18 maio 2021

«VIVA MARCELO, SEU FILHO DA PUTA!»

Esta é uma significativa fotografia de uma manifestação expontaneamente mobilizada na Guiné Bissau para acolher o nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que ali está a realizar uma visita oficial. A piada está no cartaz, que saúda o Marcelo Ribeiro Sousa. Por causa do frenesim e por causa de estar sempre a dizer coisas, os portugueses ficam com a impressão que Marcelo é muito mais conhecido mundo fora do que o é na realidade: há cinco anos ficou famosa uma entrevista de rua em Nova Iorque de um jornalista francês, que interrogou Marcelo por alguns minutos sem fazer a mínima ideia de com quem estava a falar. Marcelo não se desmanchou, manteve a sobriedade de um jogador de póquer com os quatro ases na mão, mas, no fim, o jornalista Martin Weill teve o «savoir faire» de admitir que dera bronca (abaixo). Não me pareceu modéstia, É o género de partidas que, reputadamente, Marcelo adora pregar.
Porém, e para regressar ao Marcelo Ribeiro Sousa da fotografia de Bissau, essas mesmas questões da deficiência da identificação do presidente português, sobretudo quando ocorrem em países que foram outrora colónias portuguesas, são naturalmente mais delicadas. Aliás, evocam-me uma história antiga, para aí com uns 50 anos e que vale a pena aqui recontar. A história é imprecisa na data - em que visita presidencial ela terá tido lugar - e em que província ultramarina ela terá ocorrido: Angola, Guiné, Moçambique. O que importa reter é que as visitas dos presidentes portugueses às suas colónias eram acontecimentos raros - um por década, se tanto - e solenes. Mas os banhos de multidão já eram os mesmos e organizados do mesmo modo. Com cartazes pré-preparados pelos serviços competentes, mas sobretudo com palavras de ordem. Ora acontece que, para benefício da nossa história, o mano velho que estava encarregue de soltar os vivas da praxe era mesmo um veterano, um veterano de anteriores visitas presidenciais e que na altura de os soltar, aos vivas, regrediu até ao nome do presidente que ele fixara da visita anterior: Carmona. E lá saiu: - Vivá Carmona! - Vivó!!! - respondiam em eco. O problema é que quem se aproximava era Américo Tomás... O administrador de posto, que era o responsável por aquela secção da espontaneidade acolhendo a veneranda figura do chefe de Estado, apercebendo-se do erro, correu para junto do animador, corrigindo-o numa dupla imprecação: - Viva Tomás, seu filho da puta! E o mano velho, dócil: - Viva Tomás, seu filho da puta! - Vivó!!! A história não dá conta do que terá acontecido depois, se os vivas já haviam sido rectificados quando da passagem do cortejo, mas está explicada a minha associação destas duas peripécias associadas ao acolhimento de um chefe de Estado português em terras africanas... Ao contrário do meu título malicioso, mais de cinquenta anos depois, não consta que tenham insultado (expressa ainda que involuntariamente) Marcelo. As palavras de ordem também mudaram muito. Segundo as reportagens, o que agora se evoca não são vivas mas visas - Visa!!! Visa!!! - para emigrar para Portugal, naturalmente.

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