11 março 2018

MIKHAIL GORBACHEV TORNA-SE SECRETÁRIO-GERAL DO PCUS

11 de Março de 1985. Há 33 anos, com a votação unanime dos 315 membros presentes do comité central do Partido Comunista da União Soviética (que invejas esta unanimidade deve despertar em quem acompanha Rui Rio...), Mikhail Gorbachev era eleito secretário-geral da organização. O Diário de Lisboa assinalava a inusitada juventude do novo secretário-geral: 54 anos (o jovem secretário-geral já era avô de uma neta de 5 anos...). Se naquele jornal se antecipasse que o recém eleito iria experimentar a reforma e constatar a irreformabilidade do comunismo, teriam adicionado uma tarja preta àquela edição. Recorde-se que o Diário de Lisboa morreu em 30 de Novembro de 1990, quase um ano preciso antes da morte da União Soviética.

10 março 2018

PORQUE É QUE O COMUNISMO NÃO COMBATEU O CAPITALISMO NO CAMPO DAS «SOFT-DRINKS»?

OUTRAS HOMENAGENS AO PROFESSOR ADRIANO MOREIRA

A homenagem a Adriano Moreira que esta manhã teve lugar no Congresso do CDS em Lamego fez-me lembrar outras homenagens àquela mesma distinta figura. Uma delas, bem antiga e que pode ser consultada no site dos arquivo da RTP, teve lugar já há 56 anos, mais precisamente a 14 de Abril de 1962, quando se cumpria um ano da presença de Adriano Moreira à frente da pasta do Ultramar. Na ocasião, o ministro teve ocasião de pronunciar o seguinte discurso em agradecimento à homenagem que os presentes ali lhe faziam:

«Senhor Subsecretário de Estado
Minhas Senhores e meus Senhores

Tenho a certeza de que não esperam que eu produza neste momento grandes e importantes declarações, até porque, as coisas a fazer são tantas, que há menos lugar a falar do que para tentar resolver os problemas pendentes. Não posso, em todo o caso, deixar de dizer algumas palavras. Em primeiro lugar de agradecimento, pela circunstância de terem vindo aqui hoje e, pelas palavras, que naquilo que pessoalmente me dizem respeito, são inteiramente imerecidas mas com que quiseram marcar o dia de hoje. Eu sei que esta cerimónia de cumprimentos ao ministro do Ultramar é tradicional nesta casa e eu próprio ao longo dos já muitos anos de serviço tive ocasião de participar em muitas. E por consequência só atribuo algum significado especial à cerimónia de hoje por ver que as circunstâncias difíceis que o país atravessa puderam mover tanta gente a manifestar a sua confiança, não no ministro, mas no destino do país. Digo isto com toda a sinceridade, porque estou intimamente convencido de que um homem só em parte nenhuma pôde realizar uma obra duradoira. Tudo aquilo que constitui os instrumentos da nossa acção, incluindo o falar, é resultado da obra de tantos antecessores anónimos, que é apenas expressão de realismo e não de modéstia reconhecer que a obra de um só homem não pode chegar para realizar coisa que valha em benefício do país. E por isso, nesta ocasião, eu quero sobretudo lembrar o grupo de responsáveis pelo governo de cada uma das províncias, tantas vezes mal conhecidos, ou desconhecidos do país, quando é certo que são eles, quando à testa de cada um desses territórios, e em contacto directo com as dificuldades e com as realidades, são eles que efectivamente suportam com as suas mãos o peso maior da tarefa que nos incube a todos. Foi possível, ao menos, tirar um benefício das circunstâncias difíceis que temos atravessado, foi que o país todo tomasse consciência da existência perene de uma consciência ultramarina e da existência de uma espécie de falange de homens, tantas vezes ignorados, que preservaram, até hoje, esse ideal da expansão no Ultramar, e foram capazes de estar à altura de sustentar os nossos ideais e os nossos interesses no momento preciso. E é para eles que especialmente vão os meus pensamentos e as minhas palavras neste momento e é para eles que eu dirijo os cumprimentos que vossas excelências quiseram vir-me apresentar nesta ocasião.
Temos, naturalmente, que fazer um esforço extraordinário para correspondermos às solicitações do nosso tempo, umas vezes favoráveis, outras agressivas, mas constituindo sempre factores que não podemos deixar de encarar com realismo. É muito simples a regra pela qual tenho procurado orientar a administração do Ultramar. Penso que, em face dos declarados projectos dos nossos adversários, dos auxílios que ostensivamente ou clandestinamente lhes são prestados, das incompreensões de que somos vítimas, uma coisa fundamental era preciso que fizéssemos sempre: primeiro, que puséssemos a justiça acima de tudo em relação aos nossos encargos e tarefas ultramarinas; segundo, que não nos limitássemos a proclamar isso, mas que fôssemos autênticos em todas as circunstâncias, quer dizer, que puséssemos os actos de acordo com as palavras. Assim, penso que conseguiremos preservar o nosso mais sólido bastião, que é, o de que até os nossos adversários nos respeitem. Porque desse respeito depende fundamentalmente a viabilidade da tarefa nacional. Naturalmente, as leis vão sendo feitas e não é sempre fácil traduzi-las logo em facto. E só quem, ou não teve a responsabilidade ou não tem o sentido da dificuldade de mexer em estruturas sociais, pode estranhar que as leis não se transformem imediatamente em factos de um só acto e até pode, com ligeireza, atribuir isso a fraquezas da administração. Não é justo. Nem avalia suficientemente o esforço tremendo que tem sido exigido aos quadros nos últimos tempos quem tomar esta atitude fácil em relação à tarefa que tem incumbido ao ministério do Ultramar. E, a alguns dos críticos, eu gostaria apenas de recordar, para defesa e louvor dos quadros, alguma coisa que já tive ocasião de dizer a esse propósito: é que toda a nossa legislação se baseia em certa regras que foram proclamadas há dois mil anos e não me constam que já estejam inteiramente em vigor. Talvez pensando isso, as pessoas possam encarar com um pouco mais de realismo e de compreensão a distância que vai do esforço que é necessário despender para que as leis se transformem em factos. Agora, aquilo que (...) sobre que penso que demos prova suficiente (...)»

A reportagem termina abruptamente, sem imagem e o som das palavras a ser abafado pelo clamor das palmas. A carreira do homenageado daqueles dias distantes e de hoje é tão extensa quanto versátil, mas conecta-a oportunas omissões a respeito de acontecimentos que protagonizou que foram muito importantes mas entretanto se tornaram inoportunos. Exemplo: entre todos os que se referem ao nadir do CDS enquanto partido do táxi (por causa do diminuto tamanho do seu grupo parlamentar de apenas quatro deputados que caberiam num desses meios de transporte), raros são os que recordam que o dirigente que conduziu o CDS a esse resultado histórico (o pior da história do partido) era precisamente... Adriano Moreira. Ninguém o expressa: acusações costumam recair é sobre Freitas do Amaral, que retomou a direcção do CDS depois de Adriano Moreira, e que tentou recuperar o partido para as eleições de 1991, falhando também (o partido subiu de quatro... para cinco deputados). Apontam-se as culpas a Freitas do Amaral, ninguém se refere a Adriano Moreira. É indubitável que o nonagenário hoje homenageado concentra em si inúmeras virtudes, das quais uma das maiores será essa capacidade inata de fazer os outros olvidarem-se dos seus momentos mais embaraçosos.

09 março 2018

A CENSURA FASCISTA... (2)

Edição de 9 de Março de 1971 do Diário de Lisboa, onde se noticia com o destaque que se pode apreciar acima, o atentado que fora cometido no dia anterior pela ARA, o braço armado do Partido Comunista Português, na Base de Tancos.

«Da Secretaria de Estado da Aeronáutica, através da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, recebemos, ontem, a seguinte nota:
Cerca das 3 e 30 da madrugada, sabotadores, iludindo a vigilância do pessoal de guarda da Base Aérea de Tancos, conseguiram introduzir-se num dos hangares daquela unidade e colocar cargas explosivas comandadas por um sistema de relojoaria que, ao explodirem, originaram a destruição de algumas aeronaves e danos em outras. Não houve desastres pessoais.
Foi imediatamente iniciado o inquérito pelas autoridades militares que solicitaram a colaboração dos Serviços Civis de Segurança.»

Sobre o assunto, a quantificação e qualificação dos estragos, o progresso das investigações, mais nada do que o que acima se pode ler será publicado nas duas semanas que se seguirão. Só a 23 de Março é que a PIDE mandará publicar uma nota, solicitando informações sobre um dos suspeitos que prestava serviço militar na Base e que, imediatamente depois do atentado, havia desertado (abaixo). A Censura era feita destes contrastes entre alguma transparência em assuntos de âmbito externo e uma opacidade completa em assuntos de âmbito interno.

08 março 2018

COMO É QUE ACONTECEU?

Há fotografias que são verdadeiros mistérios. É o caso desta acima. Nem mesmo ventos como os dos temporais que Marcelo (ele mesmo um temporal) acompanhou no Algarve conseguirão explicar que forças naturais terão jogado aquela pedra para cima do avião. A não ser, claro, que as leis da aerodinâmica, sejam as mesmas que regiam os aviões de Dick Dastardly e dos seus companheiros, na sua infindável perseguição ao pombo yankee doodle.

MAO, O GRANDE TIMONEIRO, E MARCELO, O PEQUENO TIMONEIRO

Mao dirigindo toda uma armada e Marcelo apenas um eléctrico lisboeta; Marcelo banhando-se no rio Tejo e Mao no Yangtzé.

07 março 2018

A BELEZA SUBAQUÁTICA DO SOCIALISMO SOVIÉTICO DEPOIS DE AFUNDADO

A propósito de ontem ter publicado aqui um poste assinalando o encontro dos destroços afundados de um porta aviões americano da Segunda Guerra Mundial e de algumas fotografias espectaculares que se fizeram do local, realce-se, no quadro daquela guerra seguinte que os camaradas ainda não deram por perdida, que não é apenas o capitalismo yankee que pode produzir belas fotografias dos seus despojos, o socialismo, quando afundado a profundidades convenientes, também produz recifes de grande beleza estética e dialéctica, apreciem-se nas fotografias seguintes as homenagens que corais e peixes prestam aos vultos maiores da grande utopia do século XX. Realce-se que não encontrei uma estátua afundada de Gorbachov, que é considerado o responsável moral por ter mandado as estátuas dos outros ali para o fundo.
Placa de Marx
Busto de Lenine
Busto de Estaline
Busto de Yuri Gagarine

A REOCUPAÇÃO MILITAR DA MARGEM ESQUERDA DO RENO

7 de Março de 1936. Adolf Hitler promove uma das suas manobras políticas mais arriscadas, com a decisão de reocupar militar e ostensivamente as regiões alemãs situadas a oeste do Reno. O tema da fotografia acima é cuidadoso: o fundo são as estruturas metálicas de uma ponte, simbolizando a travessia do grande rio europeu, a frente são as multidões que acolhem as tropas e estas não se mostram particularmente intimidatórias, armadas de tambores e outros instrumentos de música... Se os alemães procuravam amenizar o seu gesto de desafio aos Tratados, a situação era percebida com a gravidade que se impunha por essa Europa, como se comprova pela edição desse dia do Diário de Lisboa. Gesto raro na época, a primeira página do jornal era ilustrada com duas fotografias. Mas a clarividência de saber o futuro permite-nos agora atribuir significado ao facto de, em contraponto à fotografia de Adolf Hitler encarnando a revanche alemã, o jornal publicar outra de Ferdinand Foch, o Marechal francês que fora uma das encarnações das garantias de segurança da França depois de 1919... mas que já falecera em 1929.

06 março 2018

A DESCOBERTA DOS DESTROÇOS AFUNDADOS DO LEXINGTON

O afundamento do porta-aviões USS Lexington a 8 de Maio de 1942, em consequência da Batalha do Mar de Coral, a primeira batalha aeronaval em que os navios antagonistas nunca chegaram a estar à vista uns dos outros, é um dos episódios do género que está mais bem documentado (em imagens) de toda a Segunda Guerra Mundial. Apesar da violência das imagens, a esmagadora maioria (92,5%) da tripulação de 2.950 homens que seguia a bordo foi evacuada e sobreviveu. O trecho final de propaganda no vídeo abaixo, mencionando os sete irmãos Patten que estavam a bordo e que se salvaram todos, até nem está muito exagerado.

O local onde repousam os destroços do Lexington foram agora encontrados. Estão a três quilómetros de profundidade, a 800 quilómetros das costas orientais da Austrália. Entre os vários destroços encontraram-se ainda alguns dos aviões que seguiam a bordo que produziram fotografias espectaculares como a abaixo. Pormenor de somenos: note-se como a insígnia dos aparelhos ainda incluía a bola vermelha no centro da estrela branca, uma configuração que, para que os aviadores não a confundissem com a insígnia japonesa, fora oficialmente alterada apenas dois dias antes do afundamento.

TRUMP E ARENA

Aquilo que vou escrever não passará de um mero processo de intenções mas, sempre me pareceu adivinhar, entre aqueles que neste último ano se têm evidenciado na defesa das atitudes de Donald Trump, especialmente cá em Portugal, um certo comportamento desafiador de quem abraça a causa mais para mostrar a coragem de desempenhar uma tarefa assumidamente ingrata, do que para prestar algum dever de coerência ou de consistência entre as opiniões próprias e as do visado. Assim como os forcados pegam os touros, esse género de defensores de Trump afrontam a pujança das críticas de uma opinião publicada que, sobretudo na Europa, é avassaladoramente crítica e nada condescendente para com o presidente dos Estados Unidos. Será uma forma de se ser simultaneamente valente e diferente. A minha opinião, mais intuitiva do que comprovada, reforçou-se mais recentemente quando se viram as reacções desses marialvas da argumentação às propostas proteccionistas de Donald Trump a respeito do comércio internacional do aço e do alumínio e das subsequentes bravatas que se lhe seguiram, como a declaração subsequente (acima) que as "guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar". Por esta vez, porque as declarações violam o axioma liberal do livre comércio, e para continuar com a metáfora tauromáquica, notou-se que o grupo de forcados - que normalmente navega por aquelas paragens ideológicas - se desalinhou por completo, o forcado da cara primou pela ausência, o primeiro e o segundo ajudas posicionaram-se em paralelo ao sentido da mais que previsível investida do touro mediático (e político) falhando a pega, e a tarefa de segurar as críticas acabou por recair nalguns infelizes rabejadores, o que deixou Trump desamparado em cena, por esta vez também nas redes sociais cá do sítio. O mais irónico nisto tudo, para não abandonarmos as metáforas tauromáquicas, é que, por muito que ouçamos falar das suas declarações, se Donald Trump fosse classificado como um touro de lide na praça, não passaria de um touro probón (aqueles que insistentemente movem a cabeça e dão sinal de investir, mas que nunca mais se decidem a fazê-lo) e isso mais uma vez se parece confirmar desta vez, quando o vemos a dispor-se a trocar as controversas taxas alfandegárias de há dias por aquilo que considere um bom acordo comercial no quadro da NAFTA.

O FESTIVAL, DESDE O PRINCÍPIO...

A edição de 6 de Março de 1968 do Diário de Lisboa reservava as suas páginas centrais para destacar um inquérito que o jornal havia realizado junto de seis vultos da intelectualidade portuguesa em que estes opinavam sobre o Festival da Canção, que se realizara dois dias antes. Do maestro Jorge Costa Pinto ao poeta David Mourão-Ferreira ao guitarrista Carlos Paredes, os inquiridos mostravam-se unânimes na crítica à qualidade do concurso. No jornal, apreciara-se tanto a expressão inspirada que fora usada por Mourão-Ferreira (pungente mediocridade), que a recuperaram para o seu próprio título. Foi há precisamente cinquenta anos mas, sejam quais forem os anos que o Festival da Canção tenha de vida, são os mesmos anos de existência deste distanciamento desdenhoso, que apenas sofreu um intermezzo laudatório o ano passado pelas razões óbvias. É que ganhar um concurso, mesmo de canções de uma pungente mediocridade, só por ele ser internacional, muda muito as opiniões...

05 março 2018

O LIVRO VERMELHO E O LIVRO NEGRO

Nunca soube qual terá sido a causa - quiçá a obra clássica de 1830 de Stendhal - mas desde o principio que se me inculcou que existiam duas cores revolucionárias, o vermelho e o negro. O vermelho era a cor positiva e o negro era a cor negativa. Quando Arnaldo Matos, o grande educador da classe operária, o timoneiro cá da paróquia dos tempos do PREC, quis purgar o MRPP de quem o chateava, baptizou os chatos por linha negra, e a negrura da linha do renegado Sanches, não deixava dúvidas às massas populares quanto a quem teria razão naquela contenda. Quis a coincidência que as capas destes dois livros se distinguissem pela predominância das duas cores revolucionárias. Ou talvez não se trate de coincidência, que o tema dos dois livros são grandes desmandos dos períodos revolucionários, a Revolução Cultural na China e o Holodomor na Ucrânia. Recuperando as cores revolucionárias, o primeiro é um livro vermelho, o segundo é um livro negro. O primeiro sai-se bem na tarefa complexa de explicar as intenções e consequências dramáticas da manobra de Mao Zedong para recuperar o poder que ele sentia a tornar-se progressivamente cada vez mais simbólico por causa das suas incapacidades para dirigir administrativamente a China. A pacificação da China permitia a ascendência de figuras como Liu Shaoqi, Zhou Enlai ou Deng Xiaoping, enquanto Mao precisava de uma China em estado de perpétua desestabilização.
O segundo livro é um desapontamento. Nem sei se nele se chega a apresentar explicações para aquilo que aconteceu na Ucrânia em 1933. Até à página 140 (e o livro tem 367), onde começa o Capitulo 6, intitulado "Rebelião 1930", já se esgotou a paciência do leitor para a descrição das malfeitorias que os russos, sobretudo o poder soviético dos comunistas, haviam praticado sobre as populações ucranianas desde 1917 até esse momento. E faltam ainda mais dois ou três anos para que se chegue ao verdadeiro Crime da História, a morte pela fome de milhões de camponeses ucranianos, como resultado conjugado da diminuição da produção provocada pela coletivização das terras com o excesso das requisições de alimentos que foi executada pelos agentes do poder soviético. Mas, como houve uma tal banalização prévia da crueldade até quase metade do livro, o enfâse no clímax dos acontecimentos (1931-33) acaba desvirtuado. É um livro negro, não no conceito revolucionário, mas apenas como livro que falha na sua missão de denunciar outro dos maiores Crimes da Humanidade do século XX.

«COS'È SUCESSO?»

Não terá sido por falta de aplicação de quem as procurou acompanhar cá de fora que o resultado das eleições italianas terá sido uma surpresa. Mais uma vez - já aconteceu outras vezes, nomeadamente e por exemplo, por ocasião do Brexit - constata-se que há uma opinião pública... e há uma opinião publicada. Opinião publicada essa que não se mostra nada interessada em antecipar o que é que a outra terá para dizer nas urnas. E depois surgem os textos de análise repletos de obviedades que eram ainda desconhecidas 24 horas antes, justificando a perenidade das considerações filosóficas de João Pinto: os melhores prognósticos são os que se fazem no fim do jogo.

04 março 2018

LÁ ME ENFIARAM MAIS UM BARRETE, OUTRA VEZ...

Sobre o que pensar a respeito de momento político que se vive na Alemanha, sobre isso tenho opinião e firme. O que me despertava a curiosidade, estando a esta da distância da Alemanha, era a forma como os militantes do SPD encarariam o acordo que fora fechado por Martin Schulz com Angela Merkel, uma nova Grande Coligação (GroKo), muito mais depois da demissão do primeiro, indiciando uma grande controvérsia interna associada à decisão. A decisão iria ser dirimida por um referendo interno e as notícias que se liam sugeriam o quanto o desfecho estava indeciso. Afinal não estava nada: 66% dos 464.000 militantes social democratas votaram a favor da coligação. Eram os opositores da coligação que apareciam mais frequentemente nas fotografias (acima) mas foram eles que levaram um capote. Continuo a pensar que assim há de ser pior para a Alemanha, mas eu também não milito no SPD... A questão da minha frustração é outra, são estes truques de manter a emoção até ao fim do jogo para que se venda mais papel e claro que estes expedientes têm o seu preço na credibilidade que se atribui a quem informa. A rematar, a constatação que cinco meses de crise política na Alemanha dão uma nova latitude ao conceito de quanto pode durar uma crise política. Ano e tal sem governo na Bélgica? Porque não.

EXPLICAÇÕES PROPORCIONAIS

Há "teorias" científicas que só devem ser refutadas por argumentos proporcionais. Merecem-se. Se a Terra fosse efectivamente plana, então as plantas dos nossos pés não deviam ser lisas, em vez de encurvadas? Ora então expliquem lá isso, o formato curvo da planta dos pés... (É sempre tão melhor ser o "agente provocador")

A DESCOBERTA DE PETRÓLEO NA ARÁBIA SAUDITA

3 ou 4 de Março de 1938. Foi "apenas" há oitenta anos que as primeiras jazidas de petróleo foram descobertas na Arábia Saudita. Durante quase toda a primeira metade do Século XX, durante os anos da Primeira e (sobretudo) da Segunda Guerras Mundiais, as referências geográficas dos grandes centros de produção petrolífera, pelas quais tantas decisões estratégicas foram tomadas, nada tiveram a ver com as areias da Península Arábica. É assim que, mesmo dali por quatro anos, a grande ofensiva da Wehrmacht do Verão de 1942 na Frente Leste tinha como objectivo final a captura dos campos petrolíferos do Azerbaijão, para que estes pudessem alimentar a máquina de guerra alemã, assim como a conquista japonesa da Indonésia, que ocorrera no principio desse mesmo ano, tinha tido precisamente esse mesmo objectivo de satisfazer as necessidades do exército e da marinha imperiais. Os Estados Unidos, por contraste, não precisavam de se preocupar com essa matéria prima, dado que eram de longe os maiores produtores mundiais de petróleo dessa altura, representando 60% da produção mundial! (veja-se quadro abaixo) As voltas que a vida dá...

03 março 2018

ELÉCTRICO SOB CHUVA, MUITOS ANOS ANTES DO AMARELO SE TER TORNADO CHIQUE

Fotografia de 1978 de um eléctrico com reboque, sob chuva miudinha, ali para os lados de Santos. A fotografia é de Tim Boric e de um propositado preto e branco, muitos antes daquele amarelo de carris se ter tornado a cor simbólica de um alfacismo chique, por vezes estilizado em excesso (abaixo). Acresce que os eléctricos da minha nostalgia têm também anúncios pirosos afixados nas laterais...

02 março 2018

A CENSURA FASCISTA... (1)

A edição de 2 de Março de 1973 do Diário de Lisboa contém uma entrevista que é dada por Georges Marchais, então o secretário-geral do Partido Comunista Francês. Há até uma chamada de primeira página, embora se vivesse então sob o marcelismo, quando ainda vigorava a censura que entretanto só mudara de nome para a mais benigna designação de exame prévio. O pretexto para a realização da entrevista era a próxima realização de eleições legislativas naquele país, augurando-se com elas «a agonia do gaullismo». Não foi, mas isso é o que menos interessa. Sabendo o que se sabe hoje, sendo o autor da entrevista Urbano Tavares Rodrigues, militante fervorosamente comunista, também se adivinha que a entrevista (que ocupa quase toda uma página do jornal) não deve ter sido propriamente hostil para com o entrevistado... E, no entanto, os serviços da censura fascista tudo isto deixaram passar... Com esta evocação não se desculpa, muito menos se tenta legitimar, aquilo que aqueles serviços faziam, mas coloca-se a sua actuação num contexto factual, que muito frequentemente se esquece de ser referido por aqueles que alegam andar sempre muito preocupados em preservar a memória. Aqui temos o exemplo de um jornal de grande circulação de um país onde vigorava a censura fascista a publicar uma entrevista de um destacado dirigente comunista, ainda que estrangeiro. Mas ainda não encontrei exemplos de jornais de grande circulação de países onde, por sua vez, vigorava a censura comunista a acolherem reciprocamente nas suas páginas entrevistas a destacados dirigentes fascistas estrangeiros. Teria - terá? - sido possível que um jornal soviético, polaco, checo, pudesse publicar uma entrevista a Marcelo Caetano, por exemplo?...

BOND. THE NAME IS «OLD TIMER» BOND

Daniel Craig, o mais recente e mais novo dos James Bonds, completa hoje 50 anos. Vale a pena aqui lembrar que o primeiro Bond, Sean Connery, tinha 32 anos quando se estreou naquele papel (Dr. No) e que tinha 41 aquando do sétimo filme da série (Diamonds Are Forever), depois do qual afirmou que nunca mais interpretaria o papel. E que o seu sucessor, Roger Moore, nunca se livrou das críticas de ser um cinquentão pesado e fora de prazo a interpretar o mesmo papel nos sete filmes 007 que protagonizou. O aniversariante Daniel Craig, que começou a ser James Bond já com 38 anos (Casino Royale), tem para já agendado um retorno a esse papel para 2019 (o 25º Bond), quando completa 51 anos. É engraçado como essa questão da idade de James Bond se tem tornado fluida com o tempo: 51 anos era precisamente a mesma idade de Sean Connery, quando ele fez um último e muito criticado retorno ao papel em Never Say Never Again, trinta e cinco anos atrás.

01 março 2018

A SUPER TERÇA FEIRA DE 2016

1 de Março de 2016. Nem parece, mas foi há apenas dois anos que, ao vencer a Super Terça Feira das primárias republicanas, Donald Trump apareceu pela primeira vez com possibilidades de se tornar no candidato presidencial daquele partido. Foram - estão a ser - dois anos intensos e ainda faltam - pelo menos... - quase outros três... Seja qual for o período pelo qual permanecer no poder, Donald Trump vai decididamente deixar uma Casa Branca irreconhecível.