23 março 2017

A REANEXAÇÃO DE MEMEL (HOJE KLAIPEDA NA LITUÂNIA)

A 23 de Março de 1939, conforme o mostram as imagens abaixo, Adolf Hitler efectuava mais uma das suas visitas triunfais, desta vez à cidade e região de Memel (hoje Klaipeda), reanexada à Lituânia. Porque Memel é um porto (no Báltico), o Führer dessa vez viajara de navio, embora, não por acaso, o meio de transporte fosse o Panzerschiff Deutschland, um meio de transporte que se situaria bem para além das posses até mesmo de um Roman Abramovich. Como neste blogue se tem vindo a assinalar em algumas efemérides deste mês de Março, em Viena ou em Praga e agora em Memel, o final desta década de 1930 parece ter assistido ao aparecimento de novo estilo europeu de turismo "hors saison", com as populações visadas a dispensar um acolhimento exuberante aos turistas...

22 março 2017

SILÊNCIOS RIBOMBANTES

Politicamente significativo não terá sido apenas nem sobretudo os comentários de António Costa a atacar as declarações infelizes do Jeroen Dijsselbloem. Mais ribombantes do que as suas palavras terão sido os silêncios de Pedro Passos Coelho e de Maria Luís Albuquerque, que nunca se furtam a dizer qualquer coisa quando lhes apraz e que desta vez já deixaram passar o comboio da oportunidade de dizer mais qualquer coisa, mesmo que o gesto pudesse não agradar a quem tanto os apadrinhou... Com estas figuras de proa, a esquerda roubou completamente a causa do nacionalismo à direita. E isso pode valer votos, muitos votos.

«DEMOCRACIAS» AFRICANAS

A 22 de Março de 1967 a Serra Leoa, mais um dos jovens países africanos saídos da descolonização britânica, via-se a braços com a sua maior crise política da sua breve história independente de apenas seis anos. Houvera eleições legislativas a 17 de Março de 1967. Ganhara a oposição. Mas quando o governador-geral pretendera dar posse ao novo primeiro-ministro, uma facção dos militares conotada com o partido derrotado nas eleições realizara um golpe de Estado, escassos quatro dias depois. Como já acontecera em vários outros países africanos, a pequena pátina de democracia deixada pelas potências coloniais desaparecia à primeira contrariedade política.
Um exército como o da Serra Leoa era ridiculamente pequeno pelos padrões tradicionais (menos de 2.000 efectivos), mas, mesmo assim, era a mais poderosa fonte de poder no país. O enquadramento de tais exércitos era assegurado por oficiais que a descolonização havia catapultado bastante jovens para patentes superiores. O novo homem forte da Serra Leoa, o brigadeiro David Lansana tinha 45 anos. Mas dali por escassos dias (27 de Março), haveria um outro contra-golpe que iria depô-lo para o substituir pelo tenente-coronel Andrew Juxon-Smith de 34 anos, que abaixo podemos apreciar numa entrevista onde tartamudeia uma crítica à classe política local.

Mas também este não iria aquecer o lugar. No ano seguinte, em Abril de 1968, Juxon-Smith viria a ser deposto por sua vez num outro golpe de Estado e substituído pelo coronel John Bangura de 38 anos. Em Portugal dava-se um certo relevo irónico a todas estas vicissitudes quando comparadas com o seu próprio regime colonial. Para mais quando se fica a saber que, destes três oficiais mencionados acima, apenas Andrew Juxon-Smith teve o privilégio de morrer descalço e na cama e só por causa de estar exilado nos Estados Unidos (1996). David Lansana foi executado por traição em 1975 enquanto John Bangura já fora enforcado pela mesma razão logo em 1970...

A DEPOSIÇÃO DO PAPA

Se há coisa que me irrita são aqueles ignorantes que, sem saber enumerar sequer uma versão dos Dez Mandamentos, quanto mais fazer um resumo em três linhas do impacto sociológico e teológico do concílio Vaticano II, se acham habilitados para comentar de cátedra as tensões internas da igreja católica. Exemplo: Daniel Oliveira. Mas até o próprio Daniel Oliveira parece sair absolvido da unção do disparate magno se contraposto à realização deste colóquio acima, prometido para o final deste mês em Paris e promovido nitidamente pelo outro lado do espectro político de uma igreja que pretende manter sempre a ilusão que não tem facções. Os seus promotores parecem estar visivelmente tão irritados com a actuação do Papa Francisco que, quatro anos após a sua entronização, avançam inequivocamente com a proposta da sua deposição, sem outro processo. O que me diverte sobremaneira é aquela última linha anunciando o programa científico. É que é precisa imensa ciência para produzir argumentação em prol da deposição do poder existente. Desconfio que, por essa lógica, o próximo congresso do PSD depois das autárquicas, por exemplo, vai ser cientificíssimo, quase equiparado a um congresso de Astrofísica.

O COMBATE DOS CHEFES (15)

«Quod erat demonstrandum» - isso é fácil de dizer.

21 março 2017

O TERRORISMO «BOM» E O TERROISMO «MAU»


São duas notícias da Euronews, ambas sobre acontecimentos da passada semana em Paris, há 48 horas a separá-las, mas o restolho noticioso que as duas provocaram não é comparável. É verdade que a de cima apenas provocou um ferido, enquanto que a de baixo provocou um morto. Todavia, se fosse o saldo de mortos a contar para a grandiosidade da divulgação das notícias, a do aeroporto de Orly teria sido desalojada pelos incidentes registados à porta de uma discoteca de Lisboa no mesmo dia e que provocou dois mortos; ora esta última nem chegou a saber-se em Badajoz... Não será isso, há todo um outro critério noticioso, confuso e que nos parece irracional, que aqui se articula para conferir uma visibilidade que parece desejada para a segunda notícia (a acção inconsequente do tresloucado radical de Orly) mas indesejada para a primeira (a do receptor da carta armadilhada na sede parisiense do FMI). Podem grupos radicais, neste último caso, começar a lembrar-se de mandar mais cartas armadilhadas - e, desta vez, potentes - para alguns destinatários que coleccionam antipatias por essa Europa fora. É que, por muito que não se endosse a prática do terrorismo, ao ler opiniões como a de que os países da Europa do Sul gastaram o dinheiro em álcool e mulheres, só por hipocrisia a opinião pública dos países visados pelo infeliz comentário vai ficar muito contristada se acontecer alguma coisa desagradável ao autor...

O COMBATE DOS CHEFES (14)

Esta cena em que Aplusbégalix dá uma meia volta e os seus carregadores dão outra, deixando-o de novo de fronte para aquele a quem tão teatralmente ele virara as costas, lembra-me as partidas que a vida às vezes prega àqueles que ostensivamente inverteram o seu curso para depois descobrirem que as circunstâncias os trouxeram precisamente ao que ao princípio haviam mostrado renegar. Goscinny é um filósofo.

AS OPINIÕES EM DESTAQUE E OS FACTOS SÓ LÁ MAIS ABAIXO

Por muito que a nossa atitude esteja a ser crescentemente de desconfiança em relação a tudo o que se diz pela Europa a nosso respeito, é sempre desagradável ler mais uma dessas notícias onde o nosso país aparece admoestado por mais uma falha qualquer. Este caso, que é noticiado pelo Diário de Notícias em que o censor desta vez é o BCE e o motivo da censura esse objectivo abstracto que nos lembra o sítio mítico onde o arco-íris pousava na Terra e que dá pelo nome de reformas estruturais, o caso, dizia, é apenas mais um das inúmeras listas em que Portugal (e a expressão consagrou-se) está na cauda da Europa. Ou seria, se o jornalista não tivesse tido a cortesia de adicionar abaixo os verdadeiros dados que estão por detrás da reprimenda do cabeçalho. O que nos permite analisá-los e pensar por nós. É por eles que se descobre, por exemplo, que a pontuação de Portugal na matriz de avaliação da Comissão Europeia foi de 35%, quando esse resultado compara com a média da zona euro de... 36,9%. Se Portugal tem negativa (como aparece escrito na notícia), o mesmo acontece com 15 dos 18 países da zona euro (o que não aparece escrito). Já agora, e por mesquinhez, convém dar relevo ao facto que, quanto às tais reformas estruturais, a Alemanha do senhor Schäuble e a Holanda do senhor Dijsselbloem, dois especialistas que nos habituámos a ouvir com imensas opiniões a nosso respeito, aparecem abaixo de Portugal na lista da predisposição em implementar as tais ditas reformas estruturais. Pessoalmente, se eu sintetizasse as conclusões a extrair da lista abaixo, escreveria que os países europeus se estão a cagar para a implementação das tais reformas estruturais. Um jornalista profissional não pode escrever cagar. Isso eu percebo. O que eu não percebo é porque escreve esta cagada...
E, já agora, uma última pergunta ao jornalista Luís Reis Ribeiro que assina a cagada. Qual foi a taxa de cumprimento da Grécia? É que a zona euro tem 19 membros e só aparecem 18 países neste quadro. Ou LRR nem se apercebeu dessa ausência e quem pode responder por isso é o DV que lhe fez os cálculos?...

20 março 2017

O EMBAIXADOR CARLUCCI, O C-5 GALAXY AO FUNDO E O AGENTE SECRETO QUE LHE CONTA UM SEGREDO

No sítio onde a encontrei, uma compilação do Observador, a fotografia acima serve para identificar Frank Carlucci, que foi o embaixador dos Estados Unidos em Portugal por três anos, entre Janeiro de 1975 e Fevereiro de 1978, incluindo o importantíssimo período do PREC. Foi, de longe, o mais conhecido dos embaixadores daquele país antes de Robert Sherman (de Abril de 2014 a Janeiro de 2017). Conotadíssimo com a CIA durante o período em que esteve em Portugal, a sua carreira posterior encarregou-se de comprovar as suspeitas que granjeara por cá: saiu de Portugal para se tornar subdirector daquela Agência. Por detrás de Carlucci, na placa do aeroporto, reconhece-se, pelo seu nariz móvel característico, um C-5 Galaxy, o maior avião de transporte do arsenal de carga da USAF (e, à época, do Mundo), numa exibição implícita da enorme capacidade norte-americana. Mas o pormenor mais interessante da fotografia, é a companhia do embaixador, que nem foi identificada pelo jornal, um Henrique Medina Carreira de óculos (que se presumem) escuros na mão, e um estranho ar conspiratório de agente secreto que conta um qualquer segredo ao embaixador que o escuta atentamente. Quem ali o vê naquele instantâneo, nem o imagina 40 anos depois a contar outros segredos diante das câmaras da TVI a outra auditora atenta: Judite Sousa - Portugal está perdido - o colapso é eminente.

O COMBATE DOS CHEFES (13)

Assinale-se nesta prancha a primeira aparição de Bonemine, a mulher de Abraracourcix, embora num papel mais do que secundário, caprichando na toilette do marido. Recorde-se que se estava em 1964, em França não se prestava atenção a Yvonne de Gaulle e em Portugal o que havia a destacar em Gertrudes Thomaz era o formato e o anacronismo dos chapéus que usava nas cerimónias oficiais, qual paradigma da vetustez fora de moda do regime. A criação de um gabinete próprio para as funções de presidenta estava guardada para dali a mais de 30 anos no futuro, para a presidência de Jorge Sampaio (...e de Maria José Ritta). É uma chatice para aqueles que acham muitas coisas, mas a culpa por essa vez não foi nem do Cavaco... nem da Cavaca.

19 março 2017

OS DEPARTAMENTOS FRANCESES DO ULTRAMAR (DOM)

A 19 de Março de 1946 foi promulgada em França a Lei nº 46-451 que transformou as suas antigas colónias de Guadalupe e Martinica (nas Caraíbas), Guiana (na América do Sul) e Reunião (no Oceano Índico) em Departamentos do Ultramar (DOM - Départements d'outre-mer). Ter-se-á tratado de uma manobra inteligente e de antecipação à ameaça potencial representada pelo Capítulo XI da recém aprovada Carta das Nações Unidas, o capítulo que tratava dos territórios não autónomos. Com o gesto de equiparar estas antigas colónias aos departamentos metropolitanos, ao mesmo tempo que deixava todo o resto do império colonial com os seus estatutos distintos para que a ONU se entretivesse a descolonizá-lo, a França definiu assim as suas fronteiras mínimas, mesmo que estas, no caso de Reunião, se situem quase do outro lado do Mundo em pleno Oceano Índico. A história da descolonização da França está repleta de incidentes e guerras coloniais, desde o caso vietnamita até ao emblemático caso da Argélia mas o sucesso desta medida precoce, tão discreta quanto (injustamente) pouco apreciada, pode avaliar-se pelo facto de nenhuma daquelas antigas quatro colónias estar hoje abrangida pela famigerada lista da ONU dos territórios pendentes de serem descolonizados. Reconheça-se porém que o colonialismo, nestes 71 anos, já deu tantas voltas que há territórios que a ONU quer descolonizar mesmo quando referendos realizados parecem indicar que as populações que os habitam preferem manter o status quo...

O COMBATE DOS CHEFES (12)

É a prancha que nos mostra as ambições políticas profundas de Aplusbégalix: «Vou vencer Abraracourcix porque sou o mais forte! E depois, ajudado pelos romanos, vou vencer todos os outros chefes, e ficarei a ser o único chefe da Gália!» Pelos vistos, o chefe gaulês, por se fingir conformar ao status quo, também acreditava que iludiria os romanos (no caso de Pedro Passos Coelho eram os alemães) e que estes últimos acabariam por o ajudar nas suas ambições domésticas...

MERKEL, TRUMP, A NATO E A LIGA DE DELOS


Quem liga a estas coisas tem-se divertido ou indignado imenso com os momentos protocolares que se seguiram ao encontro em Washington entre Angela Merkel e o anfitrião Donald Trump, com o momento antipático do presidente americano ao recusar-se às convenções de cumprimentar a convidada para as fotografias. A reputação de Trump em termos de gaffes consegue ser já pior que a do já esquecido Sílvio Berlusconi. Mas aquilo que considero pior nele nem sequer serão estas imagens, que tem um (mau) impacto imediato, é o que ele depois fez por detrás, estes dois tweets abaixo, produzidos já depois da visita e das conversações: Apesar do que ouviram nas NOTÍCIAS FALSAS tive um GRANDE encontro com a Chanceler alemã Angela Merkel. Contudo, a Alemanha deve... ...uma vasta quantia de dinheiro à NATO e os Estados Unidos devem ser mais bem remunerados pela poderosa e caríssima defesa que asseguram à Alemanha!
Aparentemente Angela Merkel levou a sua adiante e Donald Trump saiu da reunião com uma enorme azia e esta reacção será a desforra de quem não gosta de ser contrariado. Mas o mais bizarro nem sequer foi o gesto. Foi a forma como foi redigido este seu comentário, que sugere uma perceptível falta de entendimento do funcionamento da organização, suspeita que alguma imprensa não tardou a assinalar. A forma como Donald Trump conceberá o financiamento da NATO (organização fundada em 1949) parece equiparar-se à da Liga de Delos da Grécia clássica (fundada em 478 a.C.). Nesta última é que só as grandes cidades é que forneciam os meios humanos e materiais para a defesa comum, nomeadamente os navios; as contribuições das cidades menores eram todas em dinheiro (abaixo à esquerda), o que dava origem a um importante tesouro acumulado, que esteve originalmente sedeado na cidade de Delos. Daí o nome da Liga. 2427 anos depois, esse processo de financiamento das alianças militares já estaria um pouco obsoleto e o da NATO é diferente. Cada membro é responsável por financiar os seus próprios meios de defesa, na maioria das vezes adaptados à sua dimensão. Até mesmo um país pequeno como o Luxemburgo contribui para o esforço comum com uma companhia. Mesmo que os Estados Unidos os subsidiem, os países membros da NATO não compram segurança aos Estados Unidos, como se depreenderá das palavras dos tweets acima..
Alguém recentemente me chamou a atenção (quiçá com toda a razão) para que eu não subestimasse Donald Trump, tendo em consideração o rol de derrotados que ele já deixou pelo caminho por terem feito isso mesmo, mas o que me ocorre nestes momentos é precisamente o sentimento contrário: não estaremos nós a cometer o erro de sobrestimar Donald Trump?

18 março 2017

O FIM DA REVOLTA DE KRONSTADT

Há precisamente 96 anos, a 18 de Março de 1921, era dada como terminada a Revolta de Kronstadt. A cidade de Kronstadt situa-se na ilha de Kotlin, distante uns 30 km de São Petersburgo em pleno Golfo da Finlândia e era também a base naval principal da Frota russa do Báltico. As revoluções de 1917, por causa da concentração de marinheiros, haviam-na tornado um dos expoentes do espírito revolucionário da época. Em princípios de 1921, já os bolcheviques levavam mais de três anos de poder e grassava um grande descontentamento entre as mesmas classes sociais que os haviam apoiado na sua tomada do poder. Multiplicavam-se as expressões desse mau estar, mas em 1 de Março daquele ano os marinheiros da base entraram em rebelião aberta com o poder, a novidade consistia em que o poder bolchevique, depois de se sair vencedor da oposição de direita durante a Guerra Civil, estava agora a ser atacado pela esquerda, como se comprova pelo teor das quinze resoluções dos revoltosos:
1.      Exigência da realização de novas eleições imediatas para os sovietes. Os sovietes actuais já não expressam os desejos dos trabalhadores e dos camponeses. As novas eleições devem ocorrer recorrendo ao voto secreto e devem ser precedidas de uma campanha eleitoral em liberdade;
2.      Liberdade de expressão e de imprensa para os trabalhadores e camponeses, para os anarquistas, e para os partidos socialistas de esquerda (referência aos mencheviques e aos socialistas revolucionários);
3.      Direito de reunião e liberdade plena para os sindicatos e organizações camponesas;
4.      Organização, no mais tardar até o dia 10 de Março de 1921, de uma conferência de trabalhadores, soldados e marinheiros de Petrogrado (São Petersburgo), Kronstadt e do distrito de Petrogrado que não sejam militantes do Partido;
5.      Libertação de todos os presos políticos anarquistas e de partidos socialistas e de todos os trabalhadores, camponeses, soldados e marinheiros assim como de todos os militantes de organizações operárias e camponesas que estejam presos;
6.      Eleição de uma comissão para estudar os dossiês de todos os detidos em prisões e campos de concentração;
7.      Abolição de todas as secções políticas dentro das forças armadas. Nenhum partido político deve ter privilégios para a propagação de suas ideias, ou receber subsídios do Estado para esse fim. No lugar de secções políticas vários grupos culturais devem ser criados, usando os recursos do Estado;
8.      Abolição imediata das barreiras criadas entre as cidades e o campo;
9.      Igualdade de rações para todos os trabalhadores, excepto para aqueles que executem funções perigosas ou insalubres;
10.  Abolição dos destacamentos de combate do Partido nas instituições militares. Abolição dos guardas do Partido nas fábricas e empresas. Se os guardas forem necessários, eles só devem ser nomeados levando-se em consideração a opinião dos trabalhadores;
11.  Concessão aos camponeses de liberdade de acção sobre o seu próprio solo e do direito de possuir gado, contanto que sejam directamente responsáveis por aqueles e que não utilizem mão-de-obra assalariada;
12.  Pedido para que todas as unidades militares e grupos de cadetes aspirantes se juntem a esta resolução;
13. Exigência de que a imprensa dê publicidade adequada a esta resolução;
14. Exigência da instituição de grupos de controlo operário móveis;
15.  Exigência de que a produção artesanal seja autorizada desde que ela não utilize mão-de-obra assalariada.
Apesar de se tratar de uma ilha, o contra-ataque das unidades bolcheviques processou-se como se de uma batalha terrestre se tratasse: em Março o Mar Báltico que rodeava Kronstadt estava totalmente congelado. O primeiro ataque teve lugar uma semana depois do início da revolta (7 de Março) mas fracassou. Houve que esperar outra semana e meia para que a superioridade numérica e material dos assaltantes se comprovasse no terreno. Há uma grande disparidade de números quanto ao número de baixas de um lado e doutro e quanto à severidade e abrangência da repressão. Uma conclusão clara se podia extrair do que acontecera: a revolução liderada pelos bolcheviques e por Lenin dispensava o contributo daquilo que hoje caiu no goto e se costuma designar por esquerda plural. Acessoriamente, acrescente-se que simultaneamente por coincidência, embora muito longe de Kronstadt, o Partido Comunista Português fora fundado a 6 de Março de 1921.

O COMBATE DOS CHEFES (11)

Note-se como os momentos iniciais e cruciais de uma carreira podem ter sido desencadeados por um equívoco como acontece no final da prancha com o pequeno Catedralgotix.

17 março 2017

«I LIKE THE SMELL OF NAPALM DURING THE PRESS CONFERENCE»


Os cabeçalhos que a media destaca do discurso do Secretário de Estado Rex Tillerson são os de que «a paciência estratégica para com a Coreia do Norte acabou» e que «a opção militar está em cima da mesa». E todavia o seu discurso está também envolto em referências ao multilateralismo das consultas com aliados e amigos. Mas, porque o Teatro de Operações em cima da mesa é asiático, eu próprio também não resisto à tentação de adicionar ao discurso belicoso a famosa passagem do heli-ataque acompanhado pela banda sonora da Cavalgada das Valquírias do filme Apocalypse Now mais a referência em título à confissão do Tenente-Coronel Kilgore, que gostava do cheiro do napalm pela manhã.

O REFERENDO AOS SUL-AFRICANOS BRANCOS (1992)

A 17 de Março de 1992 (completam-se hoje precisamente 25 anos) teve lugar um referendo na África do Sul. Nele, o presidente Frederick de Klerk (na fotografia acima) pedia explicitamente o apoio do eleitorado para prosseguir o processo de reformas que ele iniciara em 1990, com o objectivo de produzir uma nova Constituição que, através de negociações, acomodasse todas as raças da África do Sul. Paradoxalmente (ou talvez não...) a pergunta só era posta aos 3,3 milhões de eleitores de raça branca. Embora outros referendos separados estivessem previstos para a minoria coloured (mestiça, com 1.440.000 eleitores) e asiática (indiana, com 660.000 eleitores), era evidente que a disputa política nevrálgica seria esta de 17 de Março reservada aos brancos, onde se faziam sentir as tensões em prol da manutenção do apartheid.

Como se percebe desde logo pela fotografia inicial, de Klerk venceu, e venceu expressivamente: dos 3,3 milhões de eleitores, 2,8 (85%) pronunciaram-se e desses, mais de ⅔ (69%), conferiram-lhe um mandato para prosseguir. Era significativa também a distribuição desse apoio, como se pode apreciar no mapa abaixo. O Sim vencera em todas as circunscrições eleitorais excepto numa do Transval e as votações mais expressivas a seu favor (assinaladas a verde mais escuro no mapa abaixo) ocorriam no eleitorado urbano das maiores cidades sul-africanas: Cidade do Cabo, Durban e mesmo Joanesburgo. O desejo da preservação do apartheid, mesmo pela minoria que dele beneficiava revelou-se, com este referendo, um mito, embora as primeiras eleições livres para todas as raças na África do Sul ainda estivessem à distância de mais de dois anos: 27 de Abril de 1994.
Reconheça-se que a História gosta de eleger heróis individuais e que esta, a da transição da África do Sul para a democracia plena, tem o seu, justíssimo: Nelson Mandela. No entanto, reconheça-se também que, para essa História, a realização e o resultado deste referendo se tornou demasiado discreto para aquele que foi o seu verdadeiro significado. Quer a coragem política de Frederik de Klerk em convocá-lo, quer os resultados. Sem o referendo e sem o presidente, é possível, é mesmo provável, que a transição política na África do Sul se tivesse processado à mesma, na mesma época ou poucos anos depois - mas não da mesma maneira e provavelmente de uma forma bem menos pacífica. Nem tudo é atribuível à personalidade impar de Nelson Mandela, convém reconhecer de vez em quanto o mérito daqueles que a História dá por vencidos.

O COMBATE DOS CHEFES (10)

Note-se como nesta página se distinguem nitidamente os dois níveis do problema colocado pela pancada do menir: há o problema pessoal de Panoramix que ensandeceu; há o problema colectivo da aldeia que se vê privada da poção mágica que lhes dava uma força sobre-humana e que só o druida conhece. Desde há muitos anos que também Medina Carreia aparece na televisão dando a entender que ele sabe o segredo de uma poção mágica que salvaria a nossa aldeia. Também ele ensandeceu (embora de uma maneira menos cómica que a de Panoramix), mas neste último caso já se esgotou o tempo e a paciência para que ele, para além das proclamações tremendas, provasse que alguma vez tivera o segredo da tal poção salvadora de Portugal.

16 março 2017

HITLER EM PRAGA NUMA VISITA DE INTENSA «AMIZADE» PELOS CHECOS


Depois de o termos visto ontem aclamado em Viena em 1938, é ocasião para se evocar e ver algumas outras imagens do mesmo Adolf Hitler, um ano depois, a proclamar o Protectorado da Boémia Morávia, a partir do Castelo de Praga, em 16 de Março de 1939. A recepção dispensada ao Führer pelos checos foi, compreensivelmente, menos exuberante que a dos austríacos no ano anterior. Mas o desfecho é o mesmo e, mesmo assim, sempre aparecem os pragmáticos dispostos a colaborar (na fotografia abaixo é Jaroslav Krejčí que foi ministro-presidente do protectorado entre 1942 e 1945), nem que seja por convicções parecidas com as expressas, ainda hoje, por Helena Garrido, as de que há alemães que fazem coisas estranhas, mas é só por serem nossos amigos...

UMA CONCEPÇÃO DE «ESQUERDA» DE UMA «DIREITA DE ZOOLÓGICO»

Da minha gente (770) está tudo muito firme nos valores democráticos. Havia e há gente de direita (uns 4 ou 5) que eu prezo, não são fascistas...

Este é um daqueles comentários cívicos que descobri no facebook, na sequência do que me pareceu ser um mais um daqueles apelos revisionistas, galvanizador do bloqueamento de fascistas, ainda na ressaca da conferência de Jaime Nogueira Pinto, a que era para haver e não houve. 4 ou 5 «amigos» de direita em 770 não são muitos, mas sempre servem para dar à autora do comentário uma aura de cosmopolitismo ideológico. Ou é isso ou será uma preocupação (sempre de saudar) com a preservação das espécies ameaçadas, que na perspectiva daquela gente (a gente dela), a direita é quase toda fascista, a que não o é serão uns bichinhos raros.

O COMBATE DOS CHEFES (9)

Na sua simplicidade chã, os membros da aldeia gaulesa possuem colectivamente a consciência precisa do que são os limites da sanidade mental. É assim que, ao ouvir uma personalidade (mesmo respeitada como o druida) a aclamar as canções de Assurancétorix, o diagnóstico é unânime: Está Doido! Será que, se se confirmar o rumor que o candidato social-democrata à câmara de Lisboa será Teresa Leal Coelho (a nossa Kellyanne Conway portuguesa), haverá a mesma coragem entre os companheiros de partido para qualificar da mesma forma a decisão do presidente?... Estará doido, Pedro Passos Coelho? Uma coisa é certa: se o está, manifesta-se de uma forma muito menos bem disposta do que a de Panoramix.

15 março 2017

CONSIDERAÇÕES SOBRE AS RAZÕES PARA O EMPREGO DA PALAVRA «ANSCHLUSS»


15 de Março de 1938: Adolf Hitler entra em Viena sob o ambiente entusiástico que as imagens acima mostram. O embaraço de qualificar politicamente o que acabara de acontecer - invasão, anexação, conquista da Áustria - leva à adopção por todos de uma palavra específica da língua alemã para designar o que estava a acontecer: Anschluß (conexão). É inverosímil empregar a designação de invadidos, anexados ou conquistados a quem demonstra este entusiasmo exuberante pelos invasores. Claro que, sete anos depois (Abril de 1945) quando a mesma Viena foi, aí sim, conquistada, mas pelos soviéticos, as imagens foram outras, enquanto as deste caloroso acolhimento a Adolf Hitler se tornaram num inconveniente embaraço. Mas isso é toda uma outra história, que incluiu a reescrita desta que se viveu em 1938.

O CENTENÁRIO DA QUEDA DA PRIMEIRA ÁGUIA

15 de Março de 1917. Depois de uma semana de confrontos na capital Petrogrado, que o governo se viu incapaz de suprimir, o Tsar Nicolau II é instado pelo novo governo provisório (mas também pelas altas patentes do exército, facto a que raramente se dá destaque) a abdicar, o que ele faz completam-se hoje precisamente cem anos do gesto. O discurso de despedida do monarca contém passagens de uma correcção política e patriótica que o futuro iria demonstrar trágica: "Fazei o vosso dever! Defendei valentemente o vosso país! Obedecei ao governo provisório! Obedecei aos vossos oficiais! Sabei que a mais pequena infracção ao vosso dever é um serviço prestado ao inimigo. O amor profundo pela nossa grande pátria continua a viver, estou persuadido de tal, no fundo dos vossos corações!» No dia em que em Petrogrado (São Petersburgo) terminavam os mais de 300 anos de dinastia Romanov, ainda não se sabia que, reservados a uns escassos 20 meses no futuro, estavam à espreita também as deposições das outras duas grandes casas imperiais da Europa, a dos Habsburgos em Viena e a dos Hohenzollern em Berlim, a queda das duas águias restantes.

O COMBATE DOS CHEFES (8)

Obélix explicando-se: «Não foi com certeza uma pequena pancada dum menir que lhe fez mal...» e «...uma pancada de nada com um menir...». Parece o candidato François Fillon a avaliar o impacto que as revelações sobre os ordenados da mulher e dos filhos tiveram na sua candidatura.

14 março 2017

A BRIGADA DO REUMÁTICO


A 14 de Março de 1974 tinha lugar em São Bento uma demonstração de lealdade ao regime por parte das mais altas patentes das Forças Armadas, num episódio que veio a ser designado, posterior e desdenhosamente, pela Brigada do Reumático. Numa passagem premonitória do que viria a ser a sua ultrapassagem (e do resto do generalato) pelos acontecimentos, ouve-se o orador acima, o General Leite Brandão (Chefe do Estado-Maior do Exército) a proclamar (ao 1:10): «...as Forças Armadas não fazem política...» O comentário era hipócrita: Leite Brandão fora deputado à Assembleia Nacional entre 1953 e 1957. Mas já pouco interessaria. O 25 de Abril estava a seis semanas de distância e o início do PREC - Processo Revolucionário Em Curso - à distância de um ano, época em que as Forças Armadas fizeram tanta política que houve quem, de dentro delas, se concebesse a substituir os partidos políticos, ao contrário daquilo que ficara prometido pelo programa do MFA.
Significativo daqueles tempos de censura, era preciso aprender a ler o que acontecera e que não podia ser escrito explicitamente. Abaixo pode ver-se a forma como o Diário de Lisboa noticiou os acontecimentos. O mais importante dos conteúdos da primeira página (imediatamente abaixo) é, não o discurso do Presidente do Conselho Marcello Caetano, mas o anúncio da nomeação do novo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Joaquim Luz Cunha (o que não se podia dizer é que o anterior titular do cargo, Francisco da Costa Gomes, fora afastado porque faltara ostensivamente à cerimónia). Outro indício de que algo anómalo mas politicamente significativo se passara é a realização de uma renovação ministerial conforme se pode ler numa página interior do mesmo jornal.

VANTAGENS E DESVANTAGENS

Quando se esmera, João Marques de Almeida brinda-nos com umas crónicas que, logo pelo título, se anunciam cheias de humor - para quem tenha memória. Na do passado fim de semana, à vantagem de não ter votado em Marcelo (acima), admita-se que seria honesto contrapor a desvantagem de nem sequer ter previsto a sua candidatura, quanto mais a sua vitória... Qual quê, que para esta gente, por muito académica que se reclame, Canossa é uma cidade de Itália onde aconteceu qualquer coisa (reprovável) na Idade Média. E é assim que, para gáudio dos leitores atentos, pode ler-se que Marcelo, que não era um homem de acção nem de poder, se transmutou no travão mais forte a esse poder absoluto. E será por isso tudo que a vida não correrá de feição para comediantes muito medianos como Bruno Nogueira, quando sofrem desta concorrência desleal.

O COMBATE DOS CHEFES (7)

Esta prancha inclui o momento crucial para o desenrolar da história, quando Panoramix é atingido pelo menhir atirado por Obélix. A consequência será grave para o druida e para a aldeia, mas a reacção evasiva do mesmo Obélix (E então?... Corri ou não com os romanos?...) faz-me lembrar a indulgência de variadíssimos balanços da actuação governamental do governo PSD/CDS de 2011 a 2015 (como acontece com esta apreciação - de hoje - descrevendo-os, aos dois partidos, a entregar «uma economia a crescer novamente e um Estado em situação de aproveitar o financiamento do BCE» - um legado imaculado portanto).

TAMBÉM NÓS JÁ TIVEMOS A NOSSA «KELLYANNE CONWAY» - RECORDANDO TERESA LEAL COELHO


«...and microwaves that turn into cameras, etc.» Esta passagem da entrevista de Kellyanne Conway, em que a própria endossa rebuscadamente a acusação do presidente Trump de ter sido escutado pelo seu antecessor Obama, e em que alude vagamente a novas tecnologias (de micro-ondas) de captação de imagem e som, tornou-se em mais um fenómeno de popularidade e de paródia. Louras burras, mesmo que não propriamente louras (mas certamente burras), mas que se passeiem adjacentes à área do poder com carta branca para dizerem disparates com a bênção desse poder, há-as, pelos vistos, em mais do que um sítio. Nesse aspecto, graças a Pedro Passos Coelho e a Teresa Leal Coelho, Portugal foi um dos países na vanguarda desse método de comunicação. O que pode ser diferente neste caso de Kellyanne Conway é que, por quase todos possuirmos um forno micro-ondas em casa, assume-se que todos dominamos o que aquela tecnologia poderá ou não fazer para além de aquecer a sopa, enquanto que, se o assunto for mais sério e o disparate de cariz jurídico (abaixo - recordando outros tempos e outras forças de bloqueio...), pelo próprio hermetismo da questão, ela não se prestou ao humor de um Stephen Colbert, ou dos seus equivalentes locais.

13 março 2017

A DECISÃO «ESTRITAMENTE PESSOAL» DA FILHA DE ESTALINE

Há cinquenta anos era notícia de capa de jornal os episódios associados à deserção para o Ocidente de Svetlana, a filha de Estaline (acima). Se, politicamente, o episódio não tinha qualquer significado (ainda era no tempo em que não havia heranças de poder nos regimes comunistas...), em termos simbólicos, o acontecimento não podia escapar ao interesse da comunicação social ocidental. Em 6 de Março, Svetlana aproveitara uma viagem autorizada à Índia para pedir asilo político à embaixada dos Estados Unidos em Nova Deli. O assunto ribombara mas a União Soviética tardava em reagir. Tanto assim que foi só uma semana depois, a 13 de Março de 1967 e mostrando muita contrariedade, que a edição do Pravda daquele dia publicava um comunicado da TASS, desvalorizando o gesto e classificando-o como uma «questão estritamente pessoal». Estranha (e inverosímil) liberalidade esta, num país em que era obrigatório possuir passaporte para viajar no interior da própria União Soviética e em que as viagens ao estrangeiro eram todas cuidadosamente escrutinadas. Ironicamente, do outro lado da trincheira da guerra-fria, as autoridades norte-americanos deviam conhecer bem Svetlana e o carácter instável e volúvel da nova desertora. O futuro iria, de resto, confirmá-lo. Mas, por causa dessa imprevisibilidade e do risco dela se poder vir a voltar contra eles, não se mostravam entusiasmados em exibi-la como o troféu que a comunicação social do Ocidente desejaria. Também por ali o interesse era manter o assunto o mais discreto possível, o problema no Ocidente (que não existia no Leste) eram os interesses próprios da comunicação social.

O COMBATE DOS CHEFES (6)

Todos estes trocadilhos sobre a verdura e os vegetais poderiam ser levados à conta de um piscar de olho à ecologia, não se desse o caso desta história ter sido escrita em 1964, muito antes dessas modas. Repare-se como o destacamento camuflado se veio a vestir bem melhor depois de ter saído do acampamento. E, nem de propósito, o escândalo do dia é uma questão dos fatos finos do candidato Fillon.

12 março 2017

AS «CACETADAS» DA MADRUGADA TELEVISIVA

Se a Quadratura do Círculo é um programa da SIC Notícias que passa regularmente às 23H00, o outro programa de José Pacheco Pereira naquele canal, o Ponto Contraponto, ainda é mais clandestino, passando (quando passa...) plena madrugada fora, lá pela 01H30 da manhã, talvez para concorrer com as televendas. Isso não impede que o autor use o discreto tempo de antena para acertar algumas contas que ficaram por saldar do programa de mais auditório. A primeira parte da quase clandestina edição do programa da semana passada foi dedicada aos offshores, assunto que, por causa de Paulo Núncio, tem permanecido em agenda por toda a semana seguinte, até hoje.

«...e há duas escolas de pensamento em relação a este... objecto (...): uma (são os) é que, de minuto a minuto, estão sempre a dizer, é legal, (...), é legal fazer transferências de dinheiro para o estrangeiro; depois há a outra escola que diz é legal, mas muitas vezes não é inteiramente legal, mas de qualquer maneira é suspeito (...). Eu pertenço à segunda escola. Não me vão ouvir dizer, minuto a minuto, é legal. (...) Todo o mundo dos offshores é um mundo obscuro.» Segue-se depois a apresentação de um pequeno vídeo do Expresso protagonizado por Pedro Santos Guerreiro onde este, a pretexto dos hoje já esquecidos Panama Papers, procura explicar como pode funcionar protectoramente uma conta de offshore, no caso de um empreendimento imobiliário vir a correr mal. Mas o que deveras engraçado é que não é possível ouvir esta apresentação prévia de Pacheco Pereira sem a associar de imediato com as reacções de António Lobo Xavier a respeito do tema.

O COMBATE DOS CHEFES (5)

«Pour qu'un gamin me le chipe!" é uma daquelas expressões coloquiais que acabou sendo adoptada no francês corrente. E no entanto, em português vê-mo-la acima a ser completamente desperdiçada pela recusa do tradutor (1969) em usar termos equivalentes ao original (gamin = miúdo, puto; chiper = palmar, bifar, fanar, gamar). Numa tradução feita 25 anos depois (1994), um novo tradutor não fez muito melhor, recorrendo a um intragável surripiar. Alguém imagina um básico como Obélix a usar aquele verbo no seu vocabulário?... É assim tão transcendente escrever "Para que viesse um puto e mo gamasse, não?"

CHARLIE PARKER

A 12 de Março de 1955 morria Charlie Parker (1920-1955), saxofonista de jazz e que era já então um dos intérpretes incontornáveis daquele género musical. Reza uma história, de que hoje não é possível verificar quanto é fidedigna, que ele assistia a um programa de televisão onde aconteceu algo que lhe provocou um tal ataque de riso... que se ficou. Mais sóbrio e suportado documentalmente é o facto de que Charlie Parker, que ainda não completara 35 anos, era um heroinómano e um alcoólico e que o seu estado geral era tal que o autor da autópsia lhe deu no relatório, pela aparência, uma idade entre os 50 e os 60 anos(!). Sendo um daqueles ídolos ao gosto dos valores da segunda metade do Século XX, dos que viveram com intensidade e morreram prematuramente, é contrastante a discrição da notoriedade posterior da sua carreira e morte* quando comparada, por exemplo, com a do actor James Dean que se deu apenas seis meses depois. Abaixo o clássico Summertime de George Gershwin transformado noutro clássico pelo saxofone de Charlie Parker.

* Assinale-se uma excepção a essa discrição que recordo: a da personagem da stripper representada por Paula Prentiss no filme What's new, Pussycat? que era na verdade uma poetisa que tinha de se despir para ganhar a vida e que declamava poemas ao genuíno estilo da beat generation. Um deles era:

One, two, three, four...
Who killed Charlie Parker?
You did it, you rat!

11 março 2017

O CENTENÁRIO DA CONQUISTA DE BAGDADE

A 11 de Março de 1917 as unidades anglo-indianas do general Frederick Maude entravam em Bagdade. Naquela época tudo parecia informativamente simples e só havia fotografias devidamente encenadas para capturar o momento, como é o caso da que se pode apreciar acima. Se calhar, ainda bem que não havia ainda agências de informação como a euronews, para anunciar, reanunciar, e continuar a repetir a mesma notícia da captura da cidade pelos meses vindouros, como agora acontece com Mossul.
Mas também não era preciso, porque por uma vez anunciada, por essa vez chegava. Por outro lado, refira-se que os turcos haviam elaborado (e colaborado) canonicamente a sua manobra de retirada, e não haviam deixado qualquer combatente para trás para dizer coisas, nem sequer se concebia a existência de ministros da informação para negar o óbvio (abaixo). Nestas guerras modernas tudo se torna tão complexo que quase nem sobra tempo para elem darem uns tiros uns aos outros, como protocolado.

COMO SE TUDO ISTO NÃO PASSASSE DE UMA BRINCADEIRA E A EUROPA FOSSE O COITO* DO JOGO DA APANHADA...

Há muitos instantâneos que só se tornam interessantes com o tempo, quando os acontecimentos posteriores conferem significado àquilo que ficou inicialmente registado. No caso do momento desta fotografia acima, enquanto uma circunspecta Maria Luís Albuquerque fica para trás a prestar esclarecimentos a alguém que não se vê na imagem, mais próximos da objectiva, a dupla Carlos Moedas/Vítor Gaspar desenfia-se com uma indesmentível expressão de satisfação nos rostos. No momento em que, com a publicação dos resultados da Caixa Geral de Depósitos, a equipa financeira que nos iria dirigir de uma forma totalmente diferente a partir de 2011 é, mais uma vez, colocada em causa em função dos resultados concretos do seu legado, é tão significativo quanto injusto que a dupla dos bem dispostos da fotografia acima se veja mais uma vez protegida pela circunstância de terem sabido em devido tempo colocar milhares de quilómetros entre as suas pessoas e os problemas que deixaram para trás para resolver. Eu estou substancialmente em desacordo com o que tem dito Maria Luís Albuquerque, embora compreenda que ela está a defender a sua conduta. Mais do que discordo dela, mas ainda assim respeito-a. Porque há que fazer a distinção entre quem se defende e aqueles que preferem ter desaparecido em combate aí pela Europa. É preciso recordá-los, mormente porque há entre os segundos quem saiba cá aparecer, quando a ocasião é de fazer campanhas de charme...