04 julho 2017

O «POGROM» DE KIELCE

4 de Julho de 1946. Há exactamente 71 anos tinha lugar um pogrom (palavra de origem russa que designa um ataque colectivo e maciço aos indivíduos e propriedades de uma minoria segregada, normalmente judeus) em Kielce, uma média cidade do centro-sul da Polónia (205.000 habitantes na actualidade). Nos anos precedentes, a Polónia assistira a milhares de outras ocorrências como aquela: sob ocupação alemã, a comunidade judaica polaca reduzira-se de 3,3 milhões em 1939 para 0,5 em 1945. A particularidade desta efeméride está no ano: 1946. A Segunda Guerra Mundial já acabara há catorze meses, os alemães (especialmente os residentes a oeste da nova Polónia) passaram de algozes a vítimas, expulsos desta vez pelos polacos que lhes ficavam com propriedades e bens, mas a ocorrência deste pogrom demonstrava que a sorte dos judeus só evoluíra no sentido de deixarem de ser exterminados industrialmente. Podia ser verdade que a morte de 42 judeus (e tantos outros feridos) perseguidos pela multidão seriam comparativamente um detalhe numa comunidade que se reduzira a 15% do que fora, mas o episódio representava um clímax que chocava todos aqueles que dele tiveram conhecimento. Depois do incidente, confrontaram-se duas máquinas de propaganda com interesses diferentes: a) a do regime comunista polaco quis abafá-lo, pois ele perturbava seriamente a legitimidade que o regime desejava e que os Aliados Ocidentais não lhe queriam conferir; o referendo que o regime havia organizado no Domingo anterior (30 de Junho de 1946) fora uma gigantesca fraude; b) a dos sionistas judeus quis empolá-lo o mais possível, posto que transmitir a imagem de insegurança (mesmo após a guerra) das comunidades judaicas da Europa de Leste era uma forma de estimular essas comunidades a emigrar e condicionar as opiniões públicas ocidentais a aceitar a emigração de todos esses judeus para a Palestina. Dali por 21 anos (1967), já a comunidade judaica na Polónia estaria reduzida a umas 25 a 30.000 pessoas, a esmagadora maioria delas sem ser sequer praticantes mas isso não impediu que houvesse uma última campanha anti-sionista na Polónia.
Só se surpreende com algumas características ultra-conservadoras e xenófobas da direita polaca quem desconhecer a história daquele país. A xenofobia foi característica transversal da sociedade. E quanto ao aspecto da memória, repare-se ainda que quem descerrou a placa evocativa acima foi Lech Wałęsa em 1990 - 44 anos depois dos acontecimentos...

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