22 abril 2013

SOARES O INTELECTUAL E O DESTINO DOS POLÍTICOS «COLABORACIONISTAS»

Nem mesmo num país tão pouco exigente como o nosso, e apesar do seu percurso político notável, nunca Mário Soares conseguiu implantar uma imagem de alguma (mínima) substância intelectual. A imagem intelectual que eu tenho de Mário Soares adequa-se a estas fotografias que escolhi: acima, aparece encostado a uma Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira em 40 volumes, obra com um encadernamento sóbrio que fica bem numa estante de qualquer sala de estar, mas de que já se celebraram as bodas de diamante das edições dos volumes inciais, e abaixo, por ocasião de um doutoramento Honoris Causa, onde contracena com esse vulto do pensamento norte-americano moderno que dá pelo nome de Stevie Wonder.  
Soares nunca foi muito dado a esse tipo de coisas, sobre ele ganhou fama a frase que dizia que não lia os dossiers, sem se especificar sequer qual o conteúdo ou a pertinência dos ditos. Mas os resultados de uma atitude de quem, diante de um assunto que mal se conhece, preferir dizer uma coisa qualquer em vez de se ser mais prudente comprovava-se em exemplos como os de preconizar a integração de Timor-Leste na Indonésia (em Portugal Amordaçado, por analogia com o caso de Goa, Damão e Diu e da Índia) ou a extinção do Colégio Militar (constante do programa do Partido Socialista em 1973) sem sonhar com as implicações políticas dessas medidas. A idade porém (88 anos), cada vez mais desculpa aquilo que Mário Soares diz publicamente.  
Até se cair no extremo oposto. Negligenciam-se por sistema as afirmações proferidas em seu nome porque sim, porque Soares está senil, porque Soares já era assim antes de estar senil. A referência ao assassinato de Carlos I (acima), que se tornou objecto de gozo, explicar-se-á pelas suas obcecações contra Cavaco Silva mas também pelas limitações académicas da entourage que agora se exprime em seu nome. Contudo, a observação torna-se pertinente nestes tempos de extremismo político, se a depurarmos do aspecto pessoal. Não foi a eles, os que se servem de Soares, que se têm ouvido comentários públicos, que se têm multiplicado, questionando o patriotismo e a transparência dos objectivos de Vítor Gaspar, promovido ao verdadeiro cérebro governamental.
Quase ninguém reconhecerá as fotografias de Matthias Erzberger (1875-1921, acima à esquerda) e de Walther Rathenau (1867-1922), dois políticos alemães – e como me dá prazer evocar estes exemplos alemães! – que foram assassinados pelo seu alegado colaboracionismo nos anos imediatos ao fim da Primeira Guerra Mundial. Aceite-se que se estava numa época em que se assassinava ministros com facilidade, recorde-se o caso de António Granjo (1881-1921) em Portugal, mas a Erzberger e Rathenau também lhes pareceria naquela conjuntura de uma Alemanha derrotada e exausta que não haveria qualquer outra alternativa política a que se cumprisse escrupulosamente os pagamentos das indemnizações de guerra exigidas pelos vencedores no Tratado de Versalhes.
Acresce, à semelhança do exemplo de Vítor Gaspar e muito antes do Excel, que Walther Rathenau também fora um técnico reputado, responsável pelo sucesso da organização da produção de guerra da Alemanha imperial (acima, um relatório de 1915). Mas, em tempos de paixões políticas inflamadas, esse género de argumentos racionais não foram suficientes para a reflexão entre os nacionalistas mais exaltados que assassinaram os dois políticos a tiro. Gostamos de nos idealizar como um povo pacífico, tendemos a querer esquecer os feitos de João Brandão ou de Zé do Telhado, e contudo neste caso, discordo do desdém geral que saudou o título da entrevista que Mário Soares deu ao jornal i. São tempos da segurança assegurar a segurança de quem é profundamente odiado.

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