Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sociedade. Mostrar todas as mensagens

12 dezembro 2019

ASTÉRIX LEGIONÁRIO (XII)

O Club Méditerranée tem dois resorts no Egipto e cinco na Tunísia, onde os nossos heróis acabaram de desembarcar. É de toda a propriedade colocar o legionário egípcio a perguntar a Júlio César se ele é um gentil organizador, um dos responsáveis por criar a animação do campo de férias.
HCl é a fórmula química do ácido clorídrico.

09 dezembro 2019

COMO CONVERSAR ACERCA DE LIVROS QUE NÃO SE LERAM

«Com tantos livros por aí, e milhares a serem publicados todos os anos, o que é que podemos fazer naquelas situações sociais inevitáveis em que nos vemos forçados a falar sobre livros que não lemos? Pierre Bayard é de opinião que, na verdade, não importa que tenhamos lido ou não um livro (aliás, em certas situações, tê-lo lido é até a pior coisa que se pode fazer). Defendendo as diversas formas de "não ler", "Como conversar acerca de livros que não se leram" é uma celebração dos livros, para a apreciação de todos aqueles admiradores de livros, para que gostem, reflictam, argumentem e talvez mesmo os leiam.» Apesar da paródia descarada, o livro existe mesmo, embora a versão original seja francesa (2007). E eu não o li. Mas tudo isso pouco importará, porque nem pretendo falar do que contém. O que me interessa é assinalar a época em que, em conjunção com o almoço de Natal da empresa, o levar as crianças ao circo (ou à festa de Natal), o assistir-se ao Natal dos Hospitais na televisão, se consagrou haver um momento no tradicional programa sobre cultura em que o(s) convidado(s) erudito(s), armado(s) em professor Marcelo, recomenda(m) uma profusão de livros como prendas de Natal, um momento sempre estranho, do qual nos fica aquela impressão difusa que uma boa percentagem das recomendações nem foi lida, e que outra percentagem, se o foi, foi-o mas na diagonal.

03 dezembro 2019

LANÇAMENTO DA PLAYSTATION

3 de Dezembro de 1994. Lançamento da PlayStation no Japão. Já não pertenço à geração que a adoptou. Para mim o apetrecho ficou sobretudo memorável por ser o local ideal onde Jorge Jesus conseguia resolver os problemas insolúveis do futebol.

02 dezembro 2019

...ESSAS COISAS QUE COMEM OS POBRES...

Não sei se repararam com atenção para as fotografias que promovem a Operação Banco Alimentar da Tia Isabel Jonet mas, nesta época de dietas para tudo, também parece existir uma dieta aprovada para os pobres, pelo menos a atender à composição dos donativos: «farinha, massa, pão e essas coisas que comem os pobres...» - se atendermos à especificação acima da Susaninha, a amiga da Mafalda. Como já vi comentado por aí, numa das redes sociais, porque é que não aparece um benemérito excêntrico, que compre as mercearias que doa aos pobres na charcutaria fina do Corte Inglês? Ou alguns pobres não têm direito a provar umas latinhas de trufas ou de foie-gras? Olhem que os prazos de validade dessas latas costuma ser os mesmos do das salsichas...

02 novembro 2019

CERVEJA ROSA MOTA

Foi assim, com muito espírito, que alguém anónimo encerrou a controvérsia à volta da designação do recém reinaugurado Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota do Porto.

28 outubro 2019

A MORTE DE MARCEL CERDAN, O GRANDE AMOR DE ÉDITH PIAF

28 de Outubro de 1949. O Lockheed Constellation da Air France que fazia a ligação entre Paris e Nova Iorque embate contra o Pico da Vara na ilha açoriana de São Miguel. No desastre morreram os 37 passageiros e 11 tripulantes que seguiam a bordo. Tratava-se do maior acidente aeronáutico que ocorrera até então em Portugal, mas a visibilidade mediática internacional do mesmo foi amplificada pelo facto de seguir a bordo Marcel Cerdan, um pugilista de sucesso, que era o companheiro de Édith Piaf, a coqueluche da canção francesa de então (acima, os dois fotografados no aeroporto de Orly em 1948).
Sobre as causas do acidente, veio a apurar-se que o piloto cometera um erro de navegação e que julgava estar a aproximar-se do aeroporto de Santa Maria quando, na verdade, estava a sobrevoar São Miguel. O Lockheed embateu directamente contra as encostas da maior elevação da ilha, que é 500 metros mais elevada do que o ponto culminante de Santa Maria. Quanto às consequências do acidente, a canção «L'hymne a l'amour" (Hino ao amor - abaixo), que fora estreada pouco mais de um mês antes por Édith Piaf, veio a tornar-se uma referência da relação apaixonada, mas também tumultuosa, vivida pelos dois.

16 outubro 2019

A BIMBY DE HÁ CINQUENTA ANOS

Nem todos somos visionários. Há cinquenta anos o desenhador belga Bob de Moor tinha uma perspectiva muito céptica sobre as máquinas electrónicas concebidas para confeccionarem sozinhas as refeições.

12 outubro 2019

OS QUINZE SEGUNDOS DE FAMA NAS REDES SOCIAIS ou «EU SOU "MUITA" CHATO» COMO SÓ O MANUEL JOÃO VIEIRA SABE CANTAR

O século XXI e o aparecimento das redes sociais vieram transformar a celebridade instantânea e os correspondentes quinze minutos de fama que haviam sido antecipados nos anos sessenta por Andy Wahrol. Transformaram-nos nuns mais fugazes quinze segundos de fama, enquanto consumimos o último meme ou lemos o último dito de um dos comentadores on-line mais espirituosos, naquilo que representará, de alguma forma, a evolução tecnológica do antigo circuito dos anónimos criadores das anedotas, que noutros tempos só se podiam propagar pessoalmente. Mas não são só esses, há-os outros, de uma nova espécie, os que pretendem chamar a atenção para si de qualquer forma. Este poste destina-se a dar destaque a uma dessas figuras, Luís Lavoura, o criador de um espicilégio de observações implicativas que ele incansavelmente vai escrevendo em todas as caixas de comentários que se mostrem disponíveis a acolhê-lo.
Uma atitude que o alcandorou (com todo o mérito, reconheça-se) a uma categoria própria nas redes sociais: a do chato mais chato de todos! Um chato como só o Manuel João Vieira (acima) é capaz de cantar.... Nas várias formas de lidar com uma pessoa que é suficientemente perigosa para dever ser classificada a par do armamento NBQ, há quem ignore o que Lavoura escreve e há quem se use dele para o transformar em motivo de troça: há mesmo um blogue que lhe dedica uma rúbrica regular intitulada Lavourada da Semana, um florilégio das suas calinadas mais apuradas. A tudo isso Lavoura responde com uma indiferença desentendida como faz o Tino de Rãs. Aqui no Herdeiro de Aécio a minha atitude difere: proscrevendo-o, ontem deixei-o excepcionalmente publicar aqui um comentário, mas a minha atitude é a mesma da profilaxia do vídeo abaixo contra a praga do percevejo asiático...

07 outubro 2019

CENAS DE UM BEBÉ AO COLO PROTAGONIZADAS POR UM POLÍTICO QUE É «LEVADO AO COLO»

Não vou falar dos resultados das eleições de ontem, assunto sobre o qual devem existir umas vastas centenas de opiniões publicadas nas redes sociais. Mas quero assinalar que não gosto de números como este acima, que foi protagonizado ontem, junto da sua secção de voto, por Rui Tavares, com a colaboração diligente de alguns fotógrafos de imprensa, o do Expresso à esquerda, e o do Público à direita. A intenção de Rui Tavares será tão clara quanto legítima: fazer um número de circo para chamar a atenção para a sua pessoa, indo votar com duas crianças, uma das quais com seis meses, pendurada na barriga. É uma daquelas coisas que, se pensarmos bem, é um disparate incómodo, não dá jeito nenhum, a não ser que se queira mostrar o quão pai extremoso se é aos 47 anos. Uma virtude que se perderia entre os concidadãos eleitores que coincidissem em estar a votar na mesma altura na mesma secção de voto, a não ser houvesse fotógrafos por perto para o mostrar ao resto dos portugueses que adorem as novelas de uma paternidade responsável. E com fotógrafos que tenham uma capacidade de discernimento idêntica à daqueles que tiram fotografias para as revistas de fofocas, pois a estética do boneco e o enternecimento da legenda, percebe-se acima, são do mesmo estilo. Se era para que falássemos dele, distinguindo-o de uma plêiade de fotografias de protagonistas políticos fotografados no exercício do seu direito de voto, Rui Tavares consegui-o. Se, no processo, recorreu a um expediente que o torna comparável à famosa Lili Caneças, é que talvez não o ilustre tanto. Pior saem os profissionais dos dois jornais que, mais uma vez, são apanhados, acríticos, a levar (figurativamente) ao colo o político que desta vez levava (literalmente) ao colo o seu bebé. Tudo uma questão de colos, portanto.

06 outubro 2019

NÃO HÁ UM DAQUELES ANALISTAS POLÍTICOS QUE SE RECONVERTA E ME AJUDE NAQUILO EM QUE EU TENHO MESMO DÚVIDAS?

Hoje é um dia apropriado para fazer um apelo a todos os especialistas em análise política, um dia em que eles convergem em catadupa para as televisões e rádios, tornando-se precisos e querendo tornar-se notados. E o meu apelo é para que algum deles, mais competente e de aspecto mais assisado, se disponha a explicar-me aquilo que eu, de facto, tenho mais dificuldade em compreender e para o qual agradeceria explicações ulteriores, como, por exemplo, o Abstract sobre física quântica acima. É que tenho tido dificuldade em compreendê-lo.  Porque, em contraste, a experiência me diz que quase tudo o que vou ouvir de opinativo e conclusivo na comunicação social nesta noite eleitoral, concordando ou discordando, chegava lá sozinho.

24 setembro 2019

A SEXTA FEIRA NEGRA DE 1869

24 de Setembro de 1869. Tornou-se uma monotonia, que apenas acicata a confusão, este hábito de baptizar todos os pânicos da bolsa de Nova Iorque pelo dia da semana em que ocorreram sempre complementados do epíteto de negro. É por isso que é muito fácil confundir a Quinta Feira Negra (Black Thursday) de 24 de Outubro de 1929, com a Terça Feira Negra (Black Tuesday) de 29 de Outubro de 1929, e com a Segunda Feira Negra (Black Monday) de 19 de Outubro de 1987. Mas esta Sexta Feira Negra que precedeu a Grande Crise de 1929 em mais de 60 anos, pouco se terá assemelhado a esses outros dias negros da bolsa novaiorquina: em primeiro lugar porque o pânico se deu no mercado do ouro e não no de acções; em segundo lugar porque o que aconteceu há 150 anos foi deliberado e mesmo orquestrado por uma parelha de especuladores (Jay Gould e James Fisk). A fotografia acima, da ardósia onde se iam afixando as cotações do ouro na sessão em que o pânico teve lugar, ajuda a perceber, pela simplicidade dos registos, porque é que, nesses tempos, a manipulação das cotações (cornering the market) era muito mais fácil de conseguir do que actualmente, para mais quando, como acontecia com Gould e Fisk, se dispunha de informação privilegiada (insider trading). E o problema adicional na base destas manobras na fixação da cotação do ouro, que causaram uma crise bolsista, é que na origem da informação privilegiada de que os dois especuladores se socorriam estava o próprio presidente dos Estados Unidos, Ulysses Grant. À crise bolsista juntou-se a crise política. Daí o zelo como o assunto foi investigado por um comité do Congresso americano, que incluiu a preservação (documento único!) acima das anotações na ardósia de uma sessão bolsista de Nova Iorque de 1869, cotações essas que, em circunstâncias normais, teriam completamente apagadas e substituídas no dia seguinte. Quanto às sanções penais para os especuladores, e para quem esteja à espera do longo braço da justiça, esclareça-se que tanto Gould quanto Fisk se escaparam de punição legal. Fisk morreu assassinado por um rival num caso passional envolvendo chantagem, aos 36 anos: imaginando-o no século XXI e em Portugal, tinha o perfil ideal para dirigir um dos nossos clubes de futebol...

19 setembro 2019

OS TRÊS ÂNGULOS DA ENTREVISTA

Após um jogo de basebol disputado há dois anos na Califórnia, uma jornalista desportiva chamada Kelli Tennant entrevista uma das estrelas de uma das equipas, Kiké Hernandez, dos Los Angeles Dodgers. Há as imagens canónicas da entrevista num plano convencional (acima, à esquerda), e as imagens menos canónicas, mais afastadas, que mostram o entrevistado empoleirado num balde de doces enquanto dá a entrevista (à direita). Mas as duas fotografias com enquadramentos diferentes, dizendo-nos algo sobre as respectivas diferenças de alturas e muito sobre o ego do jogador, não nos dizem tudo sobre a situação. É que Hernandez, ao contrário de outros apanhados a fazer o mesmo, não é nenhum minorca, tem uma altura de um adulto normal: mede 1,80. O que se passa é que a entrevistadora é uma antiga jogadora feminina de voleibol e mede 1,87! Acrescem a todos esses centímetros os saltos dos sapatos que ela usa. Portanto, o homem resolveu preservar o seu amor próprio empoleirando-se ridiculamente naquele balde, mas convém ter presente que a mulher que o entrevista é uma girafa.

16 setembro 2019

A VERDADE É QUE A VERDADE NÃO CONCORRE ÀS PRÓXIMAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS

Não há nada melhor do que o período que atravessamos para constatar, nas redes sociais, que a frase acima é uma grandessíssima mentira. Basicamente, estão-se quase todos marimbando para a Verdade. A Verdade não concorre às eleições e praticamente todos os que escrevem sobre o momento político têm o seu favorito. Eu também. Mas, mesmo assim, atrevo-me a escrever sobre o paradoxo de que a própria citação acima que tanto enaltece a Verdade... também não é verdadeira. Em primeiro lugar porque não há certezas de que Aristóteles tenha dito aquilo precisamente da maneira como é citado: o que há é uma expressão latina (Amicus Plato, sed magis amica veritas), de autoria indeterminada. Em segundo lugar, e provavelmente mais importante em termos do teor da Verdade, é que o amigo de Aristóteles, que se crê que seja invocado na frase que ele não disse, seja Platão e não Sócrates: mas a verdade, essa sim verdadeira, é que invocação do nome de Sócrates, puxa muito mais pela frase e concita muito mais as atenções dispersas dos leitores, não por causa do Sócrates, mas por causa do Sócrates...

30 agosto 2019

OS «TAROLAS» DAS REDES SOCIAIS

Tarola é um pequeno tambor que soa claro mas cujo rufar não se ouve muito longe. Não confundir com estarola.
Os tarolas das redes sociais são uns indivíduos que se atribuíram para si o papel de defensores do legado de Pedro Passos Coelho, confiantes que ele, como um dom Sebastião do século XXI, há de regressar um dia. Os tarolas despendem ⅓ do seu tempo (e atenções) em arriar em António Costa, o malabarista que engendrou a espúria geringonça, mas os mais substantivos ⅔ da sua verve crítica concentram-se em Rui Rio, o usurpador, que não sabe fazer a oposição rábica ao primeiro como eles acham que devia ser feita. Portanto, não se percebe muito bem o que é que eles querem. Mas percebe-se muito bem de quem não gostam. Ontem, por exemplo, ficaram furibundos (acima) porque Carlos Moedas, que criara a reputação de ter sido um indefectível da confraria de Passos Coelho (abaixo), se deixou fotografar abraçado feliz a António Costa, como se se tratasse de uma cena final de um filme de Hollywood.
Há coisas que têm mais piada por acontecerem a quem acontecem. Os tarolas, considerando-se príncipes da lucidez e do maquiavelismo político em tudo o que publicam, que nunca são apanhados a dormir nas suas análises políticas e julgamentos de carácter, aparentemente não tinham dado até aqui por um daqueles mariolas que, tendo sido de outras senhoras (abaixo, vêmo-lo a apoiar Paulo Rangel contra Passos Coelho nas eleições internas do PSD em 2010), foi entre 2011 e 2015 da senhora de que os tarolas gostam tanto, passou desde 2016 a ser desta, e ainda há de querer ser da próxima - ele é (considera-se, pelo menos...) polifacetado! Por uma vez, tenho pena que aquela parelha ali de cima mais as suas publicações de facebook, e outros parecidos com eles, sejam uns tarolas, e que o seu rufar encornado e moralista não se ouça para lá das redes sociais.

26 agosto 2019

NO TEMPO EM QUE ERA EMBARAÇOSO SER-SE ESTÚPIDO EM PÚBLICO

Ontem prometeu-se contar-se uma ou outra história sobre o vice-presidente Dan Quayle, que ocupou esse cargo entre 1989 e 1993, nomeadamente aquilo que o vocacionava para o entendimento das questões da astronáutica e astronomia, aspecto relevante para quem, como ele, fora incumbido por George Bush (pai) de presidir ao Conselho Nacional do Espaço (National Space Council, no original), um órgão na directa dependência do próprio presidente. A escolha foi uma desgraça. Dan Quayle foi o exemplo acabado do bronco que dizia asneiras em série, quando isso era considerado um defeito na política americana. A frase acima que lhe é atribuída é um exemplo disso: «É altura da raça humana entrar no Sistema Solar». Pode não arrancar muitas gargalhadas mas a culpa não é da qualidade da piada, tanto mais que foi involuntária. A quantidade das gargalhadas depende também da qualidade da audiência. Analisando o que Quayle dizia, percebia-se que ele não era ignorante, era apenas estúpido e que não compreendera nada do que lhe haviam ensinado. Nesta sua outra frase famosa associada à astronáutica, os dados estão lá, a massa cinzenta mostrando que os percebera é que não: «Marte está essencialmente na mesma órbita [da Terra] (...) Marte está quase à mesma distância do Sol, o que é muito importante. Há fotografias que mostram o que parecem ser canais e água. Se há água, isso significa que há oxigénio. Havendo oxigénio, isso significa que podemos respirar.» As afirmações de Quayle eram aquilo que se podia classificar, com toda a propriedade, um chorrilho de disparates - as fotografias recolhidas da superfície de Marte mais de uma dúzia de anos antes (abaixo), já permitiam desmentir tudo o que ele dissera. E imagine-se que haviam nomeado o palerma para presidir a um organismo que tutelava directamente a exploração espacial! Motivo por que o vamos encontrar de visita à NASA, a celebrar a passagem da Voyager 2 por Neptuno. Mas isso era no tempo em que era embaraçoso ser-se assim tão estúpido em público. Hoje a sociedade norte-americana assume-se ignorante sem complexos, nota-se até um certo requinte altivo em dar mostras de uma estupidez que nos parece ser até retocada, artificial, como as pestanas femininas ou então certas tatuagens masculinas no braço, desenhadas expressamente para parecer dar mais grossura aos bíceps. A estupidez tornou-se um adereço comum, ouvem-se várias ao longo do dia, e no que à sua exibição despudorada diz respeito, vivemos, de facto, tempos históricos com a presença de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos.

18 agosto 2019

«PERSONALIDADE SINGULAR»

Nos Países Baixos a bandeira flutua a meia haste. Confesso que cheguei a julgar que se tratasse de mais uma das várias homenagens dedicadas ao anteontem falecido Alexandre Soares dos Santos, no caso, um agradecimento do governo holandês por ele ter domiciliado a holding naquele país para pagar menos impostos. Mas não. Tratou-se de uma infeliz coincidência: no mesmo dia faleceu a princesa Cristina, tia do rei. Quanto ao primeiro, classificado como «personalidade singular» na nota de pesar emitida pela presidência da república do país onde ele preferia não pagar os impostos, estranhei a omissão a esse seu outro aspecto controverso de contribuinte plural, no meio de tudo o que de bom se escreveu a seu respeito pela ocasião. Quase parece que existe um consenso social em não falar desses assuntos ingratos, que dificultariam a tarefa ao defunto, quando da sua prestação de contas ao Criador. 

29 julho 2019

A HISTERIA ESPACIAL

Há cinquenta anos e na sequência do sucesso mediático que fora a cobertura do voo da Apollo XI, a comunicação social era dominada por um daqueles seus frenesins, o da exploração espacial. A edição de 29 de Julho de 1969 do Diário de Lisboa era uma demonstração de como era o estado de espírito do momento, com um grande destaque logo na primeira página para imagens de Marte que iriam ser recolhidas por uma das sondas gémeas (Mariner 6 e 7) e ser transmitidas pela televisão (por sinal, a programação da RTP inserta no mesmo jornal não apresentava nenhum programa especial para o efeito...). Mas o arrebatamento não se ficava por aí, pois a página 14 daquela mesma edição era toda dedicada a um desenvolvido artigo técnico (traduzido do Le Monde), explicativo dos próximos passos do programa espacial norte-americano, onde agora se pode reconhecer o desenho daquela que viria a ser a estação espacial Skylab. Ora, não fora o sucesso do passeio lunar de Armstrong e nada daquele assunto - pelo menos, com tal detalhe e desenvolvimento - teria cabimento nas páginas de um vespertino vulgar. E reconheça-se que o público de há muito se habituou a consumir os assuntos desta maneira errática e que a prática se transpôs actualmente para as redes sociais.

01 julho 2019

O «WALKMAN»

1 de Julho de 1979. A Sony lança o primeiro walkman no Japão. Apesar de muito caro (custava € 440 a preços actualizados), o gadget foi um tremendo sucesso de vendas, sucesso esse que se confirmou quando começou a ser vendido nos outros países, vindo a tornar-se numa espécie de ícone da década de 80. Mas, para além de se ter vindo a revelar um sucesso comercial no mundo da música (por sua causa, as cassetes superaram os discos de vinil em vendas a partir de meados da década), o walkman veio a tornar-se um fenómeno sociológico, por causa daquilo que agora se designa por efeito walkman: a capacidade de se estar fisicamente junto de outras pessoas sem qualquer grau de partilha de atenções. O walkman é um gadget do passado e a capacidade de alheamento que ele propiciava era apenas uma amostra daquilo com que hoje é possível municiar as pessoas para que elas se abstraiam do que as rodeia.

22 junho 2019

COMO SE FOSSE A OPINIÃO DAS REDES SOCIAIS DE HÁ CINQUENTA ANOS...

18 e 19 de Junho de 1969. Embora estreado há menos de um mês, o programa televisivo Zip-Zip tornara-se rapidamente um grande sucesso de audiências. Tanto assim que se tornara imperativo ter uma opinião acerca do programa. E as opiniões acumulavam-se nas redacções dos jornais, que lhes procuravam dar vazão. Eis aqui duas páginas fazendo eco do que os portugueses pensavam à época de um programa que se veio a tornar posteriormente numa referência da história da televisão em Portugal.
MVP - Lisboa - Quando repetem o Zip-Zip no 2º programa? Gosto imenso.
FNV - Lisboa - A crítica falou, ou escreveu, sobre os planos do público no programa Zip-Zip, e logo o realizador exagerou. Nos programas seguintes os entrevistados ou entrevistadores são brutalmente cortados por um plano dos espectadores. Nós queremos ver o que se passa no palco. O espectador só interessa quando intervém, pelas palmas. Não será assim?
FLP - Porto - O programa Zip-Zip em televisão não resulta grandemente. Chegamos ao fim cansados de tantas entrevistas.
JCP - Viseu - Zip-Zip não é dinâmico. Causa tanto palavreado...
AM - Évora - O Zip-Zip é essencialmente Raul Solnado. Ele tem de trazer (...) números cómicos, se não talvez não chegue aos 6 meses de vida previstos por Solnado.
FJDAA - Lisboa - O melhor programa que apareceu na televisão.
GP - Lisboa - Um bom espectáculo público mas um mau programa de TV.
DAF - Porto - Seria um bom programa televisivo se se soubesse tirar partido desse espectáculo.
HF - Lisboa - Se em lugar de um Solnado houvesse três... que programa bom poderia ser...
PFN - Lisboa - Este último Zip-Zip... que pena o Solnado se tivesse apagado...
JCS - Lisboa - Zip-Zip vem decrescendo em qualidade assustadoramente.
ASP - Braga - O 1º e o 3º foram bons programas... Solnado é cómico para muitos mais.
LCA - Abrantes - Solnado necessita de fazer vibrar o programa. Neste último esteve lamentavelmente apagado e abaixou o programa.
LVP - Lisboa - Porquê tantas imagens do público?
GB - Coimbra - Acabei de ver o Zip-Zip e escrevo a perguntar se não haverá possibilidade da RTP apresentar na Noite de Cinema o filme, grande êxito de Gino Bechi, «Pronto qui (sic) parla?» (Está lá, quem fala?).
CMP - Coimbra - Zip-Zip é um programa diferente mas não é, tecnicamente, um bom programa de TV.
Quem se deu ao trabalho de ler as opiniões acima, aperceber-se-á que o seu teor pouco difere de uma caixa de comentários das redes sociais da actualidade. Este foi um daqueles momentos em que, lendo o que então se opinava, me apercebi de que a matéria prima de variedade, assertividade, superficialidade, e mesmo pompa, sempre terá afinal existido, como uma espécie de bolsa de magma oculta debaixo de um vulcão, e que o que apareceu nos últimos anos foi apenas uma erupção, novos mecanismos de divulgar todos esses sentimentos.