16 junho 2014

PORQUE É QUE OS ALIADOS NÃO BOMBARDEARAM AS VIAS FÉRREAS QUE LEVAVAM A AUSCHWITZ

A entrevista que o Papa Francisco concedeu a Henrique Cymerman e à SIC Notícias parece ter sido geralmente muito bem acolhida, lendo-se por aí variadíssimos comentários favoráveis, embora, também por isso, pareça também ter desencadeado as suas controvérsias. Uma delas está associada a uma espécie de pergunta que o entrevistado deixa no ar quando se questiona a conduta dos diversos intervenientes na Segunda Guerra Mundial por causa do Holocausto. Porque é que os Aliados não bombardearam as vias férreas que conduziam aos campos de concentração interrompendo o transportes e a execução dos deportados? A resposta é simples, embora desagradável: porque não era importante para eles bloquear aqueles transportes. Bombardear as vias férreas por onde passavam os comboios com judeus não iria perturbar nem directa nem indirectamente o esforço de guerra dos alemães e era apenas esse objectivo que lhes merecia o risco dos bombardeamentos.
A prioridade de qualquer guerra é a de lesar a capacidade combatente do inimigo até que ele perca a vontade de combater. Foi por isso que estrategicamente fez muito mais sentido que os Aliados se concentrassem em atacar a Alemanha e conquistar Berlim do que a perderem tempo com a libertação das dezenas de milhões de pessoas que ainda permaneciam sob o jugo alemão quando do momento da vitória. Aliás, se o analisarmos com distanciamento, só o fanatismo nazi pode explicar a forma como os alemães alocaram (mal) os seus recursos enquanto simultaneamente travavam uma guerra em várias frentes. Na retaguarda, havia milhares de homens das SS afectos à captura e policiamento dos judeus, havia quantidades incomensuráveis de material circulante ferroviário alocado para o seu transporte para os campos de extermínio, eram recursos humanos e materiais que faziam imensa falta nas frentes de combate: eram batalhões que faltavam, eram munições e reabastecimentos que não chegavam, eram feridos que não podiam ser evacuados. Não seriam os Aliados que se arriscariam a perturbar uma actividade que, por muito desagradável que a constatação seja, era diversionária para o objectivo principal da Guerra.
O debate sobre o Holocausto já tem 70 anos. E a pergunta colocada por Francisco não é, evidentemente, nova. Tem a virtude de colocar quem queira defender a conduta dos Aliados numa posição frágil: a resposta honesta é, como se lê acima, antipática; quem o não quiser ser, tem que ser evasivo na forma como responde. Aceito que Francisco não a tenho colocado com essa intenção. Mas percebe-se ali uma certa confusão entre todos terem culpas e o grau diferentes das culpas que todos podem ter. Estou a ler que, entre aqueles que ouviram a entrevista do Papa Francisco, o argumento se terá apresentado como algo de novo. Tratando-se de um tema tão mediaticamente ventilado quanto o do Holocausto, parece-me demonstrativo do quanto, apesar das preocupações e das pretensões, a ignorância das pessoas sobre estes assuntos se mantêm grande, apesar da riqueza da informação a que a internet lhes dá acesso. A acrescer, parece também demonstrativo que, mais do que o conteúdo da informação, se torna muito mais importante a pessoa que a transmite. O que devia ser um disparate. Eu gostei de ouvir o Papa Francisco na entrevista mencionada. Tanto que até a recomendei a terceiros. Cativou-me. Parece um velhote porreiro, verdadeiramente acessível. Mas é preciso não sermos (positivamente) preconceituosos quanto à sua pessoa. É que eu tenho a certeza que bastantes dos que se predispuseram a ouvir e a considerar agora a pergunta de Francisco sobre este assunto não a teriam ouvido (e/ou não teriam reagido) da mesma forma se ela tivesse sido colocada por Bento XVI, o seu antecessor...
Fotografias aéreas do tempo da guerra dos campos de concentração de Auschwitz, Dachau e Treblinka.

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