31 janeiro 2017

PELO QUINTO ANIVERSÁRIO DA RECUPERAÇÃO DA «CREDIBLIDADE PORTUGUESA JUNTO DOS MERCADOS»

Comece-se pelos títulos da análise do Jornal de Negócios de ontem, onde é dado o devido destaque ao valor preocupantemente crescente a que estão a ser transaccionadas as yields dos títulos da dívida pública portuguesa (a 10 anos): 4,2%. Só que, para comparação e em jeito de efeméride, consulte-se o que se escrevia naquele mesmo jornal há precisamente cinco anos, quando se atingia então o valor histórico mais alto dessas yields: 18,3%. Mais do que o quádruplo da cotação de hoje. E que se escrevia então de, mais do que preocupante, alarmante mesmo, no Jornal de Negócios?... Nada, ou melhor, qualquer coisa sobre a dívida pública portuguesa... mas a do Século XIX.
Eu bem sei que não se pode estar preocupado continuamente, mas convinha que houvesse alguma consistência lógica na manifestação de tanta preocupação... Senão, e com um histórico destes, nem mesmo na véspera do dia do apocalipse alguém prestará atenção aos avisos...

«FACTOS ALTERNATIVOS»

Cuidado, que o bicho está simplesmente adormecido. Quem não viu Parque Jurássico?

CAMARADA REI!

No seguimento do 25 de Abril de 1974, muitas foram as novas publicações que emergiram, mesmo de correntes políticas que haviam sido toleradas pelo regime derrubado (às eleições de 1969, havia concorrido uma comissão eleitoral monárquica). Porém, influência da terminologia dos tempos então em alta, o boletim - cujo primeiro número sairá em Julho de 1974 (à esquerda) - adoptará o titulo de Monarquia Popular, em que o qualificativo parece ter um sentido mais lato do que o comum de proximidade e de simpatia do e para com o povo. Monarquia Popular apresentava as mesmas ressonâncias duma outra expressão recorrente de época, Democracia Popular, regime que reunia as virtudes de não ser democrático, nem ser popular. A corroborar esse semelhança espúria, o primeiro editorial da publicação então dirigida pelo camarada-conde António de Sousa Lara, dirigia-se aos Camaradas! Companheiros de Luta! e não propriamente ao Clero! à Nobreza! e ao Povo!, que os protocolos das tradicionais Cortes de antanho exigiriam. O Partido Popular Monárquico veio a receber 32.500 votos nas eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de Abril de 1975. Distinguiu-se da maioria das outras formações políticas concorrentes por se ter recusado a assinar o Pacto MFA-Partidos (coluna da direita do exemplar da direita).

30 janeiro 2017

A PETIÇÃO QUE SÓ TEM PIADA POR SER CONTRA QUEM É

Parece-me detectar uma certa volúpia mediática na forma como se notícia o sucesso desta petição que foi lançada ontem no Reino Unido, demandando que a visita que Donald Trump venha a realizar ao Reino Unido proximamente, não seja qualificada de visita de estado. Foi uma grande ideia. Parece que, mais do que só os jornalistas, as pessoas gostaram. Quando a copiei do respectivo site, a meio da tarde, o número de assinaturas já ultrapassara em muito o milhão e o aumento do número de subscritores mostrava-se dinâmico. O que duvido é que a ideia venha a ser consequente - a não ser que o número de subscritores se multiplique por dez em relação aos números actuais...
 
Na verdade, não fora a piada de se tratar da pessoa de Donald Trump, que é por acaso o presidente dos Estados Unidos o que torna, por causa disso, o teor da solicitação um enorme embaraço público para o governo britânico (e outro para a administração norte-americana) e o episódio não passaria de uma prematura piada de carnaval. Haja quem se lembre de uma outra petição, lançada logo a seguir à realização do referendo que culminou com a vitória do Brexit, e que pedia a sua repetição, petição que acabou sustentada por 4.150.000 subscritores. Esta outra petição acabou sendo debatida nos Comuns com uma resposta do governo a dizer subentendidamente: Que disparate!
 
Também aqui, passado os três dias de cobertura mediática, a iniciativa também se arrisca a passar ao merecido esquecimento com uma descompostura governamental, não se dê o caso de que o visado, Donald Trump, que já terá dado mostras de conferir uma importância despropositada a estes fait-divers, não se disponha a esquecer a humilhação.
 
Nota: Anexo ao site da petição, existe um mapa que está a fazer uma interessante alocação dos assinantes pelos seus círculos eleitorais, calculando a percentagem de subscritores em proporção ao número de eleitores registados em cada círculo. À escala nacional o resultado é irrisório: os subscritores representam um pouco menos de 3% dos 46,5 milhões de eleitores registados no Reino Unido. Mas há assimetrias significativas: há uma muito maior adesão (expectável) na Grande Londres e uma adesão fraquíssima no Ulster (Irlanda do Norte).

O APERTAR DOS OSSOS DO ADVERSÁRIO

Sobre a vida interna dos grandes partidos políticos, as explicações sobre as naturais divergências tacticas entre as respectivas facções costumam agora ser substituídas por insinuações surdas ilustradas por efusivos abraços que, de tão orquestrados, já nem servem para iludir os militantes.

«HERMÄNNCHEN»

Heimat é uma série alemã de televisão composta por onze (prolongados) episódios que nos conta uma história da Alemanha do Século XX (em rigor, entre 1919 e 1982), acompanhando a evolução de uma pequena aldeia católica da Renânia. Transmitida originalmente em 1984, tornou-se uma série muito elogiada pela crítica, mas não é para a apreciar que a menciono. É por causa dos ritmos da narrativa e da extensão das obras, que entretanto evoluíram tanto que se cometem erros como aquele que cometi ontem. A série é composta por onze episódios como se disse acima, mas a sua duração total é de quinze horas e meia: os episódios mais curtos têm uma duração de uma hora; outros duram mais, o inicial, por exemplo, dura o dobro disso - o que é mais do que a duração da maioria dos filme comuns dos dias que correm. E ontem, quando me dispus a ver à noite o nono episódio da série, que se intitulava Hermännchen (que se pode traduzir, com alguma ironia atendendo ao que aconteceu, por Hermanzinho...), tive a inesperada surpresa de me deparar com um episódio que acabou tarde na noite, porque tem a duração de 2 horas e 20 minutos! Vai uma eternidade entre esses anos em que um episódio de uma série de televisão tinha (podia ter) essa duração e estes anos, em que se procura, por exemplo, (tentar) condensar todas as subtilezas de um livro de John Le Carré num filme que dura menos que isso.

29 janeiro 2017

«OBERTLEUTNANT» EM ESTALINEGRADO COM PPSh-41 CAPTURADA

Em data incerta do segundo semestre de 1942, numa fotografia a cores que se suspeita ter sido encenada, um tenente alemão deixa-se fotografar rodeado pelo entulho causado pelos combates por uma Estalinegrado destruída. É curiosa aquela vertigem dos combatentes da frente em, mais do que o capturar como troféus, passarem a empunhar algum do armamento mais característico do inimigo. A prática parece ser milenar e vem sempre acompanhada de explicações plausíveis sobre as vantagens comparativas do equipamento capturado, mas a suspeita é que as verdadeiras explicações são do âmbito dos deuses da guerra e não propriamente tecnológicas.
Quanto à PPSh-41, arma soviética típica da Segunda Guerra Mundial, arma tão prezada pelos soldados alemães, foi a pistola-metralhadora mais produzida durante aquele conflito - até 1945 haviam sido construídas cerca de cinco milhões (contra o milhão das concorrentes MP-40 alemãs). O que a popularizaria era a sua simplicidade de construção, de uma rusticidade que a tornava fiável e fácil de manter, pensada para funcionar sob o frio russo. Tanto foram as armas capturadas durante o período inicial da invasão da União Soviética pela Alemanha (1941/42) que os alemães produziram um manual seu sobre o seu emprego.
Na frente de combate, enquanto as pistolas-metralhadoras MP-40 estavam reservadas para graduados (oficiais e sargentos), a captura e o posterior emprego (desde que devidamente autorizado) de uma pistola-metralhadora soviética por um soldado alemão representaria, por assim dizer, uma ascensão social na hierarquia de guerra. Daí o prestígio. Acresce a isso que, e regressando à fotografia inicial, quando de situações de combate urbano (como acontecia em Estalinegrado), tudo aquilo que seriam as desvantagens da PPSh-41 quando em comparação com a MP-40 (como a precisão e o alcance) perdiam importância. Até os oficiais se afeiçoavam à pistola-metralhadora soviética.

AS CRÓNICAS DOS HUMORISTAS

Tenho que aceitar que há humoristas que são reconhecidos socialmente e que há outros que o não são apenas por não estarem registados como tal na Sociedade Portuguesa de Autores. Ou então será uma questão do estilo do humor quando difícil de apreender, que a reputação dos Monty Phyton tomou anos a consolidar-se. E que Mister Magoo, o velhinho simpático que não via nada à frente do nariz mas que escapava sempre às enrascadas sem se aperceber sequer onde estivera, é uma personagem cómica hoje completamente esquecida. Também não ajuda que o Observador tenha arrumado as crónicas de João Marques de Almeida na secção de política. Mas, para a sua crónica de hoje, temos um presidente (Marcelo), que nem devia ter sido eleito, a guardar no bolso um primeiro-ministro (Costa) de um governo que está apoiado numa maioria de esquerda que não havia. É subtil, mas que comprovação é mais precisa de que aquilo que está lá escrito, vai acontecer tudo ao contrário?...

28 janeiro 2017

PODE UM ACTOR TORNAR-SE FAMOSO ESPECIALMENTE PELA FORMA COMO MORRE NUMA CENA?...


Há actores que se tornam inesquecíveis pela forma impressionante como morrem numa cena de um filme, no caso acima de John Hurt, Alien, o Oitavo Passageiro (1979). A cena tornou-se tão icónica que até veio a ser parodiada (abaixo). Hoje foi anunciado que John Hurt morreu aos 77 anos. Com uma certa imaginação e de uma forma assaz irónica, a causa da morte real assemelha-se à ficcional: um «alien» que emergiu naquelas mesmas paragens do seu corpo embora bastante menos exuberante: um tumor pancreático...

MAIS VELHA, MAIS BRANCA, MAIS MASCULINA E TAMBÉM MENOS ELITISTA, A NOVA ADMINISTRAÇÃO TRUMP

Eloquente (como de costume) este gráfico da The Economist que compara a composição da actual administração com a que a precedeu em relação a quatro parâmetros: idade, raça, género e formação académica. A Ivy League é uma denominação de oito universidades de elite localizadas nos estados do Nordeste dos Estados Unidos. O triângulo em cinzento ao fundo, referente à população americana no seu conjunto, é um testemunho silencioso de que a famosa expressão final do discurso de Gettysburg de Lincoln, referindo-se ao governo do povo, pelo povo e para o povo (government of the people, by the people, for the people), é para tomar cum grano salis.

27 janeiro 2017

ALTERNATIVIDADES HISTÓRICAS...


Paira por aí uma grande animação com a expressão alternative facts (factos alternativos) que foi cunhada recentemente num directo televisivo por uma conselheira do presidente Trump (Kellyanne Conway) quando em defesa de um seu colega de administração (Sean Spicer). O que parece novidade será a adopção desta assumpção descarada do alternativismo a que os Estados Unidos não estarão habituados nas suas notícias domésticas. Porque, à escala externa, há quem reconheça no processo estranhos ecos daquele famoso ministro da Informação do Iraque em 2003 (Mohammed Saeed al-Sahhaf)...
Mas, já muito anos antes dos directos televisivos, os acontecimentos políticos poderiam adquirir uma factualidade alternativa, tome-se este exemplo checoslovaco acima. A fotografia data de Fevereiro de 1948. E o que é incontroverso é que nela o primeiro-ministro checoslovaco Klement Gottwald está a discursar. O que poder ser alternativo é decidir se ele o faz acompanhado do ministro Vladimir Clementis e de um fotógrafo (Karel Hájek)... ou sozinho. Ajuda à compreensão da(s) cena(s) saber que Clementis, ministro dos Negócios Estrangeiros, foi purgado (1950) e executado em 1952.

Por agora, na América, discutem-se números da afluência à tomada de posse presidencial, mas, como estes processos estão sempre associados e são mesmo transpolíticos, não me surpreenderia mesmo nada que a breve futuro, se queira rever, de uma forma alternativa (patriótica), o que foi o Macartismo...

NEM SEMPRE É PRECISO SER-SE (MUITO) EMPREENDEDOR PARA SE ALCANÇAR O SUCESSO...


26 janeiro 2017

OS TURISTAS DE BARBA RIJA E COM OS TOMATES NO SÍTIO


São bastante famosas em Portugal (embora menos no estrangeiro) as Touradas à Corda açorianas, sobretudo terceirenses, organizadas por ocasião das Festas Populares locais de que nos chegam regularmente imagens entre o caricato e o preocupante.

Muito mais conhecidos, mundialmente famosos, são os encierros em Pamplona, por ocasião das Festas de San Fermin, de onde nos costumam chegar imagens ainda mais impressionantes pela irresponsabilidade acrescida dos protagonistas.

Agora o que é surpreendente são estas imagens que nos chegaram do Nepal, onde porventura por causa do carácter sagrado do gado bovino naquelas paragens, aquele mesmo género de festividades é (parece) protagonizado por um rinoceronte...

Nestes tempos de globalização e empreendorismo, o que só ficou mesmo a faltar foi o adicionar da cidade nepalesa (Makwanpur) a uma espécie de circuito internacional de eventos destes para turistas de barba rija e com os tomates no sítio. 
(Registe-se que a segunda parte desta história se baseia em factos alternativos)

AFINAL, HAVIA MÁQUINA

Como alguém comentou a propósito desta pretensa descoberta do Observador, «o spin e a comunicação» de «um homem só e sem partidos» «não diz nada sobre Marcelo que já não soubéssemos»: «diz muito é sobre o jornalismo político em Portugal». Nem me passa pela cabeça assumir que, aos jornalistas que acompanharam Marcelo em campanha, lhes passou ao lado a lista de coordenadores que o Observador publicou (abaixo). A uns quantos, entre jornalistas mais obtusos e coordenadores mais discretos, ainda vá que se escapasse. Agora a todos e, ainda por cima, com a coincidência de eles pertencerem a estruturas locais do PSD?... Improvável. Assim como é de realçar a oportunidade deste furo jornalístico quando se está prestes a completar um ano de uma presidência que o Observador tem apreciado de uma forma cada vez mais desiludida. Mas sobretudo, se me resolvi a publicar este comentário, não foi para comentar o que consta da notícia do Observador, mas para realçar aquilo que lá não consta. Em lado algum se esclarece se os coordenadores "partidários" (a «máquina laranja» que é referida na notícia) participaram na campanha de Marcelo com ou sem o beneplácito da direcção nacional do partido. É que convém recordar um dos momentos mais engraçados da política portuguesa recente, quando Marcelo Rebelo de Sousa tomou inesperadamente a palavra no XXXV Congresso do PSD (Fevereiro de 2014) e roubou completamente o protagonismo da cerimónia a Pedro Passos Coelho. Nesse momento de desautorização ficou claro que uma apreciável percentagem das bases do PSD e da «máquina laranja» não iriam seguir a moção de estratégia que Passos Coelho apresentara nesse congresso (anti-Marcelo, o «catavento»). Dois anos depois, essa máquina que afinal existia, será mais sacada por Marcelo Rebelo de Sousa do que cedida por Pedro Passos Coelho. Podia ter sido dito na notícia, mas não foi. Agravaria a perfídia de Marcelo Rebelo de Sousa, um ladrão de máquinas partidárias, mas enfraqueceria na mesma dinâmica a autoridade do próprio Pedro Passos Coelho. E este último ainda é o pivot político para quem edita o Observador.

25 janeiro 2017

ESTÃO BEM UNS PARA OS OUTROS

Para responder rigorosamente à pergunta acima, a primeira constatação é que quem a formula, a SIC Notícias, é que tem todo o interesse em autopromover o vídeo de viral porque ele resulta de uma das suas emissões. O resto, será a capacidade de classificar Daniel Oliveira de ser um vírus, aquele que consegue transformar aquilo que comenta em viral, embora nem interesse se aquilo que se viralizou é substantivamente importante, interessante ou inesperado. Não simpatizo particularmente com as declarações do dono da Padaria Portuguesa que provocaram a pretensa celeuma, mas eles serão a simetria no excesso do que, por exemplo, poderia dizer um Arménio Carlos da CGTP se o tivessem ido entrevistar a pretexto do mesmo assunto, a TSU. Aliás, abaixo, reproduzem-se uma punch-line das declarações proferidas por Rita Rato no debate de hoje à tarde, daqueles outros disparates que não incomodarão Daniel Oliveira, mas um qualquer outro vírus (Helena Matos?) do outro lado da trincheira estará neste momento a viralizar (para referenciar o que Rita Rato reivindica, o salário médio em Portugal não chega a 1.000 euros).  Em suma, acho que se poderia pôr Nuno Carvalho (que até se agora se notabilizara sobretudo por ser o primo de José Diogo Quintela) à conversa com Rita Rato. Estão bem um para o outro na flexibilidade das suas opiniões.

ZIDANE A JOGAR RÂGUEBI

Se existe algum exagero desdenhoso na legenda desta síntese de imagens acima (o futebol são 90 minutos fingindo estar aleijado e o râguebi são 80 minutos fingindo que não se está), só fica bem a Zinedine Zidane, astro de primeira grandeza do primeiro desporto, exibir-se em campo praticando o segundo, nesta paródia publicitária já com dez anos. A propósito, fiquei sem perceber porque é que ele, no fim, cabeceia para debaixo da trave: foi o instinto ou uma má compreensão das regras do jogo?

A EXPRESSÃO DA HEGEMONIA MILITAR DOS ESTADOS UNIDOS

Como aconteceu com os Dreadnoughts britânicos que os precederam, nada sintetizará melhor a projecção à escala mundial do poder hegemónico dos Estados Unidos no Século XX e XXI que os seus aviões bombardeiros.
O B-17, o B-29 (de onde se lançaram as primeiras bombas atómicas sobre o Japão) e o colossal B-36, acompanhados de um prosaico C-47 de transporte.
O B-58 e o B-52, cuja envergadura já se equivale à do B-36, que parecia um monstro na foto acima.
O mesmo B-52 acompanhado do B-1 e do B-2 com a particularidade de virem acompanhados com uma etiqueta com os respectivos preços expressos em milhões de dólares actuais (a vermelho).

24 janeiro 2017

OS QUE DESCOLONIZARAM MAS NÃO SE DEMOCRATIZARAM

Antes de se ler este livro, sugiro que se faça uma revisão, breve, ao que consta do Programa do Movimento das Forças Armadas apresentado aos portugueses em 25 de Abril, tendo por contraste o que aconteceu nos 19 meses que se lhe seguiram.
«Quanto à retracção do dispositivo na fase inicial não houve verdadeiramente um plano rígido de retracção. A explicação terá que assentar em três factos:
O 1º é que só muito tardiamente ele foi autorizado pelo general Spínola e quando o foi parte da retracção estava feita ou em curso.
O 2º é que com os primeiros ultimatos tudo se precipitou e a retracção começou por aí, sem estar prevista, mas para evitar banhos de sangue. E se houve unidades que foram evacuadas em função dos ultimatos outras seriam porque sem aquelas já não se justificavam estas.
O 3º porque qualquer plano por nós feito sem coordenar com o PAIGC não ia resultar sem incidentes, porque as nossas razões para retirar daqui ou dali nem sempre coincidiam com as deles, que deixaram para o final as terras (chãos) onde tinham menos penetração e lhes estavam a exigir grande esforço de acção psicológica e de trabalho político.» (pp. 192-193)

Quando se chega ao fim desta explicação d´A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães, é inerente concluir que, perante tais explicações, o que não houve foi plano: nem rígido, nem flexível. Nem muito provavelmente teria sido possível haver plano. Haveria quanto muito, umas «linhas básicas: da fronteira para o interior e, (...) sempre que possível, as unidades com mais tempo de comissão».
Pela aparência, as linhas acima parecem redigidas por um oficial da arma de Artilharia. Deles é clássico o cartoon acima, de que é a Artilharia que confere dignidade ao que, de outra forma, seria uma mera bagunça. Aqui também: é preciso uma certa petulância para designar por plano não rígido o que terá decorrido antes com uma enorme dose de improvisação. Mas não: o coronel Jorge Golias é oriundo da arma de Transmissões, exemplo adequado de uma linha significativa de oficiais de armas não combatentes e dos serviços que mais entusiasmadamente abraçaram o projecto político MFA depois do 25 de Abril. Duran Clemente, de Administração Militar, ou Faria Paulino, da Força Aérea, são outros exemplos disso e presenças constantes nos órgãos do MFA da Guiné ao longo deste livro*. Livro que tem a indiscutível utilidade de uma excelente descrição dos factos - a guerra e depois a descolonização da Guiné nos cinco meses que se seguem ao 25 de Abril de 1974 - para mais quando feita por quem os viveu directamente e se constata ter tomado notas e investigado o assunto. Nesse sentido, de testemunho, o livro é incontornável. Mas o preço a pagar por isso será uma surpreendente ausência de distanciamento em relação aos principais factos narrados, apesar dos mais de 40 anos entretanto transcorridos. O autor, como se constata mais acima, parece ter ficado na época dos acontecimentos e tem uma tese a defender: correu tudo o melhor que podia ter corrido, atendendo às circunstâncias. E houve aspectos que até foram excelentes.
 
«O Boletim do MFA na Guiné foi o primeiro órgão oficial do MFA em todos os territórios. Dele apenas saíram dois números. O primeiro saiu em 1 de Junho de 1974 e o segundo em 17 de Junho. No entanto, a sua importância foi enorme, tendo sido distribuído em todas as unidades na Guiné e enviado para Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde (3 mil exemplares).» (p. 163)
 
O autor desenvolve na página seguinte que o boletim irritou Spínola por causa de um código revolucionário (assim mesmo, a bold), que fazia que o MFA fossem todos (os militares) e todos fossem do MFA mas o que se nota naquelas palavras é um voluntarismo que chega a ser arrogante, para quem se lembre da profusão de novas publicações político-ideológicas que apareceram (ou se tornaram disponíveis) a seguir ao 25 de Abril. É o mesmo voluntarismo que mais acima havíamos lido intuído em expressões como esforço de acção psicológica e de trabalho político (junto das populações), o pressuposto de que, com muito trabalho de psico, todas as pessoas se convenceriam ou (para usar a mesma expressão de Mário Castrim no Diário de Lisboa da época em apoio às famosas campanhas de Dinamização Cultural) se nacionaliza(ria)m os cidadãos. A sobrevivência dessa cultura de PREC tão pura e arreigada é, para mim, o mais exótico dest'A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães.
 
* Para deixar um exemplo contrastante, Matos Gomes, outra presença e também prefaciador do livro, era oriundo da arma de Cavalaria.

PRAIA

Há fotografias como esta, que têm a eloquência da sua simplicidade. Praia pode ser só isto. Um areal onde algumas pessoas se instalam e passeiam e um mar que se enruga como o lençol de uma cama mal feita. O autor é Joel Meyerowitz.

23 janeiro 2017

A DESIGUALDADE (DISCUTIDA E EXIBIDA)

É interessante ver o assunto da desigualdade discutido nas páginas do Observador, mormente por ele ser discutido por Helena Matos. A questão é que o problema da desigualdade não são os 8 mais ricos, argumento a que ela dedica tanto afã a desmontar. A questão é o que tem vindo a acontecer à distribuição da riqueza desde os pretéritos anos 70, época onde ela vai buscar uma outra aritmética dos ricos versus pobres, agora replicada no mesmo ódio às sociedades ocidentais e muito particularmente à iniciativa privada. Não são só nem sobretudo os comunistas a dizerem que as desigualdades se ampliaram nas sociedades ocidentais desde aquela década para cá: são os dados estatísticos e são gráficos... O problema não são os 8 mais ricos mas sim a coluna a aproximar-se dos 8% de lares norte-americanos com rendimentos superiores a 200 mil dólares nos histogramas do século XXI do gráfico dinâmico abaixo. A propósito, creio que lá no Observador saberão usar gráficos. É que há muitos disponíveis sobre desigualdade de rendimentos para complementar as opiniões de Helena Matos, embora tenha reparado que aqueles que dão mais jeito publicar ao Observador sejam bastantes menos.

ELE HÁ LIVROS QUE ESTIMULAM INTELECTUALMENTE AS PESSOAS

O que mais aprecio no texto abaixo é a capacidade da autora para nos deixar na dúvida: estará a ironizar? Estará a exprimir-se a sério? Para mim a revelação só terá sido alcançada com a passagem em que a autora propõe que As pessoas deviam ter uma disciplina que lhes ensina-se (outros preferem a forma ensinasse)... política, economia, o sistema político do país e os seus principais problemas. É um ponto baixo da argumentação porque ele há uma outra disciplina que ensina as pessoas a escrever sem cometer erros gramaticais, que, como se pode apreciar, nem sempre trás resultados.
Quanto ao artigo do Observador que é aqui referido e o livro que é citado, conviria que o jornalista Edgar Caetano ali tivesse deixado expresso que o livro data de 2013, que a tradução do livro para francês (por exemplo) já tem 3 anos e/ou que a tradução em inglês do mesmo, datada de Julho de 2016, só acidentalmente coincidiu com o Brexit, usado como exemplo da tontice de uma decisão popular. Descubro-me uma pessoa naturalmente fadada para leccionar a disciplina de procurar informação em fontes fidedignas e com conteúdo. E todos esses meus predicados antes de discordar frontalmente da argumentação de David Van Reybrouck...

O BRONCO E O OUTRO

O senhor vestido de branco é o coronel Jammeh, a ser recebido na Casa Branca pelos Obama em 2014. O coronel Jammeh é um daqueles tiranetes africanos, que chegou ao poder do seu país, a Gâmbia, em 1994, através de um golpe de Estado. Tem permanecido por lá, desde há 22 anos, tinha sido reeleito presidente em sucessivas eleições presidenciais (aparentemente disputadas) até à ultima, em Dezembro passado, quando a perdeu para um rival apoiado por uma confederação de oponentes. E aí, perante o desaire eleitoral, o coronel Jammeh amuou. Recusou-se a aceitar os resultados e instalou-se um impasse político na Gâmbia que se arrastou por mais de um mês. Houve diplomacia, houve intimidação e depois teve que haver força bruta: na semana passada tropas senegalesas atravessaram a fronteira para destituir o ex-presidente Jammeh que, derrotado, já partiu para o exílio, um prevenido exílio. Mas o que me interessa, se explico toda esta história, é para regressar à fotografia de cima, e imaginá-la com o actual ocupante da Casa Branca em vez de Obama. O que distinguiria moralmente os dois chefes de Estado, o gambiano e Trump, o norte-americano? Tal qual as coisas se têm apresentado, desconfio que não grande coisa. E essa diferença, apesar de ser só subentendida,  costumava constar destas fotografias oficiais.

22 janeiro 2017

O RETORNO DE UM CERTO ESPÍRITO DA MÍTICA PORTA 10A?

Quem numerou originalmente as portas do estádio de Alvalade em 1956, não se deve ter apercebido da importância potencial da porta 10A. Ou então quis disfarçá-la. Aquela numeração aparentemente acessória dissimulava afinal o facto de ser por ali que jogadores, treinadores e dirigentes do Sporting entravam e saiam do estádio. Terá sido local de grandes momentos de celebração e convívio depois de muitos jogos, embora a comunicação social se interessasse sobretudo pelos outros momentos. A ponto de, mediaticamente, a designação de 10A ter ficado entre os adeptos do clube com o conotação de um tribunal, um espírito que agora parece regressar ao Sporting, a atender a este encadeado de maus resultados no futebol. Estas duas fotografias de meados dos anos 60 mostram-nos a singeleza como a porta original era de facto, e não como o clube gostava que tivesse sido.
Fossemos nós mais tolerantes no futebol e mais exigentes em tantas outras coisas... Olhem, vejam o exemplo do poste imediatamente precedente!

ENTRE A AGRESSIVIDADE DAS REDES SOCIAIS E A COMPLACÊNCIA DA INFORMAÇÃO TRADICIONAL

Hoje de manhã deparo-me na programação da RTP 3 com a presença de Jaime Quesado em estúdio, a promover um livro, de cujo tema nem me quis inteirar. Para quem não o conheça, Jaime Quesado é um economista supostamente de renome, uma estrela secundária do firmamento mediático, que há coisa de um ano e meio (Agosto de 2015) ganhou uma reputação duvidosa quando viu exposto o seu processo inédito de produção científica, por cortesia das pesquisas de António Araújo do blogue Malomil. Assim como, complementando (mas também absolvendo a falta d)a verdade, há a pós-verdade, uma versão mais benigna do condenável plágio, será o auto-plágio na forma como é praticado por Jaime Quesado. Como explicou metodicamente António Araújo, Jaime Quesado repete-se também metodicamente - ipis verbis - com uns meses/anos de intervalo entre os textos, apostando na (falta de) memória de quem o lê. Se alguém ler o que escreve. Azar o dele, Quesado, a existência de um Araújo que o fez. Há ocasiões em que a repetição é apenas sintoma de preguiça intelectual, porque escreve escrupulosamente o mesmo acerca do mesmo, há outras ocasiões em que resulta ridículo, porque as suas opiniões escrupulosamente idênticas abrangem três países dificilmente mais distintos quanto Portugal, Singapura e o Japão. Sendo uma estrela (ainda que secundária) do firmamento mediático, o episódio deveria ter sido o equivalente à explosão de uma supernova de galhofa. Mas não foi e ei-lo, ressuscitado ao décimo sétimo mês conforme as escrituras, e se não apto para ascender ao céu, apetrechado para regressar à televisão. Fosse a televisão um meio interactivo e, mais do que provavelmente, mais do que justificadamente, Jaime Quesado seria confrontado por alguns espectadores com o seu faux pas, informando o resto da audiência do perfil da personagem. Assim como foi, e apesar de não ter assistido ao programa desde o início, tenho a certeza que esse assunto delicado nem sequer foi sugerido. Tanta se fala na informação tradicional da agressividade das redes sociais, porque não se deverá falar mais nas redes sociais da complacência da informação tradicional?

21 janeiro 2017

O TRUMP CANADIANO É CARECA!

Quem já tiver visto um programa televisivo intitulado Shark Tank, poderá reconhecer um dos seus figurantes, o milionário canadiano Kevin O'Leary de 62 anos. Pelos vistos, Kevin pretende agora dedicar-se à política no seu país, candidatando-se a líder do Partido Conservador do Canadá. A Fox News cita-o explicando que «os eleitores já não querem mais políticos», enquanto anuncia maliciosamente e por analogia que Kevin O'Leary pretende tornar o Canadá wonderful again... Entretanto, o próprio (abaixo), talvez para reforçar a sua credibilidade, apressou-se a clarificar em entrevista que ele não é Donald Trump (I'm not Donald Trump). Pois não: nem dá para confundir - ele nunca despediu ninguém na televisão e, além disso, Kevin é um orgulhoso careca!

CANNES, O CARLTON E A CARNE (à mostra)

Em Cannes em 1975, na praia diante do famoso Hotel Carlton local, Sylvia Kristel posa para os fotógrafos no que parece ser a promoção a um dos filmes da série Emmanuelle. Passados alguns anos (1983) e no mesmo local, os Monthy Phyton dispõem-se a fazer qualquer de muito parecido mas mais explícito, embora com muito menos sucesso.

20 janeiro 2017

COMO UM ANTIBIÓTICO DE LARGO ESPECTRO

Há quem se lembre dos tempos em que Paulo Portas era anti-europeu. Mas também haverá quem se lembre de outros tempos em que já foi pró-europeu. Pois agora parece que é a-europeu. A Europa está a seguir uma "receita para o desastre". «No shit, Sherlock!» Paulo Portas está para as opiniões assim como o recém-falecido Mário Soares esteve para a geografia. Deste último se dizia que, por causa das suas inúmeras viagens, se Deus está em toda a parte, Soares também já lá tinha estado. Analogamente, de Paulo Portas também se pode reconhecer o quanto ele pode desempenhar como mais ninguém a função de pivot no meio de um leque de opiniões diferentes, porque só ele para possuir a empatia de as compreender: já teve essas opiniões todas entre agora e o passado. Há quem o critique por este comportamento, quem não se afeiçoe à ideia de o ouvir falar agora em termos muito críticos do populismo, mas o percurso político de Paulo Portas desde o Independente até hoje, mostra-se tão abrangente nas convicções que (e já que o ouvimos falar acima de receitas) elas parecem servir para todos os momentos e para todas as doenças, é como se fossem um antibiótico de largo espectro.

JACQUES DORIOT e O COMITÉ DA LIBERTAÇÃO FRANCESA

A 6 de Janeiro de 1945 Jacques Doriot (acima) anuncia aos microfones de Radio-Patrie (sedeada na Alemanha) a fundação do Comité da Libertação francesa («Comité de la Libération française»). A inspiração com o que acontecera quatro anos e meio antes a partir de Londres é demasiadamente evidente para poder ser desmentida. Mas quem é Jacques Doriot, este Charles de Gaulle tardio que as vicissitudes de guerra transformaram num peão dos interesses alemães e que a História virá depois a condenar ao esquecimento? Jacques Doriot (1898-1945) começara por ser uma estrela em ascensão entre os quadros do Partido Comunista Francês (PCF): eleito deputado aos 25 anos por Saint-Denis (comuna operária dos arredores ao norte de Paris), Jacques Doriot veio também a ganhar as eleições municipais tornando-se o maire da localidade de 1930. Saint-Denis era simultaneamente um bastião comunista mas também um feudo pessoal de Jacques Doriot. Tanto assim que nas eleições gerais de 1932, onde se assistiu ao primeiro recuo significativo da votação nos comunistas (-3%), Doriot foi o único dos dez deputados comunistas a ser eleito logo à primeira volta, com mais de 50% dos votos no seu círculo eleitoral. Mas esse prestígio entre os militantes em França nada pôde fazer para contrariar as opções e directivas emanadas de Moscovo e do Comintern que privilegiavam outra grande estrela em ascensão, o seu grande rival, Maurice Thorez (1900-1964), que se tornara entretanto o secretário-geral dos comunistas em 1930.

A rivalidade pessoal entre os dois, disfarçada de uma discordância quanto à tactica política a adoptar (anacronicamente, foi a tese de Doriot, a da formação de uma união de todas as esquerdas, a que acabou por vingar), levou a que Jacques Doriot viesse a ser expulso do PCF. Em 1936 fundava o Partido Popular Francês (PPF), uma formação ideologicamente fascista a que ele adicionava toda a sua experiência política prévia, nomeadamente uma reputação invejável como orador de meetings políticos (veja-se o vídeo). Alguns dos quadros do novo PPF (de que Paul Marion é apenas o exemplo mais destacado - chegou a ministro do governo de Vichy) haviam feito viagens ideológicas muito semelhantes à do seu líder. É uma direita totalitária que não se distingue assim tanto da esquerda totalitária na sua iconografia (veja-se abaixo a invocação do 1º de Maio), nem na sua arrogância, ao consideraram-se a (nova) ideologia do futuro: sob a fotografia de Jacques Doriot que aparece acima, pergunta-se se ele será o homem do amanhã. Não foi, mas registe-se a petulância... Muito disto começa anos antes do começo da Segunda Guerra Mundial. Foi a ocupação alemã, a opção pelo colaboracionismo e o efeito abarbatador dos interesses alemães e do nazismo que reduziram toda aquela gente a um papel de figurantes e que os mandaram para o lado dos vencidos da guerra e dos esquecidos da História. Mas existe uma tal simplificação na forma como eles foram remetidos desde sempre e apenas ao papel de colaboracionistas, que sempre me perguntei se isso se deveria apenas à ignorância e/ou à negligência...

19 janeiro 2017

O NOVO «GÉMEO» MORTÁGUA

Para quem andar atento aos problemas políticos da Saúde, já se deve ter apercebido da emergência do deputado Moisés Ferreira do Bloco de Esquerda, em vias de se tornar um enfant terrible sobre o assunto e que está em vias de se transformar numa espécie de gémeo Mortágua para os assuntos da Saúde. Já fazia falta. Assim como o grupo parlamentar do Bloco se sentiu órfão da argúcia para as finanças quando do abandono do parlamento em Outubro de 2012 por Francisco Louçã (forçando a entrada à martelada de Mariana Mortágua, vinda lá do enésimo lugar de candidata a deputada), o abandono de João Semedo também se tem vindo a fazer sentir. Não deixa de ser irónico, para quem ainda se lembra das intervenções de Semedo, ouvir este seu sucessor começar por manifestar as suas preocupações tendo agora como pretexto o Hospital Amadora-Sintra (vídeo abaixo), quando aquele mesmo Hospital era o alvo predilecto dos ataques de João Semedo quando ali vigorava uma parceria-público-privada (PPP). Os mesmos problemas do mesmo hospital, que antes eram inadmissíveis, passaram agora a ter justificação. Consistência é coisa que não abunda por aquela bancada, substituída por uma coerência maniqueísta - público bom/ privado mau - sejam quais forem os factos. Mas aquilo que mais me intriga nem sequer é isso: é a promoção inusitada que conseguiu levar Moisés Ferreira, até agora um desconhecido, a ter acesso destacado às páginas (electrónicas) do Observador, em réplica a um artigo do sempre selecto José Manuel Fernandes, que lhe conferiu até a honra de o distinguir com uma tréplica. E imagine-se: o texto de Moisés Ferreira é tão pobre em argumentos outros que não os ideológicos, que José Manuel Fernandes até tem razão!...

«FROM GREECE WITH LOVE»

Há notícias que, principalmente por as lermos no Observador, parecem ter sido escritas inspiradas em alguém dos quadros do mesmo jornal. Neste caso, este pequeno sucesso acima da Grécia de Tsipras mereceria uma dedicatória explícita a José Manuel Fernandes que, recorde-se abaixo, passou todo o ano de 2015 particularmente preocupado com o que poderia vir a acontecer àquele país. Querem lá ver que os governos de esquerda também conseguem alcançar resultados positivos em execuções orçamentais? É assim que a gente os topa, aos jornalistas independentes...

18 janeiro 2017

DEMÉTRIO, O IMPOSTOR

Por muito que esteja a ser desagradável a muita gente a futura ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, a verdade é que há que reconhecer que a sua posse se fundamenta na legitimidade. O que já não se pode dizer de outros episódios da História Universal que assentaram em verdadeiras fraudes, nomeadamente um que aqui se contará, ocorrido nos princípios do século XVII na Rússia que hoje é de Putin. Regresse-se até Março de 1584, quando morreu Ivan-o-Terrível, o famoso Tsar louco. Depois de ter morto o mais velho, Ivan deixava dois herdeiros: Feodor (versão russa do nome Teodoro) de 26 anos e Dimitri (Demétrio) com apenas 18 meses. O primeiro era uma fraca figura, que, quando da subida ao trono, foi rapidamente dominada pelo cunhado Boris Godunov, o irmão da tsarina. Como o casal não produziu nenhum herdeiro, Dimitri, apesar de criança, permaneceu um importante factor político por causa da questão da sucessão. Até que em 1591, quando Dimitri tinha 8 anos, ele morreu, presumivelmente vítima de um acidente. Claro que se desconfiou de Boris Godunov, pois assim seria sem problemas que ele herdaria o trono em caso de morte do cunhado, o que veio precisamente a acontecer em 1598. O Tsar Boris acabou por ter um reinado muito complicado. Entre 1601 e 1603 um encadeamento de más colheitas e a consequente fome provocou uma revolta generalizada na Rússia. A encabeçar os descontentes, mas também com apoio dos vizinhos polacos, apareceu uma figura que se reclamava ser Dimitri, o filho de Ivan-o-Terrível que afinal não morrera no tal acidente em 1591 e permanecera escondido depois disso. Em vários aspectos, o fenómeno assemelha-se ao sebastianismo que, em período contemporâneo, grassou por Portugal. Só que na Rússia foi muito mais bem sucedido: aproveitando a morte do Tsar Boris e a fase de consolidação do poder do seu filho e herdeiro Feodor II, o falso Dimitri (que, na verdade, se chamava Gregório Otrepiev) conseguiu conquistar Moscovo, depor (e executar) Feodor e tornar-se o Tsar com o nome de Demétrio. A mãe (do verdadeiro Dimitri) reconheceu-o. Foi coroado. Adquiriu legitimidade política: o sonho de qualquer escroque - imagine-se Vale e Azevedo a tomar posse como presidente da República! O seu poder veio a revelar-se, porém, tão frágil quanto aquele que ele acabara de derrubar. O reinado do falso Demétrio durou menos de um ano - de Junho de 1605 a Maio de 1606. A pedra de toque foi a questão polaca e a questão religiosa (que eram sinónimas porque os polacos eram católicos e os russos ortodoxos). Ao casar com uma polaca que não abjurou da sua religião conforme eram as tradições dos czares, Demétrio, o Impostor precipitou uma revolta encabeçada pelos boiardos (nobres), que o mataram numa peripécia reminiscente à desdita de Miguel de Vasconcelos. Mas esse não foi o fim da história porque, confiantes no sucesso da personificação do filho do Terrível, mais dois outros Dimitris falsos apareceram, de forma (naturalmente) encadeada: um entre 1607 e 1610 e outro entre 1611 e 1612. Acabavam sempre mortos mas a personagem parecia ter várias vidas como se se movimentasse por um jogo de computador moderno. Comparado com tudo isto, Donald Trump, até passa pela respeitabilidade de ser quem ele afirma que é... pelo menos até ver.

IRONIA ÀS DUAS TABELAS

Frases destas, mesmo sabendo-se preparadas de antemão e por profissionais, não as tínhamos na política com Pedro Passos Coelho e muito menos com José Sócrates. São frases muito bem dispostas, de uma ironia inteligente a roçar o sarcasmo que tanto martela o partido à sua direita quanto, por acaso, prega uma valente cotovelada nos do seu lado esquerdo. É uma pena que a esmagadora maioria da opinião publicada - para não falar d@s tenores das redes sociais - não saiba apreciar o que é bom.

17 janeiro 2017

«WARDROBE MALFUNCTION»

A cerimónia já tem uns meses, decorreu em Setembro passado e o pretexto foi o Festival de Veneza (na sua 73ª edição). As duas senhoras e o senhor não constam nem da lista dos concorrentes e muito menos da dos premiados, mas, indiscutivelmente, terão causado imensa sensação. O que me parece uma hipocrisia a dar para o cómico, é o gesto de se designar mediaticamente aquilo (que acima se pode apreciar) por wardrobe malfunction - como se o wardrobe em questão não parecesse ter sido concebido propositadamente para funcionar mal... Para os mais interessados as senhoras chamam-se Giulia Salemi (a de laranja) e Dayane Mello (a de rosa). Quanto ao senhor não faço a mínima ideia como se chama, mas desconfio que isso pouco interessará; aliás, alguém reparou que ele calça sapatos sem meias?...

O AXIOMA MAIOR DO JORNALISMO «DESPORTIVO» PORTUGUÊS

Na Lógica, um Axioma é uma preposição tida por uma obviedade tal que é aceite como Verdade, dispensando qualquer demonstração ulterior. Um exemplo que podemos e queremos invocar para este texto, é aquele que subsiste no estilo mais popular do jornalismo «desportivo» em Portugal: estabelece o tal axioma que o Benfica nunca sofre golos regulares quando joga no estádio da Luz. E quando sofre três golos numa partida, como aconteceu no jogo deste fim de semana contra o Boavista, não é o ridículo que impede o axioma de subsistir - veja-se acima um programa da TVI24 em que os três golos boavisteiros são analisados por especialistas que concluem o que é previsível de acordo com o axioma acima. Recorde-se que o jogo terminou empatado 3-3 mas, para os mesmos especialistas, não parece haver qualquer razão para questionar a legalidade de qualquer dos 3 golos do Benfica. O futebol (este futebol), a mim não me entretém, mas diverte-me imenso.

OS QUARENTA ANOS DO APOGEU DO TERRORISMO SELECTIVO

No período de quarenta anos que se estendeu de 1881 a 1920, contaram-se treze chefes de Estado que morreram assassinados, numa regularidade média trienal. Conjuntamente com os Estados Unidos, Portugal tem a duvidosa honra de figurar nessa lista com dois nomes. Por ordem cronológica foram:

a) Alexandre II (1818-1881), Tsar da Rússia, Março de 1881
b) James Garfield (1831-1881), Presidente dos Estados Unidos, Setembro de 1881
c) Sadi Carnot (1837-1894), Presidente de França, Junho de 1894
d) Nasser Al-Din (1831-1896), Xá da Pérsia, Maio de 1896
e) José Maria Reina Barrios (1848-1898), Presidente da Guatemala, Fevereiro de 1898
f) Ulises Heureaux (1845-1899), Presidente da República Dominicana, Julho de 1899
g) Humberto I (1844-1900), Rei de Itália, Julho de 1900
h) William McKinley (1843-1901), Presidente dos Estados Unidos, Setembro de 1901
i) Alexandre I (1876-1903), Rei da Sérvia, Junho de 1903
j) Carlos I (1863-1908), Rei de Portugal, Fevereiro de 1908 (na imagem)
k) Jorge I (1845-1913), Rei da Grécia, Março de 1913
l) Sidónio Pais (1872-1918), Presidente de Portugal, Dezembro de 1918
m) Venustiano Carranza (1859-1920), Presidente do México, Maio de 1920