28 março 2017

«O MAIOR E MELHOR DE TODOS OS RAIDS»

28 de Março de 1942. Há 75 anos e com excepção da gigantesca Frente Leste, a Segunda Guerra Mundial tornara-se circunstancialmente muito mortiça porque nas outras frentes onde se combatia faziam-se pausas, quer em África, onde os exércitos do Eixo e dos Aliados se reequipavam diante da posição de Gazala na Cirenaica, quer no Extremo Oriente asiático, onde, depois de expulsar as diversas potências ocidentais das suas possessões das Filipinas, Malásia, Indonésia e Birmânia num quadrimestre, o Japão contemplava saciado o seu almejado perímetro de segurança e preparava-se para o defender. Mas o noticiário do dia (acima) rompia com tal placidez a propósito de uma alegada tentativa de desembarque britânica na costa francesa. Tratar-se-ia já do retorno ao continente como anunciava em Berlim o grande quartel general do Führer? A verdade é que, em Londres e como se pode ler mais abaixo, se mostravam reservados...
Este livro foi publicado originalmente em 1958. Comprei-o cerca de quarenta anos depois. E cerca de vinte anos depois dessa compra, quando o tirei da prateleira para scanar a capa e escrever este texto, ainda lá estava o marcador, precisamente antes do oitavo capítulo dos dezanove que ele contém, ali esquecido em expressão do meu desinteresse e desapontamento pelo que dele consta. Está lá aquele subtítulo da Pan Grand Strategy Series e não há ali estratégia alguma, quanto mais grande estratégia. São 270 páginas que são demasiadas para uma história de guerra, que até se poderia transformar num bom filme do género, e que pode ser compreensivelmente narrada em qualquer página desenvolvida da wikipedia. Nessa página, o raid britânico ao porto francês de Saint Nazaire de há 75 anos começa logo por precisar de justificar os seus objectivos (o que é um mau preâmbulo - ninguém precisa de explicar quais os objectivos da Operação Overlord, por exemplo...). E o objectivo foi o de bloquear a única doca seca francesa que seria capaz de acolher os grandes navios de superfície da Kriegsmarine. O objectivo foi conseguido - um antigo navio de guerra devidamente preparado para o efeito (foto acima), destruiu o acesso à doca seca. O dano só veio a ser reparado cinco anos depois do fim da guerra. O preço a pagar por esse sucesso é que foi elevadíssimo: dos 612 envolvidos na operação, apenas 228 conseguiram reembarcar (menos de metade dos efectivos), 169 morreram e 215, muitos dos quais feridos, foram feitos prisioneiros. Como se nota pela notícia do jornal acima e por este vídeo de época imediatamente abaixo, os alemães não tiveram qualquer dúvida em considerar o desfecho do raid como uma vitória sua.

Manda a imparcialidade reconhecer que a Kriegsmarine evacuara sub-repticiamente no mês anterior as suas grandes unidades de superfície dos portos da costa francesa (Operação Cerberus) e fizera isso precisamente porque considerava os seus grandes navios operacionalmente subaproveitados nesses portos além de vulneráveis a ataques britânicos. Tomando isso em consideração pode concluir-se que afinal o sacrifício dos comandos e marinheiros britânicos se destinou a impedir os alemães de usar um recurso de que eles já haviam decidido prescindir... Preparada com antecedência, esta Operação Chariot concretizou-se já depois de se poder perceber quanto era completamente inútil. Mas não faz mal porque os britânicos guardam o segredo de rodear os seus maiores fiascos com a maior fanfarra possível (aprecie-se abaixo o vídeo de como eles actualmente comemoram o acontecimento). Na época houve uma chuva de condecorações a distribuir pelos participantes, 89 no total, incluindo 5 VC (Victoria Cross, a mais elevada condecoração britânica). Para comparação e contraste, acrescente-se que no Dia D (6 de Junho de 1944) participaram 61.700 militares britânicos (100x mais do que neste raid) e apenas foi atribuída uma VC. Apetece ironizar, acrescentando que é uma pena que já tivessem gasto os heróis em operações inconsequentes como este raid...

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