28 outubro 2015

UMA OFERTA QUE ATÉ UM REI NÃO DEVIA TER RECUSADO

Já tive oportunidade de escrever uma apreciação aqui no Herdeiro de Aécio a este livro, Os Sonâmbulos. Mas, se regresso a ele, é porque me quero referir a um outro aspecto seu, o seu capítulo inicial que, como expectável, remete para os Balcãs, o berço conhecido dos antagonismos que levaram ao início da Primeira Guerra Mundial, mas onde o autor nos surpreende com a data e o acontecimento. Em vez do canónico assassinato do arquiduqueFrancisco Fernando e de sua mulher em Sarajevo a 28 de Junho de 1914, Christopher Clark remete-nos para a narrativa de um outro assassinato régio anterior, o do rei Alexandre I Obrenovic da Sérvia e de sua mulher Draga (abaixo) que ocorrera em Belgrado a 11 de Junho de 1903. Tinha sido perto das duas da manhã que um grupo de conspiradores formado por 28 oficiais sérvios havia atacado o palácio real, derrotado e desarmado as sentinelas e a guarnição depois de uma intensa mas breve troca de tiros.
As buscas pelo palácio demoraram quase duas horas até os descobrirem um pequeno quarto anexo cuja porta estava coberta por uma tapeçaria suspensa, onde ambos se haviam refugiado. Os conspiradores executaram o casal quase imediatamente depois de descoberto, primeiro a tiro, depois à espadeirada, mutilando os cadáveres (a ilustração abaixo, publicada no Le Petit Journal parisiense de 28 de Junho não é muito rigorosa quanto a esse aspecto...). Simultaneamente, nessa mesma madrugada, outros correligionários seus estiveram activos, assassinando os dois irmãos da rainha, oficiais do exército sérvio como os conspiradores, mas a quem se atribuía ambições de virem a suceder ao cunhado. Assassinados em sua casa foram também o primeiro-ministro Cincar-Markovic e o ministro da Guerra Pavlovic – este com o pormenor macabro de ter sido executado com 25 tiros dentro de uma arca de madeira onde se escondera. O ministro do Interior Todorovic também foi executado, mas foi mal executado – deixaram-no por morto, mas sobreviveu até 1922.
Porque já não é importante para o que quer contar, Christopher Clark não dá qualquer destaque à indignação internacional que estes acontecimentos provocaram. Mas os protestos foram tão abrangentes quanto veementes. Envolveram tanto a Rússia quanto a sua rival Austro-Hungria (que viriam a ser os antagonistas na raiz da Grande Guerra), mas também potências distantes como o Reino Unido. O ostracismo a que foi votado o novo regime sérvio fez com que, em meses, só os gregos e os otomanos estivessem representados ao nível de embaixador presente em Belgrado, numa pressão diplomática muito desconfortável. Mas depois da tempestade veio a bonança da realpolitik. Um novo rei da Sérvia, Pedro I, do clã rival (os Karadjordjevic) foi coroado em Setembro de 1904. E, se esquecermos essas coisas das pomposidades das realezas e dos governos, tudo não passara de um necessário ajuste de contas entre famiglias, mesmo ao jeito das cenas de O Padrinho.

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