
A questão da bomba de neutrões parece estar há muito esquecida mas acabou por se tornar, conjuntamente com a
Iniciativa de Defesa Estratégica (
SDI – mais conhecida por
Guerra das Estrelas), num dos episódios mais significativos da fase tardia da Guerra-Fria. E, tal como a
Guerra das Estrelas, era também um dispositivo tão brandido pela Administração Reagan como contestado pelas sucessivas lideranças soviéticas, mas cuja eventual utilidade em caso de conflito
quente, ter-se-ia revelado praticamente nula…

Explicada de uma forma simplificada, uma
bomba de neutrões é um dispositivo nuclear de fissão (uma
bomba atómica clássica) que foi transformado para que uma parcela da energia libertada com a detonação o faça na forma de radiação. Mesmo assim, isso só acontece a cerca de 35% da energia libertada (são 15% nos dispositivos tradicionais), o que quer dizer que, mesmo assim, os efeitos destrutivos que uma bomba de neutrões produz através das ondas de choque e do calor continuam a ser impressionantes…

Concebida teoricamente em 1958 nos Estados Unidos (não se sabe em que data o terá sido na União Soviética...), a configuração só veio a ser experimentada cinco anos depois, mas demorou quase 15 anos depois disso a passar para a fase de produção. A questão inicial (que também se terá posto do lado soviético) é que não havia razões militares para o fazer. A única vantagem de uma bomba de neutrões sobre uma convencional é que, para a mesma potência, teria
um alcance e uma capacidade superiores de destruição dos organismos vivos…

Até que houve alguém no
Pentágono que conseguiu descobrir um cenário táctico que poderia justificar o seu emprego: a bomba de neutrões poderia ser mais vantajosa do que o armamento nuclear tradicional quando empregue contra as unidades blindadas numa eventual invasão da Europa Ocidental pelos exércitos do
Pacto de Varsóvia. Nesse caso, a protecção constituída pelos blindados, mesmo quando eficaz contra o choque e o calor, seria ineficaz contra as intensas radiações da bomba. O equipamento sobreviveria, mas os tripulantes não…

Esta faceta cruel de uma arma que preserva (comparativamente) tudo o que é inanimado enquanto aniquila os seres vivos foi uma das mais exploradas pela campanha que foi desencadeada no países ocidentais – com o apoio evidente da União Soviética – contra a adopção da arma pelos arsenais da
NATO. A Administração Carter ainda estabeleceu uma moratória em 1978, mas a de Reagan recomeçou a sua produção (1981). E entretanto, com menos espavento, também a França começou a produzir a bomba de neutrões (1982).

Tanto ou mais do que os protestos populares e das condições muito específicas em que a arma devia ser utilizada, terá havido duas razões para a rápida eliminação da bomba de neutrões dos arsenais nucleares. Uma delas relaciona-se com as condições de armazenamento. A bomba de neutrões usa um gás que é o isótopo radioactivo do hidrogénio (o
trítrio, H³) que é relativamente instável (tem uma
vida média de 12,32 anos). Isso obrigava a que houvesse um custoso sistema de manutenção para que o armamento permanecesse operacional.

A outra, está associada à descoberta da forma como o organismo humano reage perante certas dosagens maciças de radiação (acima
Chernobyl). Depois de uma fase inicial de náuseas e apesar de uma morte certa, os organismos recuperam por um período que poderá chegar a ultrapassar as 24 horas, que é designada por fase de
fantasma ambulante. Ora, ao contrário do que seria a intenção inicial do inimigo, adivinhar-se-ia como poderia ser a determinação fanática e suicida dos militares atingidos, após se saberem condenados a uma morte em agonia…
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