia. Como acontecia com quase todas as colónias da África Oriental em relação às suas homólogas da costa atlântica (com Moçambique em relação a Angola, por exemplo), também o Quénia do período colonial tinha uma composição populacional muito mais cosmopolita do que era comum às colónias africanas.
A revolta anti-colonial no Quénia é precoce a assumir um carácter subversivo (1952), mas trata-se de uma subversão suave, quando em comparação com outras a que o continente assistiria (Argélia, Guiné-Bissau, Moçambique, Zimbabué…), que foi baptizada pelos britânicos de Revolta dos Mau-Mau. Terminada em 1956, o episódio faz hoje parte, com o da Malásia, da galeria de sucessos em contra-subversões que os britânicos tanto gostam de mostrar, ao invés dos fracassos que gostam de esconder, como os do Iémen e de Chipre*…

No entanto, para vencer a subversão foi preciso estabelecer um calendário de transferência do poder da minoria branca para a maioria negra, protagonizado por Jomo Kenyatta, pertencente ao grupo étnico mais numeroso do Quénia, o dos Kikuyu. Em 1963, o Quénia tornou-se independente e tornou-se numa República no ano seguinte, com Kenyatta como presidente. Durante o período da Guerra-Fria, onde as fidelidades de quase todos os países africanos oscilaram entre o Ocidente e o Leste, a do Quénia manteve-se firme, pró-ocidental.

Respeitador escrupuloso das encenações eleitorais, muito apreciadas no Ocidente, o Quénia foi pioneiro em mostrar, ainda na década de sessenta, o entendimento muito particular que as culturas africanas podem dar às cerimónias eleitorais, ao elegerem, por mais do que uma vez, o candidato que havia entretanto falecido, mas que pertencia ao clã e à tribo certa… Compreende-se facilmente porque é que as eleições quenianas não costumam ser acontecimentos inesperados…
Jomo Kenyatta foi presidente de 1964 até à sua morte em 1978, sucedeu-lhe o seu vice-presidente Daniel arap Moi, que foi sendo sucessivamente reeleito e ainda lá estaria se não tivesse sido impedido de se reapresentar por imperativo constitucional em 2002… Na única eleição verdadeiramente aberta que o Quénia terá tido desde a sua independência, Mwai Kibaki venceu a eleição presidencial, com 62% dos votos contra os 31% recebidos por Uhuru Kenyatta, filho de Jomo, o primeiro presidente.

Como curiosidades finais, refira-se que a língua nacional do Quénia é o suaíli**, um dos raros casos em que um país da África sub-sahariana não tem um idioma europeu por língua nacional. E que o segredo para a obtenção de tantas medalhas no atletismo reside no facto de que uma boa parte da sua população vive no planalto e a altitudes superiores e desenvolvem, desde a nascença, capacidades respiratórias invulgares que favorecem os atletas quenianos nas provas de resistência.

* O que comprova que, ao contrário do que por vezes se pretende fazer crer, não existe ainda nenhuma receita comprovada para vencer uma guerrilha subversiva.
** O inglês também é língua oficial.

11 setembro 2007

DAVID PETRAEUS, O NOVO CREIGHTON ABRAMS?

Foram de alguma forma surpreendentes as conclusões ontem apresentadas pelo general David Petraeus à Comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara de Representantes dos Estados Unidos. O calendário de retirada das tropas nele contemplado, tal qual nos foi transmitido pela comunicação social, é extremamente cauteloso quando em comparação com as expectativas que haviam sido previamente geradas, ao preconizar que se regresse ao statu quo ante dos 130.000 efectivos estacionados no Iraque durante o próximo Verão de 2008.
Mais do que a barragem de informações sustentando o sucesso da decisão do reforço do contingente de tropas no Iraque (de 130 para 168 mil), em que se invocam também a aplicação de novos métodos (mas onde não vi esclarecido em que proporção se estão a obter esses resultados: porque há mais efectivos ou porque houve mudança de métodos?...), o que intriga, sobremaneira, é compatibilização deste calendário com a insustentabilidade a prazo dos actuais niveis de efectivos, dadas as carências de pessoal e o desgaste do material, como é repetidamente apontado pelos chefes militares supremos da JCS*…
As perspectivas que se oferecem depois daquele discurso parecem-me ser as seguintes: Petraeus e os generais da JCS* estão ambos a falar a sério e poderemos a assistir à implosão militar da maior potência mundial, o que é sempre pitoresco; os membros da JCS estão a fazer bluff, exagerando as dificuldades do aparelho militar norte-americano, e Petraeus deu-lhes a volta, pagando para ver, como se faz no póquer; ou, finalmente, o que importa é a aparência e o plano de Petraeus não é para cumprir porque se arranjarão pretextos vários para acelerar a saída das tropas.
Já se sabe que George W. Bush, compreensivelmente, não gosta das analogias entre esta guerra do Iraque e a do Vietname. Só que elas não cessam de surgir… Todos os entendidos em história militar sabem como a derrota no Vietname costuma ser atribuída ao general William Westmoreland, comandante daquele teatro de operações entre 1964 e 1968. Depois foi nomeado o general Creighton Abrams, que se tornou num herói da mitologia militar norte-americana e que até deu o nome de baptismo ao carro de combate M-1 Abrams (acima).
Creighton Abrams foi o encarregado de reduzir o contingente norte-americano no Vietname de 535.000 (1968) para 30.000 (1972) efectivos, conforme as directivas políticas da Administração Nixon. Passados 3 anos, o Vietname do Norte ganhou a guerra, os Estados Unidos perderam-na, mas tentaram-se salvar as aparências e Abrams tornou-se um herói… É o equivalente moderno e em grande escala dos episódios oitocentistas da guarnição evacuando a fortaleza a marchar com a banda à frente, tocando e disfarçando a derrota…

Será este o papel político-militar reservado para David Petraeus? É verdade que o seu antecessor precisou de todo um mandato presidencial de 4 anos (1968-72) para que a evacuação (chamou-se vietnamização da guerra...) não tivesse aspecto que o era... Por outro lado, as outras alternativas apontadas acima são assustadoras, entre a constatação da incompetência total entre as chefias máximas do aparelho militar norte-americano e as perspectivas da falência próxima desse aparelho, por usura…

* Joint Chiefs of Staff : Comité dos Chefes de Estado-Maior das Forças Armadas norte-americanas.

OEIRAS, PORQUE ELISA PRECISA

Não sou munícipe de Santarém, mas sou de Oeiras, um município hoje particularmente famoso, pelas más razões de ter a dirigi-lo alguém – Isaltino Morais – que deu novas dimensões ao significado da palavra nepotismo, uma relação de interesses convergentes muito estreita entre tio e sobrinho, outrora associada ao papa ou a membros influentes do clero, agora protagonizada por um autarca e um motorista de táxi emigrado.
Mas é preciso reconhecer que Isaltino Morais sempre foi um adversário político temível no que se referia às eleições neste concelho e que, sempre que se aproximavam eleições autárquicas, estabelecia-se o pânico dentro do PS para desencantar um candidato que estivesse disponível à mais que previsível derrota eleitoral. Para as eleições de 1997, esse limão calhou a Elisa Damião, que parecia estar em fase de disponibilidade.
O melhor da campanha seria o seu slogan, daqueles que rimam, populares, que ficam no ouvido, afixados por todos os cartazes: ELISA, PORQUE OEIRAS PRECISA! Mas no dia fatídico das eleições, sem grandes surpresas, 48% dos votos foram para o PSD que ficou com a maioria da vereação e Elisa Damião viu-se confinada ao estatuto de vereadora. Só que, afinal, revelou-se ser cargo de pouca duração…
Daí a um punhado de meses (em 99) Elisa conseguiu arranjar o 11º lugar (elegível) da lista do PS para o Parlamento Europeu, encabeçada por Mário Soares e lá abalou… É um episódio já com dez anos, mas fiquei sempre na dúvida de que tratava a precisão naquele slogan. Seria mesmo ELISA, PORQUE OEIRAS PRECISA ou seria mais OEIRAS, PORQUE ELISA PRECISA… até se arranjar qualquer coisa melhor como Estrasburgo?...

10 setembro 2007

O PART-TIME DO PRESIDENTE DA CÂMARA

Não sou munícipe de Santarém, por isso não tenho interesse directo no assunto que vou abordar, mas não haja dúvidas que me intriga a frequência das presenças de Moita Flores em consecutivos telejornais e demais programas da SIC (enquanto escrevo é o da Fátima Lopes…) com os seus contributos enquanto criminalista (seja lá o que isso for…) para os debates e análises sobre o caso da miúda inglesa que desapareceu no Algarve.
Não tenho ideia do tempo que consumirá o exercício da função de presidente da câmara mas, a julgar pela esmagadora maioria dos outros 300 exemplos existentes em Portugal, será tarefa a exigir dedicação quase total, o que visivelmente não se compadece com o aparente part-time de consultor televisivo do presidente da autarquia escalabitana… A não ser que aparecer na televisão seja, só por si, função representativa e, como tal, remunerada…

Que se defenda que os políticos desenvolvam outras actividades que não os tornem dependentes da política é uma coisa, isto parece-me outra. Enfim, aos escalabitanos competirá julgar e a mim, nas minhas modestas possibilidades, assegurar que eles julguem bem…

O REGIMENTO DE ELITE DE FREDERICO GUILHERME

Por ter falado no recrutamento e composição dos exércitos profissionais europeus do Século XVIII, vale a pena levar a conversa para as curiosidades associadas a um regimento de elite de infantaria fundado pelo Rei Frederico Guilherme I (1688-1740 - em baixo) quando ele se tornou Rei da Prússia em 1713. O mencionado regimento – designado por Grandes Granadeiros de Potsdam – distinguia-se por ser composto por homens (com excepção de uma dúzia de oficiais) que tinham todos uma altura superior a 1,80…
O racional por detrás da constituição de uma tal unidade deveria ser o efeito de surpresa para o inimigo ao deparar-se no campo de batalha com uma unidade composta por várias centenas de enormes Golias (como na imagem abaixo) avançando na sua direcção… Mas, sendo tais gigantes uma espécie rara, a tal unidade tornou-se mais rapidamente conhecida pelos expedientes adoptados por Frederico Guilherme I para o recrutamento de tais Golias, do que propriamente pelas suas virtudes militares.
Assim, rapidamente se descobriu que um dos instrumentos diplomáticos seguros para obter as boas graças de Berlim numa negociação consistia no envio de um contingente de gigantes, como o faziam regularmente o Czar da Rússia ou o Sultão otomano. Por outro lado, viajar na Prússia tornou-se muito perigoso para homens de estatura elevada como o descobriu um monge húngaro que veio em busca de esmolas para resgatar cristãos cativos na Turquia: foi detectado, capturado e incorporado...
Rapidamente se espalhou a reputação que para o cumprimento das quotas de incorporação nos Grandes Granadeiros de Potsdam valia tudo: alegadamente, a certa altura chegou mesmo a equacionar-se a hipótese de raptar um diplomata austríaco de grande estatura. Depois pensou-se nas inevitáveis retaliações austríacas… Comparados com estes métodos, aqueles treinadores de basquetebol dos anos setenta que passavam o tempo a chatear os gajos mais altos (acima) para a modalidade eram um anjinhos
Aliás, o título do artigo que se refere ao regimento na WikipediaPotsdam Giants ou Potsdam Grenadiers – parece soar mesmo ao nome de uma equipa actual da NBA… Só que os gigantes do principio do Século XVIII não se pareciam quase nada com os do final do Século XX. As privações da infância (sobretudo nutricionais) faziam com que eles tivessem frequentemente um aspecto deformado (acima), mais frágil do que impressionante, como costumam realçar as testemunhas convidadas a assistir aos desfiles que tanto faziam o orgulho de Frederico Guilherme I.

O seu filho, Frederico II (1712-1786), que ficou famoso como general, extinguiu o regimento mal chegou ao trono.

09 setembro 2007

O FANAGALO

O fanagalo foi um idioma (tecnicamente, trata-se de um crioulo) criado nas minas da África do Sul para que os mineiros se pudessem entender no seu trabalho. As enormes necessidades de mão-de-obra para as minas de ouro e diamantes que ali surgiram nos finais do Século XIX obrigaram as companhias mineiras a terem que ir recrutar longe, mesmo até às colónias vizinhas. Se mesmo dentro das suas fronteiras, a África do Sul já é um país conhecido pela variedade idiomática (tem hoje 11 idiomas nacionais!), imagine-se a disparidade de falantes que poderia haver nos quadros de uma mina, quando há que contar ainda com naturais do Zimbabwe, Lesoto, Botswana, Suazilândia, Moçambique, Malawi ou Zâmbia...
O fanagalo tem um vocabulário não muito extenso, limitado sobretudo aos aspectos técnicos concretos do trabalho no interior nas minas – iniciado nas de ouro, hoje é o idioma de todas as minas, independentemente do que dela se extraia – e inclui, como seria de esperar, uma lista apreciável de palavrões e insultos... A grande maioria da origem do vocabulário é zulu (cerca de 2/3), embora a maioria dos termos técnicos sejam de origem inglesa e haja alguns vocábulos de origem africânder e mesmo portuguesa. Os mineiros novatos recebem uma formação acelerada em fanagalo antes de desceram à mina, onde aprendem, por exemplo, que lo amela (do inglês hammer) é o martelo.
O fanagalo é um exemplo presente e concreto como é possível criar naturalmente um idioma funcional, que ultrapasse rapidamente os problemas de comunicação quando há uma multiplicidade de origens nos intervenientes, desde que o grau de sofisticação das mensagens a transmitir não precise de ser muito elevado. Aliás, este já deve ter sido um problema muito antigo, surgido inicialmente nos grandes exércitos imperiais, quando esses impérios precisaram de alargar o seu campo de recrutamento a todos os povos que deles faziam parte. E, se nuns casos os grandes exércitos eram compostos por grandes unidades de nacionalidades diferentes, alturas houve em que era preferível diluir as nacionalidades em unidades normais (acima, Astérix incorporado nas legiões romanas).
Naquele caso, a língua de trabalho das legiões romanas deve ter sido uma corruptela simplificada do latim que nunca teve a dignidade de ficar registada, assim como a literatura do fanagalo deve ser escassa... Provavelemente, a questão das línguas de comunicação nunca deve ter sido um verdadeiro problema militar. Basta lembrar o carácter compósito dos exércitos profissionais europeus da era moderna: acima, em Barry Lyndon, o filme de Stanley Kubrick cuja acção decorre no Século XVIII, o protagonista deserta do exército britânico para ser depois capturado e incorporado à força no exército prussiano… Assim, aquele costume de alguns historiadores de atribuir a problemas de comunicação as causas das derrotas daqueles exércitos multinacionais (o persa ou o austríaco) é explicação capaz de fazer sentido… mas de nem sempre ser muito verdadeira…

08 setembro 2007

AS IMAGENS QUE VALEM MESMO POR MIL PALAVRAS

A Casa Branca tem uma nova secretária de imprensa, Dana Perino (abaixo), em substituição do demissionário Tony Snow. Que já começou a ser devidamente massacrada pela imprensa que a divulgou a dizer coisas inacreditáveis de um desplante que estávamos habituados a ouvir durante a Guerra-Fria em russos de aspecto soturno e patibular e não por americanas louras de aspecto giraço: nós não somos os ocupantes do Iraque, estamos lá a convite do governo legitimamente eleito…
Outra das controvérsias que Dana Perino herdou do seu antecessor tem a ver com o famoso discurso proferido por George W. Bush em Maio de 2003 a bordo de um porta-aviões, que ficou conhecido pela famosa tarjeta afixada na ponte do navio: Mission Accomplished (missão cumprida - abaixo). Bem pode Dana Perino bradar pelo conteúdo do discurso proferido pelo presidente naquele dia, invocando que nele nunca o presidente empregou literalmente tal expressão, além de outras explicações e de outros ajustamentos
Também no seguimento da micro-polémica desencadeada pela indumentária da jornalista Márcia Rodrigues durante uma entrevista ao embaixador iraniano em Lisboa em Julho passado, houve quem chamasse a atenção para a excelente qualidade da entrevista realizada pela jornalista (disponível aqui). Esta opinião e a apresentada por Dana Perino sobre o discurso de Bush são ambas verdadeiras, mas trata-se de uma verdade muito estrita. Todos os mencionados sabem (ou deveriam saber...) que acontecimentos televisivos se destinam tanto a ser vistos como escutados…
Esquecido o conteúdo das mensagens verbais, que deviam ser formalmente a substância da mensagem mas normalmente não são, tanto a tarjeta mandada pendurar pela administração Bush, como a indumentária de Márcia Rodrigues eram adereços que se destinavam a ter impacto visual. E obtiveram-no, duradouro… não propriamente o desejado, mas obtiveram-no por muitos anos e bons… Não estranhe Márcia Rodrigues que daqui por uns quatro anos ninguém se lembre já do nome do seu entrevistado, mas lhe falem ainda das suas luvas pretas, como o Alves, o centrocampista do Benfica...

07 setembro 2007

HAKA

Agora que se vai iniciar o Campeonato do Mundo de Râguebi, vem a propósito falar do Haka, um espectáculo dentro de outro espectáculo. Trata-se de uma dança guerreira executada pela equipa neozelandesa no centro do campo, diante dos adversários, antes do jogo se realizar. Foi um ritual importado directamente do folclore maori, os polinésios que habitavam a Nova Zelândia antes do povoamento por europeus do século XIX.
Como o râguebi se tornou um jogo muito popular entre as nações polinésias do Pacífico (onde existem frequentemente pessoas com a compleição física ideal para o praticar), também elas adoptaram cânticos guerreiros semelhantes ao Haka, como sejam o Cibi de Fidji, o Siva Tau de Samoa ou o Sipi Tau de Tonga. Quando duas destas selecções se defrontam e se põem a executar o seu cântico simultaneamente o resultado é impressionante: veja-se aqui, no último mundial, Nova Zelândia versus Tonga…
Fica para o fim o esclarecimento da dúvida por quem vou torcer neste Mundial. À selecção portuguesa cumpre-lhe a enorme missão de se bater com dignidade e não perder por muitos, que este não é um desporto propenso a muitos milagres*… As razões históricas, de que já falei aqui num poste anterior, levam-me a torcer pelo País de Gales (acima), mas as razões estéticas, de que falarei num poste futuro, levam-me a torcer pelos All Blacks da Nova Zelândia (abaixo). E a razão diz-me que devia ser mais estético que histórico…
* A Espanha, por exemplo, na sua única participação em Mundiais (1999), perdeu por 27-15 com o Uruguai e depois enfardou 47-3 da África do Sul e 48-0 da Escócia. Nota adicional de humilhação: tanto a equipa sul-africana (os Springboks) como a escocesa alinharam nesses jogos quase só com reservas… Mas há quem tenha perdido 142-0 (Austrália – Namíbia) e 111-13 (Inglaterra – Uruguai), ainda no último Mundial de 2003…

CHEGAR À FASE AGOSTINHO DA SILVA

Atinge-se a fase de Agostinho da Silva, por analogia ao tratamento sofrido às mãos da comunicação social portuguesa pelo original filósofo, quando se reconhece que uma alguém tem muita categoria, ao mesmo tempo que nos apercebemos da insistência desmesurada feita por terceiros no destaque a essa mesma categoria, o que acaba por levar a audiência a reconhecer que essa overdose desproprocionada de elogios se torna excessiva e termina com o aborrecimento com o abuso com que o laureado é louvado… Esta fase final - aconteceu também com Agostinho da Silva - costuma anteceder em pouco o óbito da pessoa em questão…
Ultimamente, quando passou a ser socialmente aceite o ridículo de certos panegíricos post-mortem, a abordagem Agostinho da Silva tem sido adoptada pelos bons produtores do sector, aqueles que têm um feitio mais selectivo e que se mostram mais previdentes e que, não gostando de se misturar com o resto da maralha, começam a ser elogiosos antecipadamente. Um dos efeitos, perverso, é o de um ror de elogios menos habitual desencadear na audiência mais desconfiada suspeitas sobre o estado de saúde do elogiado…
Seria incorrecto e aziago apontar nomes que eu suspeite estarem a chegar à dita fase Agostinho da Silva, mas sempre posso dar o devido relevo à única pessoa que considero que, beneficiando dessa fase, já está muito para além dela: o cineasta Manoel de Oliveira. A caminho de fazer 99 anos em Dezembro, de há muito que as leis da biologia fizeram dele o alvo ideal dos tais autores de panegíricos mais previdentes, que se lançaram em encómios inultrapassáveis a cada filme em que ele figurava como realizador…
Depois existe uma outra realidade, menos artística mas mais concreta, a do número de bilhetes vendidos pelos seus filmes, que transforma essas excelentes obras, premiadas lá fora e tudo, numa realidade que é de há muito conhecida: os filmes de Oliveira costumam ser umas enormes estopadas - acima, uma cena de um dos seus filmes (Francisca)... Mas, por causa de ter atingido (e ultrapassado) a fase Agostinho da Silva, Manoel de Oliveira deve ser o único cineasta do mundo que, depois de ter completado 90 anos, passou a realizar obras-primas consecutivas a partir daí…

06 setembro 2007

HERMANN

Como muito bem gostava de lembrar a minha amiga Hilde, a Bélgica, para além do flamengo e do francês, também é um país de língua alemã, por causa de uma pequena minoria germânica que habita nos cantões de Eupen, Malmedy e Saint-Vith que se situam no Leste do país e que foram transferidos para a soberania belga depois da Primeira Guerra Mundial. Hermann Huppen, nascido em 1938 no cantão de Malmedy, pode ser considerado assim o alemão da escola franco-belga da BD.
O Hermann de que me tornei fã foi daquele que fez dupla com Greg nas aventuras de Bernard Prince e de Comanche. Mais do que o desenho, o que mais me atraiu no seu estilo foi a dinâmica da narrativa dos seus trabalhos, como se se tratassem de aventuras de uma excelente série de televisão, mas aproveitando a fluidez do tempo que a BD proporciona para permitir, por exemplo, que Bernard Prince e Barney Jordan (acima) se excedessem na categoria das ironias que proferiam, mesmo quando nas situações mais enrascadas…
Confesso que o que sempre me intrigou nas histórias de Comanche foi a rapidez como pistoleiro de Red Dust (acima), quando os seus coldres estavam precisamente virados ao contrário do que acontecia com os seus rivais, o que apenas deveria dificultar ainda mais a manobra de sacar o revólver… A continuação da saga mudou progressivamente o estilo da história, além do desenho (abaixo), fez com que a destreza de Red Dust perdesse a importância até que ele se transformou num verdadeiro anti-herói e afinal esse pormenor dos coldres já não interessava nada…
O mérito será tanto de Greg como de Hermann, mas as personagens secundárias das histórias que fizeram em parceria contar-se-ão entre as mais sólidas dos heróis da BD. Um Barney Jordan, por exemplo, que abafou Bernard Prince (uma espécie de Tintin, menos virtuoso) será o capitão Haddock a sério, desprovido dos infantilismos de Hergé. Também Red Dust se tornou num cow-boy dilacerado (e condenado…) pelas suas proezas do passado, numa antecipação da personagem de Clint Eastwood em Unforgiven.
As histórias de Hermann, escritas e desenhadas pelo próprio a partir da década de 80, perderam o meu interesse (Jeremiah ou As Torres de Bois Maury). Ainda é possível ver o que ele consegue criar quando associado a um excelente argumentista como Van Hamme no soberbo álbum Lua de Guerra. Mas onde Hermann se revela um artista impar é no desenho de cenas de síntese como a de cima, que se torna quase num quadro pela capacidade de retirar qualquer traço de violência ou erotismo àquele acto sexual, substituindo-o apenas pela expressão crua do poder…

05 setembro 2007

OS VERDADEIROS RAIDES DO MAJOR ALVEGA

Outro dia, quando invoquei num outro poste os raides clandestinos do major Alvega, aquele luso-britânico que, a acreditar nos livros de quadradinhos da minha infância, ganhou a Segunda Guerra Mundial praticamente sozinho, lembrei-me quanto esse mito da importância das operações especiais ainda hoje pode perdurar, especialmente quanto ao que terá sido a verdadeira utilidade dessas operações para o desfecho da Guerra.
A ideia para aquelas operações teve, desde o início, um responsável: o próprio Winston Churchill. A inspiração viera de um raide realizado nos finais da Primeira Guerra Mundial (Abril de 1918) sobre um dos portos belgas (o raide de Zeebrugge), onde estavam estacionados os submarinos alemães. A ideia era, mesmo debaixo de fogo, irromper pelos acessos ao porto e afundar navios velhos nos canais de ligação do porto com o alto mar, para o deixar inoperacional.

Correu mal quanto aos objectivos: os navios foram afundados nos locais e posições erradas (abaixo) e em poucos dias o porto voltou a estar operacional. Por outro lado a operação pôde ser aproveitada para a propaganda interna pela Royal Navy, que passara aquela Guerra sem fazer quase nada enquanto era o exército que se batia na Flandres: 8 VCs* foram atribuídas e o raid foi considerado um boost to morale**, mas pelo custo (excessivo) de 1/3 de baixas entre todos os participantes (incluindo mais de 200 mortos).
Ora a situação estratégica do Reino Unido depois do término da Batalha de França de Maio e Junho de 1940 era a de quem não se podia defrontar directamente com os alemães a não ser no ar (a Batalha de Inglaterra) ou no mar (a Batalha do Atlântico) e, só muito remotamente e por inimigo interposto, em Africa contra os italianos. A directiva que estabelecia o Serviço de Operações Especiais (SOE) em Julho de 1940 tinha a retórica inconfundível de Churchill: set Europe ablaze***.

Em Março de 1942, inspirados no episódio na Bélgica da guerra precedente, os britânicos lançaram um raide contra Saint Nazaire que possuía a mais importante doca seca de entre os portos franceses do Atlântico. Desta vez, o estratagema consistia em carregar um velho contratorpedeiro de explosivos e abrir caminho até à doca seca para aí se detonar, destruindo o único local de reparação para os grandes navios da Marinha de Guerra alemã (Kriegsmarine).
Quase tão violenta e sangrenta quanto a sua antecessora (5 VCs* atribuídas, 170 mortos entre os assaltantes, a esmagadora maioria dos restantes foram capturados), esta operação foi muito mais bem sucedida no que diz respeito a resultados: grande parte dos equipamentos visados, a começar pela doca seca, deixaram de estar operacionais durante o resto da guerra. Os mais entusiasmados defensores deste tipo de operações baptizaram-na como The Greatest Raid of All (acima).

Terá sido o mais bem sucedido, mas não foi o maior raide de todos… Esse aconteceu em Agosto de 1942, contra o porto francês de Dieppe, envolvendo cerca de 6.000 efectivos, canadianos na sua maioria. Também foi o maior fiasco de todos: perderam-se cerca de 2/3 dos efectivos envolvidos (com cerca de 1.000 mortos…), além de inúmero material (abaixo). Desse raide nem se pôde dizer que foi um boost to morale**… Apenas se improvisou uma explicação patética posterior em como se tinham dali aproveitado os ensinamentos para o Dia D****…
Com o fiasco de Dieppe, foi o fim dos raides com tal visibilidade e envolvendo tanta gente. Apenas se mantiveram as pequenas operações, envolvendo menos de uma dúzia de efectivos. Na verdade, além de servirem de alimento aos filmes de guerra, durante e depois da mesma (Os Canhões de Navarrone ou Doze Indomáveis Patifes, por exemplo), essas operações foram um epifenómeno que nunca chegaram a afectar, só por si, a distribuição dos recursos militares alemães ou o curso das grandes operações.
Um pormenor final, adequado às histórias do major Alvega, onde os alemães eram maus, chamavam-se regularmente Hans e contribuíam para a narrativa emitindo interjeições guturais (Aaaargh! Uuurgh!) enquanto eram devidamente metralhados e mortos pelas pistolas-metralhadoras Sten Mk II (acima) dos commandos britânicos, que nunca falhavam. É que a verdadeira Sten era conhecida por ser uma arma pouco fiável, pela facilidade com que ela podia encravar nos momentos mais inconvenientes…

* Victoria Cross, normalmente abreviada para VC, a mais alta condecoração militar britânica, o equivalente à Ordem da Torre e Espada portuguesa.
** impulso à moral. É uma expressão frequentemente utilizada na historiografia militar britânica quando todos os restantes aspectos a considerar se revelaram um fiasco…
*** ponham a Europa em chamas.
**** 6 de Junho de 1944, o dia do desembarque dos aliados na Normandia. Quanto à justificação, mil mortos é um custo demasiado desumano para justificar uma espécie de ensaio geral.

04 setembro 2007

RUPPRECHT, O PRETENDENTE AO TRONO DO INIMIGO

Entre os comandantes dos sete exércitos alemães que, cumprindo o Plano Schlieffen, avançaram em Agosto de 1914 pela Bélgica e pela França, para envolver e derrotar os exércitos destes últimos por trás (abaixo), havia três membros de casas reais e de entre esses, dois eram príncipes-herdeiros (Kronprinz, em alemão): Wilhelm, que era o herdeiro dos tronos imperial da Alemanha e real da Prússia e Rupprecht, o herdeiro do trono do Reino da Baviera. Quanto ao terceiro, o duque Albrecht de Württemberg., por morte do pai, em 1917, também se tornaria o príncipe-herdeiro do Reino com o mesmo nome.
Como era o costume da época, as carreiras militares destes membros da realeza tinham sido fulgurantes e as idades daqueles três comandantes de exército não se comparavam de forma alguma às dos restante oficiais generais que haviam progredido na carreira da maneira clássica (Von Kluck, Von Bülow, Von Hausen e Von Heeringen*), cuja idade média atingia em 1914 os 67 anos! Albrecht (com 48 anos) e Rupprecht (com 45) eram já homens maduros, mas os 32 anos de Wilhelm, numa época em que a antiguidade era um posto, tornaram-no um alvo da chacota da propaganda britânica, que o tratava depreciativamente por Little Willie.
Mais respeitado pelos britânicos, o príncipe Rupprecht (acima) também se viu numa situação que se pode considerar ingrata quando os seus exércitos tiveram que os defrontar. De confissão católica, Rupprecht era também o herdeiro por via materna dos direitos ao trono britânico através dos seus longínquos antecessores Stuart que, na pessoa de Jaime II (1633-1701), haviam sido expulsos do Reino Unido em 1688… Para um punhado de escoceses e ingleses mais radicais e menos assisados**, o príncipe Rupprecht, sob o nome de Roberto I da Inglaterra e IV da Escócia, era o legítimo soberano do país contra o qual as tropas sob o seu comando agora combatiam…

* De Norte para Sul (e depois, por força da manobra, de Ocidente para Oriente), a disposição dos exércitos era a seguinte: I (Von Kluck), II (Von Bülow), III (Von Hausen), IV (Duque Albrecht), V (Kronprinz Wilhelm), VI (Kronprinz Rupprecht) e VII (Von Heeringen). Como se pode perceber pelo mapa, o papel principal na manobra competia ao I e II exércitos.
** Conhecidos por Jacobitas.