Quando hoje se assiste aos preliminares de algumas cerimónias norte-americanas e ao desvelo que costuma ser concedido à interpretação do hino nacional daquele país (Star Spangled Banner), até parece que estamos a assistir a tradição enraizada. Nada mais falso: o protagonismo que agora é conferido àquele hino só se iniciou durante o período da administração Reagan (1981-89).
Antes disso, a exibição musical do orgulho em se ser norte-americano ia-se buscar a outras peças musicais, de que um bom exemplo era God Bless America. Ouvimo-la declamada(?) acima por Archie Bunker, o arquétipo do americano básico (no duplo sentido…) da série de TV All in the Family. Ou ouvimo-la cantada abaixo pelo elenco principal de O Caçador no final do filme.
Esta fotografia foi tirada nos finais do Verão de 1914. Instalados numa carruagem de carga dos caminhos de ferro da Alsácia-Lorena (Elsaß-Lothringen), soldados vindos de Leipzig no Reino da Saxónia (Königreich Sachsen), acenam para o fotógrafo à partida para a frente de combate, quando a Primeira Guerra Mundial acabara de se desencadear. Lendo o que escreveram a giz, os soldados antecipam realizar uma prosaica Viagem a Paris (Ausflug nach Paris) e prometem mandar depois notícias quando lá chegarem (Auf wiedersehen auf dem boulevard). Atente-se ainda, como pormenor lateral, como alguns dos soldados demonstram involuntariamente as suas origens operárias, cerrando e levantando os punhos como um sinónimo de exibição de força…
Em 1914, tanto a Alsácia-Lorena quanto a Saxónia (bandeira abaixo) eram unidades federadas do Império alemão mas encontramo-las aqui a contribuir em homens e material para o esforço de uma guerra que se desencadeara como clímax da política de hegemonização sobre a Europa, lançada pelo chanceler Bismarck, se estendera com o alargamento de 1871, da Prússia ao Império. Em 1914, nenhuma das 25 unidades federadas se opôs a essa política: é esse o entendimento germânico de federalismo… Quando ouço por aí opiniões convictas defendendo que a solução para a Europa é o federalismo pergunto-me se os seus autores terão reflectido maduramente sobre a compatibilidade dos nossos com os interesses estratégicos daqueles com quem nos iremos federar?...
Além de haver centenas de fotografias (acima), as cenas da destruição causada pelos japoneses em Pearl Harbour são do conhecimento geral através de vários filmes que se fizeram a propósito daquele evento que precipitou os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial em Dezembro de 1941. Mas já será apenas uma pequeníssima minoria a conseguir identificar na fotografia abaixo o general Walter Short (1880-1949), que era o comandante militar da base à data dos acontecimentos.
Short foi, conjuntamente com o almirante Husband Kimmel (1882-1968), que era o seu homólogo naval em Pearl Harbour, considerado um dos dois responsáveis pelo grau de impreparação demonstrado pelas forças armadas norte-americanas: os chamados bodes expiatórios. Mas que se poderá dizer então de um outro comando norte-americano onde, oito horas depois do ataque de Pearl Harbour, as esquadrilhas ainda permaneciam alinhadas no solo quando do previsível bombardeamento japonês?...
Foi providencial que os traços da destruição da base aérea de Clark Field nas Filipinas tivessem sido muito menos fotografados (acima) que os acima. Mas, mais importantes terão sido tanto a habilidade política como os contactos em Washington do comandante local, o famoso general Douglas MacArthur (1880-1964). Foi assim que, em vez de ser sancionado e desgraduado como os seus camaradas do Havai, MacArthur até foi promovido, acabando a comandar o Teatro do Pacífico de Sudoeste …
Há títulos de notícias que merecem uma reflexão mais profunda depois de lidos uma primeira vez com a superficialidade que todos os títulos noticiosos nos merecem. Neste há uma mulher misteriosa que acompanha Kim Jong-Un… Este último parece, naquele contexto, ter deixado de ser misterioso e ter-se-á transformado num conhecimento de antanho. Como se a opinião pública internacional o conhecesse desde há muito e não apenas desde Dezembro passado, quando sucedeu de uma forma inesperada ao seu pai… Tanto quanto ser um dos últimos bastiões do marxismo-leninismo (com a grande contribuição teórica de se ter descoberto com ele que a sucessão hereditária na ocupação do cargo de grande dirigente da classe operária passara a ser um processo cientificamente válido), o regime norte-coreano parece ser uma das últimas razões de ser de uma ciência que, em quase todo o resto do mundo, se extinguiu: a kremlinologia.
A tonga da mironga do kabuletê pode ser vista como uma excelente metáfora musical da adopção de modismos nos nossos discursos intelectuais. Conforme se explica na Wikipédia, apesar da canção já ter sido composta há uns 40 anos, continua a haver múltiplas interpretações para o significado da expressão tonga da mironga do kabuletê. O que não invalida que, apesar da ignorância desse significado mas por causa da sua musicalidade, a expressão se tenha vindo a popularizar, dando-lhe o utilizador o significado que melhor entender. É o mesmo se está a passar com, por exemplo, a palavra paradigma… Ou com a expressão não ir por aí...
Uma notícia que retirei em título do Expresso chama-nos a atenção para um aspecto do problema das dívidas soberanas que os leigos costumam desconhecer e os especialistas não costumam chamar a atenção: é que, se há uma pressão da procura por parte dos países para pedir dinheiro para se financiarem, existe uma outra pressão do lado da oferta por parte das entidades financiadoras para aplicar o seu dinheiro. É isso que, em ocasiões de excesso de liquidez, justifica que, como agora acontece, os juros dos títulos alemães a 2 anos ofereçam remunerações negativas, ou seja, recebe-se daqui a dois anos menos do que se emprestou agora, um investimento que é ainda menos rentável do que o muito caricaturado dinheiro guardado debaixo do colchão (acima). O pensamento económico dominante esquece-se de o referir, mas a verdade é que os omnipotentes mercados têm estas vulnerabilidades: como numa bicicleta, no dia em que pararem de pedalar, caem…
A História tende a ser implacável e a esquecer os seus protagonistas menores. Muito provavelmente, o leitor não vai conseguir identificar os dois protagonistas da fotografia acima. O desafio seria até difícil para aqueles franceses que hoje têm mais de 65 anos e que tiveram Vincent Auriol (1884-1966 – à esquerda) e René Coty (1882-1962 – à direita) como ocupantes do Palácio do Eliseu entre 1947 e 1959, os dois antecessores imediatos de Charles de Gaulle (1890-1970) na presidência da República em França. Mas o leitor certamente conseguirá abstrair-se, transportar-se para o futuro (aí pelo ano de 2060), e imaginar-se a olhar para a fotografia abaixo com a mesma atitude como olha para a de cima: quem foram estes?...
John Major (1943- ) foi o primeiro-ministro do Reino Unido durante seis anos e meio (de Novembro de 1990 a Maio de 1997). E, orgulhosamente assumida, não tinha qualquer qualificação académica superior. Mas isso, comprova-se hoje pacificamente, não parece ter sido obstáculo para a sua carreira política. Se os políticos portugueses se preocupam tanto em exibir graus académicos, a ponto de se exporem à revelação deles terem sido obtidos em condições mais do que duvidosas, como se descobriu agora ter acontecido com Miguel Relvas e como também já se havia descoberto antes no caso de José Sócrates (abaixo), isso dever-se-á muito mais às preocupações sociais dos intervenientes do que às suas reais capacidades de intervenção política.
O padrão parece estar tão disseminado que nos leva a suspeitas porventura injustas: quando, por exemplo, António José Seguro se excusa a comentar o episódio da qualificação académica de Relvas, não se consegue deixar de especular se essa atitude, mais do que ética, não será sobretudo defensiva, considerada a coincidência da sua licenciatura ser na mesma área da do visado (Relações Internacionais) e também obtida numa das universidades privadas de muito fraca reputação (Autónoma - a de Relvas foi a Lusófona e a de Sócrates a Independente). Mas o que será mais irónico de tudo é que, no outro extremo do espectro, há quem tenha uma sólida e inquestionável qualificação académica sem que isso seja um sinónimo de seriedade e confiança, lembremos o popularíssimo Professor Doutor Marcelo...
Embora esta peça do folclore tradicional açoreano seja hoje conhecida por São Macaio, tudo indica que se trate de uma corruptela e que o navio referido na letra tivesse tido o nome de São Macário - conforme aqui se explica. O Macário que agora evoco através da música é que não era assim lá muito santo, embora tivesse tido os seus tempos em que pregava moral aos outros.
De uma revista de Abril de 1974 recuperei este teste acima de 15 perguntas, com o qual corremos o risco de descobrir que somos muito inteligentes, de uma elite de Q.I. elevado que corresponde a 2% da população mundial, segundo uma organização mundial intitulada MENSA . Basta para isso acertar em pelo menos 13 perguntas. A facilidade do teste (que também pode ser resolvido pelo leitor, ampliando a imagem acima, resolvendo os problemas e consultando as soluções que coloquei na caixa de comentários) leva-me a crer que haverá muito mais de 2% de quem responda a conseguir obter classificações que o qualificam como genial. O meu desdém não é provocado por costumar acertar em todas ou quase todas as perguntas destes testes; é por considerar que estes género de testes são uma imitação rupestre daquilo que a inteligência e a genialidade têm de ser. Usando uma imagem de que sempre gostei, estão para ambas como aqueles pacotes de pó instantâneo de refresco estão para os verdadeiros sumos naturais...
Se já aqui me referi à inesquecível composição de Fausto O Romance de Diogo Soares, fi-lo então a propósito da Birmânia e para realçar a ascendência que os militares sempre gozaram nas sociedades daquelas paragens da Ásia. Afinal, Diogo Soares era o governador do Reino de Pegu, um dos antepassados do estado birmanês moderno. Se agora regresso a esta mesma música é numa outra perspectiva diferente: a do abuso das prerrogativas por parte de quem governa, e de como pode ser diáfana a fronteira entre a aceitação da autoridade e a sua rejeição. Parece-me oportuno, já não aplicado àquelas, mas a estas nossas paragens.
Diogo Soares, o grande general
Chamado o Galego, o homem dos olhares fatais.
Comanda sessenta mil homens de terras estranhas
Vencendo e lutando por quem paga mais.
Eficaz nos sermões, insinuante pois,
Já ganhou a simpatia de príncipes e samurais.
Já é governador do reino de Pegu
Mais forte que o rei, mais rico por golpes mestrais.
Naquela cidade vivia um mercador
De nome Mambogoá, de fortuna sem fim.
E naquele dia, o dia das bodas,
Casava uma filha com Manica Mandarim.
Diogo Soares passou por ali, ao saber da festa
Felicitou noivos e pais.
E a noiva tão linda, ofereceu-lhe um anel,
Agradecendo a honra por gestos puros e sensuais.
Então o galego em vez de guardar o devido decoro
prendeu-a e disse-lhe assim: Ó moça formosa és minha, só minha
A ninguém pertences, a ninguém, senão a mim!
O pai Mambogoá, ao ver pegar o bruto
Tão rijo na filha ouvindo este insulto de espanto
Levantou as mãos aos céus, os joelhos em terra,
No retrato da dor, pedindo e implorando num pranto: Eu peço-te Senhor, por reverência a Deus
Que adoras concebido no ventre, sem mancha e pecado.
Não tomes minha filha, não leves meu tesouro
Que eu morro de paixão, que eu morro tão abandonado.
Mas Diogo Soares, mandou matar o noivo
Que chorava abraçado à moça assustada, tremendo.
E a noiva estrangulou-se numa fita de seda
Antes que a possuísse à força o sensual galego
A terra e os ares tremeram com os gritos
Do choro das mulheres, tamanhos que metiam medo.
E o pai Mambogoá pedindo pelas ruas
Justiça ao assassino acorda a cidade em sossego: Ó gentes Ó gentes saí como raios
Na ira das chuvas, na ventania do açoite!
E o fogo consuma seus últimos dias
E lhe despedace as carnes no meio da noite!
Em menos de um credo numa grande grita
P'lo amor dos aflitos, juntou-se ao velho o povo inteiro.
Com tamanho furor e sede de vingança
Arrastaram-no preso, Diogo Soares ao terreiro.
E o povo a clamar que a sua veia seja
Tão vazia de sangue de quanto está o inferno cheio
E subiu ao cadafalso, cada degrau beijou
Murmurando baixinho o nome de Jesus a meio
Seu filho Baltasar Soares que vinha de casa
O qual vendo assim levar o seu pai
Lançou-se aos seus pés a chorar e por largo tempo abraçados,
No abraço dos mortais Senhor porque vos levam, cruéis e vingativos
Senhor porque vos batem e porque vos matam medonhos?
Pergunta-o aos meus pecados que eles to dirão
Que eu vou já de maneira que tudo me parece um sonho.
E foram tantas pedras sobre o padecente
Que este morreu bramindo o rosário dos seus pecados
Ensopado na baba do ódio dos homens
Escuma animal de todos os cães esfaimados.
As crianças e os moços trouxeram seu corpo
Sem vida pelas ruas arrastado pela garganta
E a gente dava esmola oferecida aos meninos
Dava como se fosse uma obra muito pia e santa.
Assim terminam os anais do grande general
Chamado o Galego, o homem dos olhares fatais.
Quanto mais o professor Marcelo insiste em proclamar nas suas aldrabices dominicais, a forma intrinsecamente pacífica como o povo português tende a suportar as dificuldades, mais pertinente se torna relembrar alguns expoentes oitocentistas desse mesmo pacifismo, constituídos pelos exemplos de João Brandão (acima) nas Beiras, de Zé do Telhado no Litoral Norte ou doRemexido no Algarve do Século XIX. Escrever isto não equivale a desejo que exemplos semelhantes reapareçam no Portugal do Século XXI, mas se Marcelo quer passar por um pacifista não é preciso no entretantoagredir tão enfaticamente o nosso passado histórico…
Marx nunca se terá alargada muito em considerações precisas sobre aquilo que deveria ser a arte e a cultura proletárias após o estabelecimento da ditadura. Os revolucionários fizeram o que puderam depois da gloriosa revolução de Outubro mas, de entre todos os estados socialistas, o socialismo internacional e búlgaro tem uma enorme dívida de gratidão não reconhecida para com Ludmila Jivkova (1942-1981).
Ludmila Jivkova foi um fenómeno precoce na política búlgara. Comunista desde muito nova, em 1973, com apenas 30 anos, já se tornara a vice-presidente da Comissão do partido (Partido Comunista Búlgaro) para a arte e cultura. Em 1975, escassos dois anos depois, viria a assumir a sua presidência com um acréscimo de responsabilidades, que se estenderam também às áreas da televisão, rádio e imprensa.
Com a responsabilidade pela supervisão por toda a arte, cultura e comunicação social da Bulgária, com funções que eram em tudo menos no nome as de um super-ministro (de fazer inveja a Miguel Relvas…), Ludmila Jivkova seria então o orgulho de qualquer pai, especialmente se ele fosse (como de facto acontecia…) o secretário-geral do mesmo partido, o todo poderoso Todor Jivkov (1911-1998)...
As circunstâncias associadas à sua morte – indiscutivelmente prematura, a 5 dias de completar 39 anos – são tão controversas quanto a sua carreira. Seguiu-se um daqueles períodos de luto ao jeito socialista em que o nome e a efígie da defunta apareceram em todo o lado (acima), mas uma caricatura sua e da sua actividade, só mesmo depois do fim do usufruto das mais amplas liberdades democráticas (1991).
Agora a sério: alguém imagina algo de remotamente semelhante a acontecer sob o Estado Novo com, por exemplo, Ana Maria, a filha de Marcelo Caetano?... E alguém a tentar desculpar, ainda hoje, tal conduta?...
É melhor começar por confessar que não gosto particularmente de ópera e que os meus conhecimentos sobre o assunto reflectem essa apreciação. Chegam porém para destacar a curiosidade da existência de uma ópera do Século XIX que tem o navegador português Vasco da Gama por protagonista – que é, de resto, o único dos nossos Vascos¹ que possui uma verdadeira (e merecida) projecção internacional… O compositor da música dessa ópera foi um nome hoje esquecido na constelação musical dos compositores do Século XIX, um berlinense de ascendência judaica chamado Jakob Meyerbeer (acima, 1791-1864) enquanto o autor do libreto é um outro nome actualmente votado ao esquecimento, um poeta lírico francês chamado Eugène Scribe (1791-1861).
Curiosamente, a obra de que falo é duplamente póstuma pois quando foi estreada em Paris em 1865 sob o título de A Africana os dois autores já tinham falecido. Trata-se de uma ópera em cinco actos. O herói é Vasco da Gama (um tenor), que tem uma amada, Dona Inês, mas em que existe também uma heroína trágica que o ama, oriunda das novas ilhas por si descobertas, a escrava (mas também rainha) Sélika (ambas sopranos). Nélusko, que também foi capturado como escravo, é o conselheiro desta última e a alma danada de todo o enredo (adequadamente: um barítono). A ópera foi apropriadamente estreada na Paris do II Império de Napoleão III – um regime que era em si uma gigantesca mise en scéne – e ainda nesse ano levada à cena noutras cidades.
Embora tivesse cavalgado a onda da moda de Paris sob Luís Filipe e Napoleão III (1830-1871), Meyerbeer e Scribe tornaram-se nomes menores da História da Música e da Literatura. Est'A Africana (e o resto da sua obra conjunta) raramente têm sido produzidos – também talvez pela grandiosidade com que haviam sido originalmente concebidos: no caso em destaque, o terceiro acto incluía um naufrágio… O que se tem mantido no reportório é uma ária do quarto acto em que Vasco da Gama gaba as belezas naturais da ilha que havia descoberto. Intitula-se Oh Paraíso! e podemo-la apreciar acima, cantada por Carlo Bergonzi num registo mais clássico (1969) ou então noutro registo mais moderno, o de tenor superstar, cantada por Luciano Pavarotti (1991).
¹ Comparando-o, por exemplo, com os muito badalados Vascos da actualidade ou de um passado recente: Gonçalves, Lourenço, Graça Moura ou Correia Guedes.
O mais famoso orgasmo da história do cinema não se deve exclusivamente a Meg Ryan. A elaboração das personagens principais do filme When Harry Met Sally deverá muito à própria e a Billy Cristal que com ela contracena, mas a dinâmica das perspectivas distintas dos sexos opostos que atravessa todo o filme e que lhe dá aquele o seu carácter único, vai-se inspirar muito – confissão dos próprios – às características pessoais do realizador, RobMeatheadReiner e da argumentista, a recém-falecida Nora Ephron a quem assim pretendo homenagear, e à forma como se chocaram ao longo da rodagem do filme. Por curiosidade, a famosa frase final da cena – I’ll have what she’s having – é proferida pela mãe de Reiner, Estelle, então com 75 anos…
Eu gosto de notícias tão instrutivas quanto inesperadas, como esta do cabeçalho acima. Miguel Veiga costumava ser apresentado nos media como uma das figuras históricas do PSD. Era por causa dessa condição de histórico que os mesmos media lhe atribuíam um ascendente intelectual e moral que se traduzia numa projecção inexplicável que era dada às suas opiniões. Sempre me intrigou, mas não será para este caso relevante estabelecer se Miguel Veiga será realmente histórico ou ainda se, sendo-o, esse estatuto mereceria a importância que era conferida àquilo que dizia. Agora ter sido condenado com uma acusação de plágio é bastante mau…
E não é apenas por ter existido plágio. É pelo facto do autor do texto plagiado não poder ser considerado um dos pensadores de vanguarda da filosofia ocidental¹. Pior ainda, foi a convocatória do sectorintelectual/tripeiro do PSD com Vasco Graça Moura e José Pacheco Pereira acompanhados ainda do omnipresente Professor Marcelo que vieram dar uma conotação política àquilo que não passa de uma fraude intelectual. E claro, na onda de popularidade que o tem acompanhado de Norte a Sul do país, tinha mesmo que calhar a Cavaco Silva ter a sorte de se deixar fotografar recentemente junto ao réu, conforme aparece na revista Caras da semana passada…
¹João Sousa Dias é professor de Filosofia na Escola Artística Soares dos Reis no Porto.
A cidade de Kolberg, que se situa junto ao Báltico, foi o palco de um episódio maior do patriotismo germânico, quando a praça prussiana, comandada pelo seu governador militar August von Gneisenau conseguiu resistir invicta entre Março e Julho de 1807 ao cerco de um exército invasor francês. Em 1944 a Alemanha voltava a ver-se perante a mesma possibilidade de uma outra invasão de tropas estrangeiras e no III Reich atribuiu-se um tal valor de propaganda a esse episódio de Kolberg que se fez um filme a esse respeito. O filme mobilizava meios – sobretudo figurantes – como nunca se vira até então na Alemanha: milhares de soldados foram mobilizados apesar da guerra em curso. O filme foi terminado em Janeiro de 1945 mas, como se pode ver abaixo, mal escondia os seus propósitos de propaganda: apesar do guarda-roupa, o Gneisenau que ali ouvimos discursar não se distingue de um dirigente nazi decalcando o estilo de Adolf Hitler…