24 janeiro 2018

A PRETENSA RECONCILIAÇÃO FRANCO-FRANCESA DE CASABLANCA

24 de Janeiro de 1943. Há 75 anos decorria o último dia da Conferência de Casablanca e, no final das negociações entre britânicos e norte-americanos, entre Churchill e Roosevelt, vinha interpor-se a questão francesa. Era uma questão que tinha o condão de enervar Roosevelt. A sua administração negociara com Vichy até à entrada na Guerra em Dezembro de 1941, atraíra para a órbita dos Estados Unidos personalidades francesas que eram dedicadas ao marechal e todavia as inclinações pessoais do presidente apartavam-no daquilo que o Estado Francês representava. Por outro lado, em relação a de Gaulle, a antipatia de Roosevelt era visceral, detectava-lhe no estilo veleidades totalitárias e uma pose negocial que as circunstâncias apenas tornavam ridícula. A um e outro lado Roosevelt criticava o facto de representarem uma França imperialista e colonialista, a que não antevia grande futuro na formatação que concebia para o Mundo depois do fim da Guerra. Quanto à forma como as diferentes facções francesas se procuravam entender entre si, depois do assassinato de Darlan no mês anterior, de Gaulle telegrafara a Giraud propondo que se encontrassem. Giraud porém, desconfiado de que os gaulistas estivessem por detrás da autoria do atentado que vitimara o predecessor, ignorara o contacto. Porque o percurso de cada uma das facções - os franceses de Argel e os de Londres - fora completamente distinto entre 1940 e 1942 (com os primeiros a permanecerem nesses dois anos fiéis a Pétain e a Vichy), de Gaulle continuava banido de entrar na África colonial francesa do Magrebe.
Mas, embora sempre difícil de controlar, de Gaulle era também o francês dos britânicos. Como justificava Harold MacMillan (que virá a ser um futuro primeiro-ministro britânico, mas nesta altura estava apenas encarregue da tarefa - sempre - ingrata de controlar le Grand Charles), «é um homem difícil, mas custou-nos setenta milhões de libras e não podemos esquecer que esteve ao nosso lado nas horas mais negras. É uma questão de interesse, de prestígio e honra apoiá-lo nas suas aspirações políticas". A Conferência de Casablanca, albergando a presença simultânea de Churchill e Roosevelt, apadrinhando cada um o seu francês, parecia o local ideal para a criação uma solução de compromisso entre os dois Comités de Libertação sedeados cada um na sua capital (Argel e Londres). Convidado, o general Giraud, que representava Argel mais a ruptura recente com Pétain e Vichy, chegou sem demoras e sem malícia. Mas o general de Gaulle recusou-se a vir. Churchill insistiu, precisando que o convite era conjunto, dele e do presidente dos Estados Unidos. De Gaulle manteve a recusa, alegando que as suas questões com Giraud eram um assunto exclusivamente francês. Por essa vez, quem se terá divertido com o ridículo da situação terá sido Roosevelt, mas Churchill ter-se-á enfurecido e mandou-lhe um telegrama em forma de ultimato: «Se persistir em rejeitar esta última oportunidade que lhe é oferecida, arranjar-nos-emos para passar sem si».
Com um sentido cénico impar, de Gaulle percebeu quando era a sua deixa e a 22 de Janeiro, nono dia da Conferência, lá chegava ele, transportado por um bombardeiro da RAF. É verdade que cedera mas, ao fazer-se esperar, ganhara alguns pontos antes de se sentar sequer à mesa das negociações. Sentou-se, mas continuou intratável. Lançou alguns comentários deselegantes sobre o facto de se encontrar numa terra francesa (não era bem assim, Marrocos era apenas um protectorado francês...), mas rodeado de um dispositivo de segurança formado por exércitos estrangeiros. E quanto à substância do que se pretendia dele, algum género de associação entre os dois Comités nada se lhe conseguiu arrancar. Nem as ameaças de Churchill, nem o encanto de Roosevelt surtiram efeito. De Gaulle explicava-lhes que viera porque haviam insistido para que viesse (é o mínimo que se pode dizer!), mas tencionava partir livre de qualquer compromisso que lhe quisessem impor. É assim que chegamos a este último dia da Conferência, um domingo, há precisamente 75 anos. O dia começou por uma última pega monumental entre Churchill e de Gaulle. Os dois foram depois encontrar-se com Roosevelt, junto de quem estava Giraud. Registou-se ainda um último fracasso para a redacção de um comunicado conjunto dizendo as trivialidades que se escrevem quando não há nada para dizer. Foi então aí que Roosevelt, em último recurso, ainda perguntou a de Gaulle se consentiria em deixar-se fotografar com Giraud ao lado do primeiro-ministro e de si próprio.
A isso de Gaulle disse que sim. E, não perdendo a embalagem, prosseguiu Roosevelt «Iria ao ponto de apertar a mão do general Giraud em frente aos fotógrafos?» E de Gaulle respondeu-lhe, usando o inglês por cortesia: «I shall do that for you» (fá-lo-ei por si). Foi assim que foi montado o cenário com o pátio soalheiro e as quatro cadeiras que se pode apreciar nesta sequência de fotografias feitas diante um colectivo de fotógrafos de guerra. Não tendo o 1,93 de Charles de Gaulle (que o favorecia naturalmente nas fotografias), Henri Giraud também era muito alto (Eisenhower descreve-o nas suas memórias como tendo bem mais de 1,80) e suporta bem o embate visual cumprimentando o seu rival, mas a linguagem corporal dos dois franceses afigura-se inequívoca do quanto o gesto é forçado (veja-se mais abaixo o vídeo com os diversos encores em que isso ainda se torna mais evidente). Na verdade e apesar de parecer internamente que nada cedera e externamente que tudo parecia estar como se eles se dessem como Deus com os Anjos, de Gaulle acabara por consentir em permutar representantes com o Comité de Argel, assim se estabelecendo uma ligação funcional com os rivais. Mas o último comentário à ocasião, de Gaulle guardou-o para as suas memórias como legenda da fotografia da ocasião: «Os quatro actores mostram o seus sorriso. Adoptaram-se as atitudes convencionais, Tudo corria bem. A América do Norte dava-se por satisfeita, julgando ver, nas fotografias, que o problema francês encontrava o seu «deus ex machina» na pessoa do presidente.» Foi há 75 anos e bem pode continuar a ser hoje.

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