24 de Julho de 1967. Charles de Gaulle está em Montreal numa visita oficial ao Canadá e resolve cometer uma das maiores gaffes diplomáticas do Século XX, apelando descaradamente ao separatismo de uma parcela do país que o acolhe. A visita acabou bruscamente. Já tive oportunidade de contar uma síntese do episódio aqui no blogue vai para 10 anos e, se a recupero para efeméride de hoje (pelo seu cinquentenário), é só para recordar que, mau grado a completa falta de jeito que já demonstrou ter nas relações com o exterior, Donald Trump ainda nada fez de verdadeiramente grave nesse panteão das colossais gaffes diplomáticas.
24 julho 2017
ASTÉRIX E CLEÓPATRA (35)
Déployer é traduzível nas circunstâncias do penúltimo quadradinho por desdobrar. E égorger (à letra, degolar) é empregue no sentido figurado de derrota. Ora, a expressão égorge déployé reinventada pelo terceiro legionário remete para a expressão típica do francês «rire à gorge déployée», que será o equivalente ao nosso rir a bandeiras despregadas. O tradutor não conseguiu dar a volta à situação, o que torna incompreensível a referência do último legionário a um jogo de palavras.
23 julho 2017
ASTÉRIX E CLEÓPATRA (34)
Na última linha da prancha cada intervenção é precedida de uma invocação aos deuses do antigo panteão: Por Toutatis! Por Júpiter! Por Isis! Por Belenos! Por Belizama! Por acaso...
O MUNDO DO PODERIA-TER-SIDO
Fui buscar à infância as memórias de uma imaginativa história que se intitulava A Bola do Faz de Conta (uma tradução traiçoeira, como se comprova acima, porque a expressão original francesa é um pouco mais contundente: se-fosse-verdade). Em quase cinquenta anos, o exercício de tomar o fantasioso por sério terá galgado os terrenos da BD juvenil para se instalar na imprensa adulta, na de referência mesmo, ao encontrarmos nas páginas da The Economist exercícios como o de especular como teria sido o resultado do referendo do Brexit se todos os britânicos tivessem participado no acto eleitoral do ano passado (abaixo). No The Economist querem-nos convencer que o resultado seria coincidente mas a pergunta pertinente é: que é que interessa isso? Quem quis votar, votou e quem não o fez, foi porque decidiu não o fazer. Qual a importância que poderá representar um exercício de especulação e contabilização das intenções de quem voluntariamente não o quis fazer? Isto não tem nada de semelhante com as sondagens em que se pedem opiniões informalmente numa ocasião em que isso não acontece formalmente, ou então em que se pedem, também informalmente, opiniões específicas sobre assuntos sobre os quais não está prevista fazer uma pergunta formal. Não foi nada disso que se passou com o Brexit. A cobertura da actividade política deve ser sóbria e assente na realidade mas parece cada vez mais diáfana a fronteira entre a ficção e a não ficção política.
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22 julho 2017
...PORQUE A VERDADE ACABA QUASE SEMPRE POR ULTRAPASSAR A FICÇÃO
Até mesmo a Stanley Kubrick, quando filmou Dr. Strangelove em 1964, lhe faltou imaginação para conceber (e antecipar) que dali por uns 50 anos o mais chanfrado dos presentes no War Room pudesse ser o próprio presidente!
O CENTENÁRIO DE UMAS TRINCHEIRAS QUAISQUER
Dá-se a curiosidade de o original desta fotografia aérea acima ter uma data: 22 de Julho de 1917. Aos Domingos a guerra prosseguia e faziam-se voos de reconhecimento sobre as frentes de combate que, lá de cima, se identificavam pelo traçado ziguezagueante das trincheiras. Fotografavam-nas para as analisar, tanto com propósitos ofensivos como defensivos. Do lado direito um desenho esquemático ajuda-nos a interpretar a paisagem. O que se perde com a altitude é a identidade dos milhões que dos dois lados as guarneciam.
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ISTO DE TRABALHAR PARA VENDER UM LIVRO...
...tem muito esforço envolvido. Não fosse esse esforço e não se compreenderia esta última pulsão de António Barreto para dar entrevistas encadeadas a falar de si e dos seus pensamentos mas sobretudo dos tempos de reforma agrária. Ele foi ao Expresso e depois à Visão ainda no mês passado, depois, já este mês, ao Observador e ainda hoje o podemos apreciar em mais uma entrevista dada agora à Lusa e reproduzida pelo Diário de Notícias e outros órgãos de comunicação, incluindo a página do Sapo24 onde o vemos exibindo nas mãos a muito provável causa de tanto frenesim: o livro Anatomia de uma Revolução, acabado de reeditar (a edição original é de há 30 anos), mas agora com prefácio mais modernizado de Maria de Fátima Bonifácio. Acabado de sair, cá tenho o livro ainda por ler, à espera de tempo, mas gostaria de assinalar que eu costumo estar atento às opiniões de António Barreto mas prefiro quando ele tem novas ideias para nos expor, não quando tem um livro antigo para nos vender... Tanto mais que, se em 1987, a questão política da posse da terra já interessava pouco, hoje a agricultura é um sector tão marginal da economia que não interessa mesmo nada.
21 julho 2017
AS DECLARAÇÕES DESVALORIZADAS DE UM PRESIDENTE SEM VALOR
21 de Julho de 2014. De visita à Coreia do Sul, o presidente Cavaco Silva reafirma a confiança no Banco Espirito Santo a escassos dias do seu colapso. A bizantinisse da fórmula como exprime essa confiança, escondendo-se por detrás das opiniões do Banco de Portugal, não foi interpretada assim na época, e não virá a ter grande acolhimento quando Cavaco Silva se tiver de defender debaixo de fogo, conforme se percebe das imagens do vídeo abaixo. Se a opinião sobre o BES não era a dele, se ele se limitava a papaguear o que o BP já dissera, e não queria assumir consequências do que reproduzia, porque não se calara? Porque não remetera simplesmente os jornalistas para as declarações do mesmo teor já emitidas pelo BP? Ou então, e isto já em jeito de chalaça, que é o que merece um presidente que não tem tomates para assumir as responsabilidades do que diz, porque não os alertara para a opinião sempre presciente do seu colega José Gomes Ferreira?...
ASTÉRIX E CLEÓPATRA (33)
Há cinquenta anos, aquela cena em que o militar possante mas falho de cérebro entra e sai de cena com o mesmo riso idiota (Hi!Hi!Hi!Hi!Hi!) era uma piada. Hoje tenho dúvidas que a compreendam...
Para me socorrer apenas de uma cena do quotidiano bem recente, temos um réu que acaba o seu julgamento condenado a quatro anos e dois meses de prisão com pena suspensa, e que vem proclamar-se vitorioso diante de uma chusma de câmaras e microfones acéfalos que nem o contestaram. É que a condenação por três crimes de falsificação de documentos e um de fraude fiscal qualificada não é a mesma coisa do que uma absolvição.
Há a conjuntura e há o protagonista, e mesmo se este último continuar a rir mesmo quando levado em braços pelos camaradas (como acima) então é porque não está tudo bem...
20 julho 2017
CHEGADA À LUA
20 de Julho de 1969. Pela primeira vez, uma nave tripulada pousava na Lua. Os Estados Unidos haviam vencido a corrida espacial, mas havia que esperar mais um dia (21 de Julho) para a saída dos astronautas Armstrong e Aldrin, para o primeiro passeio na superfície lunar e para a consagração.
19 julho 2017
NEM SEMPRE O EMPREENDEDORISMO RESULTA...
Esta coisa das expressões da moda nem sempre corresponde à realidade. O jóquei da direita, por exemplo, até accionou o turbo (uma expressão que foi moda há trinta anos) mas, mesmo assim, teve que se contentar com o segundo lugar...
PINTASSILGO ACEITOU
19 de Julho de 1979. Maria de Lourdes Pintassilgo aceita o convite do presidente Ramalho Eanes para encabeçar um terceiro governo de iniciativa presidencial. Questões políticas à parte (o executivo iria passar dali por um mês numa votação em que recebeu mais votos contra do que a favor, mas que não perdeu porque a maioria... se absteve), o que importa realçar no episódio é a questão do género. Como chefe de governo, a nova primeira-ministra portuguesa iria ser a segunda mulher na Europa (a britânica Margaret Thatcher tomara posse há dois meses e meio, em Maio desse mesmo ano) e a sétima em todo o Mundo.
PS - É engraçado inserir o cabeçalho do Diário de Lisboa desse dia, para perceber pelos cabeçalhos colaterais como a comunicação social estava também bandeada... mas nesse tempo para a esquerda. À direita da notícia principal, inquire-se as opiniões de Cunhal e Soares (por essa ordem, presume-se a alfabética, e não a da representatividade dos respectivos partidos...), mas esquece-se Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Celebra-se o fim do regime nicaraguano, o presidente interino já fugiu e as tropas sandinistas rebeldes entraram na capital, no que pretendia ser uma completa reedição do que acontecera quatro anos antes no Vietname. E havia ainda imagens actuais da URSS, não nos fôssemos esquecer dela...
ASTÉRIX E CLEÓPATRA (31)
De todas as aventuras de Astérix onde ele se cruza com Júlio César, esta será aquela em que o romano aparece pior retratado em termos morais.
18 julho 2017
«AGARREM-ME, SENÃO DENUNCIOS-OS A TODOS!»
Exemplo acabado do comentador «Agarrem-me, senão denuncio-os a todos!». Ninguém agarra e a denúncia concreta fica sempre para o próximo programa. Se levássemos Tiago Caiado Guerreiro a sério, então a "paisagem" estaria repleta de "malandros". Contudo, esses malandros têm o benefício de o bom do Tiago nunca chegar a identificá-los, nem sequer a sugerir vagamente de quem se trata. Ao fim de tantos anos e de tantos programas de televisão iguais, a sua presença e o seu estilo marcante mas um pouco já repetitivo tornou-se numa rábula familiar, ao jeito do José Freixo e do seu boneco Donaltim... só que lhe falta o Donaltim. E é pena porque talvez o pato Donaltim concretizasse as suas insinuações...
A PERFEIÇÃO
18 de Julho de 1976. Nas competições de ginástica feminina dos Jogos Olímpicos que se estavam a disputar em Montreal no Canadá, e por uma primeira vez há uma ginasta que alcança a pontuação máxima possível num exercício (de paralelas assimétricas): 10 pontos, a perfeição. O feito foi alcançado por uma atleta romena de 14 anos, Nadia Comăneci. Embora muito mais conhecida pela sua vertente desportiva, a ocasião foi também um momento de afirmação da superioridade da inteligência humana sobre a máquina: como os marcadores que afixavam os resultados só haviam sido concebidos para um algarismo seguido das centésimas, o comissário responsável teve que improvisar aquando da afixação da nota. O resultado pode apreciar-se na fotografia acima: 1,00, aparentemente uma nota miserável e injusta para a prestação da jovem romena que terá causado alguma perplexidade inicial na assistência, até à compreensão do que se tratava e ao romper dos aplausos e aos encómios dos comentadores televisivos. Nem todos os humanos chegaram lá sozinhos mas um computador é que nunca teria lá chegado...
A posterior alteração das regras de pontuação dos jurados, com critérios mais exigentes, tornou estas notas mais difíceis de repetir. A perfeição também é um conceito relativo...
ASTÉRIX E CLEÓPATRA (30)
Admire-se a sabedoria da confissão de Parafusis que poupou a história a mais algumas pranchas de violência desnecessária.
17 julho 2017
O MITO DO PARAÍSO ANDALUZ
«Córdova, que conta actualmente 326 600 habitantes (2016), tinha na Idade Média, a acreditar-se na tradição árabe, meio milhão. Ainda que toda a população da actual Península Ibérica não ultrapassasse 40 milhões de habitantes, só a Andaluzia, no tempo do califado, contava 34 milhões. Com as suas 600 mesquitas, numerosos banhos públicos, bibliotecas (sendo a do califa, com as suas 500 000 obras, a mais importante). Córdova era a Damasco do Ocidente. De noite a cidade era iluminada com lanternas. Setecentos anos mais tarde, o londrino que circulasse de noite precisaria de transportar a sua própria luz. As ruas de Córdova estavam pavimentadas. Séculos mais tarde, o mais pequeno aguaceiro ainda transformava as ruas de Paris num lamaçal. A Mesquita de Córdova, com a sua floresta sem fim de pilares de mármore e de jaspe, ultrapassava, em importância e magnificência, todos os templos muçulmanos do Oriente.»
Carl Grimberg. História Universal, Vol. 6, p. 114
O Al-Andalus, o estado muçulmano edificado na Hispânia europeia desde o Século VIII até aos finais do Século XV, sempre gozou de um estatuto especial benigno na forma como os historiadores ocidentais o descreviam quando em comparação com os outros estados islâmicos daquela e de épocas posteriores. Aprecie-se esta descrição acima de Córdoba, feita nos anos imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial por um historiador sueco. Mesmo para um historiador vindo do extremo boreal da Europa, o califado andaluz, cujo apogeu terá sido alcançado sob Abderramão III (912-961), representaria a versão mais europeia e mais sincrética do islão. Daí a transformá-lo num modelo de convivência entre comunidades religiosas seria apenas um passo mas também uma necessidade de coerência discursiva para a historiografia europeia. O Al-Andalus era tomado como um exemplo de tolerância religiosa, o que pôde levar a excessos interpretativos quando não se tiveram cuidados com o entendimento a atribuir à palavra “tolerância”, indispensáveis quando num contexto medieval. As tendências de há 80 anos agudizaram-se com o alargamento das ciências sociais do após-guerra e o alvo primordial de Os Mitos do Paraíso Andaluz são as descrições descabeladas mais elaboradas de uma sociedade andaluza que acabou descrita tão cosmopolita que até há quem lhe consiga encontrar analogias com a Califórnia do século XXI, nomeadamente no que se refere à emancipação das mulheres e à assunção pública da homossexualidade masculina! É giro, até pode dar um bons artigos de imprensa, mas é um disparate e quando Darío Fernández-Morera desmonta tais ideias disparatadas fá-lo com propriedade porque é ele que ocupa o lado da razoabilidade argumentativa.
Mas se a razão assistirá à tese central de Os Mitos do Paraíso Andaluz, de que “La Convivencia” não se reveste de todos aqueles aspectos benignos de como essa tese costuma ser apresentada, também fiquei com a impressão que o formato escolhido para a rebater, combativo e recriminador, deixou imenso a desejar. Por causa de erros factuais clamorosos cometidos pelo autor quando, por exemplo, dá para exemplo correlativo da mudança da toponímia local pelos conquistadores árabes o caso de Istambul, cidade que mudou de nome mas apenas 350 anos depois da sua conquista pelos turcos e, mesmo aí, por iniciativa de Kemal Ataturk, que é o paradigma do laicismo de todo o mundo islâmico. Ou então quando baralha as classificações das línguas e aparenta os góticos que seriam o idioma dos visigodos com os neo-latinos praticados pelas populações hispânicas durante o processo de formação do estado visigótico na Península (século V). Também por causa de flagrantes erros de omissão: um português consegue acabar de ler aquele livro sem ocupar os dedos de uma mão com referências ao seu país ou então encontrando relatos referentes ao território que veio a ser ocupado por Portugal. Numa das poucas referências e como é quase tradição nos livros anglos, os nossos reis Afonsos tornam-se... Alfonsos. E esta constatação é tanto mais irónica quando se descobre que o departamento onde Darío Fernández-Morera lecciona na Northwestern University é o Department of Spanish & Portuguese... Mas onde a gravidade dos erros se destaca é naqueles que ele assume por descontextualização. Só muito relutantemente o autor vai admitindo que ao longo dos quase 800 anos abrangidos pelo livro se multiplicaram exemplos de dhimmis (cristãos e judeus) a serem chamados pelos monarcas para ocuparem os postos mais importantes da governação. O próprio Darío Fernández-Morera explica que a causa para tal nada teria a ver com a tolerância, antes uma forma de neutralizar o poder das facções em que normalmente se desdobravam as sociedades árabes (e berberes). Mas a verdade é que, apesar dos protestos das elites religiosas e das reacções negativas que se adivinham das camadas inferiores dessa própria população muçulmana, os monarcas hispânicos recorriam a esse género de solução com uma frequência que era desconhecida na Síria, no Egipto, no Iraque, em todos esses sítios onde houve outras cortes califais contemporâneas.
Porém, o processo escolhido por Darío Fernández-Morera é o de dar preferência à documentação e aí, toda aquela que sobrevive acaba por estabelecer a predominância da produção intelectual, sobretudo religiosa. E a sociedade que os ulemás queriam estabelecer não se orientava (como seria de esperar) pelas regras da tolerância religiosa e do pragmatismo político. Um exemplo interessantíssimo é o de Averróis (que o autor não se esquece de designar pelo seu nome árabe - Ibn Rushd – sempre que a ele se refere), que foi um filósofo muito estudado e acarinhado a Ocidente nesse segundo papel, mas que também foi um ulemá zeloso e aí bastante distinto da impressão causada pelo filósofo – no livro faz-se um ferino acompanhamento dos seus comentários sobre variados temas: a jihad (p.26), a apostasia (p.100), o roubo (p.103), as bebidas alcoólicas (p.105), o adultério (p.145), (a condição d)as mulheres (p.156). Defender a tolerância durante “La Convivencia” torna-se um exercício bastante ingrato, para mais quando o leitor tem como referência as democracias ocidentais do século XX. O que se preservou escrito para a posterioridade foram um conjunto de regras do que os seus autores achavam que devia ser a sociedade islâmica ideal, subordinada aos ensinamentos de Alá, e não aquilo que a sociedade islâmica da Hispânia terá sido de facto, nos seus compromissos. É como tentar aferir da razoabilidade das políticas financeiras de Portugal nos últimos 20 anos a partir dos programas de televisão do professor Medina Carreira... E, no entanto, estas revisões em baixa dos valores integradores da civilização islâmica têm-se acentuado a partir dos inícios do século XXI. Mesmo descontando a propensão para a polémica de Darío Fernández-Morera, há aspectos por ele mencionados no livro que só se estranha que só agora estejam a ser investigados com mais rigor. Por exemplo, a tese de que muito do conhecimento da Antiguidade só chegou até nós por ter sido preservado pelos árabes era algo que sempre foi, pelo menos, controverso. Como ali se demonstra num caso em particular, muitas e as melhores traduções que terão chegado ao Ocidente dos clássicos, se não haviam permanecido por cá preservadas durante toda Idade Média, terão chegado depois, no tempo das cruzadas e traduzidas directamente do grego para o latim pela via do Império Romano do Oriente.
Os Mitos do Paraíso Andaluz é um livro polémico no sentido académico. É demasiado curto (240 páginas) para aquilo que ambiciona: analisar com profundidade 800 anos de presença muçulmana na Hispânia e desmontar um discurso edulcorado a respeito desse período. Está apresentado de uma maneira demasiado assertiva para não o considerar trendy no revisionismo de tudo o que tenha a ver com o Islão. Será esse revisionismo oportuno? Eu quando ouço o Xeque Munir a esgueirar-se como uma enguia besuntada de manteiga para não condenar os atentados feitos em nome da sua religião, tendo a concordar que sim, apesar de todas as suas limitações.
ASTÉRIX E CLEÓPATRA (29)
Repare-se como na segunda imagem há uma referência ao sinal de transito de aproximação de escola, onde as duas crianças apareciam desenhadas quase à egípcia.
«BOUILLON DE CULTURE»
Hoje, em conversa, acabei por me referir ao Bouillon de Culture, um programa cultural da televisão francesa, que esteve em exibição por lá (Antenne2) durante dez anos (1991-2001), num formato que era fortemente influenciado pelo estilo do seu apresentador, Bernard Pivot, e que por cá serviu de inspiração à programação cultural televisiva dessa mesma época. Mas a edição específica do Bouillon de Culture que valeu a referência (porque me marcou a memória) foi uma dedicada especificamente à cultura portuguesa e que teve a particularidade de ter sido gravada em Lisboa no palácio Fronteira (o marquês, anfitrião, foi um dos convidados da emissão), que acabou sendo transmitido também na RTP em Junho de 1998.
Foi interessante ter encontrado no Youtube dois trechos, ainda que breves, desse programa, ainda que concentrados apenas na intervenção de Manuel Maria Carrilho, à época ministro da Cultura do governo de António Guterres. Apesar da sua brevidade, os trechos foram suficientes para me fazer reviver o desconforto com que recordava a participação do ministro no programa. Até poderíamos culpar o pedantismo condescendente de Bernard Pivot para justificar a atitude submissa de Manuel Maria Carrilho (um ministro que ali parece estar a ser interrogado numa oral pelo professor!), não fora sabermos da arrogância altaneira genética de Carrilho que ele, de resto, tantas vezes manifestou noutras ocasiões.
Lembro-me que na altura me envergonhei do lado de cá do ecrã e, ainda agora, tenho dificuldade em arranjar explicação para aquelas atitudes axandradas que foram ali protagonizadas por pessoas que, supostamente e é por isso que ali estavam, deviam não se impressionar com a sofisticação altaneira do apresentador. Quanto a Bernard Pivot, fez-me lembrar uma definição que o general de Gaulle - nem de propósito! - tinha a respeito dos comunistas: «Fazem o que lhes permitem e permitem o que lhes fazem». Que foi assim, podem ir ver o vídeo de como o mesmo Pivot se relacionou com Woody Allen quando o teve como convidado no Bouillon de Culture, a começar pelo facto de Allen ter conversado na sua língua materna...
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