As biografias parecem ser um género literário que medra, mas a popularidade dos livros do género dependerão da popularidade do biografado: ainda neste Natal, alguém, numa rede social, pedia a opinião a quem considerava entendido, sobre se a leitura de uma segunda biografia sobre Winston Churchill acabada de publicar se justificaria para quem já havia lido uma outra sobre o mesmo Churchill, que fora editada há apenas cinco anos. A resposta lá veio, redonda e inconclusiva, como seria de esperar: «A do Gilbert é magnífica, mas vale a pena ler esta também». Mas, se conto este episódio, é para realçar o quanto parece haver predestinados para serem tópico de biografia e haver sobre eles biografias muitas, talvez demasiadas (como será o caso de Churchill, mas também Lenine, Estaline, Trotsky,...), e como haverá outras figuras históricas que estarão vocacionadas para a sombra, de que exemplo excelente para contrapor a Churchill, é Clement Attlee (1883-1967), o seu segundo durante o governo de coligação de guerra de 1940 a 1945 e depois primeiro-ministro do Reino Unido de 1945 a 1951. A biografia acima é muito interessante, para mais quando se conhece de antemão a exuberância de Winston Churchill, de que Clement Attlee é um quase perfeito contraponto - mas apenas para aqueles que, menos sensíveis à promoção e à superficialidade, conseguem ver para além das aparências. Clement Attlee parece ser uma demonstração de que uma carreira política é feita não apenas do homem - no caso, sem carisma - mas também, nas imorredouras palavras de Ortega y Gasset, da sua circunstância. Attlee não seria o mais ofuscante dos dirigentes trabalhistas para assumir a liderança do partido trabalhista em 1935, mas seria o mais fiável e foi assim que foi escolhido; ninguém daria grande coisa pela sua liderança mas lá se aguentou; a partir de 1940 e no governo de coligação nacional, Attlee nunca se compararia em brilhantismo a Churchill mas, quando terminou a Segunda Guerra Mundial, nas eleições que tiveram lugar em Julho de 1945, os britânicos preferiram a sobriedade e confiança que ele transmitia à atitude do seu rival - um momento que é sempre difícil de contornar explicativamente em todas as biografias de Churchill que tive oportunidade de ler. E a actuação do governo trabalhista do Reino Unido nos anos imediatamente a seguir à guerra são uma experiência que poucos conhecem e sobre a qual, mesmo os simpatizantes da esquerda da Europa continental, por desconhecimento, não sabem muito bem o que dizer. Este livro bem poderia ser traduzido para português em vez das incontáveis biografias de figuras históricas mais à moda, mesmo (ou especialmente) quando há queixas disparatadas de que aquelas que existem ainda não chegam...
Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens
20 janeiro 2020
19 janeiro 2020
A MORTE DE SIR BERNARD WOOLLEY
Constato que há imenso por fazer no domínio da inteligência artificial quando aplicada à área da informação. O meu telemóvel, que se farta de me dar notícias para as quais me estou positivamente cagando, esqueceu-se de me dizer que morrera, aos 82 anos, Derek Fowlds aka Sir Bernard Wooley, o secretário do ministro dos assuntos administrativos, Jim Hacker, na série Yes Minister. O actor teve uma carreira preenchida, desempenhou outros papéis, mas, em termos de popularidade internacional, Derek Fowlds era Bernard Woolley, o último sobrevivente do trio nuclear de personagens da famosa série que é também um interessante estudo sobre ciência política e a arte de governar. Nos (inesquecíveis) diálogos, Bernard representava a terceira perspectiva de um mesmo assunto, entre a política e a burocrática dos seus dois superiores hierárquicos. A maioria das vezes era a perspectiva apaziguadora, discreta e de bom senso, mas também podia ser irritantemente irrelevante ou mesmo irreverente - como nesta famosa passagem abaixo, sobre o perfil típico do leitor de cada um dos grandes jornais ingleses, em que tinha que ser Bernard a rematá-la com o comentário de que o leitor típico do Sun (jornal tablóide) não tem interesse algum em saber quem governa o país desde que tenha umas grandes mamas (um conteúdo tradicional da sua terceira página).
Um apontamento final com alguma dose de ironia. Os textos de Yes Minister foram redigidos a partir de 1981 acompanhados da ficção que se tratava de um estudo académico redigido algures no futuro, com o contributo de Sir Bernard Woolley, o único dos três intervenientes que ainda estava vivo. Do livro consta um ante-texto ficcionado com os agradecimentos da praxe, que aparece datado como sendo de Setembro de 2019. Acabou por vir a conferir...
18 janeiro 2020
O ANTI-RACISMO, UMA CAUSA «MODERNA» DA ESQUERDA «MODERNA» DESDE HÁ TRINTA ANOS
18 de Janeiro de 1990. Nas últimas eleições legislativas, que se haviam realizado dois anos e meio antes, em Julho de 1987, o Partido Socialista Revolucionário (PSR) recebera uns míseros 33 000 votos, sem qualquer representação parlamentar (obviamente). Nada distinguiria esta formação da miríade de outros pequenos partidos em iguais condições (MDP, PDC, PPM, MRPP), a não ser o facto de ter um dirigente bem quisto - e ser, por isso, uma organização bem querida - entre a classe jornalística, então dominada por um pensar bem de esquerda (hoje, trinta anos passados, estamos no ciclo oposto, predomina um certo pensar bem de direita). Esses flirts intensos do colectivo de jornalistas por uma formação política irrisória têm tanto de súbito quanto de inexplicável e só têm tendência para morrer quando, nas urnas, o eleitorado deixa os jornalistas a falarem sozinhos (já aqui publiquei no Herdeiro de Aécio o exemplo caricato do Diário de Lisboa a promover a UEDS em finais de 1979). Mas, mutatis mudandis, naquele jornal parecia evidente que não se aprendera grande coisa: dez anos transcorridos e uma nova coqueluche da esquerda bem pensante era apresentada na última página do jornal com o destaque que a imagem acima documenta: Francisco Louçã. Três meses antes, um dos militantes do PSR fora assassinado com uma facada numa refrega contra um gangue de neonazis, à porta da sede do partido. O acontecimento gerou uma onda de repulsa e um capital de simpatia generalizado, tendências que a imprensa explorou e que ali acima vemos a serem aproveitadas (naturalmente) por Louçã nos espaços mediáticos que lhe concederam. O que é menos imediato é que, por causa de uma refrega violenta entre a extrema esquerda e a extrema direita, o assunto tenha sido redireccionado para o racismo. Relembre-se que, nos tempos do PREC, houvera imensas refregas do mesmo género entre formações políticas; numa delas, em Outubro de 1975, entre o MRPP e a UDP, por sinal duas organizações maoistas de extrema esquerda, morrera mesmo um militante da primeira das organizações, um episódio praticamente esquecido, sem aproveitamento político ulterior para outras causas a combater, como a violência política, a pobreza... ou o racismo.
O militante do PSR que fora assassinado era caucasiano, nada nos relatos do assassinato associava a questão racial como tendo estado associada à refrega, a não ser o facto de esse - o racismo - ser o aspecto antipático das organizações de cabeças rapadas que haviam perpetrado o crime estarem tradicional e desagradavelmente conotadas com o racismo. O tema do racismo surgirá assim, na circunstância, como uma excelente arma de arremesso político e um dos aspectos engraçados da entrevista acima é que a citação que foi escolhida para se tornar no título - «temos que ser todos africanos contra os racistas» - ainda hoje permanece tão imaginativa e moderna (...e inócua) que bem poderia ser apropriadamente reciclada para uma entrevista num jornal de 2020. O racismo, como a pobreza, a miséria e tantas outras chagas sociais, combate-se, mas nunca se chega a erradicar. E apresentava-se como um combate bonito, uma das potenciais novas causas da esquerda, algo que poderia substituir as tradições marxistas-leninistas numa época (1990) em que as notícias de todos os dias mostravam a Revolução e as revoluções a desagregarem-se em quase todos os paraísos socialistas. Há o mérito de Francisco Louçã em ter inflectido o discurso político numa altura em que era necessário mas também vejo ali mérito do jornalista no formato como estrutura a entrevista para que o entrevistado brilhe a passar a sua mensagem adaptada aos novos tempos: são dez perguntas, mas aquela onde se pergunta como fazer a revolução (o que é muito pertinente quando colocada ao dirigente de um partido socialista revolucionário!...) é a sétima pergunta, e as três últimas perguntas já são todas a respeito do racismo. (Ironicamente, e enquanto escrevo isto, a deputada Joacine Katar Moreira do Livre está a fazer uma extensíssima intervenção que, creio, que se pode sintetizar em: «está fora de questão» (ela) renunciar ao mandato de deputada)
Etiquetas:
30º Aniversário,
Política
15 janeiro 2020
O GOVERNO DOS CINCO MINUTOS
15 de Janeiro de 1920. Naquele que deve ser um dos episódios politicamente mais caricatos da Primeira República, o ministério encabeçado por Francisco Fernandes Costa (é dele a cara da cabeça meteórica do cartoon acima) nem chega a tomar posse. Segundo as crónicas, uma manifestação de activistas conotados com o Partido Democrático (oposição) juntou-se no Terreiro do Paço, onde o elenco do proto-governo se reunira previamente antes da cerimónia de posse, e invadiu o edifício numa demonstração de força. A GNR, que estava encarregue de restabelecer a ordem, mas sob as ordens de oficiais com simpatias para com os manifestantes, demitiu-se completamente de o fazer. Assim, quando o presidente do futuro ministério finalmente se conseguiu deslocar ao palácio de Belém, onde o presidente da República o aguardava para a cerimónia de posse, foi para apresentar a demissão do governo que nem o chegara a ser.
Etiquetas:
100º Aniversário,
Política
14 janeiro 2020
A EPIFANIA TARDIA DE JOÃO MIGUEL TAVARES
A epifania aparece descrita na wikipedia como «um sentimento que expressa uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo». E é isso mesmo que parece ter acontecido a João Miguel Tavares depois da primeira volta das eleições internas do PSD. A vários concorrentes seus no ramo do opinismo político, os resultados apurados no fim de semana que findou deram-lhes imensos problemas de digestão, especialmente na Rádio Pepsamar. Todos parecem ter sido atingidos com uma mesma certeza prática que até deixará a ideia que bem se poderia dispensar a disputa da segunda volta do acto eleitoral. Montenegro já foi. No que concerne ao nosso opinador do Público, o único senão do valor da sua opinião será o facto da sua epifania ter surgido talvez um pouco tardiamente. Atrasada não apenas em relação a outra epifania do calendário religioso, a de Jesus Cristo, que se celebra a 6 de Janeiro e cuja data entre nós é mais conhecida por Dia de Reis, mas sobretudo porque a epifania de descobrir que Rui Rio é o melhor líder para o PSD (sic) só terá acometido João Miguel Tavares depois do escrutínio dos votos do serão de Sábado. Ele até pode dispor-se a explicar-nos muito bem porquê (o Rui Rio) mas a explicação já vem um bocadinho atrasada e, sobretudo, parece-me ser precisamente a mesma atitude que marcou o anedotário da cultura portuguesa quando se celebrizou por ser atribuída ao ex-jogador João Pinto e aos seus famosos «prognósticos, só no fim do jogo».
Etiquetas:
Política
13 janeiro 2020
RÁDIO OBSERVADOR - RÁDIO PEPSAMAR
Ontem, porque seria Domingo e a noite anterior fora um tal desapontamento que ainda estariam com dificuldades em engolir a crueldade dos resultados das eleições internas do PSD, parece que foi só hoje, retomada a rotina laboral, que as opções que nos sugerem para que ouçamos a Rádio Observador se tornaram de uma tal acidez que não se tornaria despropositado o patrocínio radiofónico de um anti-ácido como o Pepsamar. Apetece apelar para que esperem pelo próximo Sábado e pelos resultados definitivos da contenda entre Rio e Montenegro, para nos exibirem o contentamento ou a azia que o desfecho lhes poderá suscitar. Ou será que a organização já largou Montenegro e vai tentar encabeçar a direita política de outra maneira?... Tão espanhol é o albergue de pessoas que vemos por aquelas paragens (a quem não faria mal mastigar um comprimidito), que em cabeçalhos como o de baixo não se percebe se se trata também e ainda de azia, ou já de wishfull thinking.
Etiquetas:
Política
05 janeiro 2020
SABONETE FENO DE PORTUGAL, O AROMA DA NATUREZA
O panorama noticioso nacional do fim de semana em curso é discreto, onde os órgãos de comunicação social se esforçam por repescar assuntos, um fim de semana comedido, como o aroma da natureza da nossa realidade política.
02 janeiro 2020
O FESTIVAL CDS DA CANÇÃO 2020
Ao constatar que concorrem nada menos do que doze moções de estratégia ao próximo congresso do CDS e que nessas doze canções (perdão, moções...) concorrentes aparecem algumas com títulos tão sugestivos quanto «Bases para Crescer», «Portugal Sempre», «Direita Autêntica» ou «As Pessoas Primeiro», dir-se-ia que estávamos numa versão antecipada do próximo Festival RTP da Canção, versão direita política. Eu bem sei que não será intenção de cada um dos doze proponentes, individualmente, expor o partido onde militam ao ridículo, mas o efeito combinado e agregado de tanta ambição em definir a estratégia futura do CDS acaba por resultar nisso mesmo. Doze moções de estratégia, quase tantas moções sectoriais, cinco candidatos à liderança, para um partido que tem outros tantos deputados num parlamento de 230. As intenções serão boas, mas, e disso os proponentes não têm desculpa, os títulos que foram escolhidos para a dúzia de moções concorrentes primam pelo truísmo desinspirado. Faça-se o exercício cruel de contradizer tais títulos para nos certificarmos se, de facto, representam opções políticas de fundo para o futuro do CDS ou se, pelo contrário, se trata de afirmações consensuais que não adicionam valor ao debate de ideias que sempre se deseja nestas ocasiões: alguém ali defenderá as «Bases para diminuir?», o «Portugal Nunca?», a «Direita Falsa?», deixar «As Pessoas para o Fim?». Se os compararmos, a estes títulos anódinos, com os escolhidos para as canções do Festival RTP do ano passado (veja-se acima), «Perfeito», «Inércia», «É o que é», «O Meu Sonho» e até mesmo os «Telemóveis» de Conan Osíris (que, como se sabe, veio a vencer o certame), admita-se que estes últimos tinham a virtualidade de parecerem muito mais apelativos. E a verdade crua é que, para efeitos práticos futuros, tanta importância se dispensa a uma moção de estratégia de um congresso partidário quanto à letra de uma canção de festival... (Alguém se lembra hoje que a moção que Assunção Cristas assinava em 2018 se intitulava «Um passo à frente»? - O problema, percebe-se agora, é que o CDS estaria mesmo à beira do abismo...) Não estou com tudo isto a sugerir que, por inspiração festivaleira, os apoiantes do favorito Chicão tropecem e caiam com fragor no palco cada vez que forem discursar*, mas a verdade é que o CDS actual parece padecer de uma desproporção ridícula entre quem acha que tem coisas para opinar e quem se dispõe a protagonizá-las, às coisas. E o resultado acaba por ser este.
* Imitando a interpretação do adjunto do Conan Osíris, que se esbardalhava todo.
20 dezembro 2019
ONDE É QUE PÁRA MESMO O PRIMEIRO-MINISTRO?
A habilidade de indagar do paradeiro do primeiro-ministro quando de grandes incêndios (e arriar-lhe quando ele estiver de férias) só agora terá chegado à Austrália (direita), quando em Portugal isso já é uma rotina das acusações políticas (esquerda). É sempre bom sentirmo-nos na vanguarda, senão da ciência política, pelo menos das suas manobras. Prometo colocar aqui depois uma fotografia do 1º ministro australiano mascarado (olhem para o colete de António Costa) e de ar compungido, com o cortejo da comunicação social australiana atrás. Vai ser uma pena que, lá como cá, toda a trupe não dê pelo menos uma ajudinha braçal simbólica no combate aos incêndios - não sei se repararam no número de equipas que se poderiam formar com os operacionais que aparecem na fotografia acima por detrás de António Costa; isto para não adicionar as equipas suplementares que se poderiam formar se contarmos os braços que estão a segurar os microfones à sua frente...
Etiquetas:
Austrália,
Informação,
Política
19 dezembro 2019
O DOMÍNIO DOS DEUSES (IV)
Esta última imagem, do ferreiro da aldeia a «controlar» o galo durante a noite para que ele não cante, associo-a à maneira ilusiva como por cá se discute política. É que a política de contenção dos défices orçamentais é-nos claramente imposta a partir de Bruxelas, mas, se levarmos a sério «a opinião» publicada pela nossa comunicação social, fica-se com a impressão que, «se ficarmos de olho no galo» da aldeia (Mário Centeno), se consegue obter uma diferença substancial nos resultados...
17 dezembro 2019
O DOMÍNIO DOS DEUSES (II)
Reconheça-se que, na primeira tira, o arquitecto Anglobtusus têm um aspecto de bom rapaz humilde a ser promovido pelos elogios (repare-se na sua atitude deferente, ligeiramente inclinada), modelo Rui Tavares (abaixo). Nessa perspectiva, é uma pena aquilo que lhe vai acontecer à medida que a história se desenrola.
16 dezembro 2019
A NOTÍCIA, É LIXO ou SE A MINHA AVÓ TIVESSE RODAS, ERA UM CAMIÃO
Reconheço que o título composto que dei a este poste acabe por reflectir a minha indecisão quanto ao ênfase que lhe devia dar. Poderia ser mais erudito, e aí parafrasearia Rui Tavares e o título implacável de um artigo seu de 2013 comentando o celebrado Guião para a Reforma do Estado de Paulo Portas (O Guião, é lixo). Mas também poderia ser de um cunho mais popular e, partindo das hipóteses enunciadas no subtexto acima («se as directas no PSD não fossem exclusivas dos militantes com quotas pagas e fossem abertas...»), nesse caso citaria Paulo Bento e a sua não menos famosa observação sobre cenários hipotéticos: «se a minha avó tivesse rodas, era um camião». Em qualquer dos casos, o que se afigura patente é que a notícia do Sol deste fim de semana é, mais do que um frete à campanha de Luís Montenegro, um chorrilho de disparates.
Em primeiro lugar, e como se frisou acima, a amostra de onde se pretendem extrair as conclusões não corresponde ao universo sob observação (os tais militantes do PSD com quotas pagas). Depois há os próprios números: Luís Montenegro surge em primeiro lugar com 27%, depois Rui Rio com 24% e, finalmente, um «surpreendente» (surpreende quem?) Miguel Pinto Luz com 15%. Tecnicamente os dois primeiros serão considerados empatados, pois a diferença entre eles é de 3%, um pouco menos que o erro máximo da amostra (3,07% - são aqueles pormenores que aparecem na ficha técnica da amostra, obrigatória de afixar por lei, a que habitualmente não se dá importância nenhuma...). O que se poderia dizer com um mínimo de segurança, e esquecendo a objecção da distorção do universo analisado na sondagem quando comparado com o verdadeiro universo eleitoral interno do PSD, é que Luís Montenegro e Rui Rio serão os dois candidatos mais bem posicionados para disputar a segunda volta das eleições internas. Mas não é tudo, quanto a abusos e asneiras. Voltemos aos números. Ora tudo o que acima se apurou soma (27 + 24 + 15 =) 66% dos votos. Em que consistirão então os 34% restantes? Serão eleitores/militantes indecisos? O que me parece notável é que eles são mais do que os que mostram preferência por Luís Montenegro, o candidato que resulta mais bem colocado na sondagem, mas a notícia não diz rigorosamente nada sobre esses outros 34%... Saindo da questão das eleições internas do PSD (que me parecem ter sido a razão de ser da oportunidade da publicação desta sondagem), continua a maravilhar-me o faro político como, a partir de sondagens em que o erro da amostra se situa nos 3%, se conseguem produzir afirmações tão assertivas sobre subidas e descidas de formações políticas que recolhem à volta de 1% das intenções de voto do universo... Bom, conhecida a reputação da Eurosondagem, percebe-se para que servem estas notícias, nem que seja o pretexto para afixar um boneco com o nome e a pessoa de Luís Montenegro (acima).
Etiquetas:
Política
04 dezembro 2019
NÃO APENAS QUANTOS FORAM ELEITOS MAS TAMBÉM QUEM É QUE FOI ELEITO
4 de Dezembro de 1979. Na sequência das eleições legislativas intercalares, que haviam tido lugar dois dias antes, o Diário de Lisboa adoptava uma prática, infelizmente entretanto perdida, de publicar um extenso quadro com o nome de todos os deputados que haviam sido eleitos, desdobrados por cada partido. Não se tratava - e continua a não se tratar - apenas de se saber o número de deputados que haviam sido eleitos por cada uma das listas concorrentes, era também a questão mais importante de conhecer as suas identidades. Quarenta anos depois, já não somos tão ingénuos e sabemos quanto o regime de substituições que se processam posteriormente à eleição podem alterar significativamente a composição das assembleias eleitas. Algumas das substituições explicam-se por si próprias (será o caso dos deputados eleitos que passam a governantes), outras são-no bastante menos (caso da não muito distinta carreira parlamentar de Álvaro Cunhal, já aqui analisada neste blogue) . De toda a maneira, a publicação e publicitação da identidade daqueles que foram os directamente eleitos - agora tão esquecida - impõe-se por maioria de razão, para melhor controle dessa circulação interna de representantes do povo, uns eleitos directamente das listas, outros como sucedâneos. Esse controle não pode ser só - tem de ser, aliás, muito mais do que - uma questão de Joacines...
Etiquetas:
40º Aniversário,
Informação,
Política
30 novembro 2019
O ESCÂNDALO MALTÊS
Em Malta, rebentou o escândalo completo quando uma contribuição inusitada - um cão farejador de notas! - deu um impulso inesperado às investigações - que se arrastavam - sobre o assassinato de uma jornalista de investigação que havia tido lugar há mais de dois anos. O país é pequeno mas o escândalo é grande! O puxar dos fios desta nova meada levou o assunto para onde sempre suspeitou que estivera a origem: os próximos do primeiro ministro maltês. Mas o que adiciona um requinte de canalhice mafiosa a todo o escândalo está a ser a resistência do primeiro-ministro a fazer o que se esperaria de si. No mesmo dia e em diferentes jornais portugueses, tanto se anuncia a sua demissão, como não. Na última versão, ainda lá está. Numa época em que é a realidade cada vez mais a copiar a ficção, a farsa da demissão que já está escrita nas estrelas antes do visado saber que se vai demitir, reproduz flagrantes semelhanças com cenas de uma série política britânica, "The Thick of It" (veja-se o video abaixo), série que infelizmente nunca foi transmitida por cá. Uma infelicidade que é recíproca, porque os argumentistas da série também nunca pensaram em Portugal como fonte de inspiração para as suas personagens: a aparição de um político-animal-feroz inspirado em José Sócrates na intimidade poderia ter sido, nas últimas temporadas da série, um contraponto interessante ao bullying de Malcolm Tucker, que era o director de comunicação e homem de mão do primeiro-ministro naquela série, famoso pelo chorrilho de palavrões como se dirigia aos outros.
28 novembro 2019
A PRIMEIRA DEPUTADA A SENTAR-SE EM WESTMINSTER
28 de Novembro de 1919. Ganhando uma eleição intercalar no círculo de Plymouth Sutton, Nancy Astor (1879-1964) torna-se na primeira mulher a tomar assento no Parlamento britânico. Convém esclarecer que Nancy Astor não foi a primeira mulher a ser eleita como deputada. Esse feito pertence a Constance Markievicz que fora eleita como nacionalista irlandesa por um círculo daquela ilha nas eleições que haviam sido realizadas em Dezembro do ano anterior. Só que, como aqui expliquei, os deputados nacionalistas do Sinn Fein que haviam sido eleitos naquela eleição não se reuniram em Londres, mas sim em Dublin, provocando uma crise política que prenunciou a secessão da Irlanda. Nancy Astor foi assim a primeira mulher que veio, de facto, a ocupar o seu lugar em Westminster depois de ter sido eleita. Refira-se que o deputado que ocupara o cargo até então havia sido o seu marido que, por força da morte do pai, fora obrigado a ocupar o lugar deste na Câmara dos Lordes. A eleição de Nancy Astor foi, assim e apesar do seu valor simbólico, um pouco obscurecida por essa condição de esposa do antecessor no cargo. Contudo, o mérito de ter mantido o lugar pelos 26 anos que se seguiram, até Julho de 1945, é inteiramente seu.
Etiquetas:
100º Aniversário,
Política,
Reino Unido
27 novembro 2019
AINDA A PROPÓSITO DO 25 de NOVEMBRO E O QUE ISSO POSSA TER COM AS PESSOAS QUE JÁ ERAM BENFIQUISTAS NA ALTURA EM QUE O BENFICA CONQUISTOU A SUA ÚLTIMA TAÇA DOS CAMPEÕES EUROPEUS
As comemorações do 25 de Novembro são sempre um incómodo para a Esquerda. Para a Esquerda não democrática porque foi derrotada, e não lhes apetece, compreensivelmente, falar do assunto. Mas também é um incómodo para uma parte da Esquerda democrática, porque há por lá quem costume passar essa ocasião a envidar os seus melhores esforços para se demarcar das manifestações revanchistas da Direita não democrática, atropelando nesses esforços a Direita democrática, que até foi sua aliada no processo que conduziu ao 25 de Novembro, e esquecendo-se da outra Esquerda, que foi o seu adversário e de todos os verdadeiros democratas nesse processo. Para esta temporada da controvérsia de 2019, alguém pôs a circular umas declarações de Ramalho Eanes proferidas em 2015 e do outro lado do Mundo (nas Filipinas), que se adequavam ao espírito que o governo e aquela que acredito seja a facção mais esquerdista do PS pretendiam dar à evocação da data:
«O 25 de Novembro foi um momento fracturante e eu entendo que não devemos comemorar; os momentos fracturantes não se comemoram, recordam-se e recordam-se apenas para reflectir sobre eles.»
Esta é a parte que interessava destacar e que, apesar de já ter quatro anos, milagrosamente se pôde ler em quase todos os órgãos de comunicação social nos artigos referentes ao tema. Menos interessante para o agendamento mediático era a continuação dessas antigas declarações de Eanes: «No caso do 25 de Novembro, devíamos reflectir porque é nós, portugueses, com séculos e séculos de história, com uma unidade nacional feita de uma cultura distintiva profunda, porque é que nós chegámos àquela situação, porque é que chegámos à beira da guerra civil.» Menos interessante ainda, e igualmente datado de Novembro de 2015, seria os jornalistas recuperarem uma reportagem do Expresso onde o mesmo Eanes foi citado em destaque dizendo: «Se perdêssemos, seria fuzilado». O que quer dizer que, mesmo quarenta anos transcorridos, Eanes continua convicto que não receberia dos vencidos do 25 de Novembro um tratamento tão magnânimo como aquele que lhes foi dispensado pelos vencedores. Afinal, mesmo sem celebrações, o que esteve em disputa não foi assim tão irrelevante quanto o que hoje se possa querer fazer pensar.
O que pode ser é inoportuno recordá-lo. E por mais de que um motivo. Uma das constatações mais interessantes é o do número e identidade das pessoas de destaque da nossa sociedade actual que hoje deduzimos estarem do lado dos vencedores do 25 de Novembro (i.e., do lado da Democracia parlamentar) mas que se descobre que, na altura dos factos, estiveram do lado dos vencidos. A começar, e apenas para exemplo, pela segunda pessoa da hierarquia do Estado, Eduardo Ferro Rodrigues, o presidente da Assembleia da República, que então militava numa organização interessantíssima de extrema esquerda denominada MES, que achava que «A Democracia burguesa não tem (tinha) viabilidade em Portugal». Haverá centenas de outras pessoas cujo percurso político subsequente os fez viajar de concepções autocráticas da sociedade para outras mais democráticas. Uns são mais descarados no virar da casaca. Outros são mais compungidos na elaboração de formulas que compatibilizem o que pensaram e o que pensam, sem se auto-criticarem. Neste último caso, o esforço afigura-se-me meritório, mas baldado: no dia 25 de Novembro enfrentaram-se duas formas antagónicas de encarar a sociedade: uma era Democrática e a outra não era. E a tentativa de fazer uma ponte entre elas faz-me lembrar um certo tipo de benfiquistas que existiu há umas décadas atrás que, embora tendo idade para isso, só se haviam tornado benfiquistas depois da última conquista da Taça dos Campeões Europeus em 1962 (vídeo inicial). Sempre que se evocava essas duas finais gloriosas para o clube (1961 e 1962), notava-se que eles reagiam de uma forma mais mortiça do que os benfiquistas de sempre, que haviam acompanhado entusiasmados aquelas duas ocasiões. É também esse o problema destes Democratas (que eu acredito honestamente agora serem genuínos) do pós Novembro que, quando têm que lidar com a evocação desta data, não torceram pela equipa certa na altura certa. E isso deixa-os pouco confortáveis. Mas isso é um problema deles, não da maioria dos portugueses - de então e de hoje.
Etiquetas:
Política
21 novembro 2019
OBITUÁRIOS DE UM SEGUNDO QUE SE TORNOU FAMOSO POR SER SEGUNDO E DE UM PRIMEIRO QUE SE TORNOU «FAMOSO» POR NÃO SER PRIMEIRO
Os obituários têm destas coisas. Há aqueles de pessoas que gostaríamos de ter sabido na ocasião que haviam falecido e nos escapam, como foi o caso do campeão francês de ciclismo Raymond Poulidor (acima, à direita), ídolo da modalidade nas décadas de 60 e 70, e que só hoje me apercebi que falecera no dia 13 deste mês. E depois há aqueles obituários em que tropeçamos, de pessoas que não fazemos a mínima ideia de quem foram ou, pior, até fazemos, como foi o caso de Luís de Barros, um antigo director do Diário de Notícias durante o período do PREC, quando aquele jornal ganhou a alcunha - a meu ver, merecida - de Pravda português, tal o escrupuloso alinhamento com as directivas emanadas do PCP (abaixo). Ao contrário de Raymond Poulidor, e talvez por um ser francês e outro português, Luís de Barros morreu ontem e ficou logo a saber-se disso. Mas pode estabelecer-se outro engraçado contraste entre os dois recém-falecidos: Raymond Poulidor foi um campeão de ciclismo que alcançou uma espécie de fama paralela por nunca ter ganho as grandes competições da modalidade - foi «o eterno segundo»; Luís de Barros foi o director de uma publicação centenária (1864) que se tornou num jornal de facção sobre a sua direcção, durante o PREC, mas a quem ninguém responsabiliza por isso, porque tudo o que então aconteceu ao e no jornal costuma ser assacado ao seu adjunto, o muito mais mediático José Saramago - foi um «primeiro que não estava lá a fazer nada».
Etiquetas:
Desporto,
Informação,
Política
20 novembro 2019
QUANDO SE DÁ TEMPO AO TEMPO DAS NOTÍCIAS, ELAS TORNAM-SE NOUTRAS NOTÍCIAS
Há quinze anos lembro-me das críticas endereçadas a Pedro Santana Lopes por causa da sua decisão de domiciliar meia dúzia de secretarias de Estado em outras tantas capitais de distrito. Agora é a vez de António Costa fazer o mesmo com outras três secretarias de Estado. Muito provavelmente também esta decisão irá ser criticada mas não estou à espera de qualquer coerência entre críticos e apoiantes, entre o que eles disseram naquela altura e o que opinam agora, tanto mais que quinze anos é muito tempo e ninguém já se lembra de quem é que disse o quê e porquê. Num outro contexto, nove anos também são muito tempo. Foram os anos que o ministério público sueco demorou a investigar preliminarmente se as acusações de violação e agressão, que permitiram acossar Julian Assange a refugiar-se numa embaixada, teriam condições de vingar em tribunal. Afinal, parece que não. Mas, da próxima vez que se falar - justificadamente! - da morosidade da justiça portuguesa, ponha-se os olhos nesta justiça sueca, que é bem pior que a nossa. Sim, porque em comparação com as nossas dúvidas em saber se o primeiro-ministro Sá Carneiro morreu num acidente ou num atentado, eles exibem a proeza de saberem que o primeiro-ministro Olof Palme morreu assassinado; mas o que não fazem a mínima ideia é a razão e, sobretudo, quem foi o autor.
Etiquetas:
Informação,
Política,
Suécia
12 novembro 2019
A PROMULGAÇÃO DA LEI DA MODERNIZAÇÃO DOS SERVIÇOS FINANCEIROS NOS ESTADOS UNIDOS
12 de Novembro de 1999. A Administração Clinton promulga uma lei anteriormente aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos e que contempla a liberalização das actividades bancárias que estivera restrita a operar, até então, em três ramos distintos: banca comercial, banca de investimentos e seguradoras. A Lei recebeu a denominação coloquial dos seus três proponentes, o senador Gramm do Texas e os representantes Leach do Iowa e Bliley da Virgínia (na fotografia, por essa mesma ordem, da esquerda para a direita). Foi um daqueles acontecimentos que não mereceu o amplo destaque noticioso que as consequências do mesmo mereceriam. A Lei Gramm-Leach-Bliley era um desejo de há muito do lóbi bancário e vinha revogar restrições estabelecidas pelo mesmo Congresso em 1933, quando da Grande Depressão. Na época, e perante a falência de inúmeros bancos e seguradoras, e como os porões de um navio a alagarem-se, julgara-se conveniente tornar estanques os vários ramos da actividade financeira, procurando com isso acautelar as consequências do colapso encadeado das instituições financeiras. Há 20 anos considerou-se que isso já se tornara numa longínqua ameaça, que perdera o sentido. Prematura conclusão: a crise do subprime do Outono de 2008, menos de 10 anos transcorridos, virá a demonstrar quanto a especulação descontrolada no sector do imobiliário norte-americano se podia propagar ao resto de um sistema bancário que, por causa das fusões, passara a ser formado por instituições tão grandes. Por se terem tornado tão grandes, deixara de existir a hipótese de as deixar colapsar, impondo-se a intervenção do Estado para as salvar - com isso, consagrar-se-á a expressão "too big to fail", que abaixo vemos a ser empregue como título num filme de 2011 a respeito deste enorme paradoxo moderno.
Etiquetas:
20º Aniversário,
Economia,
Estados Unidos,
Filmes,
Política
09 novembro 2019
UEDS - A SIGLA DA «ESQUERDA CHIQUE» DE HÁ QUARENTA ANOS
9 de Novembro de 1979. Em antecipação às eleições legislativas intercalares que se iriam realizar no próximo dia 2 de Dezembro, o Diário de Lisboa fazia a apresentação dos cinco jornalistas que iria destacar para acompanharem as campanhas das principais formações políticas. Logo a ordem como as apresentava, esquecendo a representatividade parlamentar, assemelhava-se a um endosso: começava pelo PS (que fora o partido mais votado e que obtivera 107 lugares nas eleições de 1976), passava para o PCP à sua esquerda (40 lugares), guinava à direita com a AD (coligação entre o PSD e o CDS, com 73 + 42 lugares e as segunda e terceira maiores representações parlamentares), para guinar outra vez para a extrema esquerda, onde se situava a quarta e penúltima formação que iria ser acompanhada por um jornalista do DL, a UDP (com 1 único deputado). Fora desta lógica ilógica dos partidos com representação parlamentar, aparecia a UEDS, uma formação política recente, constituída por dissidentes de esquerda do PS, que o jornal considerara merecedor de uma atenção especial, apesar de ela nunca ter sido submetida a votos. Mais do que isso: nas páginas interiores daquela mesma edição, multiplicavam-se as notícias sobre iniciativas da, e patrocínios à, UEDS. Como então era assaz comum, circulava até um manifesto de apoio àquela formação em que os que o assinavam eram para ser todos considerados intelectuais. Quarenta anos passados, muitos desses subscritores já faleceram mas podem-se ali encontrar nomes da esquerda chique que ainda nos são familiares de outras esquerdas chiques, como é o caso de Boaventura Sousa Santos. Foi uma aposta jornalística deste jornal (mas não só, já que foi acompanhada por muita da opinião publicada) que não vingou: no dia da verdade a UEDS recolheu uns parcos 43.300 votos (0,7%). Desnecessário dizer que não elegeu nenhum deputado. O eleitorado concedeu uma humilhação final ao faro político dos entendidos (ainda não havia politólogos...) ao darem votações superiores a duas formações políticas com quem eles não engraçavam nada, o PDC de extrema-direita (72.500 votos - 1,2%) e o MRPP de extrema-extrema-esquerda (53.300 votos - 0,9%). Ainda havia que esperar mais 20 anos para que a esquerda chique (e de que os jornalistas gostassem...) entrasse no parlamento.
Etiquetas:
40º Aniversário,
Inanidades,
Informação,
Política
Subscrever:
Mensagens (Atom)




.png)
























