Na Lisboa de antes de 1755, do Convento de Santo Elói, situado naquele que é o actual Largo dos Lóios, dominava-se a vista até ao Tejo conforme se pode observar pela fotografia acima da maquete dessa Lisboa desaparecida. Foi nesse Convento - cujo campanário aparece em primeiro plano - que há precisamente 350 anos, a 13 de Fevereiro de 1668, se concluíram as negociações para o Tratado de Lisboa que poria fim à Guerra da Restauração. Os ingleses serviram de mediadores. É coisa que tem faltado a Puigdemont - mediação.
13 fevereiro 2018
O VIZINHO DO 3º J
Ontem participei na reunião da assembleia de condóminos cá do prédio. Foi a propósito disso que me lembrei de afixar esta simbólica fotografia acima. Sem lá morar e apenas à vista desarmada, não nos ficam dúvidas de que a reunião homóloga do prédio que tem este quadro de campainhas à entrada, é certamente muito mais animada quando o condómino do 3ºJ comparece...
12 fevereiro 2018
NADA ESTÁ DEFINITIVAMENTE ASSEGURADO ATÉ JOÃO MARQUES DE ALMEIDA ANUNCIAR O SEU FIM
Acredito que até a própria Angela Merkel, desconsolada com o arrastar das negociações para a formação do governo, já andasse a pensar em meter os papéis para a reforma, quando recebeu esta informação do embaixador alemão em Lisboa de que João Marques de Almeida profetizara o seu fim no Observador. Por essa Europa fora, há poucas demonstrações de argúcia política mais convincentes do que um vaticínio de João Marques de Almeida, o homem que vaticinou que Marcelo não se candidatava mas que, se o fizesse, perdia, o homem que vaticinou que não havia maioria de esquerda para a geringonça governar, o homem que, enfim, antecipou o fim do Bloco de Esquerda (abaixo) com a mesma assertividade como hoje antecipa o fim de (uma reconfortada) Angela Merkel. Se o panorama é agora de que vamos ter Merkel para durar mais uns anos, em contrapartida quem se devia aposentar eram cronistas como Rui Zink ou Miguel Esteves Cardoso, que têm a mania que têm piada, mas que nada os consegue fazer sair da sombra do incomparável humor irónico de João Marques de Almeida, que antecipa uma coisa, quando pensa precisamente o contrário...
Falando agora a sério, o meu texto anterior recupera um tema já aqui abordado, o mistério que envolve a manutenção do destaque a cronistas que só escrevem baboseiras. Não é apenas o facto de se enganarem, que isso até pode acontecer frequentemente. É o facto de se enganarem muito. E enganam-se muito porque os seus textos são de uma superficialidade confrangedora. Neste caso concreto do que João Marques de Almeida possa pensar da situação política alemã, ele faz figura de touro a ser levado pelas chocas no fim da corrida: só dá destaque aos tópicos para onde apontam os holofotes. O actual impasse político não envolve apenas a CDU, a CSU e o SPD. Antes, tinha havido uma tentativa de formar uma coligação com Liberais e Verdes, a Jamaika Koalition. Foi no ano passado, é verdade, mas não foi propriamente no século passado, para que o assunto agora pareça ter desaparecido de agenda e nem sequer tenha sido mencionado na crónica. Porque é que o SPD tem responsabilidades na sustentação de um governo para a Alemanha que o FDP e os Verdes não quiseram ter? Ou então, porque é que a CDU está disposta a fazer concessões ao SPD que não fez aos outros dois? A quem a responsabilidade da CDU ostracizar à partida a AfD como parceiro de coligação? Os holofotes parecem apontados para que o problema seja do SPD, uma narrativa de um confronto entre as bases do partido e as suas elites, corporizadas na pessoa de Martin Schultz, a raiz do mal: «Pior do que tudo, Schultz prometeu que nunca serviria num governo liderado por Merkel. Quis mudar de ideias, mostrando que a sua palavra nada vale.» É tudo demasiado maniqueísta e superficial para poder ser levado a sério. Que relações misteriosas perpetuam este gajo a escrever para aquele, para qualquer jornal?
Nota adicional: Vale a pena ler o primeiro comentário na caixa abaixo. Não sabia o que lá aparece escrito porque não sigo atentamente tudo o que o cronista escreve (há limites de paciência para nos dispormos a ler disparates), mas não me surpreende de todo.
ELEMENTOS PRIMÁRIOS DO HUMOR
Em português, talvez porque o humor no nosso idioma seja mais completo e/ou mais complexo, há que adicionar Oxigénio no fim...
REFERENDOS A SÉRIO QUE DEPOIS NÃO FORAM LEVADOS A SÉRIO
12 de Fevereiro de 1956. Uma notícia local muito discreta anuncia a realização de um referendo na ilha de Malta, então possessão britânica. O que a metrópole propunha, através daquele referendo, aos 320.000 malteses que então viviam na ilha, era a hipótese da integração no Reino Unido. De acordo com a proposta, Malta seria representada em Westminster por três deputados (é esse o significado do postal acima), embora possuísse também parlamento e autonomia interna, num formato semelhante ao que vigorava, por exemplo, na Irlanda do Norte. Simultaneamente, eram feitas fortes promessas de que se iriam tomar medidas concretas para que o padrão de vida médio dos malteses se aproximasse do dos habitantes do Reino Unido. O referendo decorreu durante dois dias. No final, o Sim venceu substantivamente recolhendo 67.600 votos (77%) contra 20.200 (23%) de Nãos, mas com uma baixa afluência às urnas, na ordem dos 90.000 eleitores (59% do eleitorado), a mostrar que uma apreciável percentagem deles (havia cerca de 150.000 eleitores registados) se havia manifestado abstendo-se de participar. De qualquer modo, teria sido uma base eleitoral sólida para prosseguir o processo político da integração, não fosse o interesse progressivamente menor do poder britânico. Para estes, a posição estratégica de Malta no centro do Mediterrâneo perdia gradualmente importância com o encolher do Império Britânico. A nacionalização do Canal do Suez pelos egípcios e o fiasco subsequente terá sido um momento crucial para a descoberta pelo Reino Unido de que Malta perdera todo o interesse. Deu-se assim uma inflexão brusca nos propósitos britânicos, o resultado do referendo livre e democrático de há 62 anos foi convenientemente esquecido e oito anos depois, em Maio de 1964, organizou-se um outro referendo, a respeito de uma nova constituição para Malta que concederia, acessoriamente, a independência ao país. Apesar deste referendo desdizer o anterior, também ganhou o Sim com 65.700 votos (54,5%) contra 54.900 (45,5%) de Nãos, uma afluência de quase 130.000 eleitores entre mais de 160.000 possíveis (79,7%). Malta tornou-se independente quatro meses depois desse outro referendo, a 21 de Setembro de 1964, mas, o que me parece mais importante em toda esta esquecida inflexão política, é a lição de que a importância dos referendos está em convocá-los, nos interesses políticos de quem os convoca e nas perguntas que estes últimos colocam ao eleitorado. Neste caso, a partir do momento em que deixou de interessar ao governo britânico integrar Malta no Reino Unido, o assunto saiu de agenda, independentemente de qual fosse a opinião do povo maltês. Muito engraçados são os exercícios dos nacionalistas malteses a procurar desvalorizar os resultados do referendo de 1956 face ao de 1964. A verdade é precisamente ao contrário: os votos favoráveis registados em 1956 (67.600 - 44% de todo o eleitorado) são até mais do que os de 1964 (65.700 - 40%)...
11 fevereiro 2018
ASTÉRIX MACRON NA CÓRSEGA
A visita de Emannuel Macron à Córsega antecipava-se difícil, como se comprova por esta reportagem da Euronews, transmitida antes da sua realização. Os nacionalistas corsos têm várias reivindicações e muito do que pedem inspira-se no que é concedido às autonomias do vizinho espanhol. O presidente francês chegou e, inspirando-se por sua vez num predecessor ilustre, mostrando muita compreensão, ofereceu-lhes pomposamente uma mão cheia de coisa nenhuma, consubstanciada numa referência na Constituição francesa à singularidade corsa.
Pela reacção que se lê acima, os nacionalistas corsos é que não serão tão ingénuos quanto o eram os pieds-noirs da Argélia de há 60 anos. É oportuno recordar, a propósito desta visita presidencial à Córsega que, há 45 anos, por ocasião da publicação de Asterix na Córsega, se ergueram algumas sobrancelhas desagradadas entre os mais altos quadros da França pompidouliana, por René Goscinny ter dado destaque aos corsos como distintos dos gauleses, com um título idêntico às aventuras com godos, normandos, bretões, hispanos ou helvécios. Esses, eram estrangeiros...
O EMBARQUE
11 de Fevereiro de 1965. Quatro anos depois dos acontecimentos de Luanda, já os embarques para o Ultramar haviam passado à condição de rotina. Já se perdera a premência do lema «para Angola, rapidamente e em força», tanto mais que as guerras se haviam estendido entretanto à Guiné e a Moçambique, e a notícia de mais um embarque de tropas era remetida para uma página discreta e interior do jornal desse dia. Para aferição, na notícia do lado, noticiava-se que o «Beatle» Ringo Starr casara com Maureen Cox. Os cuidados que eram postos na redacção da notícia podem agora, cinquenta e três anos depois, ser esclarecidos. O «barco da nossa Marinha Mercante» era um dos navios da frota da Sociedade Geral requisitado para o transporte de tropas, mas que não me é hoje possível precisar qual fosse (o Manuel Alfredo? o Alfredo da Silva?).
O «contingente militar» era composto por três Companhias de Caçadores - a CCaç. 762, 763 e 764 (abaixo) - e deve-se precisar o seu destino em vez do vago «Ultramar» que lá consta: Guiné. Deve-se sobretudo prescindir do eufemismo da expressão de que o contingente partia «em missão de soberania»: ia para uma guerra. Não para uma guerra daquelas tradicionais, como havia então ainda a memória da das trincheiras, mas ainda assim uma guerra que se evitava designar por esse nome. O desfile a preceder o embarque era agora presidido por um obscuro coronel, que passara a representar todas aquelas altas patentes que haviam deixado de comparecer às cerimónias, agora politicamente desvalorizadas pela repetição e regularidade. E era também ele que dirigia algumas palavras á oficialidade. E o comandante do contingente, agradecia. Há cinquenta e três anos era assim...
10 fevereiro 2018
" - COMO É QUE EU NÃO VI ISTO?"
A procuradora que dirigiu o DCIAP tem toda a razão. Também a nós nos calha, às vezes, cruzarmo-nos no metropolitano com pessoas bizarras e não damos por nada...
09 fevereiro 2018
QUANDO AS REVISTAS SE PÕEM A INVENTAR...
Edição da revista TIME de 9 de Fevereiro de 1968. Por causa da inesperada Ofensiva do Tet, a Guerra do Vietname recupera um novo protagonismo na comunicação social dos Estados Unidos. E a revista TIME resolve voltar a dar um rosto ao inimigo: o general Võ Nguyên Giáp, que fora o vencedor da batalha de Điện Biên Phủ contra os franceses. O tempo virá a demonstrar o quanto a tese não tem qualquer correspondência com a realidade. Na verdade, o general Giáp, com outros dirigentes comunistas, fazia parte de uma facção que teria preferido dar prioridade ao reforço da capacidade logística do Vietname do Norte, antes que se promovesse um crescendo de intensidade no conflito, como aquele que era agora representado pela Ofensiva do Tet. Nas discussões de cúpula que haviam tido lugar no ano anterior, Giáp fora um dos derrotados quanto às opções estratégicas, face a uma facção mais militante que preferia antecipar para já essa iniciativa e que, entre os militares, era encabeçada pelo general Nguyễn Chí Thanh. Esses é que ganharam a causa para que se desencadeasse a mega-ofensiva militar então em curso. Embora estivesse agora a contribuir com todo o seu saber táctico para a sua prossecução, Giáp fora um dos primeiros derrotados (no campo da oportunidade estratégica) pela Ofensiva do Tet. Porém, e por causa da completa opacidade como funcionava o poder no Vietname do Norte, tudo isso era então completamente desconhecido da comunicação social internacional. Que, por via das dúvidas, nestas ocasiões e mesmo que não se saiba nada, entre estar calada e dizer qualquer coisa mesmo que se esteja completamente às escuras, opta sempre por esta última hipótese. Era um princípio tão válido há cinquenta anos quanto hoje. Creio que vale a pena estar a chamar a atenção para estas circunstâncias quando se ouvem palpites a respeito da Coreia do Norte...
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08 fevereiro 2018
O TRAIDOR
É verdade que não se colhe qualquer proveito político directo em denunciar traidores, mas talvez seja principalmente por causa disso que o julgamento de Frederico Carvalhão Gil como espião russo passou praticamente desapercebido da atenção mediática. Isso, e o facto de muitos detalhes do julgamento serem naturalmente classificados dado o melindre do assunto. Para o que interessa, terminou hoje com a condenação do espião a sete anos e quatro meses de prisão. E vale a pena dar-lhe aqui visibilidade para que tomemos consciência que os traidores existem e têm rosto, não são apenas aquele folclore do Miguel de Vasconcelos arremessado da janela por ocasião das celebrações do 1º de Dezembro.
UMA PERGUNTA PARA A QUAL NUNCA OBTIVE RESPOSTA
A pintura apareceu-me inesperadamente numa rede social, descobri ser da autoria de uma artista grega que eu desconhecia de todo. Não virá para o caso apreciar-lhe os méritos, já que também não terão sido eles a incitar-me à invocação da obra no blogue, uma associação improvável de ideias e o regresso a uma pergunta que fizera vai para bem mais de trinta anos, pergunta para a qual nunca obtive resposta. Estava-se no ano de 1980 e a RTP estava a passar pela revolução de passar a emitir a cores. Para captar as novas emissões havia que comprar novos televisores a cores em substituição dos tradicionais a preto e branco, que haviam honrosamente servido durante os 23 anos precedentes. E havia também que os sintonizar... Imagine-se agora o desapontamento geral quando, antes de o fazer, e quando o ecrã da nova televisão a cores acabada de desembrulhar apenas transmitia ainda a tradicional chuva de estática, esta continuava a fazê-lo no desapontante preto e branco tradicional! Porque é que a chuva das televisões a cores não passara a ser também colorida (como o quadro acima) ?...
HOJE É UM DAQUELES DIAS...
...em que tudo tende a correr mal, em que até na guerra o inimigo pode ficar sossegado no seu canto que a Sorte, madrasta, se encarrega de nos derrotar... Em 1944, um soldado britânico abriga-se sob um blindado acidentado, à espera que a chuva passe.
O FOGUETÃO MAIS PODEROSO DO MUNDO: «- É MENTIRA!»
Depois do lançamento de ontem (analise-se o vídeo acima com o lançamento do foguetão da SpaceX) o que terá mudado radicalmente na exploração espacial é a coreografia que passou a acompanhar os momentos mais dramáticos. À sobriedade dramática e contida para quem ainda se lembra de ocasiões equivalentes de há quase 50 anos com o programa Apollo, a ascensão do foguetão é agora transmitida com uma banda sonora de fundo de aplausos e assobios encorajadores a fazer lembrar um estádio de futebol ou a assistência de um festival de música. Mas isso é o menos: outra vítima colateral da privatização da exploração do espaço foi a Verdade. São quase todos os órgãos de informação que propagandeiam, sem contraditório, que o Falcon Heavy é o foguetão mais poderoso do mundo. Ora vai-se ver a ficha do foguetão na wikipedia e dão-no com uma capacidade para colocar objectos em órbita terrestre baixa (LEO) até um peso de 63.800 kg. O Saturno V, que levou os astronautas das expedições Apollo até à Lua e que permanece desde aí como a referência dos colossos da astronáutica tinha uma capacidade para colocar objectos naquela mesma órbita de até 140.000 kg, ou seja, mais do dobro do que é anunciado pelo foguetão mais poderoso do mundo... Houve também o N1 soviético (95.000 kg + 50%), mas admitamos que esse não conte, porque não chegou a ser considerado operacional. De todas as formas e como diria o major Valentim Loureiro com aquele seu enfâse único: É Mentira!
Também mentira ou, pelo menos, um terço de mentira, foi o processo de recuperação dos três lançadores que constituíam o foguetão original. O processo de recuperação dos dois laterais, menores, correu como planeado e foi, como quase todo o resto da operação, filmado e difundido em vídeo com a banda sonora dos aplausos entusiásticos em som ambiente.
Mas não há imagens e poucas referências ao terceiro lançador central, o maior, cuja recuperação se saldou por um fracasso (falhou por 100 metros a plataforma do navio onde era suposto aterrar e desintegrou-se ao embater com a água a uma velocidade próxima dos 500 km/h), embora para ir encontrar essa informação tenha sido preciso ir buscá-la aos cabeçalhos de outros jornais que não os portugueses. Imagens espectaculares dessa desintegração? Até agora: nada. Só os sucessos! Qual terá sido mesmo o papel de escrutínio dos nossos jornalistas, em tudo isto?... Nenhum.
Adenda:
Ficou ainda por dizer que, quando as ideias promocionais se revelam bem sucedidas (como esta de colocar um automóvel «tripulado» em órbita), isso também desperta logo a imaginação alheia...
07 fevereiro 2018
O VOTO FEMININO NA SUÍÇA
7 de Fevereiro de 1971. Foi só há quarenta e sete anos, e através de um referendo realizado neste dia entre os eleitores masculinos, que as mulheres suíças receberam finalmente o seu direito de voto em eleições federais. A vitória foi significativa (65,7% de sins - cuja distribuição aparece assinalada no mapa abaixo pela intensidade da cor verde em cada um dos cantões), mas, mesmo assim, a não fazer esquecer o resultado de um referendo anterior sobre aquele mesmo tema, realizado doze anos antes, em que o resultado fora precisamente o oposto (66% de nãos). Como se percebe pela distribuição abaixo, a oposição mais conservadora ao voto feminino registava-se nos cantões germanófonos. Por curiosidade, refira-se que o direito de voto às mulheres em Portugal fora originalmente concedido de forma restrita em 1931, progressivamente alargado em 1946 e 1968.
COMO UM «PLACARD» ESQUECIDO DE BEIRA DE ESTRADA
Se visitarem a página do Observador, ao lado direito, como conviria a um qualquer placard de beira de estrada, lá se perpetua a nota de que o Vasco Pulido Valente do Diário de Vasco Pulido Valente (bold) regressará em breve. A última entrada do dito data de há mais de sete meses, mas o Observador persistirá em manter o aviso, assim como outrora havia aqueles placards esquecidos na beira da estrada em que um qualquer concessionário de uma marca de automóveis numa cidade de província prometia por anos a fio que ali iriam ser as suas futuras instalações. Quanto à quantificação da brevidade do regresso que é ali prometida pelo Observador, a resposta mais rigorosa, sete meses de brevidade entretanto escoados, será aquela que se ouve no filme O Pai Tirano: «Há meia hora que já são dez horas, e o espectáculo começa às nove e três quartos!»
06 fevereiro 2018
O «EFEITO BORBOLETA»
O Efeito Borboleta é um dos elementos constitutivos da Teoria do Caos mas costuma ser muito mais conhecido no formato metafórico como foi originalmente apresentado por Edward Lorenz (1917-2008): quaisquer características de um fenómeno atmosférico extremo como um tufão (momento da formação ou percurso que venha a assumir), podem ter sido influenciadas por perturbações insignificantes como o bater das asas de uma borboleta algumas semanas antes e do outro lado do Mundo. 6 de Fevereiro de 2006. Há doze anos a Sonae lançava uma OPA à Portugal Telecom. Na altura era uma incógnita que atitude adoptaria o Estado português. E demorou mais de um ano até que a operação fosse formalmente rejeitada na assembleia geral da PT, que teve lugar a 2 de Março de 2007. Belmiro de Azevedo aceitou mal o desfecho e não deixou de mostrar que considerava o primeiro-ministro de então, José Sócrates, responsável pelo fracasso da OPA, ao ter interferido com a operação. Aliás, o jornal Público, que até à recusa da OPA se mostrara benigno para com o governo, procedeu a partir daí a uma inflexão brusca de conduta a respeito do primeiro-ministro, que se concretizou, por exemplo, no escândalo das condições em que fora concluída a sua licenciatura (2007), na investigação feita por José António Cerejo a José Sócrates, a propósito da assinatura dos projectos de construção na Guarda (2008) ou ainda de irregularidades a respeito de uma empresa da mãe de Sócrates (2009). É que, não nos confundamos, o antagonismo entre José Sócrates e o Correio da Manhã é posterior a esses anos (é de 2013), já ele abandonara o poder e fora viver para Paris. Depois disso, e com a sua prisão preventiva, a situação de José Sócrates deixou de ser apenas do foro jornalístico (2014). A minha pergunta, provocada por esta data e evocando o tal efeito borboleta, é se aquela longínqua OPA da Sonae se tivesse porventura concretizado da forma que Belmiro de Azevedo gostaria, ou se Belmiro de Azevedo não tivesse atribuído a causa do seu fracasso à intervenção de José Sócrates, será que hoje saberíamos todos do grau de profunda amizade que Carlos Santos Silva nutre por José Sócrates?...
05 fevereiro 2018
OS MILAGRES PRECISAM DE SER CONTEXTUALIZADOS
O momento acima pode ser a realização de um milagre, mas também pode apenas ser uma senhora que se aborreceu e resolveu atirar fora as canadianas. O fotógrafo - Joel Meyerowitz em 1969 - até nos poderia esclarecer sobre o que se tratara, mas a sua fotografia perpetua o equívoco sobre o que de facto aconteceu. Até hoje, ainda não percebi se Mário Centeno se superou miraculosamente para alcançar as reduções dos défices públicos que haviam sido anteriormente prometidas e nunca foram concretizadas pelo governo anterior. Ou se ele se limitou a usar os mesmos meios e foi apenas competente onde os dois antecessores (Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque) não o haviam sido. Em qualquer dos casos, os resultados da execução orçamental de 2017 começam a aparecer por aí, assim como aquela senhora parece que não precisa de auxílio para se continuara a manter em pé.
UM DISCURSO DE TRETAS
5 de Fevereiro de 2003. O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, comparece perante os membros do conselho de segurança da ONU defendendo uma intervenção militar no Iraque por causa das provas de que aquele país dispunha de armas de destruição maciça. Normalmente, quando se refere o episódio, esquece-se que o exercício de persuasão falhou nas suas intenções de alterar as opiniões cépticas, como eram os casos da Alemanha, da China, da França ou da Rússia. A reacção do órgão mudou de tom, mas não se modificou na substância. Mas também as potências cépticas se viram impotentes em deter as intenções dos Estados Unidos. Seguir-se-ia, dali por um mês e meio, a cimeira das Lajes. A novidade não foi estar a haver uma fractura no Conselho de Segurança, foi o traçado dela, com vários países europeus a seguirem a oposição da França e da Alemanha às intenções americanas. A grande vítima pessoal de todo o episódio veio a ser o próprio Colin Powell mais a credibilidade que granjeara na anterior Guerra do Golfo, quando o desenrolar dos acontecimentos veio a demonstrar que a esmagadora maioria do que alegara naquela ocasião - nomeadamente a existência de armas de destruição maciça - era, pura e simplesmente, mentira. Mesmo que tenha depois reconhecido o erro poucos anos depois (abaixo), a verdade é que a História não se reescreve e a credibilidade é muito mais difícil de reconquistar depois de perdida uma vez.
04 fevereiro 2018
PARIS SERÁ SEMPRE PARIS!
O autor desta curta história de BD de seis paginas é Gérard Lauzier (1932-2008) que, no seu estilo sarcástico inconfundível, já há mais de trinta anos (a história data de 1986, com a França ainda sob Mitterrand ), troçava cepticamente dos resultados da integração dos imigrantes. O 20º Bairro de Paris, onde o jornalista faz a reportagem, situa-se nos arredores orientais da cidade e tem cerca de 200.000 habitantes, sendo conhecido pela predominância da população africana entre os seus moradores.
O remate jocoso da história é que, em contraste com o 20º, o 13º Bairro de Paris, situado a sudeste da cidade, concentra a maioria da população asiática, nomeadamente vietnamita.
UMA QUESTÃO DE SER (OU NÃO SER) UMA DENOMINAÇÃO COLONIAL
4 de Fevereiro de 1976. As autoridades da nova República Popular de Moçambique (então com um pouco mais de sete meses), mudam o nome da capital do seu país de Lourenço Marques para Maputo. Com a descolonização africana, a questão da toponímia urbana herdada pelos novos países tornara-se um assunto importante quando da assunção das heranças coloniais. O hábito de baptizar com nomes de figuras importantes dos colonizadores tornara-se uma prática comum, que se revelara transversal aos espectros políticos dos regimes coloniais: houvera Léopoldville como capital do Congo, que fora colonizado pelos belgas, mas também houvera Stalinabad como capital do Tajiquistão, colonizado pelos russos. Esses eram casos nítidos do porquê de as novas autoridades mudarem as designações das cidades: Kinshasa no primeiro caso, Duchambé no segundo. Mas a questão da toponímia urbana em África pode revelar-se mais complexa: a chegada dos primeiros navegadores portugueses às costas africanas provocou, ela própria e devido ao comércio, a formação de núcleos urbanos que vieram a prosperar e receberam designações de inequívoca inspiração portuguesa: vejam-se os exemplos de Lagos, a maior cidade da Nigéria ou então de Porto Novo, a segunda maior cidade do Benim. Se os nomes das cidades vingaram, a presença dos portugueses, pelo contrário, foi sendo substituída pelos seus rivais europeus e quando da repartição colonial de África no século XIX, a Nigéria ficou pertencendo aos britânicos, o Benim (então conhecido por Daomé) aos franceses. Talvez por isso, ou talvez porque as designações fossem despretensiosas e não invocassem ninguém importante, os nomes daquelas duas cidades (e de outras) mantiveram-se. Aquilo que se sabe sobre o Lourenço Marques que deu o nome à cidade que veio a ser a capital de Moçambique assemelhava-se muito na sua simplicidade e despretensão aos incógnitos fundadores de Lagos e Porto Novo. Apenas essa fundação terá tido lugar quase um século depois, por volta de 1550. A denominação Lourenço Marques não se assemelharia em nada ao cunho ideológico colonial de António Enes ou João Belo, ou a uma homenagem a um figurão metropolitano como Salazar ou a rainha D. Amélia. Lourenço Marques estaria mais na linha de um percursor de um avançado como o anónimo cantineiro Dias que, com o seu faro para os negócios, fundou a sua cantina (Cantina Dias) no mais recôndito da província do Niassa em meados do século XX. Nesse aspecto, Lourenço Marques poderia ter sido um exemplo de um moçambicano de ascendência portuguesa, cuja referência valeria a pena preservar, mas isso não era nada popular em 1976. Eram momentos atípicos e de grande confusão ideológica: mesmo um jornal comunista como o Diário de Lisboa de há quarenta e dois anos (abaixo) celebra em primeira página a mudança de nome, num rasgo de solidariedade anti-colonialista que mostra ser, ao mesmo tempo, obtusa quanto aos exemplos dos Leninegrados e Stalingrados dos seus regimes favoritos que haviam mudado e que virão a mudar de nome. A Frelimo não foi pragmática? Poderia ter corrido de outra maneira? Dando uma vista de olhos pelos países da vizinhança, é verdade que o Zimbabwe demorou dois anos (1982) a mudar o nome da sua capital de Salisbury para Harare, mas também é verdade que o antigo primeiro-ministro britânico nunca pusera os pés na cidade com o seu nome. No Malawi, a capital económica chamava-se Blantyre (como a localidade escocesa onde nasceu David Livingstone) e assim permaneceu depois da independência. Quanto à capital económica da Tanzânia essa possui e manteve o nome reconhecidamente árabe de Dar es Salaam (à letra: casa da paz). Tantos anos depois o mal está feito, mas assim visto à distância e comparando com o que fez a vizinhança fica a parecer que Lourenço Marques, aquele que emprestou o seu nome à cidade de Lourenço Marques foi descriminado por causa da sua ascendência...
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