09 agosto 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (3)

Se a descrição das ruas de Lutécia permanece a mesma das histórias passadas (a cena abaixo é de A Volta à Gália), outra história é a das personagens. A personagem central é Bonemine que contracena com o seu marido Abraracourcix, mas os nossos dois heróis, por muito que dominem o cabeçalho lá em cima, mais não fazem que figuração ao longo de toda a página. Acessoriamente, sendo a guarda de honra do chefe, transportam as compras de madame... que lhes agradece preocupando-se com as maneiras que possam ter quando da visita a casa do seu irmão. Será por exemplos destes que existirá tanta resistência em França à institucionalização da figura da primeira dama?...

08 agosto 2017

A RENÚNCIA DE RICHARD NIXON


Ao serão de 8 de Agosto de 1974, o presidente Richard Nixon renunciava ao seu cargo num discurso televisionado para todo o país (e para o Mundo). A intenção, já todos os jornais desse dia mais ou menos antecipavam (abaixo). Em política, passou a haver um antes e um depois deste desfecho do caso Watergate. O presidente dos Estados Unidos era o homem mais poderoso do Mundo e nesse dia criou-se a percepção que, por muito poderoso que se fosse, nas verdadeiras democracias e em casos de má conduta comprovada, não havia intocáveis. 43 anos depois daquele dia essa percepção já foi muito abalada.

POR ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS...

...a pirâmide de Miquerinos deve ser assim como uma espécie de versão em massa fina do conjunto que é conhecido pelas pirâmides de Gizé.

OS LOUROS DE CÉSAR (2)

À época da publicação de Os Louros de César (1971) Asterix já tinha consolidado uma reputação de se tratar de uma banda desenhada que só aparentemente era infantil mas onde o interesse era fazer uma segunda leitura mais sofisticada. Mas esta história apresenta-se de uma forma demasiado sofisticada para poder ser compreendida satisfatoriamente pelas crianças. Tome-se o exemplo da segunda linha desta página acima: nem é apenas o efeito (complexo) de reverter a acção da história até à acção voltar a Lutécia, fazendo um flashback. É o facto de, sem as explicações dos quadros, não se poder perceber o que se está a ser feito. Se as crianças ainda analfabetas não podiam acompanhar os detalhes da intriga nas aventuras precedentes, neste caso elas parecem completamente esquecidas, quase destratadas. Quanto à evolução do desenho de Uderzo ela está bem patente na sofisticação da perspectiva aérea de Lutécia quando comparado com um desenho muito equivalente que havia sido feito em 1960 para a segunda aventura da série, A Foice de Ouro (p. 6). Por fim, repare-se o descaramento como em páginas consecutivas Roma e Lutécia (Paris) são consideradas ambas «a mais prodigiosa cidade do universo».

07 agosto 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (1)

Toda esta primeira página é um desvio à tradição de Asterix (Os Louros de César já é o 18º álbum da série). A primeira imagem, normalmente ocupando metade da página e no mesmo plano elevado que é utilizado, costuma ser da aldeia gaulesa. Aqui é Roma. O bucolismo é substituído pelo urbanismo. Os poucos aldeões que apareciam nessas outras introduções, de que a maioria já era nossa conhecida (Panoramix, Abraracourcix, Assurancetorix, etc.), são aqui substituídos por uma multidão anónima. A Roma de Goscinny (e de Uderzo, que este tipo de desenho exige muito mais precisão e detalhe) é comercial e turística. O humor nesta descrição geral da grande capital do Império pode ser bem ácido - adivinha-se o que terá acontecido ao gladiador para que ele tenha ficado muito diminuído... E Astérix e Obélix primam pela ausência nesta primeira página, algo que previamente só acontecera em Astérix e Cleópatra.

KELLY ou KELLYANNE?

Depois dos seus momentos de fama, quando fotografada ajoelhada em cima de um sofá na sala oval da Casa Branca, houve quem pensasse que Kellyanne Conway havia sido descartada e tivesse passado para um discreto estatuto de reserva que poupasse a própria e a administração de que faz parte a um embaraçoso processo de demissão, de que a Casa Branca tem, aliás, andado bem servida. Mas não, enganámo-nos. Kellyanne continua activa, e porque a season se parece adequar a pessoas com o seu perfil, as notícias e comentários protagonizados por si, mesmo depois (ou até mesmo por causa) das transformações prometidas para breve no funcionamento da equipa que acompanha de perto o presidente Trump, parecem readquirir importância ou, pelo menos, a atenção mediática. O estilo, que a tornou popular por se enquadrar no estereotipo da dumb blonde, é que não parece ter evoluído: desde uma espécie de proposta de submeter o pessoal da Casa Branca a detectores de mentiras para se descobrir a origem das fugas de informação, até momentos surrealistas no meio das entrevistas, quando procura evadir as questões mais delicadas respondendo a alhos com bugalhos (como acontece no vídeo abaixo), a coisa sustenta-se com a selecção da sua pessoa para nos assegurar que Trump pretende reapresentar-se em 2020. Em síntese, as promessas inclusas na recente promoção do general Kelly e a descontração manifestada por Kellyanne parecem-me ser sinais, no mínimo, contraditórios - como quase tudo o que emana da Administração Trump.

06 agosto 2017

O PRIMEIRO-MINISTRO QUE FOI «DESQUALIFICADO» E JÁ NÃO «DERRUBADO» POR CAUSA DOS «PANAMA PAPERS»

No final do mês passado (28), foi notícia que o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, foi «desqualificado» de desempenhar aquele cargo por uma sentença unanime de um colectivo de cinco juízes do Supremo Tribunal do Paquistão. Na história conturbada daquele país (vai completar 70 anos a 15 de Agosto próximo), nunca um primeiro-ministro que antes tivesse sido eleito para o cargo em resultado de eleições conseguiu completar o seu mandato, mas neste caso já tradicional há a estreia de que a sua demissão se deve desta vez a juízes e não a generais como sempre acontecera até aqui. Os pronunciamentos militares estão a sair de moda, vivam as sentenças judiciais! Quanto à fundamentação da sentença que afasta Sharif do poder, ela assenta em factos que vieram a lume com as revelações dos famosíssimos "Panama Papers". E, naquilo que pretendo seja um retoque de ironia neste poste, elegi precisamente a notícia do Expresso sobre o afastamento de Sharif como auxiliar para quem queira saber mais alguns detalhes sobre o assunto. Porque sobre "Panama Papers" há que não esquecer quanto o assunto foi um exclusivo daquele jornal (abaixo) há mais de um ano. Um exclusivo que se estende à constatação que nesse ano e tal o assunto ficou encalhado por aí algures antes das grandes revelações (e das graves consequências) que prometia...

ESCREVE O ROTO DO(S) NU(S)

No dia em que encontrar uma crítica típica do estilo ácido de Eduardo Cintra Torres que tenha por alvo as práticas do Correio da Manhã (para onde escreve), aí acrescento uma adenda rectificando este poste. Ou ele quer convencer-nos que o Expresso (Impresa), Correio da Manhã (Cofina), Público (Sonae), Observador (quem quer ficar com ele?), são mais alguma coisa que projectos políticos disfarçados de outra coisa? (Se não derem prejuízo melhor!)

OS LOUROS DE CÉSAR (0)

Hesitei em eleger como próxima história a publicar estes Os Louros de César. Afinal, trata-se de um salto brusco de 6 anos (e de uma dúzia de histórias) em relação às três - por ordem de concepção, A Volta à Gália, Astérix e Cleópatra e O Combate dos Chefes (1963/65) - que foram publicadas previamente aqui no blogue. A distância temporal reflecte-se nas diferenças do estilo. Os Louros de César será um dos álbuns do ciclo adulto da obra de Goscinny & Uderzo - O Domínio dos Deuses, Os Louros de César e O Adivinho (1971/72). Se a popularidade da série se construiu a partir do facto de que se tratava de uma BD aparentemente infantil que tinha uma dupla leitura para os adultos, neste caso, com um flashback logo no fim da primeira prancha a perturbar a continuidade narrativa, é óbvio que os mais novos haviam sido um pouco esquecidos. Pormenor que vale a pena referir é que, sendo uma presença recorrente nas histórias desde a primeira (Astérix o Gaulês), Júlio César tem aqui nesta, que envolve os louros da sua própria coroa, uma presença comparativamente discreta, o que se consubstancia pela capa, onde César aparece representado em busto e não pessoalmente como os dois heróis.

05 agosto 2017

OS PARADOXOS DE ALGUNS SUCESSOS

O que é que se poderá dizer depois a este senhor como consolo, no caso infeliz de ele conseguir pôr a trabalhar a sua serra eléctrica?...

A MOCIDADE PORTUGUESA E OS «CHANTIERS DE LA JEUNESSE FRANÇAISE»


Se foi ainda ontem que começaram em Londres os Campeonatos do Mundo de Atletismo, em 5 de Agosto de 1942 (há precisamente 75 anos) e numa Europa então muito condicionada pela guerra em curso, quem podia organizava o que era possível nesse aspecto de eventos desportivos internacionais de Verão. Numa Lisboa que permanecera neutral, a Mocidade Portuguesa acolhia uma delegação desportiva dos Chantiers de la Jeunesse Française, uma organização homóloga do Estado Francês de Vichy. Sobre os dois minutos do filme de actualidades cinematográficas que cobrem o acontecimento realce-se a capacidade da locução falar, falar, falar e não dizer nada de substantivo a respeito do que as imagens mostram (quem venceu as provas disputadas?) e, comentando nós (em substituição) o que as imagens mostram, constate-se a confusão que ia por aquela(s) juventude(s) quanto à subtileza das distinções das várias saudações de braço esticado: a fascista (romana), a olímpica, a nazi e, até nos Estados Unidos que aqui não interessam, a de Bellamy.

04 agosto 2017

A DESPROPÓSITO DE UM BOM LIVRO DE HISTÓRIA SOBRE O VIETNAME

O livro é bom, como alguém escreveu numa das (quase sempre pedantes) recensões (favoráveis) que sobre ele se escreveram, «é simplesmente a melhor e a mais legível história do Vietname escrita em inglês, apresentada num só volume» (embora ache requintado o preciosismo do volume único... - trata-se de um volume com mais de 500 páginas) O autor é norte-americano e ensina numa universidade canadiana, no Quebec. Conforme a abordagem, o Vietname é um assunto a respeito do qual há muito poucos livros, porque o interesse pelo assunto da sua história milenar é residual, ou então há demasiados livros, porque a respeito da guerra em que os franceses e (sobretudo) os norte-americanos ali se envolveram o interesse é imenso, mas circunscrito às componentes política e (sobretudo) militar, o que não impede que subsistam milhares de opiniões. Esta versão pareceu-se ser um compromisso (daí justificar-se-á o emprego da expressão «História do Vietname Moderno» na capa), com umas dúzias de páginas preliminares a enquadrar a unificação nos princípios do Século XIX (1802) e a contar a história a partir daí, dando relevo ao período colonial (a Indochina foi uma colónia francesa) e ao Vietname independente dos últimos 60 anos. Serão casos que escapam à experiência colonial portuguesa (que se centrava em África), mas este livro faz-nos ler e reflectir sobre o modo como se estabeleciam as relações coloniais entre as sociedades destas civilizações milenares e os europeus (um outro exemplo são os indianos e os britânicos), em que o ascendente cultural e civilizacional dos segundos é mais assumido pelas imposições materiais do que substantivo pela superioridade dos valores. Quase no fim do livro (p. 492), evoca-se a figura de Nguyễn Thái Học (1902-1930), um dirigente nacionalista vietnamita (demasiado) precoce, que acabou executado pelas autoridades coloniais francesas depois de um pequeno motim militar dentro do próprio exército colonial que veio a fracassar. A alguns dias da execução, Nguyễn Thái Học enviou uma carta à Assembleia Nacional Francesa explicando as razões porque encabeçara a revolta, remetendo-a para o fracasso francês em implementar verdadeiras reformas políticas no Vietname, como fora esperança dos próprios vietnamitas por ocasião do fim da Primeira Guerra Mundial (aconteceu o mesmo com a Índia). O que os vietnamitas queriam era o que os franceses já tinham: «um governo democrático, sufrágio universal, liberdade de imprensa, respeito pelos direitos humanos e, já agora, independência.» Ora isto era uma forma que pareceria aos franceses desapropriada, mesmo ingénua, de colocar a questão, pois a superestrutura Império Colonial Francês não estava concebida para, em data à vista, conceder condições idênticas a todos os seus membros. Ora, tudo isto me fez lembrar uma outra superestrutura actual denominada União Europeia, e a desencadear uma estranha empatia para com as reclamações daqueles vietnamitas. Também pelos povos membros da União Europeia parece-me perpassar uma sensação generalizada de que há uns destinados a usufruir de estatutos de primeira e outros que não...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (44)

Como se percebe pela reacção de Abraracourcix, a incorporação das experiências e estilos trazidos das suas viagens, o cosmopolitismo enfim, não é bem acolhido por todos na famosa aldeia gaulesa. O menir talhado em estilo egípcio terá um reaparecimento, ainda que fugaz, em Obélix & Companhia.

03 agosto 2017

SINAIS DE EMPREENDEDORISMO

É muito engraçada e instrutiva a história que nos é contada pela edição de hoje do Observador. No que pode ser considerada a consagração de uma expressão caída em desuso por causa da geringonça, empreendedorismo, um daqueles que outrora se notabilizara por gamar as carteiras dos utentes da carreira 28 do eléctrico que viajavam de pé, passou a assaltá-los quando sentados, estabelecendo-se ali para a zona da baixa com um restaurante. Os processos parecem ter-se mantido essencialmente, só que agora o esticão é feito de uma forma mais elaborada - vale a pena ler o artigo... e as piadas que já existem a respeito do assunto. Para quem saiba quem foi Lucky Luke e os Dalton, a história do vigarista que depois se estabelece com um restaurante tem ressonâncias parecidas com a forma como termina Mamã Dalton e o restaurante de luxo que esta acaba por abrir em Houston, restaurante esse que se celebrizou pela contas escaldadas que apresentava aos seus clientes no fim a refeição e que com elas perpetuavam a reputação das golpadas da família. Analogias levadas a sério, a diferença substancial é que, para justificar a roubalheira, a fotografia publicada pelo Observador nos mostra a frontaria de um restaurante banal, para não o qualificar mesmo de chunga...

DOS «UFOS» PARA AS «SELFIES»

A 3 de Agosto de 1965, Rex Heflin, um californiano a quem as notícias atribuíam uma profissão respeitável, a de inspector de estradas, numa das suas viagens de inspecção, fez um conjunto encadeado de fotografias de um objecto voador não identificado (abaixo), os famosos UFO (OVNI em português). Foi uma época em que apareciam imensos objectos exóticos nos céus, nos dos Estados Unidos em particular. Faziam alguns grandes cabeçalhos preocupados na imprensa escrita e faziam correr bastante tinta.
É engraçado como a tecnologia evoluiu tanto que já nos esquecemos que aquilo que outrora era raro, máquinas fotográficas para registar tais ocorrências, tornaram-se agora um adereço comum como função complementar de qualquer telemóvel mas, apesar disso, cinquenta anos transcorridos, os céus norte-americanos parecem ter-se clareado de um tal tráfego tão exótico quanto misterioso... ou então eles continuam por aí e é a atenção de quem fotografa que parece agora ter-se transferido dos passageiros dos eventuais veículos extraterrestres para si próprio.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (43)

A oferta de Astérix a Cleópatra é uma alusão à construção do Canal do Suez que teve lugar entre 1859 e 1869 sob o empenho do francês Ferdinand de Lesseps (1805-94).

02 agosto 2017

HÁ 27 ANOS O IRAQUE INVADIA O KOWEIT


2 de Agosto de 1990. Ao fim de dez anos de espera, a cadeia internacional de notícias CNN tinha finalmente aquele acontecimento para a qual fora concebida (e não irá desmerecer a ocasião): uma guerra com muitos meios militares (blindados, aviação, etc.) para exibir. Mas atenção: mais do que uma guerra próximo das frentes de combate (tal como chegara a acontecer 22 anos antes no Vietname), tornava-se uma guerra que, tanto quanto possível, era para ser transmitida com imagens em directo. Como se percebe pelas imagens acima, privilegiava-se o que sentiriam os koweitis comuns ao verem-se invadidos pelos soldados iraquianos, em detrimento da análise do que pudessem ser as intenções e/ou a dissecação do conteúdo do previsível ultimato que Saddam Hussein teria apresentado ao Emir do Koweit. Com este estilo, a CNN destacava-se na batalha pelas audiências, as outra rivais copiavam-no, e o modelo acabava por transformar decisivamente tanto jornalistas quanto militares para o futuro: a) os primeiros passaram a noticiar não em função do que é importante que esteja a acontecer, mas em função das imagens que se arranjam para mostrar; b) os segundos organizam os seus planos de operações em função já não tanto (nem exclusivamente) do inimigo quanto da imagem que pretendem transmitir para a opinião pública doméstica.

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (42)

Esta associação final dos dois empreiteiros, entre Numerobis e Amonfobis, depois de terem sido inimigos jurados durante toda a história, é tão inesperada como a absorção da construtora Somague pela sua concorrente, a espanhola Sacyr Vallehermoso, depois de termos assistido ao protagonismo do seu administrador Diogo Vaz Guedes à frente da organização Compromisso Portugal.

01 agosto 2017

TODA A DIFERENÇA QUE UM CORRESPONDENTE PODE FAZER

Ontem à noite, o programa 360º da RTP3 contou com a presença simultânea dos correspondentes daquela estação em Moscovo e Washington. O assunto a discutir era a tensão crescente entre os dois países, com as sanções económicas norte-americanas a serem respondidas, em retaliação, pela decisão russa de expulsar 755 funcionários diplomáticos até ao final deste mês. A intervenção dos correspondentes – especialmente a de Márcia Rodrigues de Washington - viu-se entretanto embrulhada com a notícia entretanto aparecida da inesperada demissão do director de comunicação da Casa Branca que fora nomeado há apenas semana e meia para aquele cargo. Mas creio que não foi a diferença da agenda dos assuntos a tratar a verdadeira razão responsável pelo contraste qualitativo das intervenções dos dois correspondentes. Enquanto Evgueni Mouravitch tentou distanciar-se do discurso oficial e interpretar de fora quais serão as intenções de Vladimir Putin e do Kremlin em plena escalada de atitudes hostis entre os dois países, a intervenção de Márcia Rodrigues continha passagens, sem qualquer tratamento crítico, do que poderia passar muito bem por ser a tese como a Casa Branca estava a tentar explicar o mais benignamente possível a reversão de uma decisão que fora tomada apenas há 10 dias:

«...Donald Trump apercebeu-se finalmente de que tem uma situação de caos generalizado dentro do governo. De tal maneira, que foi chamar o homem que estava na segurança interna, este general Kelly para pôr ordem na casa. Donald Trump é um homem que confia muito nos generais, e isso tem a ver com a própria história pessoal do presidente, que foi colocado pelo pai num colégio militar e desde aí ele confia piamente nos generais para resolverem determinado tipo de problemas. É uma coisa que tem a ver com a sua própria psicologia. Ele foi portanto chamar este general, um homem de grande credibilidade e um general que colocou condições, dizendo que, em primeiro lugar, para tomar conta do governo,... porque é ele que vai coordenar todos os ministros e todos os conselheiros, eles têm de para de reportar directamente a Donald Trump e têm que passar por este general. Vai ser ele que vai estipular a agenda, vais ser ele que vai dizer quem é que pode bater à porta da sala oval, para falar directamente com o presidente, porque nesta altura toda a gente bate à porta da sala oval, toda a gente entra, uns queixam-se dos outros, e portanto o clima passou a ser absolutamente insustentável. Donald Trump, segundo sabemos, e a própria Casa Branca está neste momento a dar um “briefing” onde já explicou isso, Donald Trump deu autoridade total a este general para reorganizar a forma como funciona o governo, para disciplinar os membros deste governo. Ora a única questão que falta perceber é se o general vai conseguir disciplinar o próprio presidente.»
Pode ser visto nesta ligação, a partir dos 24 minutos. Mau grado o remate cauteloso, a explicação de Márcia Rodrigues assemelha-se a uma verdadeira história da carochinha: É evidente que a Casa Branca não é um internato de rapazes nem um general é para servir de vigilante porque a rapaziada se tem andado a portar mal. Seis meses de episódios recorrentes de indisciplina e improvisação têm mostrado que o elemento charneira de todo esse caos é o próprio presidente. E se ele não se autodisciplinar – algo que o tal colégio militar para onde o pai o enviou não terá conseguido fazer... – então tudo continuará na mesma. Se a correspondente em Washington da RTP não consegue concluir isto, ou não o quer assumir nas suas reportagens e se limita a traduzir para português uma fábula que foi produzida pela Casa Branca («...confia piamente nos generais para resolverem determinado tipo de problemas.»), então Márcia Rodrigues não está lá a fazer nada. E isso ontem foi ainda mais óbvio quando a sua intervenção pôde ser confrontada com a de Evgueni Mouravitch. Este último justifica que se mantenha um jornalista in situ a produzir análise e opinião; porém, esquecendo o novo-riquismo de exibir as ligações via satélite, trabalhos como este da primeira podiam ser perfeitamente realizados em Lisboa.

Diga-se que este assunto de disputar o acesso ao presidente é comum a todas as administrações, é um assunto que tem tanto de antigo quanto de controverso mas costuma ficar rapidamente resolvido, embora não a contento de todos. Vale a pena contar aqui, só para amostra do que Márcia Rodrigues poderia investigar, aprender e ensinar-nos já que está em Washington, o caso da dupla Bob Haldeman/John Ehrlichman (abaixo), quando da presidência de Richard Nixon (1969-74). Haldeman era o chefe de gabinete do presidente (o cargo ocupado desde há dias pelo disciplinador John F. Kelly) e os restantes membros do staff da Casa Branca deram à dupla a alcunha sarcástica de «Muro de Berlim»: por causa dos dois apelidos de sonoridade germânica combinados com a sua capacidade de bloquear aos outros membros do staff presidencial o acesso ao presidente. Ao contrário de quase todos os outros que ocuparam as mesmas funções e que as desempenharam de forma discreta, Haldeman e Ehrlichman tornaram-se famosos mas por terem sido ambos sacrificados quando do encobrimento que se seguiu ao Caso Watergate (claro que eles sabiam de tudo!). E, como facilmente se deduzirá, a maioria do staff da Casa Branca não estava propriamente triste quando isso aconteceu, em Abril de 1973. Quase todos os que rodeavam Richard Nixon detestavam Bob Haldeman, que se qualificava a si próprio como «the president's son-of-a-bitch». É o figurino que se espera agora do general Kelly? Esta era uma abordagem mais pedagógica quanto à descrição do ambiente de rivalidades que pode rodear um presidente mas sobretudo mais interessante de que aquela coisa a dar para o infantil das carências geradas pela frequência de um colégio militar...

ASTÉRIX E CLEÓPATRA (41)

Repare-se na nota irónica sobre o cumprimento dos prazos das empreitadas. Sobre a cena final, desde a primeira vez que a li, sempre me ficou a dúvida porque Numerobis facilitou a tarefa a Cleópatra, permanecendo prostrado e com isso dando um grande desconto ao cumprimento da sua promessa.