05 maio 2015

BOBBY SANDS E AS GREVES DA FOME DO IRA

Em 5 de Maio de 1981 morria, após ter permanecido 66 dias em greve da fome, o militante do IRA Robert Bobby Sands (1954-1981) então a cumprir uma pena de prisão. A razão para o protesto fora, aparentemente, a abolição de um estatuto especial concedido aos presos que equiparara os militantes apanhados de armas na mão a um tratamento melhorado, assimilável aos prisioneiros de guerra. O estatuto – que permitia aos prisioneiros poder envergar roupa própria, não ter de trabalhar e possuir um regime bonificado de visitas e de encomendas – era um reconhecimento implícito – quase legitimizador... - dos objectivos políticos das acções terroristas dos grupos paramilitares irlandeses (o IRA, mas também o INLA católico ou a UDA e a UVF protestantes), que o governo conservador de Margaret Thatcher lhes pretendeu retirar mal chegados ao poder em Maio de 1979. O braço-de-ferro entre o IRA (e o INLA – mais de 90% dos presos eram católicos) e Londres tornara-se mais do que previsível. Competia aos primeiros dar-lhe publicidade e fizeram-no recorrendo a um expediente que adquirira tradição durante as lutas que haviam conduzido à independência da Irlanda: a greve da fome. Sands foi o primeiro de uma série de presos que, faseadamente, iriam entrar em greve de fome.
Muitas fotografias de um sorridente grevista de 27 anos foram lançadas para a comunicação social enquanto, do outro lado, os britânicos proibiam as que o exibissem no seu estado real, à medida que perdia peso. Por isso, são raras as fotografias de Sands como a acima, com uma expressão neutra. Um acaso veio em auxílio do IRA: um deputado republicano católico morreu e houve que proceder a uma eleição intercalar para o substituir num círculo eleitoral onde a concentração de católicos tornava possível a eleição de um nacionalista irlandês. Foi o que aconteceu e Bobby Sands, apesar de concorrer preso, foi eleito como deputado, animando ainda mais um processo que, por essa altura, já alcançara uma notoriedade internacional, lesiva da imagem do Reino Unido. Seria que o governo britânico iria libertar Sands quando ele alcançou o seu novo estatuto de MP¹? Não. Como disse Margaret Thatcher numa nova movimentação de uma prolongada guerra de propaganda: Um crime é sempre um crime, o que não tem nada de político. Mais do que isso, preventivamente, a Câmara dos Comuns apressou-se a aprovar uma lei em se passavam a rejeitar as candidaturas a quem estivesse detido condenado a sentenças de uma duração superior a um ano, o que excluiria todos os camaradas de Sands no caso deste vir a falecer.
O que veio a acontecer há precisamente 34 anos. Igual a si própria, implacável, a primeira-ministra emitiu a propósito um comentário que se percebia ter sido preparado para aquela eventualidade: O Sr. Sands era um criminoso condenado. Foi ele que escolheu dispor da sua própria vida. Foi o género de escolha que a sua organização não permitiu que muitas das suas vítimas fizessem². Não se percebeu então, mas atingira-se o zénite da crise e a determinação do governo britânico vencera-a. Nesse mês de Maio de 1981 mais três presos em greve de fome morreram, mas Margaret Thatcher realizou uma visita a Belfast, onde voltou a reafirmar a sua intenção de não ceder. Caídos na armadilha da lógica mediática, as mortes dos grevistas, mais do que a acumularem-se, começaram a banalizar-se. Em princípios de Agosto de 1981 já se contavam dez mortos entre os grevistas da fome (abaixo), e, visivelmente, o tempo não estava a correr a seu favor. Só perdiam militantes com um grau de notoriedade marginalmente cada vez menor. Mas foi só três dias depois do anúncio público do fim das greves da fome, em Outubro, que os britânicos anunciaram que concediam aos presos algumas das condições que eles haviam vindo a reclamar desde o princípio.
¹ Membro do Parlamento.
² Mr. Sands was a convicted criminal. He chose to take his own life. It was a choice that his organisation did not allow to many of its victims.

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