07 agosto 2017

«KON-TIKI» - A HISTÓRIA ERA BONITA MAS AFINAL ESTAVA MAL CONTADA

A 7 de Agosto de 1947 chegava ao fim uma saga de seis navegadores que, numa jangada construída tanto quanto possível de acordo com as técnicas dos antigos indígenas sul americanos, tentara provar que era possível que esses povos houvessem alcançado as ilhas do Pacífico vários séculos antes da chegada dos europeus. O promotor da tese e líder da expedição era um norueguês de 32 anos de idade chamado Thor Heyerdahl. A jangada, baptizada Kon Tiki, largara do porto peruano de Callao a 28 de Abril e, 101 dias e 7.000 km depois, terminava a viagem num pequeno atol da Polinésia Francesa (abaixo). O feito foi muito promovido na época, Heyerdahl escreveu um livro de sucesso e havia sido rodado um filme documentário sobre a viagem, que veio a ganhar o Óscar da categoria em 1951.
Mas sempre existiu uma certa confusão naquilo que o sucesso da viagem pudera provar, a distinção entre algo poder ser feito e a certeza disso ter sido realmente feito - o que não podia ser concluído apenas a partir da proeza realizada por Heyerdahl e seus companheiros. Uma resposta mais concreta só apareceu décadas depois, vinda de uma disciplina científica completamente diferente: a genética. Foi através dela, da sequenciação do ADN humano que se começou a identificar os graus de parentesco entre as várias populações espalhadas pelos arquipélagos do Pacífico (abaixo). As conclusões que se conseguem extrair dos marcadores genéticos dessas populações são completamente distintas da tese que impeliu Thor Heyderdahl a realizar a sua viagem de há 70 anos.
Como se pode apreciar pelo mapa acima, a colonização do Pacífico terá sido realizada em várias fases, ao longo de milénios, mas protagonizada por populações austronésias, originalmente asiáticas. À direita e recorrendo a uma seta tracejada de duplo sentido com um ponto de interrogação, o mapa, caridosamente, deixa em aberto a hipótese de Thor Heyerdahl. Por perto, o ponto vermelho assinala o término da viagem da Kon Tiki. Mas mesmo o levantamento genético realizado na ilha da Páscoa, a mais ocidental de todas as ilhas habitadas, revela uma contribuição de 76% de material austronésio, 16% europeu e apenas 8% sul americano. Os valores nos outros arquipélagos da Polinésia são ainda mais significativos. A tese de Heyerdahl era bonita mas parece cada vez mais improvável.

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