08 janeiro 2021

O TRAVO OMNIPRESENTE DA CONFEDERAÇÃO, DA ESCRAVATURA E DO RACISMO

Uma das imagens mais emblemáticas do recente assalto ao Capitólio nos Estados Unidos é esta acima, da Reuters, com um dos assaltantes passeando-se pelas salas do edifício com uma battle flag da confederação ao ombro. A imagem é poderosamente simbólica no seu significado. Como reconhecia um amigo meu, fervoroso admirador - e desculpabilizador... - da Confederação, este homem parecia ter alcançado numa tarde - a incentivo de Trump, não o esqueçamos... - aquilo que o general Robert E. Lee não conseguira em 4 anos de Guerra Civil (1861-65): conquistar Washington! Aliás, como a pessoa em questão é, para além de um admirador incondicional dos sulistas, um aplicado estudioso do tópico da Guerra Civil, especialmente se visto da perspectiva dos secessionistas, sugeri-lhe que não perdesse tempo a investigar o nome deste novo herói da (sua) causa. Creio que ainda não se descobriu o seu nome, mas estou convencido que a tarefa prosseguirá, para benefício deste meu amigo que, para além de livros com a lista e os comandos de todos os generais confederados, complementou-os com um outro com o registo biográfico de todos os coronéis desse mesmo exército! Numa biblioteca dessas não pode faltar o registo daquele (ainda anónimo) que fez o que Robert E. Lee nunca conseguiu fazer: fazer flutuar a battle flag dos Sulistas nas salas do Capitólio de Washington. Mais a sério e levando o assunto com a seriedade que ele merecerá, e ainda a pretexto da condescendência para com os heróis e a causa confederada, que está infiltrada em inúmeros estratos da sociedade americana, deixem-me aproveitar a ocasião do show off da bandeira para contar uma história recente que aconteceu no Virgínia Militar Institute, a propósito das honras que estes estabelecimentos tinham vindo a conceder, desde há muito, às altas patentes que, na Guerra Civil, combateram do lado do esclavagismo.
Comecemos por explicar que o Virginia Military Institute (VMI) é um estabelecimento militar de ensino público - que podemos comparar aproximadamente aos exemplos portugueses do Colégio Militar e do Instituto Militar dos Pupilos do Exército - um estabelecimento centenário, fundado em 1839 em Lexington, na Virgínia. Em 1861, e porque a maior parte da Virgínia (incluindo Lexington, onde se situa o estabelecimento) se tornou um dos 13 estados secessionistas que abandonaram a União, os cadetes da VMI acabaram tomando parte na Guerra Civil do lado dos confederados. Um dos generais que mais se destacou no conflito foi precisamente um dos instrutores - da cadeira de Filosofia Natural... - da VMI, o general Thomas «Stonewall» Jackson (1824-1863). É dele a estátua que vemos na imagem acima, do lado direito, em destaque diante das instalações actuais. Do lado esquerdo, e com a mesma dimensão, embora com um aspecto mais recente, exibe-se uma outra estátua, a daquele que foi, sem qualquer discussão, o mais insigne aluno daquele estabelecimento militar de ensino, o general George Marshall (1880-1959). É tão significativa a diferença da importância dos dois para a Historia dos Estados Unidos, que a minha primeira reacção foi de estranheza pelo facto de no VMI eles serem, pelo que se pode observar pelas duas imagens acima, postos em pé de igualdade. Mas não. Uma fotografia de conjunto (abaixo), permitiu-me perceber que não há qualquer igualdade. Assinalada no círculo vermelho está a estátua de «Stonewall» Jackson, acompanhada de quatro canhões, enquanto que a estátua de George Marshall se posiciona em lugar isolado. Ou seja, e até há bem pouco tempo, na parada do VMI, a figura de um tenente-general rebelde (três estrelas) aparecia em lugar mais proeminente do que a do General (cinco estrelas) George Marshall.
Perante tal discriminação absurda, convém atirar a modéstia às malvas e recordar que George Marshall foi um dos únicos cinco generais de cinco estrelas do exército dos Estados Unidos. Foi Chefe do Estado Maior do Exército durante a Segunda Guerra Mundial, foi Secretário (ministro) da Defesa, foi Secretário de Estado (o equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros), o plano de recuperação económica da Europa de após-guerra recebeu o seu nome e, por causa disso, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1953. E é uma pessoa com um currículo como este, que tem uma estátua secundária em comparação com um comandante de corpo de um exército rebelde durante uma guerra civil!... Não me convencem que, em décadas, nenhum responsável, se apercebeu da incongruência do destaque dado às duas estátuas, que, para quem conheça a História, é insultuosa para com a figura de George Marshall. E que não tem explicação possível à luz das regras rígidas protocolares da hierarquia militar: a única explicação é a ideologia. Aliás, não é em vão que o VMI foi o último estabelecimento público de ensino da Virgínia a aceitar estudantes negros, em 1968; e o mesmo aconteceu com a admissão de mulheres em 1997, que acabou por lhes ser imposta por força de um acordão do próprio Supremo Tribunal Federal (uma votação de 7-1). O Virginia Military Institute representa um dos emblemas do reaccionarismo americano que, entre outras coisas, tenta dulcificar aquilo por que se bateram os confederados: entre outras coisas, pela escravatura. Mas, também por isso, tornou-se um alvo. Há coisa de um mês, e no seguimento das inúmeras iniciativas que estão a derrubar as estátuas dos confederados, também esta de «Stonewall» Jackson acabou por ser removida, vejam-se as imagens abaixo.
Na reportagem, e lá mais para diante (1:20), há quem se preocupe com a reorganização da parada após a remoção da estátua de Jackson e sugere-se, com a maior candura, que tudo poderia ser recentrado à volta da estátua de George Marshall, por acaso um dos mais prestigiados militares da História dos Estados Unidos e por acaso um antigo aluno daquele estabelecimento de ensino. Com este género de comentário e os valores de excelência que lhes estão subjacentes, fica-me a questão da relação que Marshall terá tido com a sua escola de formação, posteriormente à ter frequentado, e a dúvida de que George Marshall é bem capaz de ter chegado onde chegou apesar de ter frequentado a VMI, não por causa de a ter frequentado. Na reportagem não se pergunta mas, quanto a arranjar uma estátua de alguém que substitua Jackson, posso sugerir o general Leonard T. Gerow (1888-1972), antigo aluno também ele, e como Jackson, comandante de um corpo de exército, mas na Segunda Guerra Mundial, do lado dos bons, não dos outros.

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