23 abril 2023

O QUE SE PODE CONCLUIR SOBRE A EVOLUÇÃO DA MOSTRA DE CUS EM TRINTA ANOS

Entre a exibição de quatro rabos em 1992, diante do ministro Couto dos Santos (e não Manuela Ferreira Leite, como ainda há pouco ouvi Sérgio Sousa Pinto enganar-se), e a de três rabos desta semana, na cerimónia dos cinquenta anos da fundação do PS, o que se pode concluir sobre a evolução estilística do happening nestes trinta anos é que o estilo técnico é o mesmo (subir para a cadeira, virar as costas à mesa e arriar as calças), embora se registe a evolução do gender balance (de quatro machos em 1992 para duas fêmeas e um macho em 2023) e a constatação da vantagem comparativa delas para estas manifestações: os rabos mais peludos são sempre uma desvantagem para a afixação dos dizeres e a transmissão da mensagem.

O VALOR DA PESSOA OU O VALOR DAS SUAS IDEIAS?

Agora que a sociedade constatou que Boaventura Sousa Santos é um porcalhão, parece-me que vale a pena voltar a avaliar as suas ideias, agora despojadas de uma certa mística à esquerda que envolvia a pessoa. Esta entrevista tem precisamente cinco anos, foi feita por Nuno Ramos de Almeida (do Agir) e publicada no jornal i. Pessoalmente sempre tomei aquele sociólogo por uma espécie de Noam Chomsky doméstico, alguém que se notabilizara originalmente numa certa área académica, para partir daí e começar a dar opiniões sobre tudo ou quase tudo - do cocó à bomba atómica, na expressão inesquecível de Jô Soares. Agora, separando o pensamento do comportamento, é uma excelente oportunidade para comprovar se a admiração da extrema esquerda intelectual pelo guru Boaventura Sousa Santos assenta em fundamentos sólidos ou (para citar Alexandre O'Neill) era uma coisa em forma de assim...

22 abril 2023

LULA "LIKE A VIRGIN"

Ter que fazer assunto a propósito da presença em Portugal do presidente brasileiro conduz a momentos televisivos como este acima, protagonizado pelo director da câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, que desconfio, se houver algum mérito, tão cedo não voltaremos a ver de volta aos ecrãs. O mais importante que lhe conseguiram extrair da importância da visita em curso foi que a «visita é muito importante porque é a primeira que Lula da Silva faz à Europa». Em primeiro lugar é um chavão que nos faz lembrar um velho vídeo da Madonna. Em segundo lugar é mentira: entre visitas oficiais e particulares Lula da Silva já deve ter vindo a Portugal uma dúzia (senão mais) de vezes; já há 20 anos, e só para dar um exemplo, se podia ler que «Lula saíra de Portugal "muito mais feliz" do que entrara». Em terceiro lugar, e retomando estas fórmulas imbecis de noticiar sem dizer nada de substantivo, as afirmações deste director-que-só-diz-banalidades não se distinguem da famosa piada de há 50 anos da nossa veneranda figura do chefe de Estado (Américo Thomaz), que calhou anunciar num dos seus discursos que aquela era a primeira vez que ali estava, depois da última vez que lá estivera. Pelos vistos, entrevistado e entrevistadores pertencem a uma geração que já perdeu a memória e/ou a compreensão do ridículo de argumentos do género para colmatar um vazio noticioso. Tratando-se da CNN, convidem mais vezes o Sérgio Sousa Pinto, porque esse diz coisas interessantes e desalinhadas!

21 abril 2023

A BEM "SUCEDIDA" «DESMONTAGEM RÁPIDA E NÃO PROGRAMADA» DO FOGUETÃO DA SPACEX

Esta é a história de um foguetão que é lançado com imensa promoção e que passados uns três minutos e meio de ascensão resolve desistir, passa a voar na horizontal por uns segundos, antes de se decidir a voltar para baixo, e depois arrepende-se e explode (vejam-se abaixo os últimos 15 segundos do voo). O que é verdadeiramente caricato neste fiasco é ele ser anunciado como um sucesso! Num idioma que nos recorda a novilíngua de Orwell, a explosão do foguetão foi descrita como «uma desmontagem rápida e não programada» ('a rapid unscheduled disassembly', no original). Só este episódio de nos querer tomar por parvos seria logo pretexto para antipatizarmos profundamente com Elon Musk, tenha ele o dinheiro que tiver.

AS CAÇAROLAS POR ESTREAR DOS PROTESTOS DE UM PAÍS DE MIMADOS

A última inflexão dos protestos em França, coberta entusiasticamente pelos órgãos de comunicação social por causa da sua espectacularidade comprovada, são os concertos de caçarolas e frigideiras. Os manifestantes usam utilitários de cozinha de todo o género: usados e fenecidos, mas são sobretudo os acabados de estrear, aqueles que se vê que nunca viram um fogão sequer, que mais impressionam, não apenas pelo desperdício material, mas sobretudo pelo simbolismo de representarem adequadamente os protestos de um país de mimados, aqueles que se recusam a aceitar a mudança de condições de reforma principescas, só comparáveis apenas a mais dois ou três países no Mundo.   

O QUE SE «SABIA» HÁ SESSENTA ANOS SOBRE OS MARCIANOS...

Em dois dias consecutivos, 20 e 21 de Abril de 1963, e de origens distintas e até mesmo concorrentes (Moscovo e Washington), os leitores do Diário de Lisboa podiam acompanhar o que os sábios sabiam sobre os marcianos, que eram seres racionais e que o seu desenvolvimento biológico era mais avançado do que o terrestre. O convívio entre o jornalismo e a ciência sempre foi esta tristeza. O primeiro só está interessado em extrair da segunda aquilo que tiver mais impacto para prender a atenção dos leitores. E é o curso da história que depois selecciona o que é relevante - que, porque normalmente complexo, raramente aparece publicado e explicado - de tudo o resto como estes marcianos.

20 abril 2023

O FACCIOSISMO DA REVISTA «THE ECONOMIST»

Esta será a terceira vez que retorno a este mesmo tema, este mês, (1) e (2), mas a culpa atribuo-a toda à continuada e descarada parcialidade como a revista inglesa The Economist tem estado a acompanhar e comentar as antevisões e os balanços dos altos representantes de grandes potências que têm passado recentemente por Pequim. Os quatro artigos abaixo estão dispostos pela ordem cronológica da sua publicação, o mais antigo tem pouco mais de duas semanas (4 de Abril). Nele se manifestava a preocupação que o anfitrião Xi Jinping pudesse dar a volta ao visitante Emmanuel Macron. Na altura perguntei porque não formulavam a questão da forma oposta: e Macron, não seria capaz de dar a volta a Xi?... Ou melhor: provavelmente ninguém daria a volta a ninguém, que estas visitas são coreografadas com antecedência. A atitude é substancialmente diferente no artigo do lado (10 de Abril), a respeito do que esperar da visita de Luiz Inácio Lula da Silva a Pequim, onde uma sobranceria desdenhosa irritante sintetiza a política externa brasileira como hiperactiva, ambiciosa e ingénua (repare-se que a visita de Lula é a Pequim, mas a foto mostra-o na companhia de Joe Biden). Em Londres, na sede da The Economist, consideram Lula um totó. 
Passados dois dias (12 de Abril), o mesmo Emmanuel Macron voltava a ser objecto de uma nova crítica preocupada porque cometera um erro a respeito de Taiwan. Macron partira no dia 8 e a sugestão do artigo é que poderá ter sido algo que ele declarou que dera carta branca a que a China desencadeasse os exercícios militares ao largo da ilha... que começaram nesse mesmo dia 8. Em contraste, podemos folhear afincadamente a mesma The Economist nestes últimos dias para encontrar comentários às declarações produzidas por Luiz Inácio Lula da Silva na China. Podemos, mas, até hoje e já lá vão seis dias, não encontraremos nada sobre as declarações de Lula da Silva de que «as potências ocidentais estariam incentivando a guerra na Ucrânia». Não deve ser um erro de Lula, talvez sejam manifestações de hiperactividade ingénua do Itamaraty... Para colmatar esta omissão crítica da revista inglesa a respeito das declarações (desastradas) do presidente brasileiro, terão dado relevo, no entretanto (15 de Abril), à visita da ministra dos negócios estrangeiros alemã, Annalena Baerbock. Na The Economist gostam muito dela, mas não será bem a mesma coisa cobrir as visitas de chefes de Estado e de um mero ministro dos estrangeiros...

Em suma, é sabido desde há muitas décadas, dos tempos do general de Gaulle e mesmo antes disso, que o Eliseu tem sempre uma agenda própria quando se trata de política externa e que raramente se acerta com a das outras potências. Este foi mais um episódio. O que é menos conhecido é que uma revista internacional que se reclama de uma data de princípios notáveis de independência e isenção também mostre ter agenda própria, veja-se a forma facciosa - no caso anti-francesa - como notícia os factos.

O FUZILAMENTO DE JULIÁN GRIMAU

A notícia (ao centro) que o Diário de Lisboa publica na primeira página da sua edição de 20 de Abril diz o essencial sobre os aspectos relacionados com a captura, prisão, julgamento, condenação e imediata execução do dirigente comunista Julián Grimau. Sobre o não essencial, esclareça-se que se trataria de uma evidente desforra sobre alguém que, durante a Guerra Civil espanhola (1936-39), fora um dos dirigentes da polícia política republicana, que era controlada pelos comunistas, e que cometeu inúmeras atrocidades. Como costuma acontecer, não há aqui inocentes de um lado e algozes do outro. A questão que se põe é se, 25 anos passados sobre os crimes, seria politicamente assisado a severidade da sanção que foi aplicada pelo Estado franquista, com uma cenografia - tribunal militar, paredão - que parecia que se regressara por momentos à Guerra Civil. Obviamente não era, tanto mais que, do outro lado, os próprios comunistas se haviam encarregado de fomentar uma campanha internacional, baseada em França, em prol do prisioneiro. Fora essa campanha, aliás, que acabara por catapultar a execução de Julián Grimau para a primeira página do jornal português. No fim, os dois extremismos - o de direita e o de esquerda - jogaram as suas cartas e obtiveram o que queriam: o franquismo ressuscitava aqui o espírito de guerra civil que o fazia sentir-se legitimado, depois de 25 anos de uma prestação governativa medíocre (os anos de grande crescimento económico ainda estão para chegar); o comunismo, mesmo antecipando que iria perder, conseguia conferir notoriedade a mais um mártir da sua causa (à direita, selos soviéticos de 1963 com a efígie de Grimau). É esse o segredo argumentativo de comunistas e fascistas que os torna aliados objectivos: pretender que não existe nada para além deles. A Democracia responde-lhes com a tolerância.

19 abril 2023

O ASSALTO A WACO

19 de Abril de 1993. Termina o cerco de 51 dias a uma quinta texana que era residência dos membros de uma seita religiosa. No computo global o cerco vem a causar a morte de 86 pessoas: 4 agentes do governo e 82 mortos entre os membros da seita, incluindo 25 crianças e o líder do grupo David Koresh, a maioria das mortes foram causadas pelo incêndio posto por alguns dos sitiados na ocasião do assalto. O episódio é considerado uma das demonstrações de força e autoridade do Estado mais contraproducentes da história recente dos Estados Unidos. O próprio presidente Bill Clinton, que então ocupava o cargo há apenas três meses, deixou-se ser citado, dizendo que estava «furioso» por ter autorizado que se procedesse àquele ataque, naquele formato e com aquelas consequências. Foi um reforço dos argumentos da extrema-direita norte-americana e as polémicas levantadas pela gestão do conflito, desde o seu início até a este desfecho sangrento de há 30 anos, persistem até hoje.

FOTOGRAFIAS QUE NOS MOSTRAM O QUE SERIA O PS QUANDO FOI FUNDADO

19 de Abril de 1973 é a data de fundação do Partido Socialista. As suas próprias estruturas de propaganda se encarregarão de abrilhantar a efeméride com cerimónias evocativas do cinquentenário. A partir das (poucas) fotografias disponíveis do acontecimento, tanto dos trabalhos (acima), como do que poderá passar pela «sessão de encerramento» (abaixo) dessa reunião que teve lugar numa pequena cidade termal da Alemanha, o que eu quero fazer notar é aquilo que se pode deduzir daquilo que se vê, e de que normalmente não se refere. Os participantes são poucos e as fotografias são poucas, mas as que existem têm que incluir forçosamente Mário Soares. Além de poucos, também se depreende que os meios fossem muito escassos. As fotos da consagração (abaixo), com os participantes de copo na mão, não se distinguiriam de um final de um jantar-tertúlia entre amigos. Nesses anos (1973), as autoridades alemães estimavam que haveria entre 80 a 120 mil portugueses na Alemanha. Nesta reunião estiveram 27.

UMA GRANDE PORRADA NA «FOX NEWS» E EM TUDO O QUE ELA REPRESENTA

Afinal, o tão aguardado julgamento que oporia a Dominion (empresa de equipamentos electrónicos de votação) à Fox News (o canal televisivo de notícias mais visto dos Estados Unidos) não terá lugar. Foi uma decisão arrancada à última da hora e o melhor que a Fox News pode dizer do desfecho é que terá conseguido reduzir para um pouco menos de metade o valor da indemnização pedida originalmente pela queixosa. O resto é uma completa e humilhante derrota para a estação televisiva, que terá sido compelida a aceitar este acordo mesmo em cima do julgamento, transmitindo-nos a impressão que o mesmo seria um prosseguimento do terrível "lavar de roupa suja", que degradaria ainda mais a imagem pública da Fox, de quem a dirige e de muitas das suas estrelas do ecrã. Enfrentando um inimigo a sério, empenhado em os denunciar, descobriu-se não só que muita informação que a Fox News veiculava era falsa e/ou forjada, que internamente se sabia que o era, como ainda que muitos daqueles que haviam sido encarregues de a veicular tinham uma opinião diametralmente oposta ao que transmitiam às audiências. Espero que este seja um momento de reversão de uma tendência socialmente tolerante para com as mentiras mais evidentes que grassou neste último decénio. Seria um retorno a uma certa decência. As pessoas são livres de acreditar no quiserem mas a ética não deixa de existir só porque uns 15 ou 30 milhões de eleitores de um (grande) país qualquer não querem saber o que isso é.

18 abril 2023

QUE RAIO DE PONTARIA!...

18 de Abril de 2022. Há precisamente um ano, um canal brasileiro de Youtube (TV 247) transmitia este debate sobre A Guerra, a Europa e o Brasil. E, como se constata, dificilmente poderiam ter encontrado uma dupla de comentadores portugueses mais impopulares em Portugal: Boaventura Sousa Santos e José Sócrates! Este é um exemplo flagrante de como a esquerda petista no Brasil anda um pouco obtusa em relação ao que se passa fora do seu país. Problema de que parece padecer também o próprio Lula da Silva mais as declarações que ele anda a proferir mundo fora, antes de chegar a Portugal para o 25 de Abril. Eu bem sei que Lula está a preocupar-se em falar para um auditório bem maior do que o da antiga metrópole colonial. Mas, se era para ser assim, por muito que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa tivessem sido insistentes em fazê-lo cá vir, teria sido talvez melhor não passar por cá. Há muita gente por cá (onde me incluo) que, com aquilo que se veio a saber da sua corrupção passiva e da lavagem de dinheiro, o considera apenas um mal político menor quando em comparação com Jair Bolsonaro. Esta sua última vitória eleitoral foi cerrada mas é preferível que não falemos da ética dos dois candidatos... Felizmente vivemos num país onde não somos confrontados com ter que fazer uma opção eleitoral entre um aldrabão como André Ventura e um escroque como José Sócrates e (ter de) tecer muitas loas políticas a este último porque não é o fascista. (Quem quiser ouvir o debate com Boaventura Sousa Santos e José Sócrates - são duas horas! - carregue aqui)

A MORTE MATADA DO ALMIRANTE YAMAMOTO

(Republicação)
18 de Abril de 1943. Protegidos por uma meia dúzia de caças Zero, dois bombardeiros Mitsubishi G4M Betty japoneses preparavam-se para aterrar no aeródromo de Kahili, que se situa na extremidade meridional da ilha de Bougainville (mapa abaixo), quando, subitamente e surgidos de sudoeste e a rasar o mar para escapar à detecção, surge uma esquadrilha de 16 P-38 Lightning norte-americanos. Descartando os Zeros e aproveitando-se da superioridade numérica, os atacantes concentram-se nos aviões maiores e abatem-nos em sucessão sobre a selva que cobre a ilha. Apenas mais um episódio das centenas que ocorrerão naquele dia no quadro da Frente do Pacífico da Segunda Guerra Mundial então em curso? Não, porque a bordo de um dos bombardeiros abatidos viajava o almirante Isoroku Yamamoto que morrera na queda do aparelho que o transportava. E não, porque, como anos depois se virá a saber, a presença dos aviões americanos naquele local e àquela hora (09H35) não fora acidental. Desde há vários anos que os americanos conseguiam decifrar os códigos japoneses. E, no princípio daquele mês, os serviços de intercepção haviam descoberto que Yamamoto iria realizar uma visita de inspecção às forças aeronavais japonesas nas ilhas Salomão. A incúria japonesa chegara ao ponto de transmitir o programa da visita de Yamamoto em mensagem rádio e os americanos ficaram a saber o programa tão bem quanto os comandos japoneses encarregues de receber Yamamoto.
Não só sabiam como dispunham dos meios militares para tirar partido da ocasião. A questão que se poria, ao almirante Halsey ou ao almirante Nimitz, homólogos de Yamamoto na marinha adversária, era um problema de ordem moral: Seria aceitável utilizar aquela vantagem para liquidar um grande chefe inimigo? A decisão não poderia dar lugar a novos expedientes de guerra, visando liquidar seleccionadamente as chefias militares inimigas? E a decisão não poderia, terminada a guerra e com outro quadro moral, voltar-se contra os próprios decisores? Nimitz consultou o seu staff que se inclinou para a validade da operação. Apesar de se conhecer a sua oposição estratégica a um enfrentamento militar directo com os Estados Unidos, fora Yamamoto quem concebera o plano de ataque inicial contra Pearl Harbor e nem a derrota de Midway ou o mais recente abandono de Guadalcanal o desvalorizara aos olhos dos americanos a ponto de deixarem de o considerar um dos principais activos do inimigo. Ironicamente, este respeito profissional por Yamamoto vai ser a causa desta espécie de sentença de morte. Na fotografia abaixo, vê-se Yamamoto nesse mesmo dia de há oitenta anos a cumprimentar os pilotos da base aeronaval de Rabaul, naquela que se acredita ser a sua última fotografia. A operação, denominada Vingança, foi mantida em segredo até ao fim da guerra, preservando o segredo de que os norte-americanos haviam quebrado os códigos japoneses.

17 abril 2023

O UNIVERSO DÚPLICE ORWELLIANO DE PEQUIM...

Por ocasião da visita oficial que o presidente brasileiro Lula da Silva acabou de realizar a Pequim, podemos destacar este momento surreal em que ele passa revista às tropas acompanhado do seu homólogo Xi Jinping, enquanto a banda militar toca «Novo Tempo», uma velha canção de Ivan Lins que data do tempo da ditadura militar (1980). Um daqueles episódios em que salta à vista que o responsável chinês por aquela escolha se quedou pelo potencial significado do título, mas não prestou atenção ao significado da letra de Vítor Martins, que é uma arenga contra a ditadura militar brasileira e em prol dos tempos de liberdade que se lhe sucederiam. Ora o novo tempo descrito por Vítor Martins não era a substituição de uma ditadura (militar) por uma outra ditadura (comunista), como a chinesa, daí o anacronismo daquela música naquele enquadramento. A complementar o constrangimento da cena, há aquela coreografia com as criancinhas chinesas a pular de ramos de flores na mão, gestos que se coreografavam precisamente durante as cerimónias públicas da ditadura militar... A rematar a minha completa desilusão com o adocicado como esta cena está a ser descrita no e para o Brasil, a reacção «emocionada» numa rede social do próprio Ivan Lins. Lins sofrerá talvez do síndrome Lucélia Santos, a actriz que ainda é recordada (no Brasil) por ter derretido o coração de 300 milhões de chineses como escrava Isaura...
Só que, ele há Democracias e ele há ditaduras. Mas, mais do que ser apenas descritivo e para ser também construtivo, e visto que o périplo mundial de Lula da Silva ainda irá passar por Lisboa no próximo dia 25 de Abril, será que ainda se vai a tempo para que a banda da GNR ensaie, para tocar enquanto ele passar revista às tropas, o famoso «Fado Tropical» (1973) de Chico Buarque, letra de Ruy Guerra?... Acredito que eles no Itamaraty também vão adorar aquela passagem final em que se profetiza que «esta terra (Brasil) ainda vai cumprir o seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal»...

16 abril 2023

A MUDANÇA DE POSIÇÃO DE CATARINA MARTINS E DO BLOCO DE ESQUERDA A RESPEITO DO ASSÉDIO É UM «INSULTO ENORME» À NOSSA INTELIGÊNCIA

«Insulto Enorme» foi a expressão escolhida por Catarina Martins para comentar o teor da conferência de imprensa dos bispos portugueses ainda no passado mês de Março. E tinha razão. O que não é razão para que ela e eles (no Bloco) nos insultem por sua vez e da mesma forma com a cambalhota que acabaram de dar quando o problema do assédio sexual foi acertar em cheio num dos gurus daquela formação politica, Boaventura Sousa Santos. Há cinco anos (à esquerda) era inequívoco para o Bloco que «O assédio era uma forma de intimidação» e só agora (à direita) é que eles descobriram que se «torna muito difícil denunciar (o) assédio na academia». É caso para perguntar: só deram por essas dificuldades agora, depois de anos a mobilizarem campanhas sobre o tema? E sobre o visado, nunca também ninguém na organização tinha tido suspeitas de nada?... Sobre o comportamento do Bloco a este respeito - que não sobre a gravidade dos dois crimes, distinga-se esse aspecto - não vejo grande diferença entre a hipocrisia dos bispos (a respeito de nada saberem da pedofilia) e dos bloquistas (a mesma ignorância a respeito do assédio). Uns e outros fartam-se de pregar moral aos outros e é isto que valem...

O EGO DE ANTÓNIO DE SPÍNOLA

Talvez por coincidência, ou talvez não, no dia seguinte ao da publicação do comunidado do Comando-Chefe das Forças Armadas em Moçambique, o Diário de Lisboa dá destaque a um acontecimento que tivera lugar dois dias antes na Guiné, patrocinado pelo Grupo CUF que se fizera representar na cerimónia pela figura cimeira do empresário Jorge de Mello que, «para o efeito, se desloca(ra) propositadamente a Bissau». Nessa cerimónia, a CUF oferecera 15 mil hectares (0,4% da área total da Guiné) ao governo provincial para a sua «exploração em regime comunitário». Uma pequena reforma agrária. Era a CUF que doava as terras mas as atenções haviam-se concentrado em António de Spínola, Governador e Comandante-Chefe, cujo discurso da ocasião ocupa a parte substancial da notícia, não fosse ele o objecto da notícia. A iniciativa talvez tivesse tido repercussões significativas na evolução do processo político na Guiné se tivesse sido implementada uma meia dúzia de anos antes. Em 1973 a guerra na Guiné já contava 10 anos, dos quais 5 anos sob o comando de Spínola.

A APROVAÇÃO DA RESOLUÇÃO 819 DO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

16 de Abril de 1993. O Conselho de Segurança da ONU aprova por unanimidade dos seus 15 membros (entre os quais se contam dois países de expressão portuguesa, Brasil e Cabo Verde) a sua resolução 819. Nela se reafirmam resoluções prévias sobre o mesmo tema, e o Conselho expressa a sua preocupação com as acções das unidades paramilitares sérvias nas cidades e vilas do Leste da Bósnia-Herzegovina, incluindo ataques a civis, às forças de das Nações Unidas e à interrupção de comboios de ajuda humanitária. Apesar da assertividade da redacção do texto, a falta de meios e de atitude das tropas de interposição no terreno para intimidarem uma das facções (precisamente as unidades paramilitares sérvias), veio a resultar no massacre de mais 8.000 pessoas em Srebrenica em Julho de 1995. Foi uma grande lição de modéstia para aquela bolha de diplomatas que vive na ilusão de que a diplomacia é um fim e não apenas um meio. Afinal, quando os agentes de mediação não tem meios de intimidar as partes desavindas, o mais prudente é estarem quietos e pouparem-se a fazer figura de parvos.

15 abril 2023

O EUROCENTENAS E OS «JACKPOTS» PROMETIDOS PELO GOVERNO

As pessoas não têm reparado nele assim como o vamos descrever, mas, em paralelo com o Euromilhões da Santa Casa da Misericórdia, existe um outro jogo promovido pelo Ministério da Saúde que se chama Eurocentenas, sendo essas centenas o número de vagas prometidas para médicos de família. Anda à roda de seis em seis meses (veja-se acima: 19 de Outubro de 2022, 14 de Abril de 2023) e, como nos anúncios do Euromilhões que nos incentivam a apostar na chave vencedora, também no caso das promessas para o preenchimento das vagas de médicos de família, aquilo que se promete é absurdo e à descarada: há seis meses, as 200 vagas eram «o maior número de vagas de sempre»; só que, pelos vistos, havia capacidade para prometer muito mais, já que ontem o número de vagas a abrir se multiplicou para 900. No entretanto, e ainda no princípio deste mês (5 de Abril), o ministro «espera(va) contratar 200 médicos de família nos próximos meses». Mas a sua ambição deve ter sido como os sonhos por um jackpot... O ministro agora promete 900 vagas abertas mas é uma pena que, quem tenha feito as contas, tenha apurado que só haverá à partida 355 candidatos para tantas vagas. Mas é pena também que a comunicação social não consiga escrutinar estes disparates inconsequentes, porque parece não possuir memória sequer do que é que o ministro prometeu há apenas seis meses e do que se cumpriu dessas promessas. Enfim, a mediocridade subsiste porque é tolerada pela mediocridade. Porque o ministro não tem apenas um aspecto caricatural, o ministro, promete tudo a todos e expõe-se ao ridículo para aqueles que (ainda) o queiram levar minimamente a sério.

O EGO DE KAÚLZA DE ARRIAGA

15 de Abril de 1973. O Comando-Chefe das Forças Armadas em Moçambique faz publicar o comunicado acima, onde se faz um relatório/inventário do que havia sido «a acção e os resultados» da actividade das forças armadas portuguesas em Moçambique nos últimos três anos - de 31 de Março de 1970 a 31 de Março de 1973. Esses três anos correspondem ao período em que aquele comando-chefe fora exercido pelo general Kaúlza de Arriaga. Este último, que aparece nas duas fotografias do lado direito, sempre se considerara um rival de António de Spínola (que ocupava cargo equivalente na Guiné) e também sempre cuidara de promover a sua imagem na Metrópole quando as circunstâncias se propiciavam, como era este o caso. Aqui estamos perante uma exibição de um dos procônsules do império português, em vias de desaparecer.

14 abril 2023

«NÃO ESTAMOS MUITO ATRASADOS NO FERROVIA 2020»

O programa que veio a ser baptizado por Ferrovia 2020 foi apresentado há 86 meses (acima, à esquerda). Eram milhões e milhões «(dos quais 95% são fundos comunitários)» para serem aplicados nas vias férreas «nos próximos seis anos», anunciava Pedro Marques, o ministro de então. Pois bem, esses seis anos acabaram em Fevereiro de 2022, por curiosa coincidência na mesma altura em que o PS se vangloriava da maioria absoluta que recebera nas eleições legislativas. No entretanto, as taxas de execução do programa haviam-se tornado objecto de controvérsia, em que se contrapunham números de execução de uns meros 15% com proclamações de 85% por parte do secretário de Estado da área (não ajuda à credibilidade deste último número que o secretário de Estado em causa seja aquele mesmo Hugo Mendes que se celebrizou recentemente por causa da TAP...) Em suma, Ferrovia 2020 tornou-se uma espécie de código do estilo político de António Costa: promete-se imenso, não se faz (quase) nada, finge-se que nada está a correr mal. Este vice-presidente das Infra-Estruturas de Portugal, Carlos Fernandes, é que agora quer mudar de estilo (acima, do lado direito). Afinal, na apresentação original feita por Pedro Marques o «calendário de execução (estava) totalmente desajustado». «Houve uma imprudência grande ao comunicar um calendário tão desajustado. No dia seguinte à apresentação daquele calendário, alguns dos projectos já estavam quatro anos atrasados. Não era possível fazer aquilo». É mesmo uma pena que essa constatação, que se podia fazer «no dia seguinte» tenha demorado 86 meses a ser admitida, por alguém responsável que, apesar de agora se querer dissociar, já na altura por lá andava como «assessor do então ministro das Infra-Estruturas, Pedro Marques». Quando a este último, Pedro Marques, não compartilho a indulgência do seu antigo assessor de o qualificar de «imprudente»: ou ele não sabia que aquilo que estava a prometer era irrealizável, e é um incompetente, ou então sabia e aí, pior, é um aldrabão. Quanto a Carlos Fernandes, o que se lhe pode dizer é que não tenha a ingenuidade de tentar reescrever agora o enredo de uma história que já leva mais de sete anos e foi um fiasco...