09 maio 2019

TRUMP E OS TRUMPINHOS

Não sei quem as encomenda, nem sei se quem as encomenda fica satisfeito com este produto final, mas, a verdade é que fico com a sensação que o impacto destas notícias acaba por gerar em quem as lê mais antipatias do que os receios que intentará gerar. Os funcionários das Necessidades esticar-se-ão (talvez) em sentido, tal o tom grosso da voz dos Estados Unidos nas chancelarias, mas até os cromos da direita nacionalista das redes sociais (que desconfio nem desgostarem do estilo Trump...) remexer-se-ão desconfortados com tanta exibição gratuita de despotismo, humilhando ostensivamente os outros. Contudo, e apesar de ser desagradável e humilhante de se assistir, até é interessante ver o estilo intimidatório do actual ocupante da Casa Branca a reproduzir-se, imitado pelos titulares das embaixadas dos Estados Unidos que ele espalhou pelo Mundo. Só para que os cépticos constatem que não é inócuo que se empregue aquele estilo campanudo. Há o Trump e com ele aparecem os trumpinhos.

Se escrevo todo este preâmbulo é porque, ao contrário do que se deduzirá da mensagem acima veiculada pelo Observador, o mesmo problema da rede 5G da Huawei se tem vindo a colocar no Reino Unido. Embora o problema seja para levar muito a sério, não dei por que o embaixador dos USA em Londres se lembrasse de fazer ameaças do mesmo estilo das feitas por cá. Noutros países (mais...) europeus, por exemplo em França e na Alemanha a decisão ainda está embrulhada. De qualquer modo, suponho que o mais assisado será que a decisão portuguesa venha a tomar em conta as opções desses seus parceiros. Aquilo que se está a assistir é a uma guerra comercial das antigas, e a controvérsia, mais do que envolvendo a nova tecnologia das redes móveis (5G), tem a ver com a nacionalidade de um dos competidores mais aguerridos, a Huawei chinesa. Para criarem obstáculos aos chineses, os norte-americanos já arranjaram de tudo o que puderam para lhes emerdar a vida: até pediram ao Canadá para que prendessem a CFO daquela empresa por fraude(...).

A pedra de toque do discurso americano alertando-nos contra a Huawei é a questão da segurança. É um assunto sério, que aliás tenho visto a ser encarado com essa mesma seriedade pelas autoridades da União Europeia, a preocupação com a possibilidade de que os chineses através da Huawei viessem a dispor de um trampolim privilegiado para a intercepção das telecomunicações móveis na Europa. O que borra a pintura, é ouvirmos essas preocupações quando expressas por americanos. É que mesmo o passar do tempo não nos deixa esquecer outros tempos, em que as tecnologias tinham menos Gs e os operadores se chamavam Vodafone, e se descobriam escândalos em que todo o governo grego e o topo do aparelho de segurança da Grécia haviam estado sob escuta por ocasião da realização dos Jogos Olímpicos de 2004. E esse é apenas um exemplo, devidamente abafado na altura para que não desse em nada. Outro mais recente, que já deve ter envolvido um G mais elevado do que o anterior, foi a descoberta que, durante mais de dez anos, os americanos haviam estado a escutar as conversas de telemóvel de Angela Merkel!

Creio que ninguém gosta de ser espiado por quem quer que seja, e também não pelos chineses, mas o senhor embaixador americano que tenha juízo. A última e única vez em que Portugal foi publicamente «afectado pela partilha de informação secreta» foi em 1975, envolveu o bloqueio dos Estados Unidos mas também o de todos os outros nossos aliados da NATO e, sobretudo, todos os portugueses (os comunistas que eram suspeitos de se chibarem e todos os outros) percebiam porquê.

1 comentário:

  1. O embaixador Americano tambem ja largou umas bojardas sobre este assunto por. Mas a coisa acaba discreta porque o pais esta obcecado com a crise constitucional despoletada pelo debate do Brecit.
    Recentemente houve uma fuga de informacao para a imprensa sobre este assunto de uma reuniao ultra-secreta (A bruxa de Maio anunciou nessa reuniao que tencionava deixar a Huawey concorrer para fornecer equipamentos 5G considerados nao criticos), foi tipo a violacao de um tabu sociologico porque aquelas reunioes e suposto serem santuarios para membros do governo poderem discutir a vontade assuntos de seguranca nacional.
    A fonte foi descoberta humilhada em publico e ostracizada do governo.
    O ponto deste rolamborio e que uma fuga destas seria impensavel sem dois factores muito poderosos estarem em accao:
    1 - a politica externa agressiva Americana actual em relacao a China
    2 - o facto de o governo britanico estar em processo de apodrecimento interno lento - este apodrecimento e causado pela crise constitucional e funciona como feedback positivo para agudizar a crise constitucional.

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