14 abril 2023

O ANÚNCIO DA SEQUENCIAÇÃO DO GENOMA HUMANO

(Republicação)
14 de Abril de 2003. Através de um comunicado conjunto de todas as entidades envolvidas no projecto, (projecto esse que havia demorado 13 anos e custado cerca de 3.000 milhões de dólares), é anunciada a conclusão - a 99% - do processo de sequenciação do genoma humano. É aquele género de notícia em que haverá uma percentagem semelhante de leitores - uns 99% - que se apercebe que ela deve ser importante mas, se não lhe explicarem na hora e mesmo com os novos meios de aprendizagem à sua disposição, também não vai ao Google pesquisar porquê...

13 abril 2023

«L' INSUPPORTABLE MANU»

A política externa francesa nunca foi particularmente apreciada pela The Economist e isso tornou a mostrar-se evidente pela cobertura que a revista fez à visita que o presidente francês acabou de realizar a Pequim. Havia dado conta aqui dessa parcialidade antes da visita, agora dou conta dela depois da mesma visita, mais uma vez, a escolha insidiosa de um título - «O erro de Emmanuel Macron sobre Taiwan» - a dar uma sugestão que tudo o que está a acontecer à respeito da ilha se lhe poderá dever. E mais uma vez, a manter-se o contraste - fascinante... - entre a cobertura destacada a esta visita e o desinteresse manifestado por outras visitas adjacentes no tempo: havia sido a de Pedro Sanchez de Espanha, agora é a de Lula da Silva do Brasil. Quanto ao insuportável Manu, é uma personagem de BD.

QUEM SE NOTABILIZA PELA ESPADA, ARRISCA-SE A MORRER DA MESMA FORMA... (R)

A história dos recebimentos indevidos de Mariana Mortágua surgiu há um pouco mais de um ano, em Março de 2022 (abaixo, pode ler-se o que eu comentei então e que considero que se mantém pertinente quanto à indesculpabilidade de Mariana Mortágua) e o assunto parece ter ficado adormecido desde aí. A reacção institucional dos bloquistas a este desenvolvimento que agora surge - «mais um dos episódios de perseguição política de que Mariana Mortágua está a ser alvo» - é o blábláblá que se esperaria das circunstâncias. À hora a que escrevo, o Público ainda não incluiu a notícia acima: por ali, e ao contrário do que o porta-voz do Bloco se queixa, continua a considerar-se a Mariana Mortágua muito fofinha como é tradição: (1) (2) (3) Só muito contrariados é que falam mal dela...
(R) A notícia da acumulação ilegal de rendimentos de Mariana Mortágua é arrasadora para a imagem impoluta da própria, tanto mais que (percebe-se pela sua leitura) há vários outros colegas seus que têm precisamente a mesma actividade que ela, mas sem incorrerem em qualquer ilegalidade. Nem a manobra de limpeza da reputação que foi lançada rapidamente para a comunicação social, consegue ultrapassar a hipotética pergunta: porque é que os outros cumpriram e ela não? Ou então a pergunta (subjacente à sua justificação) sobre o que é que ela entenderá por exclusividade? Porque é que não optou - como os outros deputados - por a abandonar? Ou, ainda, e tomando a palavra - e a condição de - exclusividade pelo significado comum, se a atitude agora é a da deputada disponibilizar-se para comentar gratuitamente na TV, porque é que ela não começou precisamente por aí? Vimo-la a fazer perguntas muito mais ferinas nas comissões parlamentares em que participou. Enfim, utilizando as suas próprias palavras contra si, numa tirada que a popularizou diante de um Zeinal Bava a fazer-se de idiota (acima), pode-se-lhe perguntar se tudo isto não «é um bocadinho amadorismo» para quem já é deputada há oito anos e meio e devia saber o que a casa gasta, «não é»?...

«MAIS PAÍSES QUE VÃO SOFRER CRUELMENTE...» - como considerava o capitão Haddock

Ele há opiniões que até mesmo o expansivo e irascível capitão Haddock preferia guardar para si. E a perspectiva de ter Cristina Ferreira a reapresentar-se numa Web Summit com aquele seu inglês de m**** no Brasil só nos pode levar a compartilhar a sua opinião a uma anunciada tournée de Castafiore pelas capitais da América do Sul: «Mais países que vão sofrer cruelmente...» Tal é a estupidez da senhora, que ele próprio saberia que a proverbial irascibilidade não produziria quaisquer resultados.

A LOUCURA SEGUNDO STANLEY KUBRICK

(Republicação de Julho de 2012)
Para mim, nenhum cineasta terá conseguido descrever cinematograficamente a loucura no seu estado puro como Stanley Kubrick. Também é verdade que, para o conseguir, precisou de actores de eleição. Acima é a cena mais conhecida, a de The Shining (1980), protagonizada por Jack Nicholson a perseguir a mulher e o seu famosíssimo Heeere's Johnny! – classificado em 68º lugar entre as 100 mais famosas citações do cinema norte-americano. Abaixo é a cena de Full Metal Jacket (1987) em que Vincent D’Onofrio faz o papel do recruta bronco que acabou de flipar completamente.

12 abril 2023

A CULTURA E O ARTISTA

Alguém me confidenciou, na altura da extinção da fundação Berardo (ler abaixo), que o processo viria a revelar-se uma grande "argolada" formal para o ministério de Pedro Adão e Silva. E agora comprova-se que foi mesmo uma grande "argolada" e que a responsabilidade (política) aponta para o mesmíssimo Pedro Adão e Silva. Que agora não se queira apontar o responsável político pela decisão parece-me irrelevante. Este, pelos vistos, depois da comissão das comemorações do 25 de Abril, já não tem inimigos que o queiram abater. Mas também, como as coisas estão, um ministro a mais ou um ministro a menos metido em encrencas não faz diferença, porquê chatearmo-nos com mais este?...

«A mensagem que tinha o título "OS «GATO PUTREFACTO»" e que foi anulada.»

Há uma semana, a «equipa do Blogger», que faz a gestão destas páginas, enviou-me uma notificação de que uma das mensagens que eu publicara há já onze anos e meio fora «sinalizada para análise» e que, depois de analisada, fora «anulada», porque «o seu conteúdo violara a nossa (deles) política de Software (sic, em maiúscula) malicioso e vírus». Poderia rever o que escrevera («actualizar o conteúdo para que cumpra as regras da comunidade») para uma reanálise pel«a equipa do Blogger». Deixei que se passasse toda uma semana, para que a minha irritação se esvaísse, para que me ocorresse esta ideia brilhante de apresentar a mensagem transgressora a quem lê o blogue, na esperança de que me ajudem a «actualizar o conteúdo para que cumpra as regras da comunidade», já que são eles, quem lê os blogues, a verdadeira «comunidade», que a «equipa do Blogger» se fartará de evocar para se legitimar, mas de que é apenas uma mera intérprete. Sem querer influenciar a leitura que se disponham a fazer, eu peço de antemão desculpa, porque se trata de um texto de ocasião, parodiando "grandes" manifestações das "massas populares", recorrendo a uma cenografia velha, velhíssima, do século passado. Mas, descontando esses vetustos, toda a ajuda sincera será, também sinceramente, bem acolhida, para que eu rectifique o que abaixo transborda a fronteira do aceitável. É que eu não encontro...  

ÁLVARO CUNHAL PARTICIPA NUMA «IMPORTANTE» CONFERÊNCIA INTERNACIONAL ONDE PORTUGAL ESTARÁ REPRESENTADO POR ÁLVARO CUNHAL

Numa mesma edição do Diário de Lisboa, a de 12 de Abril de 1983, o zelo militante dos jornalistas desse jornal faz com que a ida de Álvaro Cunhal a uma conferência em Berlim Leste, se desdobre em mais do que uma notícia, que aparece referida em mais do que uma página. Na página 3, no cima da página, é o «secretário-geral do PCP partiu para Berlim onde participará» na tal conferência, na página 14 a notícia é a dar conta que o anfitrião, Erich Honecker do SED, proferiu um discurso de uma trivialidade expectável a pretexto das comemorações do centenário da morte de Karl Marx. E a notícia remata acrescentando que «Portugal está representado por uma delegação do PCP, formada pelo seu secretário-geral Álvaro Cunhal (...) que partem hoje para Berlim», não se desse o caso do leitor ter lido apressadamente a página 3... Já aqui dei conta, há quase precisamente dois anos, quão misterioso era este zelo dos camaradas jornalistas do Diário de Lisboa por todos os eventos do partido comunista dominante (SED) na Alemanha Oriental. Vivíamos num país ocidental democrático mas, para um leitor do Diário de Lisboa, quase se criava a ilusão que existia um sistema autónomo de relações exteriores do PCP com os países do bloco de Leste.

11 abril 2023

MESMO SEM QUE O DIGAM, POR TUDO O QUE ACONTECEU ATÉ AGORA, JÁ SE CONCLUIU QUE...

...este indivíduo foi nomeado para o cargo que (ainda) ocupa (presidente do Conselho de Administração da TAP) precisamente por se esperar dele um perfil de quem não faz ondas, para ser uma figura decorativa que nenhum dos intervenientes principais respeita. Da parte de quem está a cobrir o escândalo, podiam não o humilhar, expondo a sua irrelevância, mas não lhe façam precisamente o contrário, dando-lhe este cartaz, só por causa de umas opiniões que ele terá tido, opiniões que não interessaram a ninguém e que ele nem terá tido particular empenho em manifestar: «tentou chegar à fala em várias ocasiões com Pedro Nuno Santos sem sucesso»... Só isso? É que isto não é apenas uma questão política (embora seja ela que dá o sumo ao tema), é também uma questão de governança (como agora tanto se gosta de dizer) da TAP. E aí, avaliando-o como presidente do CA da TAP este senhor mostrou-se completamente incompetente, não é?... Ainda por cima, incompetentes deste calibre recebem €12.000 brutos por mês.

(MAIS DE) ⅓ DE ANALFABETOS... E O RESTO

11 de Abril de 1953. Com o vagar que as circunstâncias documentam, começam-se a saber dados significativos que haviam sido recolhidos pelo Recenseamento Geral da População que tivera lugar em 15 de Dezembro de 1950. Haviam-se passado 28 meses: outros tempos, outras dinâmicas... Ficava-se a saber que cerca de ⅓ - ou, mais precisamente, 34,5% - dos portugueses eram analfabetos. Mas essa era a conclusão que se extrairia da leitura do título da notícia. Para quem se dispusesse a ler o detalhe, ao mesmo tempo que fazia contas, aperceber-se-ia que essa proporção - cerca de ⅔ de alfabetizados - era apenas real para a população masculina com mais de 7 anos (67,6%). Entre a população feminina, essa mesma proporção era pouco mais de metade (52,2%). Combinando os dois géneros o número de alfabetos que se apurava era de 59,5% - 40,5% de analfabetos adultos. Estava-se em plena metade do século XX e os números que aqui se reportam equivalem aos registados em França, só que quase cem anos antes... (cerca de 1855-58, ver o gráfico mais abaixo). Esta questão é um dos grandes embaraços da nossa História recente. 

Porém, a nossa História mais recente, a do século XXI, parece estar a demonstrar que ter resolvido aquela questão não foi a resposta que ansiaríamos. Se os padrões actuais de alfabetização e qualificação dos portugueses se equivalem aos da substancial maioria dos países desenvolvidos, a falta de condições da economia doméstica para os empregar, continua a alimentar um fluxo migratório para o estrangeiro, só que agora um fluxo de emigrantes qualificados, como anteriormente ocorrera especialmente para as colónias africanas. Em suma, e como tantas vezes acontece, passámos muito tempo obcecados com aquilo que era apenas um meio (a alfabetização e qualificação da população), pressupondo que, só por si, isso nos faria chegar ao fim desejado (o do desenvolvimento económico). Foi uma grande ilusão colectiva. Ou, para colocar a questão actual nos termos concretos que todos possam compreender: para trabalhar nas estufas alentejanas, não é preciso saber ler, nem escrever.

10 abril 2023

OS MINISTROS QUE SE REUNIRAM COM O SENHOR PRESIDENTE DO MINISTÉRIO

O «Momento Político» de 10 de Abril de 1933 caracteriza-se por uma surpreendente reunião alargada do presidente do ministério (António Salazar) com quatro dos seus ministros: o da Justiça (Manuel Rodrigues), do Interior (Albino dos Reis), do Comércio (Sebastião Ramires) e das Obras Públicas (Duarte Pacheco). Ausentes tinham estado outros cinco ministros: da Guerra, da Marinha, dos Negócios Estrangeiros, das Colónias e da Instrução Pública. Mas a surpresa não era estas últimas ausências, antes a concentração anómala dos primeiros quatro, da parte de um presidente do ministério que já se tornara conhecido por preferir não efectuar reuniões plenárias com todos os membros do executivo. O estilo que António Salazar vai adoptar para os 35 anos seguintes em que permanecerá à frente do governo, é o de pequenas reuniões bilaterais com o titular de cada pasta, e nunca reuniões magnas, para - dizia-se em surdina - dissuadir a constituição de facções dentro do governo. Claro que a natureza humana é mais forte do que esses expedientes e sempre houve facções dentro do governo...

O ACORDO DE SEXTA FEIRA SANTA

(Republicação)
10 de Abril de 1998. Tony Blair pelo Reino Unido e Bertie Ahern pela Irlanda assinam o Acordo que procura pôr fim aos Troubles da Irlanda do Norte. Ausentes da fotografia mas indispensáveis para o sucesso da implementação do Acordo são as várias organizações políticas e político-militares norte-irlandesas e as assinaturas dos seus dirigentes. A maioria assinou, nomeadamente o IRA católico, mas do outro lado, os extremistas protestantes do DUP não o subscreveram. Vale a pena recordar que o Acordo de Sexta Feira Santa foi acolhido à época com muita circunspecção. É que houvera acordos anteriores, como o de Sunningdale em 1973 ou o Anglo-Irlandês de 1985, que se haviam saldado por fracassos. Assim como em 1968 começara, sem qualquer declaração de guerra, ou outra cerimónia formal, os Troubles da Irlanda do Norte terminariam sem garantias que as assinaturas só por si chegassem para que isso acontecesse.

09 abril 2023

OPERAÇÃO PRIMAVERA DA JUVENTUDE

9 de Abril de 1973. Destacamentos de três unidades de elite das forças armadas israelitas (Sayeret Matkal, Sayeret Tzanhanim e Shayetet 13*) realizam uma operação clandestina em Beirute, capital do Líbano. O seu alvo eram várias instalações da OLP que aí se localizavam, assim como três quadros da organização que aí residiam, numa operação de retaliação pelo que acontecera nos Jogos Olímpicos de Munique, sete meses antes. A coberto da noite, os soldados israelitas chegaram à área portuária de Beirute em barcos de borracha que haviam saído de lanchas rápidas estacionadas a 12 milhas ao largo. À chegada eram aguardados por agentes do Mossad que haviam alugados previamente carros para os conduzir até aos seus alvos e para depois os trazer de volta aos locais de desembarque para a extracção. Como em todas as operações do género, por maior que seja o treino, os intervenientes são confrontados com situações inesperadas. No computo global, os três dirigentes da OLP inicialmente visados foram abatidos, mas também terão morrido outras cinquenta pessoas, incluindo dois israelitas, três polícias libaneses e ainda quatro civis, um deles italiano. No filme Munique (2005) aparece uma reconstituição do ataque (acima). As imagens reais recolhidas pelos jornalistas no dia seguinte (abaixo) são bastante menos glamorosas.
* Informação precisa, no estilo de Nuno Rogeiro, mas absolutamente supérflua para a narrativa e para quem não se interesse minimamente pela designação dos corpos de elite das forças armadas de todo o mundo.

08 abril 2023

CARACTERÍSTICAS DO DNA RUSSO

A notícia actual da esquerda, a da prisão do jornalista norte-americano na Rússia, acusado formalmente de espionagem, pode ser confrontada, com propósito, com a da direita, datada de 12 de Abril de 1933, há 90 anos, em que se anunciava o começo do julgamento de 6 engenheiros britânicos em Moscovo, que iam a tribunal acusados de: «1º terem sabotado as fábricas, a fim de minar a indústria soviética e enfraquecer o Estado; 2º colher e utilizar, em detrimento do Estado, informações secretas, de importância militar e estadual; 3º subornar empregados das estações de electricidade do Estado para a execução de actos de sabotagem contra-revolucionária».

No caso concreto do jornalista Evan Gershkovich, nunca me disporia a pronunciar-me quanto à sua inocência a respeito das acusações que lhe fazem. Contudo, o que sei é que, do lado dos acusação, a Rússia tem um rastro histórico tão extenso quanto ridículo de acusações inventadas e julgamentos espectáculo contra estrangeiros (e nacionais), precisamente nas ocasiões em que os seus responsáveis políticos pretendem deflectir responsabilidades sobre aquilo que lhes possa estar a correr mal. É uma coisa do DNA russo, que faz com que a expressão "justiça russa" seja uma contradição nos seus termos.

AINDA A CAMPANHA ELEITORAL DE ABRIL DE 1983

Regressamos ao tema da campanha eleitoral para as eleições legislativas de Abril de 1983, agora para dar destaque a mais contributos pessoais de outros «influencers», estes em prol do Partido Socialista. Também aqui aparecem nomes surpreendentes como serão os casos de Simone, Herman José ou Rui Veloso, menos surpreendentes os de Júlio Isidro ou Paco Bandeira, embora o discurso do penúltimo (Isidro) seja de uma desfaçatez que chega a agredir a inteligência daqueles a quem se dirige: «...dos encontros do PS com a juventude (...) encontros para o convívio entre artistas e o público, nomeadamente sem se falar de política e, calculem!, na altura da campanha eleitoral! O PS não está interessado em falar de política, há outras coisas muito mais importantes para fazer como (...) curtir boa música e convivermos uns com os outros»... O Júlio Isidro dizia estas coisas absurdas muitos anos antes de se ter tornado pai da Inês Lopes Gonçalves e, por causa disso, uma pessoa responsável.

07 abril 2023

QUEM É QUE NESTE PAÍS AUMENTA UM EMPREGADO SEU EM 50%?!...

O que este exemplo apresentado acima por Pedro Santos Guerreiro tem de rigor aritmético, tem, ao mesmo tempo, de falta de adesão à realidade das empresas portuguesas. Em décadas, nunca me deparei com uma empresa portuguesa que, para segurar um trabalhador seu, lhe tivesse oferecido um aumento de 50% (de € 1.000 para € 1.500), como no exemplo a que ele recorre no programa. E essas décadas de que falo englobam muitos anos em que as taxas de inflação foram de dois dígitos... Todo o português médio sabe que, ou negoceia bem a sua admissão a uma empresa, ou então não tem quaisquer condições de ser aumentado significativamente depois de estar "lá dentro". E tenho Pedro Santos Guerreiro na condição de "português médio", que já trabalhou em vários sítios: também terá passado pela experiência de, quando quis ser aumentado, mudou de emprego. Para que é que está ali a assumir o discurso exculpatório das empresas, para que elas não aumentem salários, invocando o chamado "hiato fiscal" com um exemplo mirabolante? A experiência das empresas portuguesas é que, quando alguém vem pedir um aumento "robusto", a hierarquia e a malta dos recursos humanos preferem deixar fugir os «colaboradores» mais cobiçados, a perturbar as grelhas rígidas de remuneração em vigor na empresa. É instintivo, é cultural e dura desde que eu me lembro. É por isso que não vale a pena dar-lhe um nome em estrangeiro, como "tax wedge". E Pedro Santos Guerreiro tem obrigação de saber que o Mundo das empresas é como é.

PERGUNTAS COM A RESPOSTA INSIDIOSAMENTE INCLUÍDA

Pela maneira como a The Economist coloca a pergunta sobre que resultados se podem esperar da iniciativa diplomática do presidente francês Emmanuel Macron, percebe-se o quanto depositam poucas esperanças nela. Se a iniciativa diplomática foi do francês - armado mais uma vez em representante da Europa sem ninguém lhe ter passado procuração... - então a lógica para avaliar essa iniciativa seria a de, na revista, perguntarem-se se Emmanuel Macron conseguiria dar a volta a Xi Jinping. Se a conduta da China poderá, em consequência da visita, tornar-se verdadeiramente mais neutral do que tem sido até agora. Ora o título escolhido põe a questão ao contrário: pergunta se o chinês vai dar a volta ao francês... Neste género de artigos, mesmo que eu tenha uma opinião e uma expectativa pré-formada (e aqui tenho: o primeiro-ministro espanhol passou por Pequim a semana passada e nada conseguiu), o que dispenso é um articulista cuja opinião é óbvia de antemão, mas a disfarçar-se de analista equidistante. 

VOCÊ AINDA SE LEMBRA QUANDO O DISCURSO DA INSEGURANÇA DO ANDRÉ VENTURA ERA PROTAGONIZADO PELO PAULO PORTAS?

Foi há quinze anos. É bom recordar hoje que sempre houve audiência para este tipo de tretas. Este género de palermas (era Portas em 2008, agora é Ventura) fartam-se de apregoar a insegurança em que vivemos e de tentar justificar as opiniões e interesses dos caceteiros da nossa sociedade, para os quais a solução é sempre a porrada, ao mesmo tempo que escondem, hipocritamente, o facto de que, naqueles índices de segurança comparativos à escala mundial, Portugal sempre se posicionou como um dos países mais seguros do Mundo! A m**** do discurso é sempre a mesma, o moscardo que faz barulho à sua custa é que muda!

06 abril 2023

O QUE É DEPLORÁVEL NA CONDUTA POLÍTICA DE ANA CATARINA MENDES...

O que é deplorável na conduta política de Ana Catarina Mendes é a forma descarada como aparece a mentir: «os município» terão sido «ouvidos» quanto ao plano governamental para a habitação, mas o que se retém dessa audição é que o governo ignorou as suas opiniões (aqui, a partir dos 06:10, os presidentes das câmaras do Porto, Lisboa e Oeiras a demarcarem-se das medidas governamentais).  Ou como Ana Catarina Mendes aparece a tentar demarcar-se das manobras sórdidas de bastidores em que se ficou a saber que se envolvera, no caso da reunião «secreta» prévia com os parlamentares do PS, antes da formal que se seguiu com todos os partidos. Foi-lhe «solicitado», mas esquece-se de nos dizer quem o solicitou. Mas o que é verdadeiramente deplorável nestes episódios recorrentes é a impunidade de que Ana Catarina Mendes goza da parte da comunicação social, como se a sua falta de ambição de chegar mais alto no aparelho socialista servisse de deflector a apontar-lhe os seus erros de conduta.

O 40º ANIVERSÁRIO DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL

6 de Abril de 1983. Foi com a discricionariedade que acima se constata que foi noticiada - e apenas no dia seguinte ao acto! - a tomada de posse dos 13 membros iniciais do Tribunal Constitucional. Pela atenção que lhe dispensaram, pela redação da própria notícia, percebia-se nitidamente, da parte dos jornalistas, uma completa ignorância quanto à importância do novo órgão de soberania, que substituía o Conselho da Revolução.