09 maio 2012

O «MATCH» DO SÉCULO

Há alguns países da Europa que sempre foram considerados mais intrinsecamente “neutrais” durante a Guerra-Fria: a Áustria, a Finlândia (que foi escolhida para o local de assinatura da Acta de Helsínquia em 1975), a Suíça…e a frequentemente esquecida Islândia. Norte-americanos e soviéticos escolheram a capital islandesa, Reiquiavique, para local da realização da Cimeira que juntou Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan em Outubro de 1986 mas já antes disso a cidade fora escolhida para local da realização do Campeonato Mundial de Xadrez em Julho de 1972.
Essa edição de 1972 do Campeonato Mundial de Xadrez enquadrava-se perfeitamente no espírito da Guerra-Fria que era então uma constante da situação internacional: um norte-americano contestava pela primeira vez o título a um soviético, quando os jogadores de origem soviética haviam dominado hegemonicamente aquela disciplina nos últimos 45 anos. Era uma história cheia de potencial, daquelas declaradamente inspiradas em David contra Golias, mas infelizmente o xadrez deve ser das modalidades mais exigentes para aqueles que a queiram acompanhar.
Contornando isso, a cobertura noticiosa da comunicação social ocidental estava repleta de fait-divers para que aqueles que queriam acompanhar o match por clubismo mas não percebessem nada de xadrez ficassem com a sensação que estavam a par do assunto. E, contando com a complexa personalidade do concorrente norte-americano, Bobby Fischer (1943-2008 - acima), os torcedores não podiam ficar menos desapontados com essa cobertura periférica sobre o que estava a acontecer em Reiquiavique. Fischer começou logo por faltar à cerimónia de abertura e por pedir mais dinheiro…
Na verdade, o que os ocidentais queriam evitar mostrar à sua opinião pública era que o seu campeão era um geek (acima). Em contraste, a imagem do seu opositor Boris Spassky (1937- ) era muito mais favorável (abaixo), nada conforme com a do russo patibular com ar de espião da Guerra-Fria. No tabuleiro contudo, depois de perder as duas partidas iniciais (e a segunda foi perdido por falta de comparência…), Fischer venceu a terceira, quinta, oitava, décima, décima terceira e vigésima primeira partidas (contra apenas a 11ª partida para Spassky), vencendo o Campeonato com 12½ pontos!        

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