12 setembro 2022

A CRÍTICA E OS CRÍTICOS QUE NÃO SE ENXERGAM ou O SOBRINHO CONDESCENDENTE E AMNÉSICO

Há críticas que, sendo justas, se tornam insuportáveis considerando aquilo que sabemos de quem as faz. É o caso crasso desta crítica acima ao carácter hiperdinâmico da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa e às suas viagens ao exterior. Um actividade francamente excessiva como é evidenciada pela lista anexa. A crítica é justíssima: 110 viagens até agora. O problema é quem eu vejo a promovê-la no facebook: Alfredo Barroso. Conhecido por ser o sobrinho do tio. E o tio era Mário Soares e este seu sobrinho notabilizou-se por ser um contínuo apêndice do seu círculo político próximo. Nos seus tempos de presidente entre 1996 e 2006, essa apendicite crónica consubstanciava-se no cargo formal de chefe da Casa Civil do presidente da Republica. Que, por acaso, era tio dele (não há mais nenhum caso de um parente próximo de um presidente em funções dessa responsabilidade - a este género de abuso chama-se nepotismo). Enfim, reconheça-se que um tal cargo confere a Alfredo Barroso a sua quota-parte de co-responsabilidade naquilo que caracterizou os dez anos da presidência do seu tio. E a presidência do tio caracterizou-se precisamente pela mesma crítica que vemos Alfredo Barroso a assacar agora ao actual presidente: o uso e abuso das viagens ao estrangeiro. Claro que já houve quem tivesse feito e publicado uma compilação metódica de todas as viagens de Mário Soares. E claro que apetece arrumá-las de uma mesma forma, para as chapar nas trombas do sobrinho. Pelo mesmo critério, Mário Soares realizou 152 viagens* (Marcelo ainda vai nas 110). Entre os destinos preferidos de Mário Soares, 25 viagens a Espanha (contra 16 de Marcelo), 21 a França (12), 8 a Itália (5), 7 aos Estados Unidos (8) e à Alemanha (2) e ainda 6 ao Brasil (7).
Tão boas como as danças africanas que celebrizaram Marcelo em Moçambique (e que António Costa procurou recentemente emular), também Mário Soares trouxe das suas 152 viagens ao estrangeiro imagens impressionantes (embora menos dançarinas...), como será o caso desta passeata às costas de uma tartaruga gigante nas ilhas Seychelles que aqui escolho para ilustrar e recordar o exotismo de tal profusão de viagens. E a pergunta que se impõe será: o que é que fez o chefe da Casa Civil de Mário Soares para obstar a uma tal exibição? Ou será o sobrinho a achar que aquilo que era natural no tio é só criticável quando é feito pelos seus sucessores? Aparentemente, Alfredo Barroso, ao manifestar-se a respeito do assunto sem mais, considerará que pessoalmente não necessita de se pronunciar sobre a contradição em que incorre, contradição que, como estamos a ver, é enorme. Para mais, quando uma consequência das deambulações do tio Mário pelo Mundo torna ainda mais evidente o ridículo da crítica que o sobrinho Alfredo faz a Marcelo. Na lista de condecorações recebidas por Alfredo Barroso (constam da sua página da wikipedia), 21 da 22 condecorações que lhe foram concedidas foram-no por governos estrangeiros (abaixo). Ou admitimos que todo este reconhecimento que lhe manifestaram se deverá à reputação mundial alcançada pelo «cronista, jornalista, ex-deputado e ex-secretário de Estado» (sic) Alfredo Barroso (uma ilusão), ou então aceitamos que o mais provável é que toda esta parafernália de Grã-Cruzes (concedidas por países tão díspares e improváveis quanto o Senegal, Chipre, Equador ou a Tunísia) lhe foram concedidas por cortesia quando acompanhava o tio naquelas suas voltas pelo Mundo fora... As mesmas voltas que agora o vemos a criticar a Marcelo... Embora nunca tenha sido capaz disso, Barroso devia enxergar-se. E deixar as críticas a Marcelo Rebelo de Sousa para quem não tenha "telhados de vidro" tão fininhos quanto os dele.
* E mais precisamente: 1 viagem (Angola, Argentina, Áustria, Bulgária, China, Colômbia, Coreia do Norte, Dinamarca, Equador, Egipto, Filipinas, Grécia, Hungria, Índia, Irlanda, Islândia, Israel, Letónia, Luxemburgo, Malta, México, Noruega, Países Baixos, Palestina, Paquistão, Polónia, Seychelles, Suécia, Tunísia, Uruguai, Venezuela e Zaire); 2 viagens (Cabo Verde, Chile, Costa do Marfim, Checoslováquia, Guiné Bissau, Hong Kong, Marrocos, Moçambique, Rússia, São Tomé e Príncipe e Turquia); 3 viagens (África do Sul); 4 viagens (Japão, Macau, Reino Unido e Suíça); 5 viagens (Bélgica); 6 viagens (Brasil); 7 viagens (Alemanha e Estados Unidos); 8 viagens (Itália); 21 viagens (França); 25 viagens (Espanha).

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