13 agosto 2012

BANDEIRAS NUM OCASO OLÍMPICO


Houve momentos a que assistimos em que só posteriormente nos apercebemos como foram históricos. Este vídeo é o da cerimónia protocolar que na altura acompanhei em directo, mostrando as equipas vencedoras na competição feminina de ginástica nos Jogos Olímpicos de Seul em 1988. Como se vê pelo içar das bandeiras, venceu a União Soviética, a medalha de prata foi para a Roménia e a de bronze para a República Democrática Alemã. Dali por quatro anos em Barcelona, a primeira bandeira desaparecera e as outras duas haviam perdido aqueles escudos centrais que lhes conferiam uma inconfundível carga ideológica.

A FRANÇA DO SÉCULO VI

Tenho um conhecimento bastante superficial sobre a História da França medieval. Então sobre aquele período dos inícios da Idade Média, onde há uma escassez enorme de fontes escritas em toda a Europa ocidental, aquilo que sei poderia ser transposto para um parágrafo assim mais desenvolvido, onde constariam os nomes exóticos (como Austrásia e Nêustria) dos reinos francos dessa época, reinos esses onde reinaram, em guerras dinásticas quase constantes, reis que ostentavam uns nomes com um exotismo perfeitamente adequado aos seus domínios: Teodorico, Sigeberto, Clotário, Chilperico, Childeberto, Clodomiro, Childerico, etc.
O que pude concluir da História dos Reis Francos do Bispo Gregório de Tours acima, um autor contemporâneo dos acontecimentos, que aplicadamente me dispus a ler para colmatar tal lacuna, é que a minha iniciativa de procurar conhecer o período em mais detalhe não valeu a pena. É apenas a escassez de fontes concorrentes que transforma Gregório de Tours em algo mais do que um medíocre historiador. A Gália franca que sai dos seus escritos parece não passar de um palco de uma perpétua intrigalhada política e militar entre familiares rivais. Algumas outras coisas se devem ter passado para que o país tivesse sobrevivido durante o Século VI… 
Afinal, uma excelente síntese do que ali consta já eu tinha lido numa prancha de Asterix e os Godos   

12 agosto 2012

PARÓDIAS À RAPSÓDIA HÚNGARA Nº2 DE LISZT


Será pela sua popularidade mas também por ter aquele começo tão sério e solene que a rapsódia húngara nº2 se mostra vulnerável a ser explorada comicamente através de tratamentos de polé como os que lhes são aqui dispensados por dois duos: acima o de Victor Borge com o Rolf dos Marretas e abaixo é Bugs Bunny com (e contra…) um ratito. Atente-se às diferenças do estilo de humor dos dois vídeos.

11 agosto 2012

MUNIQUE 1972

As 30 edições das olimpíadas decorridas até hoje terão produzidas milhares de fotografias espectaculares. Mas, se eu quiser eleger uma de entre elas, será esta acima, tirada a 5 de Setembro de 1972 em Munique, escolhida precisamente por ela não ter nada de olímpico. Nela aparece um dos guerrilheiros do comando palestiniano que assaltou o complexo onde residiam os atletas sequestrando os membros da delegação israelita. Aparecido à varanda de um dos apartamentos ocupados, a imagem impessoal da figura de capuz parece ser a apresentação mundial do fardamento de um terrorista dos tempos mediáticos modernos…

10 agosto 2012

VIDAS DE EUROPEUS NO ANO DO SUPERAVIT COMERCIAL DE 1943

Em comentário ao que por aí li escrito, refira-se que em 1943 quase todos os alimentos estão racionados em todos os 24 países europeus, incluindo aqueles poucos que permaneceram neutrais no conflito em curso (Segunda Guerra Mundial), casos da Irlanda, Portugal, Suécia ou Suíça. A dose de calorias correspondente às rações diárias que são alocadas aos adulto podem variar, desde as 800 calorias na Polónia, às 960 na Bélgica, 1500 na Noruega, 1600 em França (acima), 1900 na Holanda, e ainda um pouco mais nos países directamente beligerantes: 2250 na Alemanha e 2800 na Grã-Bretanha. Noutros países, onde os circuitos de produção e distribuição são mais retrógrados e foram mais afectados pela Guerra a situação ainda é pior. Na Grécia, numa Atenas repleta de refugiados, a distribuição diária de pão reduz-se a 30 gramas e todos os dias carroças apanham os cadáveres de ventres inchados nas ruas e vão lançá-los em valas comuns.
É penoso, para quem conheça esta realidade, ler a descrição enviesada que Irene Pimentel fez, escudada em Fernando Rosas, das condições de vida em Lisboa por essa mesma época. Não por ela ser mentira, que não creio que o seja, mas por ela ser distorcida por omitir as circunstâncias de uma Europa que, naquele período, vivia com vários níveis de dificuldades, incluindo os países que haviam sido poupados ao conflito. Quem se proponha fazer um julgamento proporcionado da situação portuguesa naquele período terá que comparar com a de outros países neutrais, como será o caso da Irlanda (abaixo), e não adoptar – como se fez – uma crítica sistemática e implacável a Salazar e ao seu regime. Note-se, apenas para exemplo, como não terá sido apenas Salazar a adoptar a polémica decisão de decretar luto nacional por ocasião da morte de Adolf Hitler em Maio de 1945: Eamon de Valera – insuspeito de simpatias pelo fascismo – adoptou uma atitude equivalente na Irlanda

ABREVIATURAS DE UMA AGRICULTURA DIALÉCTICA

É improvável que as siglas LPG, RSP, JZD, JRD, TSZ ou CAP possam dizer alguma coisa ao leitor. Representam porém, numa miríade de idiomas europeus, sempre a mesma realidade: Landwirtschaftliche Produktions Genossenschaft em alemão, Rolnicza Spółdzielnia Produkcyjna em polaco, Jednotné Zemědělské Družstvo em checo, Jednotné Roľnícke Družstvá em eslovaco, TermelőSZövetkezet em húngaro ou Cooperativă Agricolă de Producție em romeno eram as cópias nacionais pós-Guerra dos Kolkhozes soviéticos, decalcando o modelo de exploração colectiva da terra que fora imposto na URSS na década de 1930 com as consequências que se conhecem
A evolução das condições técnicas da produção agrícola moderna primeiro, e o desmoronamento do bloco socialista depois, transformaram todas aquelas (e outras…) siglas em memórias esquecidas. Mas não deixa de ser oportuno relembrar como, durante o PREC, e com aquele jeito dos comunistas para seguirem tudo pela cartilha, também em Portugal tenha aparecido a sigla UCP por acrónimo de Unidade Colectiva de Produção (em português...), copiando para o nosso país um modelo que já então se mostrara um fiasco na maioria dos países que haviam sido forçados a adoptá-lo. Esquecido, este foi dos aspectos onde estivemos mais próximos de nos sovietizar

09 agosto 2012

«NÃO PESCO NADA DISTO»

 Já lá vão uns vinte anos, certo dia, um amigo, colega de trabalho, chegou ao emprego embevecido por causa de um episódio escolar passado com o filho, a caminho da adolescência. Que fora? Num teste de matemática e a uma pergunta para a qual ele não fazia a mínima ideia da resposta, em vez de gatafunhar uns números ou de deixar em branco, o aluno resolveu responder criativamente, desenhando-se a pescar à cana, num desenho muito parecido com o de cima, sobre a legenda não pesco nada disto. Mas foi o resto da história que me fez sentir desajustadamente velho: em vez da severa reprimenda dos tempos do fascismo ou da ignorância tácita dos tempos do prec, as novas pedagogias faziam com agora que a professora apreciasse muito positivamente o que outrora teria sido uma insolência. Mas, se recordei este episódio previamente é para o associar ao mote deste poste: o da exibição da ignorância, quando é feita com estilo!
O mundo noticioso informou-nos recentemente que houve um ataque a postos fronteiriços no Sinai que deixaram um rasto de 15 guardas egípcios mortos (acima, uma fotografia do funeral das vítimas). E que os responsáveis haviam sido… um comando. Entretanto os egípcios já retaliaram, causando 20 mortos- plausivelmente – a…o comando. Por detrás do cuidado na redacção das notícias percebe-se que quem escreve não sabe quem são nem quais são os objectivos do comando que desencadeou tais acções. Uma mão amiga fez-me entretanto chegar a análise que a Stratfororganização especializada destinada a assinantes – produziu sobre os incidentes. E, como se comprova abaixo, também eles, especialistas, parecem não fazer ideia nem do que pretenderão os rebeldes (designá-los por jihadistas é gratuito: tornou-se num termo tão genérico que deixou de ter significado preciso), nem do que os terá levado a desencadear a acção precisamente agora…
E embora acredite que o assunto não tenha uma gravidade tal que tire o sono ao mundo ocidental, associando as duas histórias, eis aqui um caso em que não seria descabido a Stratfor desenhar-se de caninha de pesca…

08 agosto 2012

A BANDA SONORA DOS DIAS PRESENTES


Ouvi-a há pouco, por acaso, a esta Dança Árabe do Quebra-Nozes de Tchaikovsky e apercebi-me do quanto adequada ela parece ser para marcar o espírito destes dias que passam, um compasso de espera entre um projecto de austeridade que acertou nos sacrifícios mas falhou nos resultados e uma próxima (outra) coisa qualquer… 

MERGULHOS OLÍMPICOS, «CHAPÕES» JORNALÍSTICOS

 Um dos fait-divers destes Jogos Olímpicos passou a ser o mergulho protagonizado pelo atleta alemão Stephan Freck que se desequilibrou a meio do mesmo e o acabou com um espectacular chapão de costas na piscina. Sinal dos tempos, os jornais on-line que o noticiam inserem um vídeo do salto que dura uns meros 7 segundos (abaixo), embora ele seja precedido da obrigatória publicidade que dura o quádruplo desse tempo…
E há também a falta de memória. Houve quem se excedesse em superlativos ao designá-lo pelo pior mergulho da história dos Jogos Olímpicos. Há 24 anos, nos Jogos Olímpicos de Seul, o norte-americano Greg Louganis estarreceu o Mundo ao bater com a cabeça na prancha enquanto saltava (abaixo). Ainda por cima quando, para condimentar o fait-divers, Louganis veio a recuperar para se tornar campeão olímpico… 

A DIFÍCIL CONSTRUÇÃO DA VERTENTE AERONAVAL DE UMA MARINHA DE GUERRA

A história do Almirante Kuznetsov, o único porta-aviões da marinha russa é também a história das vicissitudes do fim daquele império. Apesar de ter sido lançado à água ainda em finais de 1985, só dez anos depois disso é que o navio-almirante da esquadra russa se tornou finalmente operacional.

Entretanto, durante esses dez anos o navio recebeu quase tantos outros nomes: originalmente chamara-se Riga (capital da Letónia), Leonid Brejnev (depois da morte deste), Tblissi (capital da Geórgia) para se assentar em Almirante Kuznetsov, um almirante soviético que caíra em desgraça sob Stalin.      

Caso o navio se tivesse tornado operacional ainda durante a Guerra-Fria, o seu aparecimento teria sido tratado pela máquina do Pentágono com a maior histeria possível. Porém assim, torna-se até possível observar por estes vídeos as dificuldades da marinha russa em dominar as ciências aeronavais.
Trata-se de um campo em que o equipamento é apenas uma pequena parte do resultado operacional, o treino é o resto, e a marinha russa só tem tido estes últimos 17 anos para tentar recuperar o atraso em experiência que as suas rivais norte-americana, britânica ou francesa adquiriram em mais de 75...

07 agosto 2012

REVOLUÇÃO «INDUSTRIAL»

Esta fotografia acima de Cole Thompson serve para nos recordar como, depois desta fase transitória em que nos embevecemos com as energias renováveis e não poluentes, as ventoinhas eólicas se irão perpetuar como um símbolo poluidor de uma certa fase de uma contínua revolução em busca de energia que só deixou de ser apenas industrial.      

06 agosto 2012

A TELEVISÃO SOB A SUÁSTICA

Lembro-me que um dos meus desapontamentos com Fatherland (acima), uma história de ficção já com 20 anos passada em 1964 numa Europa alternativa em que a Alemanha triunfara na Segunda Guerra Mundial, foi a incapacidade de Robert Harris em criar uma sociedade europeia dos anos 60 que fosse alternativa mas credível, sob a égide da Alemanha e do pensamento nazi. Para dar apenas um exemplo, o Adolf Hitler ficcional da obra, com 75 anos de idade, mais de 30 de poder e ainda por cima vencedor da Segunda Guerra Mundial seria figura venerada, mesmo endeusada em toda a Europa, fenómeno natural nas ditaduras. Mas Harris preferiu esbater esse aspecto mais do que plausível do desenvolvimento do culto de personalidade de Hitler, provavelmente para não despertar a hostilidade do leitor médio e assim prejudicar de algum modo o sucesso comercial do livro.
20 anos passados e vim a encontrar algo que se poderá assemelhar a um cheirinho – muito mais conseguido – dessa modernidade alternativa sob o nazismo num documentário muito interessante que encontrei no You Tube. Trata-se de um documentário de quase uma hora, que data já de 1999, e que analisa os conteúdos e a evolução da televisão alemã (acima) durante o período do nazismo – de 1935 a 1944.
Como se percebe pela data (1935) a Alemanha foi pioneira a emitir regularmente programação televisiva. Relvando isso, numa outra obra de ficção (Contacto), Carl Sagan põe os extraterrestres inteligentes a retransmitir para a Terra os primeiros sinais que eles haviam recebido da nossa existência – e tratava-se do discurso proferido por Adolf Hitler quando da abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936!
No documentário, pode-se ver que essas reportagens televisivas da época mostram-nos um Adolf Hitler vulgar, surpreendentemente humano, quando em contraste com os filmes épicos a seu respeito (como O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl). Na fotografia acima, retirada da reportagem televisiva da sua chegada a outro Congresso nazi, o carro está mal enquadrado e é o próprio Hitler que abre a porta para sair…
Observando a cena, aquilo faz lembrar a casualidade que os políticos modernos tentam aparentar à frente das câmaras de televisão. E se a ousadia não pôde ser levada ao ponto de interpelar o próprio Führer (e será que hoje se pode interpelar livremente Obama ou Putin?...), há dignitários do III Reich mais jovens e modernos como Albert Speer que se dispõem a uma entrevista falsamente casual ao volante do seu automóvel.
Há no documentário vários momentos caricatos de propaganda de um estado simultaneamente autoritário e totalitário. Mas o seu conteúdo, apesar da televisão alemã estar ainda na infância da arte e de se tratar de um organismo deferente para com o poder estabelecido, parece-nos estranhamente moderno, o que torna ainda mais incomodativo um episódio como o das mensurações (acima) para se aferir da conformidade com a raça.

UM ESCOCÊS EM WIMBLEDON

Quando, na fotografia acima, Andy Murray exibe a sua recém-conquistada medalha de ouro e segura por detrás de si a Union Jack,a bandeira representativa de todo o Reino Unido, mostra-se magnânimo a respeito de uma daquelas rivalidades britânicas: a que pretendia que os escoceses eram tradicionalmente desajeitados no ténis, que nunca nenhum deles havia ganho em Wimbledon. Repare-se como em 1969 os Monty Phyton parodiam essa reputação dos escoceses no episódio You´re no fun anymore - abaixo, veja-se o último trecho dele, que começa pelo investigador inteligente a perguntar qual é a pior nação do Mundo em ténis…
Manda o rigor esclarecer porém que, antes deste triunfo olímpico de Andy Murray e ao contrário do boato que terá inspirado os Monty Phyton, já tinha havido de facto um escocês que triunfara em Wimbledon: um senhor chamado Patrick Bowes-Lyon (1863-1946) que, por sinal, era tio-avô da actual rainha Elizabeth, mas que conquistou o título no longínquo ano de 1887 (reinava a sua trisavó Vitória…) e na variante de pares, ou seja, com o auxílio de um inglês… Apesar da atitude apropriada de Murray e do sentido ligeiro que aqui pretendi dar ao assunto, registe-se contudo que há quem se disponha a levá-lo muito a sério

05 agosto 2012

MORREU NA CONTRAMÃO ATRAPALHANDO O SÁBADO

A notícia da Lusa de ontem, Sábado de manhã, anunciando que um cadáver estava a perturbar a circulação dos comboios na linha de Sintra (acima), poderia parecer (aparentemente) uma recriação daquela passagem da famosa canção (Construção) de Chico Buarque, naquela passagem em que ele canta:

E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Porém, ao ler a redacção crua da notícia explicativa sobre aquilo que terá acontecido, percebe-se como terá desaparecido 40 anos depois muita da atitude compreensiva para com desfavorecidos ou desenraizados. A solidariedade e o estado social não estão a desaparecer apenas por insustentabilidade financeira
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou p´ra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

04 agosto 2012

O FDP

De uma região que já promoveu ao estrelato nacional figuras tão notáveis quanto o Emplastro, o Valentim Loureiro ou o Manuel Macedo, só se pode esperar a promoção breve e animada da sua nova vedeta regional: Manuel Leitão, editor do polémico Porto Menu, inventor de explicações descabidamente imbecis, por alcunha merecida o FDP. A sério: de um gajo destes, suspeito que nem sequer um roteiro de casas de banho públicas - quanto mais as sugestões de onde se deve ir jantar.

O TEMPO DAS ARMAS E O TEMPO DA DIPLOMACIA

Não me parece nada surpreendente que Kofi Annan tenha anunciado a sua intenção de não prolongar o seu mandato como mediador da ONU para o conflito sírio. O que surpreendeu – e isto é escrito como um elogio – foi a sua perseverança, apesar dos fracassos consecutivos das suas iniciativas. Ainda que os diplomatas costumem ter tradicionalmente um discurso mais escorreito do que os militares quando defendem a pertinência das suas iniciativas, este é um exemplo típico que, antes da maturação da vontade de ambas as partes, o exercício da negociação – que qualquer dos lados nunca pode rejeitar para não parecerem mal na fotografia… – vem a revelar-se um passatempo inútil.

Relembre-se como já aqui se havia recordado neste blogue, antes da actual guerra civil, e a propósito do massacre de Hama de Fevereiro de 1982, como o regime sírio registava um sólido historial de impunidades na repressão civil. Surpreendente seria que, mau grado os trinta anos passados, o mesmo regime tivesse mudado de atitude, tanto mais que os seus apoios internacionais se mantêm. E o episódio do abate de um caça turco que invadiu espaço aéreo sírioque os turcos encaixaram sem retaliar – veio mostrar não apenas a solidez militar do regime, como desiludir os mais entusiasmados que começavam a pensar numa intervenção directa num país em desagregação.

Apesar da catadupa de notícias negativas no noticiário internacional, o regime sírio parece afinal ter sido pouco desgastado e, consequentemente, mantem-se disposto a oferecer muito pouco aos rebeldes. Vale a pena lembrar que em Dezembro de 1916, a meio da Primeira Guerra Mundial, houve uma tentativa de mediação em que se perguntou aos beligerantes as suas condições para a negociação de um armistício. As propostas da Entente foram, grosso modo, as que vieram a constar do Tratado de Versalhes em 1919. Mas nessa altura, elas só tiveram o condão de irritar uma Alemanha (abaixo) que se sentia até aí – e com toda a razão… – numa posição militar tacticamente vantajosa.
A caricatura intitula-se A Pomba da Entente (Die friedenstaube der entente), mas trata-se de um abutre que, à laia de ramo de oliveira, carrega um azorrague no bico e um mapa nas garras onde a Alemanha e seus aliados aparecem despojados de parte dos seus territórios.

03 agosto 2012

UMA OUTRA FORMA MAIS EXPEDITA DE CHEGAR AO CÉU…

Passados todos estes anos a música mais popular dos Led Zeppelin continuará a ser decerto a interminável Stairway to Heaven (que se poderá traduzir por escadarias para o paraíso...) e já assim seria em 1973 quando Bob Gruen os fotografou acima, diante de um Boeing 707 que ostenta o nome da banda. Não serei por isso certamente o primeiro a realçar o contraste irónico entre o título da canção e a foto…

02 agosto 2012

A CAMPEÃ OLÍMPICA DOS «PIROLITOS»

Embora apareça raramente nas pantalhas, uma modalidade olímpica como a canoagem de slalom - de que se exibe acima um vídeo - produz sempre imagens impressionantes. Porém, ao contrário do pentatlo moderno de que aqui falei anteriormente, a sua adopção como modalidade olímpica é bastante recente: tem apenas 20 anos. A um mês do começo desses jogos olímpicos de Barcelona (1992), e para conferir ao universo de participantes femininas da prova inaugural de slalom um carácter mais ecuménico, o comité olímpico costa-riquenho recebeu um convite que considerou impossível recusar. À falta de senhoras que praticassem a modalidade na Costa Rica, houve que recorrer a quem fosse experiente com o que houvesse de mais parecido. E foi assim que se descobriu para futura canoísta olímpica Gilda Montenegro, uma moça de 25 anos que operava turisticamente uma jangada de rafting
Tratando-se de uma prova olímpica disputada em duas mangas, a prestação da jangadeira na primeira delas desmentiu aquele tradicional aforismo desenrascado que postula que dão umas coisas para as outras: numa prova em que as concorrentes recebem normalmente uns 5/10 pontos de penalização por falharem a passagem de uma ou outra porta, onde a infeliz antepenúltima recebera 65 e a desastrada penúltima 165 pontos, Gilda conseguiu eclipsá-las com os seus 470 pontos! Poder-se-ia pensar que a experiência adquirida lhe permitiria realizar uma segunda manga menos catastrófica. Mas não. A meio do percurso, depois de já ter conseguido 225 pontos, o kayak de Gilda virou-se e, diante uma assistência preocupada, completou o resto num arrojado estilo subaquático, não previsto pelo regulamento... Num dos saltos, Gilda chegou a bater com a cabeça no fundo, o que fez com que o seu capacete se rachasse ao meio…
A experiência de engolir todos aqueles pirolitos foi tão traumática que Gilda Montenegro esteve quase dois anos sem voltar a entrar num kayak… Mas veio a reaparecer nos jogos olímpicos seguintes, disputados em Atlanta em 1996, onde dessa vez já conseguiu completar as duas mangas da prova à superfície e acabando num honroso antepenúltimo lugar… Melhor que isso, e provando que as histórias às vezes têm mesmo um final feliz, veio a casar com o campeão olímpico masculino dessa mesma modalidade, o alemão Oliver Fix

01 agosto 2012

«CARTOONS» DE BICHOS COM PELAGENS DE COR EXÓTICA


Há um pouco mais de 40 anos apareceram os desenhos animados da pantera cor-de-rosa (acima); há cerca de 20 foram os do Garfield, o gato resmungão cor-de-laranja (abaixo). Não deixa de ser uma mera coincidência que estas duas cores correspondam às que identificam os dois principais partidos políticos portugueses. E associando essa coincidência com a composição do programa Quadratura do Círculo da SIC, não deixa de ser curioso como as personalidades daqueles dois bichos assim como as músicas dos respectivos genéricos coincidem com as relações que António Costa e José Pacheco Pereira mantêm com os partidos onde militam. Discreta, elegante mas intrometida a do primeiro, e de confronto assumido e desdém pela ralé, a do segundo... É engraçado e, como diria o Baptista Bastos, achei que devia dizer isto

A(LGUMA)S MUSAS

Descalça vai para a fonte
Leanor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.
Imagine-se agora que a Leonor que outrora inspirou Luís Vaz também se achava inspirada para além de inspiradora e juntavam-se umas quadras suas de pé quebrado, má métrica e rima forçada ao famoso poema camoniano… Resultaria dali uma salganhada semelhante àquela que, não se ouvindo, Bob Gruen tão bem captou neste instantâneo de 1972 com Yoko Ono esganiçando-se, de microfone em punho, para cantar aquilo que John Lennon estará a tocar.