23 novembro 2017

O INÍCIO DA DESCOBERTA DA BURLA DE ALVES DOS REIS

23 de Novembro de 1925. Embora as honras da descoberta da burla de Alves dos Reis pertençam indisputavelmente ao jornal matutino lisboeta O Século, pode-se mostrar que já a edição desse mesmo dia do Diário de Lisboa (que se publicava à tarde) tinha uma referência destacada ao caso, logo junto ao cabeçalho da primeira página (abaixo). Como se pode ver, o caso era então ainda só conhecido por causa das suspeitas à volta da actividade do Banco Angola e Metrópole. O banco fora fundado nem há seis meses por Alves dos Reis e alguns associados. Conhecendo o desfecho do escândalo e a profusão de notas duplicadas de 500$00 é impossível não ler com um sorriso irónico a passagem do cartaz em que se anuncia que o Capital Social é de 20.000.000$00 e que está totalmente realizado. Era apenas 20% do valor da emissão fraudulenta de 200.000 notas de 500$00...
O que a História tende muitas vezes a descartar são os pequenos incidentes, porque a narrativa de um escândalo deste cariz quer-se compacta e apontada ao desfecho e às sanções. E é por causa disso que se esquecem injustamente aqueles idiotas úteis que sempre aparecem a desmentir as teses acusatórias, garantindo que tudo corre pelo melhor. Nesta fase preliminar do caso do Banco de Angola e Metrópole, recuperamos este figuraço em forma epistolar, datado de dia 24 de Novembro (dia seguinte ao rebentamento do escândalo), mas publicado apenas na edição de 25 de Novembro do mesmo Diário de Lisboa. Com uma intimidade para com o director do jornal (Joaquim Manso) que se percebe ser claramente exagerada, mas que se subentende ser corrente no protocolo da época quando as pessoas importantes escreviam aos jornais, o «sr. dr. Jerónimo do Couto Rosado», que se percebe pelo teor da missiva ser o advogado do banco visado, defende, como lhe competiria, a reputação do estabelecimento bancário. A argumentação não será muito substantiva, mas enfim.
Escapará ao âmbito necessariamente limitado no tempo deste poste desenvolver muito mais esta efeméride, mas não será difícil para o leitor antecipar que os acontecimentos à volta do Banco de Angola e Metrópole se irão precipitar até meados de Dezembro, rebentando o escândalo Alves dos Reis. Nessas poucas semanas, à medida que a percepção da dimensão do escândalo ia crescendo, o «sr. dr. Jerónimo do Couto Rosado», não estando directamente implicado na quadrilha, terá tentado fazer-se esquecido dos jornais e o mais pequenino possível socialmente. Pelos vistos, conseguiu-o - 92 anos passados desconhece-se quem terá sido, nem sabemos se lhe terão escapado alguns dos contratos então forjados por Alves dos Reis. Que ele o tenha conseguido, aceito. Que, a propósito da reputação de outros bancos mais recentes, haja ex-presidentes da República que queiram fazer-se esquecidos da mesma forma que o dr. Couto Rosado é que acho mais difícil de aceitar...

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