04 abril 2013

COMO UM REGRESSO AOS TEMPOS DA «MARION»

O automóvel da fotografia – trata-se de um Rover P6, facilmente reconhecível pela arrumação do pneu sobresselente em cima da mala – é de construção britânica, mas a sua matrícula e, presume-se, o seu proprietário são alemães; contudo a fotografia foi feita em França porque ao longe se vê a publicidade de uma marisqueira anunciando as suas ostras (huitres). Só o seu autor é – apropriadamente – extra-europeu e lusófono: um brasileiro, Alécio de Andrade, que a terá tirado algures no princípio da década de 70. Quanto à protagonista da foto, ela exibe aquele mesmo tipo de elegância juvenil que nos pôs, aos jovens portugueses daquela mesma idade e por aquela mesma época, encantados com a Marion de Os Pequenos Vagabundos.
Mas para os portugueses, e não só os jovens, toda a fotografia e também a Marion, eram uma quimera. Poucos portugueses se imaginavam a fazer férias no estrangeiro e quase nenhum ao volante de um automóvel com um motor de 3.500 cm³ de cilindrada. Foram décadas para que a nossa relação com a Europa passasse a ser mais descomplexada, para o que muito contribuiu a adesão de Portugal à CEE em 1986 (abaixo). Actualmente, quando se leem certo género de declarações, mais do que mais uma constatação da falência política comprovada do projecto da União Europeia, o que me pode incomodar é o segregacionismo implícito nelas, como se os nossos herdados e esquecidos complexos juvenis tivessem sempre tido afinal razão de ser…

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