07 julho 2014

TODO UM OUTRO SENTIDO PARA A EXPRESSÃO «UMA FACADA NO MATRIMÓNIO»

Manassas é uma pequena localidade da Virgínia (38.000 habitantes) irremediavelmente associada à História dos Estados Unidos pelas duas batalhas da Guerra Civil que ali se travaram em Julho de 1861 e Agosto de 1862 mas também por, 130 anos depois, em Junho de 1993, ter sido a residência do casal Bobbitt, os protagonistas de um acontecimento que veio a arrepiar meia América. O casal Bobbitt casara-se quatro anos antes: John Wayne Bobbitt de 22 anos, que se alistara como fuzileiro, conhecera a manicure Lorena Gallo de 18 anos num bar muito frequentado por fuzileiros e haviam-se apaixonado. Parecia uma reprodução do enredo do filme Oficial e Cavalheiro (estreado sete anos antes) embora com um Richard Gere menos garboso mas com uma Lorena morena a assemelhar-se bastante, tanto física como psicologicamente, à personagem de Debra Winger. Mais tarde, Lorena veio a alegar que John havia sido o seu primeiro namorado sério. Considerando a ascendência equatoriana de Lorena e o tradicional recato imposto nas famílias tradicionais sul-americanas a opinião pública norte-americana (que seguiu o caso com fervor) veio a considerar a alegação bastante plausível.
Como acontece em muitos casamentos prematuros, quatro anos de convívio haviam desfeito a relação entre o casal. John Wayne Bobbitt havia saído dos Fuzileiros, o casal experimentava dificuldades económicas, Lorena fizera um aborto (viria mais tarde a reclamar que forçada por John), este dera em beber, tornara-se violento, a polícia já tivera que intervir nas disputas conjugais, houvera queixas de violências recíprocas, Lorena chegara a dar início a um processo de divórcio que entretanto retirara. Mas em 23 de Junho, para além de uma banal vida infeliz, o casal adquiriu uma notoriedade nacional, mesmo mundial. De acordo com os testemunhos que só os dois cônjuges puderam dar sobre o que acontecera (muitas vezes em contradição directa), John regressara a casa bêbado tarde na noite e forçara a mulher a manter relações sexuais. Revoltada por aquilo que considerava não passar de uma violação, Lorena levantara-se, fora à cozinha beber um copo de água, dera-lhe uma coisa, pegara numa grande faca de cozinha e, regressando ao quarto onde John dormia etilizado, levantou os lençóis, pegou no pénis do crime e zuca!
Como se fosse um rabino desastrado ou entusiasmado em excesso, Lorena Bobbitt acabara de entrar no imaginário arrepiado da população masculina adulta dos Estados Unidos! Com as duas armas do crime (pénis e faca) nas mãos, Lorena pegou no carro e fugiu de casa. A umas centenas de metros dali baixou o vidro da porta e deitou fora a prova do delito. Enquanto isso, um amigo, presumivelmente chamado por John, chegou a casa e, constatando o óbvio, levou-o para o hospital. O primeiro médico que os atendeu na urgência, falho de imaginação, ainda pensou que John era um suicida que cortara os pulsos até ao paciente expor o seu problema: um miserável toco de dois centímetros, tantos os que Lorena lhe deixara. Entretanto a polícia partira à procura de Lorena que, agora e do ponto de vista médico, se tornava imprescindível para a localização do material em falta, indispensável para uma cirurgia de reconstrução. A polícia lá encontrou Lorena a vaguear que se revelou arrependida e prestável, largando umas indicações vagas sobre o local onde deitara fora o bicho. Com base nelas, montou-se uma vasta operação de caça à pila.
Afinal foi um bombeiro e não um polícia que a encontrou – parafraseando Churchill na ocasião, nunca tantos fizeram tanto pela pila de um desgraçado – a envolveu em gelo e a expediu para o hospital (Prince William) onde, qual episódio do Dr. House, apareceu uma equipa, o Dr. Sehn, urologista (é ele que aparece na fotografia acima exibindo a parte seccionada do pénis de Bobbitt), e o Dr. Berman, cirurgião plástico, que estava disponível para realizar uma complexa intervenção de reimplantação do pénis que durou nove horas e meia! A operação foi um sucesso, porém vagaroso: um mês depois já John conseguia urinar normalmente e alguns meses depois ele recuperara a sua capacidade eréctil. Mas o verdadeiro espectáculo que apaixonou a América não foi médico, foi legal. Houve centenas de jornalistas a acompanhar os dois processos que o episódio suscitou. As feministas quiseram tornar o episódio num símbolo da guerra dos sexos. Por causa delas, dos seus V de vitória e pela forma como abriam e fechavam intimidadoramente os dedos, hoje o processo de amputação está associado a uma tesoura (abaixo), quando na realidade Lorena Bobbitt usou uma – grande – faca.
Quando ao que se passou na sala de audiências, por um lado, John Wayne Bobbitt acabou absolvido da acusação de violação da esposa; quanto a Lorena, os seus advogados invocaram a sua insanidade no momento dos factos e conseguiram ganho de causa, evitando-lhe uma pena que poderia atingir os 20 anos de prisão. Pelas fotografias acima compreende-se como qualquer dos dois réus se afigurava propenso a despertar a simpatia dos espectadores e como, apesar do arrepio que o episódio possa despertar entre a opinião pública masculina, todo o episódio não parece de modo a gerar aquele tipo de horror que os crimes hediondos costumam suscitar na opinião pública. No meio de tantos trâmites legais, os Bobbitt só se divorciaram em 1995, o que não deixa de ser irónico quando se constata que ainda no Verão de 1994, John Bobbitt se aproveitou da sua estranha popularidade para estrelar um filme pornográfico intitulado John Wayne Bobbitt: Uncut (sem cortes). Os enredos dos filmes pornográficos não primam pela imaginação mas o deste ainda é mais fácil de imaginar…

Sem comentários:

Enviar um comentário