09 maio 2022

O SEQUESTRO DO GENERAL DODD

9 de Maio de 1952. O interesse mediático e público pelos acontecimentos da Guerra da Coreia tinham vindo a esmorecer desde o Verão de 1951. Começara um período de conversações entre beligerantes que se arrastava desde essa altura, cheio de incidentes menores e que não progrediam. De quando em vez um episódio colateral tornava a chamar a atenção para o conflito suspenso. Como aconteceu há 70 anos. Os dois lados tinham feito milhares de prisioneiros. O principal dos campos de prisioneiros que haviam sido estabelecido pelos Estados Unidos localizava-se na ilha de Geoje, uma ilha de 402 km² (cerca de metade da área da ilha da Madeira), que se situa no sul da península coreana. Em 1952, o complexo albergava o impressionante número de 170.000 prisioneiros de guerra(!), dos quais cerca de 85% eram coreanos e 15% chineses. Para além das duas nacionalidades, a composição da população prisional coreana era heterogénea, uma vez que juntava pessoal que fora capturado combatendo de armas na mão, com civis que haviam sido aprisionados por suspeitas de colaboração com o inimigo. No princípio de 1952, os americanos haviam decidido iniciar uma grande operação de escrutínio dos prisioneiros, interrogando-os, incluindo quais seriam as suas intenções no final da guerra: - regressar ao Norte ou à China ou ficar no Sul ou ir para Taiwan? Dada a parcialidade dos interrogadores, o número de respostas favoráveis à permanência posterior no dito mundo livre cifrava-se nuns expectáveis 60%, o que constituía um embaraço de propaganda para a causa comunista, que se dispôs a contra-atacar. O contra-ataque consistiu em interditar os questionários nos blocos que eram firmemente controlados pela sua hierarquia. Já tinha havido confrontos sangrentos, 55 prisioneiros mortos em Fevereiro, outros 12 em Março, e os comunistas mostravam estar dispostos a pagar em sangue a sua intenção de não deixar os americanos escrutinar a sua população prisional. Por seu lado, os sul coreanos não consideravam a questão de matar prisioneiro insurrectos a sangue frio como um problema que os incomodasse. Fora para apaziguar esse enorme clima de tensão que o brigadeiro-general Francis Dodd, conhecido por ser uma pomba, acabou sendo nomeado para o comando do enorme campo de prisioneiros.
Era uma boa intenção e uma excelente escolha, mas numa ocasião péssima, porque o outro lado não estava com qualquer interesse em transigir e as boas vontades de Dodd iriam ser gastas sem contrapartida. A análise dos acontecimentos veio a demonstrar que os prisioneiros comunistas haviam preparado de antemão a operação em que o comandante do campo foi capturado por eles. Minutos depois de o fazerem já havia grandes cartazes pintados à mão (antecipadamente) a anunciar o feito, para que a notícia corresse depressa por todo o campo. Típico do que podiam ser as incongruências da censura à imprensa em Portugal, a notícia do rapto do general Dodd não pôde ser publicada. O facto só foi relatado no dia seguinte, acompanhado da explicação de que já havia um plano para o libertar. Só aí é que o leitor português ficava a saber que tinha havido um rapto de um general americano na Coreia... Os sequestradores-prisioneiros esforçaram-se por tratar o melhor possível o seu refém. Afinal, a sua operação era sobretudo uma batalha da guerra de propaganda, fazendo-se eco de que estavam a ser mal tratados. Mas essa era apenas a parte da verdade que interessava aos comunistas promover. Subjacente ao incidente estava a disputa sobre quem controlava efectivamente os campos de prisioneiros... Os americanos, os prisioneiros comunistas, os prisioneiros não comunistas?... Quanto ao problema imediato, o brigadeiro-general Dodd veio a ser libertado dois dias depois, após negociações e um show de força americano, composto por carros de combate, infantaria equipada de lança chamas, etc. O general Mark Clark (foto abaixo), que entretanto (12 de Maio) assumira as funções de comando supremo na Coreia foi severíssimo nas sanções: Dodd foi, não só demitido do comando, como despromovido a coronel. Tradicionalmente, comandar campos de prisioneiros durante períodos de guerra nunca deu grande reputação a quem exerceu esses comandos, mas é significativo da reputação a que descera o campo de prisioneiros de Geoje, o facto do sucessor de Dodd, o brigadeiro general Haydon Boatner, ter substituído todos os oficiais do Estado Maior logo nos primeiros dias em que assumiu o cargo. E, como é evidente, os americanos detestam falar deste assunto.

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