19 maio 2016

AS MANGAS DE MAO TSE-TUNG

A propósito da recente evocação pela comunicação social do cinquentenário do início da Revolução Cultural pensei que valesse a pena lembrar - ou relembrar para os que já conheçam o episódio - a importância simbólica que as mangas - o fruto - representaram nesses momentos em que o Socialismo foi catapultado para tais extremos de vanguarda - necessariamente esclarecida - que hoje os observamos como se se tratasse de um manicómio colectivo. As origens da história das mangas revolucionárias são um pouco confusas mas parece indiscutível que as mangas originais resultavam de um presente que o ministro dos Negócios Estrangeiros paquistanês, Mian Arshad Hussain, trouxera na bagagem para oferecer a Mao Tse-tung quando de uma visita que realizou à China em princípios de Agosto de 1968. Esclareça-se que, naquele tempo o nome do Grande Timoneiro escrevia-se mesmo assim: Mao Tse-tung (adoptando o sistema Wade-Giles).
Depois a história das lendas prossegue imergindo de quando em vez na lenda e nas interpretações. Não se sabe quantas mangas eram, os números podem ser sete (demasiado cabalístico) e podem chegar às quarenta. Não se pode ter a certeza, como é sugestão de algumas fontes, se tudo começou somente por Mao não apreciar o fruto. É razoável imaginar que, sendo um presente, as mangas fossem de uma boa espécie, não fossem fibrosas e estivessem maduras. Mas a única coisa que parece corroborável é que Mao terá decidido distribuir as mangas por algumas equipas e instituições que, em Pequim, andavam a popularizar junto das massas populares os conceitos do Pensamento Maoista. Dizia-se em surdina que estas equipas estavam a tentar controlar os estragos dos excessos de dois anos de Revolução Cultural cometidos pelos omnipresentes Guardas Vermelhos, que se haviam habituado a exibir orgulhosamente o seu perfeito domínio do pensamento maoista, exibindo ostensivamente o Livrinho Vermelho quando das suas actuações.
Mas comentava-se discretamente que as criaturas - Guardas Vermelhos - haviam escapado ao criador - Mao. A interpretação rebuscada do gesto da redistribuição das mangas foi assim levada à conta de um apoia à actuação correctiva das tais novas equipas que apareceram nesse Verão de 1968. Se calhar, a intenção pode nem ter sido essa. Mas o que interessa para a continuação desta história é que as equipas e as instituições que receberam as mangas se sentiram profundamente lisonjeadas pela atenção demonstrada pelo Grande Timoneiro e trataram cada manga recebida com o desvelo com que se trataria uma relíquia budista. Porém, as relíquias, não só apenas as budistas, mas as de todas as outras confissões, têm uma tendência natural para se multiplicarem. Também o mesmo se suspeita terá acontecido às mangas ofertadas pelo camarada Mao. De facto, não há nada mais parecido com uma manga paquistanesa do que uma outra da China.
No reportório das grandes asneiras inverosímeis que se contam a propósito deste episódio, o maior será talvez a novidade absoluta que constituiria a manga para os chineses, se o fruto é descrito por autores chineses pelo menos desde o Século VII (e quando a China é o 2º maior produtor mundial de mangas, depois da Índia...). Poderia ser um produto raro, mas não desconhecido. A preservação das mangas doadas por Mao levantou um conjunto de problemas daqueles com que o marxismo-leninismo gosta de se defrontar - recorde-se o problema da múmia de Lenine... e a do próprio Mao. Apesar das vontades mais revolucionárias, com as mangas não se conseguiu chegar a tanto... Na esmagadora maioria dos casos apodreceram naturalmente e houve que fazer umas réplicas em cera, entretanto desaparecidas na voragem da História assim como as memórias de alguns momentos mais caricatos da Grande Revolução Cultural Proletária.

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