30 janeiro 2018

A CRIAÇÃO DA MILÍCIA FRANCESA

30 de Janeiro de 1943. Dois meses e meio antes, o governo de Vichy acabara de sofrer mais uma humilhação, com a ocupação pelos alemães da que fora até aí designada por Zona Livre. O governo cambaleara, mas, à custa de humilhações suplementares, não caíra. E há precisamente 75 anos, o colaboracionismo procurava superar-se criando uma organização paramilitar, a milícia francesa, com o objectivo de combater internamente as expressões de resistência à ordem imposta: tanto as acções armadas quanto aqueles que, requisitados, se recusavam a ir trabalhar para a Alemanha. À frente da nova organização Joseph Darnand (1897-1945), um devoto do marechal Pétain, e uma demonstração de que muitas das personagens da França destes anos de chumbo (que vão de 1940 a 1944) raramente são para analisar a preto e branco, antes gradientes de cinzento. Darnand já então era um herói de guerra, a maioria das condecorações que acima se lhe vêem no peito são por bravura, alcançadas na Primeira mas também na Segunda Guerra Mundial - em combate contra os alemães... São as suas simpatias políticas de sempre pela extrema-direita que o fazem agora prestar-se a ser usado para dar a cara por uma organização destinada a auxiliar os seus antigos inimigos de estimação. A importância da milícia foi muito mais política do que militar - mesmo que os seus efectivos tenham chegado a atingir os 35.000 homens, trata-se de um número ridículo quando comparado com os milhões que evoluíam simultaneamente noutros Teatros de Operações da Segunda Guerra Mundial. E mesmo essa importância política circunscreve-se à França. Mas a conduta da milícia também funciona como um exemplo universal daquilo que pode acontecer aos simpatizantes da direita quando se impregnam em excesso da ideologia, a ponto de perderem de vista a sua matriz nacionalista. Como escreve Pierre Giolitto na contra capa desta sua História da Milícia:
«Pretendia-se que a Milícia francesa fosse uma cavalaria que trouxesse consigo um novo desabrochar em força. Tornou-se numa falange maldita. Mais frequentemente evocada que estudada, acabou por ser considerada como uma espécie de Gestapo francesa ao serviço do inimigo. A Milícia é um testemunho extremo dos estragos que se podem exercer nos homens de acção, patriotas mas de vistas limitadas, a começar por um marechalismo excessivo e pela fobia anti-republicana, depois por um anti-comunismo obsessivo e finalmente pelas prédicas dos ultra-colaboracionistas.» Se Giolitto está hoje disposto a compreender a obtusidade que atacou os "homens de acção", a época que então se vivia não era de molde a mostras de tal tolerância: por muito valorosos que tivessem sido os serviços prestados à França nos campos de batalha, Joseph Darnand foi fuzilado por traição em 10 de Outubro de 1945, cinco meses depois do fim da guerra (na Europa).

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