30 novembro 2016

A FALTA DA OPINIÃO DO NOSSO ESPECIALISTA EM GREVES DE PILOTOS

Conforme notícia esta quarta-feira o insuspeito Observador a greve dos pilotos da Lufthansa arrasta-se. É uma situação recorrente: já há um ano tinha havido outra greve, e as notícias respeitantes ao braço de ferro entre os sindicatos e a administração da transportadora aérea alemã já se contradizem entre a duração do conflito (dois anos, dois anos e meio?) e o número de greves já realizadas (15? 18?) e por quem (pilotos? pessoal de cabine?). O que me parece evidente é que, não se desse o caso da companhia ser alemã, e ouviríamos imensas vozes a clamar que tantas greves eram um escândalo. Não há disso nos países desenvolvidos. Para essas vozes a greve, qualquer greve, costuma ser um escândalo. Só depois é que há espaço para explicar porquê. E é por isso que é nestas alturas que se torna importante que órgãos de comunicação social responsáveis (como o Observador e outros) ouçam os especialistas nestes assuntos de greves inoportunas como será o caso, por exemplo, do ex-ministro Pires de Lima - conhecido por ter opiniões muito firmes quando de uma greve idêntica ocorrida na TAP (veja-se abaixo). Ir ouvi-lo, mesmo que o especialista não queira, neste caso, dizer nada. Muitas vezes é tão notícia o que o especialista quer dizer como aquilo que ele não quer dizer. Inquira-se e sobretudo publicite-se o resultado da inquirição. Para que não fiquemos com a impressão que a comunicação social é subserviente não apenas ao conteúdo mas também à oportunidade das notícias. Sei lá: mostrarem ter por objectivo informar o leitor...

UMA ANALOGIA SOBRE A BELEZA JUDAICA (do tempo em que não era politicamente incorrecto referi-la assim)

Maigret, que olhou maquinalmente para os tornozelos de Anna Gorskine, reparou que ela sofria, como a mãe receara, de hidropisia. 
Os seus cabelos ralos, que deixavam ver o couro cabeludo, estavam desgrenhados. O seu vestido preto estava sujo.
Para rematar, uma penugem mais do que evidente sombreava o seu lábio superior.
Mas, mesmo assim, era bonita, de uma beleza vulgar, animal. Com as pupilas cravadas no comissário, a boca mostrando desdém, o corpo vagamente encolhido, ou talvez enroscado pelo instinto do perigo, perguntou implicativa:
« Se sabe isso tudo, para que serve fazer-me essas perguntas?...»

Esta passagem é de Pietr-o-Letão, um dos primeiros romances de Georges Simenon, escrito por volta de 1930. Anna Gorskine é uma das personagens secundárias desse livro, uma jovem judia de Vilnius (então polaca, hoje lituana) que tinha vindo estudar para Paris e que entretanto se perdera. A cena decorre numa cela, a simpatia de Maigret por Anna Gorskine é evidente para o leitor, embora o trecho acima se venha a concluir com um episódio de uma exuberante histeria nervosa curado com o conteúdo de uma bilha de água que Maigret lhe atira à cara. Em compensação, à saída e discretamente, Maigret deixa a indicação para que as suas refeições viessem do restaurante da frente, uma mordomia rara para um detido...
Sabe-se muito mais de Anna Gorskine do que de Monica Lewinsky. É curioso como algumas páginas de um romance podem ser mais reveladoras de uma personalidade do que centenas delas de meses de acompanhamento de um escândalo. A bem dizer e para subsistir, o escândalo de Bill Clinton com a estagiária, nem precisava de personagens, apenas de uma história e das fotografias dos protagonistas, que o resto adivinhava-se. O padrão de beleza da estagiária não era o convencional, de WASP. Mas o que justifica esta minha associação é a descrição física acima de Anna Gorskine, mais pincelada que desenhada, mais sugerida que relatada por Simenon, e de como ela se assemelha a Monica, sobretudo quando os anos passam e pesam (abaixo). Vale a pena acrescentar que o escritor belga sabia desenhar os seus tipos físicos: os antepassados de Monica são também judeus e também originários daquelas mesmas paragens centro e leste europeias.

29 novembro 2016

«O CAFÉ» (1973)


«O Café» (1973) é uma canção da autoria de Fernando Tordo e José Carlos Ary dos Santos, mas onde se desconfia ter havido toque de orquestração de José Calvário. É esta última que acaba por conferir à canção uma sonoridade de época. É a sonoridade típica dos primeiros anos da década de 1970, transmitindo um dinamismo optimista (a economia crescia então a um ritmo de 10% ao ano), uma sensação que era para ser neutralizada se atentássemos ao conteúdo da letra, na sua mordacidade e na descrição dos vários tipos sociais, muito semelhante no formato, aliás, à muito mais conhecida Tourada dos mesmos dois autores, que viria a ganhar o Festival da Canção da RTP desse mesmo ano de 1973. Há quem diga que a inspiração de Ary dos Santos terá sido a frequência de então da pastelaria Vavá. Talvez. De qualquer modo, não são apenas as descrições dos tipos sociais que estão datadas, alguns dos coloquialismos de que o letrista se socorre hoje praticamente desapareceram (penante, fava-rica, pescado do alto). Mas a canção possui a virtude de, na sua ligeireza despretensiosa, mostrar como em 1973 não se fazia a mínima ideia daquilo que estava para acontecer, quer nas economias do Mundo Ocidental, com a recessão do choque petrolífero, quer na política em Portugal, com as transformações radicais do 25 de Abril. Chamar a esta uma música de intervenção, como por aí vi escrito, nem chega a ser um disparate. As presciências só vieram depois, e têm-se tornado cada vez mais prescientes há medida que os anos passam.

Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota

Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente

Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga

Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
São rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco

Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza

Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente.

E SE, A MEIO DE UMA VIAGEM, O PRESIDENTE DESAPARECESSE SEM QUE SE DESSE POR ISSO?

A pergunta pode parecer impertinente, com uma sugestão de troça, mas foi precisamente isso que há 96 anos aconteceu com o Presidente de França, Paul Deschanel (1855-1922). Ele havia apanhado um comboio para se deslocar ao Loire durante a noite de 23 para 24 de Maio de 1920, quando terá caído da composição quando ela felizmente se deslocava a pouca velocidade por causa dos trabalhos na via. Foi até um trabalhador encarregado de vigiar a obra a encontrá-lo, de camisa de noite, descalço e com a cara ensanguentada, reclamando ser o presidente da República! Outros tempos, outros costumes, a figura do presidente ainda não era conhecida do grande público (tomara posse há apenas três meses) e o empregado dos caminhos de ferro (cheminot) acompanhou-o desconfiado até à casa do encarregado da passagem de nível mais próxima onde, por volta da meia noite, foi tratado e albergado pela mulher deste. Mas foi só pelas 5 da manhã que o Prefeito da vila mais próxima (Montargis) foi alertado para o incidente. A descoberta do paradeiro do Presidente acabou quase por coincidir com a descoberta do seu desaparecimento quando o comboio chegou ao destino, pelas 7 horas da manhã.
O que acontecera a Paul Deschanel era impossível de abafar e a explicação oficial para descrever o que lhe acontecera também roçava o inverosímil: o Presidente tomara uns comprimidos para dormir que o haviam entontecido e que, quando procurara abrir uma janela para apanhar ar fresco, o haviam feito cair do comboio. Era o melhor que se podia arranjar para preservar a reputação presidencial... mas era claramente insuficiente. Os comboios não costumam ir largando passageiros pelos taludes da forma tão acidental como a da explicação. E o que já era complicado de explicar com um passageiro normal tornava-se mais difícil quando se tratava de um Presidente da República, por muito ensonado que estivesse. Os circuitos formais de formação da opinião pública podiam ser controlados (veja-se, a propósito, o tom positivo, quase casual, dado pelos cabeçalhos do Le Petit Journal do dia seguinte), mas os circuitos informais não: houve cançonetas, anedotas, caricaturas. Sussurravam-se histórias mirabolantes sobre a saúde mental do presidente. Em Setembro de 1920, sete meses depois de tomar posse, Paul Deschanel demitiu-se, pondo termo a uma situação insuportável.
Uma dúzia de anos depois, o escritor belga Georges Simenon incorporou o episódio num dos seus romances policiais protagonizados pelo Comissário Maigret: Le Fou de Bergerac. Naquele que eu considero um dos mais absurdos plot holes da sua obra, Simenon põe o seu Comissário, com uma reputação construída de fleuma e circunspecção, a saltar inexplicavelmente de um comboio atrás de um passageiro sem razão aparente. Até aí ele apenas lhe fizera uma companhia desassossegada num dos beliches da segunda classe...

28 novembro 2016

NINGUÉM ESCAPA AO CHUCK NORRIS!


AINDA AS REGRAS DE PONTUAÇÃO DO TÉNIS

Aqui há coisa de um par de semanas deixei aqui um texto comparando o sistema eleitoral associado à eleição do presidente dos Estados Unidos às regras do sistema de pontuação de jogos como o ténis ou o voleibol. Foi uma associação feita de forma ligeira, não era assunto que pudesse interessar o qualificado naipe de politólogos - e ofícios correlacionados - que existem cá na praça. Contudo, nem de propósito, a The Economist veio agora recuperar o assunto da pontuação do ténis (acima) - mas sem sombra de se vislumbrar em qualquer parágrafo do artigo uma referência que seja ao nome de Donald Trump. Pena. A conclusão é, apesar disso e só por si, extremamente interessante: se o alterarem, ao sistema de pontuação em vigor, perder-se-á muito da emoção do jogo. E talvez seja esse o segredo do que se procura nas eleições presidenciais norte-americanas: emoção até ao fim. Não são os americanos que, no basquetebol, realizam finais com 5, 6 e 7 jogos (em vez de um)? Não são os americanos que, a meio de uma corrida de automóveis mandam entrar rotineiramente o pace-car para reduzir o avanço dos carros mais rápidos? Também as eleições por lá podem não nos parecer justas, agora aborrecidas é que nunca!

27 novembro 2016

COMO É QUE SE FAZ?...

...ignora-se olimpicamente tudo o que foi prognosticado na semana anterior. Haverá quem escrutine o que se diz? E é importante que o que se diz seja fiável? Há cerca de dez anos, este mesmo fenómeno de falhar as previsões era considerado uma idiossincrasia de Marcelo Rebelo de Sousa, o objecto de troça dos Gato Fedorento, e vejam: onde é que ele está agora? Ele, Marcelo, claro. Ricardo Araújo Pereira continua nos mesmos sítios de sempre, porque prossegue outra carreira.

«THE SURPRISINGLY EASY WAY TO GET RID OF DONALD TRUMP»


Excepcionalmente por esta vez, este poste circunscreve-se àqueles que compreendam o inglês com fluência. O senhor do vídeo acima chama-se Keith Olbermann, é um comentador televisivo norte-americano e está a explicar como é fácil gerar uma conspiração que venha a substituir o presidente Donald Trump pelo seu vice-presidente Mike Pence. Mas também como é fácil ao presidente deposto gerar uma outra conspiração para regressar ao poder, depondo o vice-presidente recém-empossado. E a coisa não acaba aí... Para quem pense o quanto Olbermann está a ser imaginativo, permitam-me evocar o enredo de Crimson Tide, um filme de guerra de 1995, protagonizado por Gene Hackman e Denzel Washington (abaixo) e cujo enredo segue canonicamente as vicissitudes da descrição acima. Quem se lembrar do filme, recordar-se-á que a acção decorre num submarino nuclear equipado de misseis balísticos com ogivas atómicas e a divergência prende-se com a atitude a tomar com uma ordem de lançamento desses mísseis que acabou interrompida. Comandante (Hackman) e imediato (Washington) disputam o controle do navio a golpes de força. Neste novo enredo pós-moderno de Olbermann, a bagunça seria já na própria Casa Branca, o sítio de origem das ordens para empregar os tais mísseis... e todo o restante armamento nuclear dos Estados Unidos. Verdade que a delicadeza do tema e da função nunca impediu que na filmografia norte-americana houvesse centenas de enredos envolvendo a Casa Branca, já assisti, com Harrison Ford, a cenas de pancadaria na sala oval como se ela mais não fosse do que um saloon de formato esquisito, mas reconheça-se que a sua ocupação a sério por Donald Trump abriu um novo espaço à imaginação dos argumentistas.

SOBERANIA NACIONAL, DEMOCRACIA E INTEGRAÇÃO ECONÓMICA MUNDIAL

A formulação do problema é conhecido, parece simples e tem sido apresentado teoricamente das mais diversas formas. Há um conflito inerente entre a coexistência e a manutenção a) do figurino actual dos estados-nação, b) dos regimes democráticos (quando existem...) nesses estados e c) da sustentabilidade de um modelo económico globalizado, de circulação livre de capitais, pessoas e bens. Esta é a doutrina, mas como há uma dificuldade intrínseca em compreendê-la e discuti-la nesse estado mais rebuscado, é mais frequente que as conversas versem as suas expressões mais prosaicas e concretas. Por exemplo, o problema dos refugiados e da imigração para os países ricos; o problema dos resultados eleitorais se tornarem cada vez mais inesperados e/ou das grandes decisões políticas não serem validadas por consultas populares; ou ainda, o problema das intromissões políticas na soberania de estados (como o nosso), que não se tinham na conta de tão frágeis.

Sendo a formulação uma síntese, ela não explicará cabalmente as subtilezas dos desafios do mundo moderno, mas é um daqueles modelos político-económicos que, numa determinada conjuntura histórica, ajudará as pessoas a perceber aquilo que de importante está em jogo e, por consequência, a poder optar politicamente¹ com melhor conhecimento de causa. Porque, se os economistas estiverem certos e não podendo coexistir simultaneamente os estados-nação como os conhecemos, os regimes democráticos e a globalização, a grande - e verdadeira - opção para o futuro próximo é a de escolher de qual (ou quais) deles prescindiremos. Por mim, acima de tudo, prefiro preservar a democracia, que sempre nos permitirá colectivamente rectificar a evolução que quem nos dirige quiser dar à evolução da sociedade e, já agora, também o figurino dos estados nação, porque a sua existência resulta mais de uma vontade colectiva do que da nossa vontade individual - por exemplo, eu não me reconheço em Cristiano Ronaldo mas constato que ele é um símbolo nacional. E assim sendo, e como num jogo de cadeiras em que a música pára, a prescindir, prescinda-se da globalização. É uma opção que não é de esquerda nem de direita, responde ao problema tal qual foi formulado.

O problema dessa minha opção é o espectro da recessão económica, que os que a evocam associam a períodos sombrios de retracção da História Universal como se supõe tenha sido a longa transição da Antiguidade para os tempos medievais. As outras duas opções terão outros inconvenientes, mas não falemos aqui deles. Porém, quanto ao consequente da opção tomada e politicamente, creio que a prosperidade económica não pode ser um objectivo em si se não se atender à sua redistribuição. Foi o excesso de atenção dada a esta última (repartição) que veio a provocar o afundamento do comunismo por não haver produção. Mas será o excesso oposto - que é o que agora se verifica, mais acentuado que nunca - a prosperidade sem repartição (abaixo), uma das causas mais prováveis que poderá provocar a implosão daquele que foi o seu grande modelo rival do século XX. Só que o capitalismo só foi preferível ao comunismo por se ter mantido democrático - se o Ocidente prescindir da democracia, corre o risco de caminhar para uma sociedade como a da China.
¹ O modelo que dividia a economia em sectores (primário, secundário, terciário) é hoje arcaico, com uma agricultura a produzir industrialmente, a indústria que dependa da inclusão de mão-de-obra a ser transferida para o exterior e a esmagadora maioria da mão de obra a não ter qualquer mão na obra, a pertencer ao sector terciário dos serviços.

«WHATABOUTISMO»

Por esta minha experiência, enganam-se os que asseguram que nada se aprende frequentando as redes sociais. A morte recente de Fidel Castro foi causa para que eu aprendesse que existe uma designação para uma técnica argumentativa dos simpatizantes da esquerda não democrática com que há muito e por muitas vezes me confrontei. A habilidade designa-se (em inglês) por whataboutism que eu tomei a liberdade de aportuguesar para whataboutismo. Evidentemente é uma falácia, mas funciona assim: quando se endereçam críticas a quaisquer aspectos críticos do comunismo (e Fidel Castro tornou-se um desses aspectos...) não se faz qualquer esforço em refutar essas críticas, e passa-se directamente para a contracrítica realçando um aspecto considerado negativo das sociedades ocidentais. Daí a designação: ...e então...? É assim que é perfeitamente normal discutirmos com uma dessas pessoas o percurso controverso de Pinochet sem que, por uma vez que seja, haja uma menção a Fidel, mas é impossível que aconteça o contrário: se o tema for a controvérsia à volta de Fidel, há a certeza que aparecerá uma invocação a Pinochet (ou então a Salazar, ou a Franco, ou...). Com comunistas, é possível criticar infindavelmente Pinochet sem falar de Fidel, mas é impossível criticar Fidel sem que Pinochet seja rapidamente convocado para a conversa. É também possível falar com eles dos campos de concentração alemães por horas a fio sem que se fale do Gulag, mas não há conversa a respeito do Gulag que se sustente por mais de um minuto sem que eles não venham logo falar de Auschwitz. E até depois da Queda do Muro, os fiéis dos fiéis, não resistem a meter sempre a colherada do 11 de Setembro chileno a despropósito, quando de qualquer evocação ao norte-americano. O antídoto ao whataboutismo é simples: ignorar a tentativa de desvio da conversa, voltar ao tema central como se não tivesse existido o último trecho da conversa. A minha experiência diz-me que, numa esmagadora maioria das vezes, esse tipo de reacção precipita o fim da conversa. Mas também é um momento esclarecedor: a conversa só parecia razoável e racional, na sua flexibilidade intrínseca. Conversar com um comunista destes assuntos, costuma equivaler-se à tida com uma testemunha de jeová de outros assuntos, como o da salvação eterna... Sobretudo, e a propósito das variadíssimas análises que tenho lido à vida e obra de Fidel Castro, é sempre reconfortante descobrir-se que a linha de argumentação se trata de um fenómeno cientificamente estudado.

26 novembro 2016

O CENTENÁRIO DO TORPEDEAMENTO DO SUFFREN

Há precisamente cem anos, a 26 de Novembro de 1916, o couraçado francês Suffren e o submarino alemão U-52 cruzaram-se ao largo da costa portuguesa . O primeiro dirigia-se para Norte, para o porto francês de Lorient, depois de ter estado dois anos envolvido em operações contra os turcos nos Dardanelos. O submarino alemão vinha para Sul, discretamente (como é característico, aliás, daqueles navios), juntar-se à flotilha que os alemães estavam a constituir no Mediterrâneo, no porto de Cattaro (actualmente Kotor, Montenegro), em apoio às operações navais do seu aliado Austro-Húngaro. O encontro foi acidental, desenrolou-se rapidamente e teve um desfecho trágico.
Embora muito menor, foi o submarino de 700 toneladas e 36 tripulantes que disparou os primeiros torpedos quando ambos os navios se encontravam a cerca de 90 km das costas portuguesas, quase à Latitude de Peniche, (acima). Um dos torpedos acertou precisamente num dos paióis de munições do couraçado de quase 13.000 toneladas, causando uma explosão enorme e o afundamento do navio em menos de um minuto. O submarino alega ter procedido a buscas mas não encontrou nem um dos 648 tripulantes que faziam parte da guarnição do Suffren. Ao contrário do comandante que não sabia se devia ou não afundar o Serpa Pinto, o Capitão-Tenente Hans Walther terminou a guerra como um dos ases dos submarinos.

25 novembro 2016

A TRADIÇÃO DO 25 DE NOVEMBRO

A data tornou-se, à sua maneira, tradicional. Há o lado dos vencedores que a comemoram, mais a respectiva iconografia, Ramalho Eanes e Jaime Neves - acima uma das fotografias mais usadas para as evocações. Do lado dos vencidos há os envergonhados que, pura e simplesmente, não falam da data, e há também os desavergonhados, que falam, mas como se estivessem estado do outro lado, confiando na amnésia alheia. Mas a amnésia não parece ser fenómeno exclusivo desse lado, que fotografias do PREC há muitas mais, e muitas delas equívocas, como esta que me decidi a publicar abaixo, de um mesmo Jaime Neves com um bigode e uma pera exuberantes e de aspecto muito mais revolucionário, a ser graduado como coronel, por ocasião da sua nomeação para comandar o Regimento de Comandos (Maio de 1975). Colocando os novos galões estão (à direita) o general (graduado) Carlos Fabião (então Chefe de Estado-Maior do Exército) e o general (graduado) Otelo Saraiva de Carvalho (Comandante do Copcon), que viriam a ser dois dos maiores derrotados dos acontecimentos de 25 de Novembro.

SOBRE A «ASTROLOGIA» POLÍTICA

O último caso tem escassos dias: as sondagens das eleições primárias do centro-direita francês davam Juppé e Sarkozy como favoritos para a disputa eleitoral, quando o vencedor veio a ser, folgadamente, François Fillon. Caso mais do que justificado para Ordralfabétix ameaçar arriar com um enorme robalo nas trombas das empresas de sondagens francesas, cuja corporação mundial tem tido, aliás, um ano para esquecer pela exuberância dos erros: ele foi a galga do Brexit em Junho, complementada com a vitória de Donald Trump já nos princípios do corrente mês. Como disciplina científica, a reputação das empresas de sondagens afundou-se até a um nível equivalente ao dos consultórios da Maya ou do professor Karamba. Fosse a preocupação principal a credibilidade da indústria e esta seria uma excelente ocasião para que ela fizesse uma reavaliação de processos e um período de nojo. Porém, sintoma de que a preocupação fundamental da publicitação de sondagens não será a informação dos leitores, antes a formação da opinião dos eleitores, hoje somos brindados com uma nova sondagem (veja-se abaixo). Pode ser aquilo que eles lá dizem, mas também pode ser que a ascensão do PS se deva ao facto de António Costa ser um nativo do signo câncer, com ascendente num outro signo qualquer...

«...ELES NEM TÊM COMPETÊNCIA PARA AVALIAR (A COZINHA PORTUGUESA)»

Eu percebo as razões comerciais pelas quais os responsáveis pelo guia Michelin pretendem que se faça tanto barulho à volta da sua publicação. Eu percebo as razões comerciais pelas quais os visados - os restaurantes pontuados - pretendem que se faça tanto barulho à volta da sua publicação. O que eu não percebo é a atitude entusiástica e acrítica como as classificações são acolhidas a cada ano, com a comunicação social - e agora eminentes membros entendidos das redes sociais - a comportar-se como cachorros dando ao rabo de alegria. O critério como se processa a atribuição das estrelas é bastante discutível e em mais do que um aspecto. Abaixo pode ler-se a opinião de José Quitério a esse respeito dada numa entrevista o ano passado ao Expresso - o mesmo jornal que agora é um dos que mais embandeira em arco com as estrelas. É tortuosa a lógica neste país em que se escalpelizam todas as arbitragens do campeonato de futebol na programação televisiva do dia seguinte, mas que se verga displicentemente à avaliação dos restaurantes feita por uns espanhóis de que não há a certeza que saibam identificar devidamente uma chaputa na lota. Excepção a toda esta pantomina: o Observador. (É por estas coisa que vale a pena ler o jornal, apesar de eles serem uns reaccionários do caraças).

24 novembro 2016

O NETO DE SALAZAR

Quem ler o título desta notícia do JN descobre que, afinal, Salazar deixou descendência... Desconfio até que a descoberta da existência de um neto de Salazar será uma notícia muito mais importante do que as suas intenções vis-à-vis a câmara municipal de Santa Comba Dão. No desenvolvimento vem-se a descobrir que (oooh!) se trata afinal de um sobrinho-neto de Salazar. Noutros jornais percebe-se o parentesco correcto logo desde o princípio. Em simultâneo com a multiplicação dos tios e das tias, será que o JN procura agora criar a moda da ablação da referência a sobrinhos? Ou, como diria a Teresa Guilherme, sob graus de parentesco e frescuras em geral, isso agora... não interessa nada!?

O FUMO QUE PARECE SAIR-LHES PELO CU

A forma como podemos sintetizar um qualquer momento político depende sempre da perspectiva (e da simpatia) dos média. Olhando para estas duas fotografias e, se lhes tivesse que dar um título associado a uma figura da actualidade, à da cegonha que parece propulsionada a jacto chamar-lhe-ia António Costa, enquanto que ao senhor que parece estar nuns blocos de partida para um sprint, mas que já terá gasto muitas energias antes do tiro de partida, a evocação apropriada seria Donald Trump...

23 novembro 2016

OS DOIS SECRETÁRIOS GERAIS

A Roménia, especialmente depois da ascensão ao poder de Nicolae Ceausescu em 1965, dedicou uma atenção especial, quiçá por afinidade, às relações com os partidos comunistas da Europa Latina, especialmente com os dois partidos ibéricos, ambos clandestinos. O cumprimento dos dois secretários-gerais nesta fotografia acima tem cinquenta anos (11 de Novembro de 1966). Nicolae Ceausescu pelo PCR e Álvaro Cunhal pelo PCP. A estética é rigorosa no respeito pela ortodoxia da igualdade entre os dois partidos irmãos. Mas a deferência de Ceausescu não podia contornar o facto de que a fotografia fora tirada em Bucareste e, naquela época, era impossível fazê-la em Lisboa. Uma coisa era um partido comunista no poder como o romeno e outros; outra, um partido comunista legal numa democracia como o italiano e o francês; e outra ainda um partido comunista ilegalizado numa ditadura, como o português e o espanhol.

A SAGA DO PAQUETE SERPA PINTO

Ao contrário do Quanza de que se falou mais abaixo, o Serpa Pinto já era um navio veterano quando passou a navegar com bandeira portuguesa. Construído em 1915, originalmente para um armador britânico, a Primeira Guerra Mundial fizera com que ele fosse requisitado pela Royal Navy durante o conflito; depois fora devolvido ao proprietário que o explorara até o revender em 1935, por causa da crise mundial, a um armador jugoslavo. Em 1940, reagindo à escassez de transporte marítimo desencadeada pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, o navio que se chamara até então Ebro e Princesa Olga acabou sendo comprado por uma companhia portuguesa, a Companhia Colonial de Navegação (CCN) - não a confundir com a sua grande rival, a Companhia Nacional de Navegação (CNN), que era a proprietária do Quanza. O navio deslocava 8.267 toneladas, tinha 142,5 metros de comprimento e 17 de largura máxima, e podia atingir uma velocidade máxima de 15,5 nós. À sua chegada a Portugal, além do novo nome e da aposição da pintura de guerra, que tornava o navio e a sua nacionalidade identificáveis a grande distância (veja-se a fotografia acima), o navio sofreu algumas transformações em termos de alojamento: passou a ter capacidade para transportar 329 passageiros nas três classes tradicionais, para além do acrescento de uma classe suplementar nas cobertas para 375 passageiros adicionais.
Sendo duas das três únicas companhias que podiam fornecer serviços de transporte marítimo regular sob uma bandeira neutral durante a Segunda Guerra Mundial (a terceira companhia era espanhola), a concorrência entre Colonial (CCN) e Nacional (CNN) tornou-se acesa porque o mercado era muito lucrativo apesar da guerra. Na Linha da América (do Norte) o Serpa Pinto podia ser considerado a resposta da CCN à CNN e a navios como o Quanza. Daí aquela adição de 375 passageiros para a classe popular, viajando nas cobertas, a fazer recordar as cenas do filme O Imigrante de Charlie Chaplin. Em Maio de 1944, quando do anúncio acima da próxima partida dia 15 do Serpa Pinto para o porto de Filadélfia, o passageiro-tipo já não era o mesmo passageiro de ascendência judaica e das mais variadas proveniências, abastado mas indocumentado, que protagonizara a saga do Quanza no Verão de 1940. Continuava a predominar o cosmopolitismo - no Serpa Pinto chegou-se a registar a presença simultânea de passageiros de 42 nacionalidades diferentes! - e a ascendência judaica mas a selecção fazia-se agora pelo engenho e perseverança de quem conseguira fugira às malhas que cercavam o continente europeu, quase totalmente ocupado pela Alemanha. Mas aquilo que aconteceu ao Serpa Pinto em 26 de Maio de 1944, durante a viagem acima anunciada, demonstrava que a travessia do Atlântico nem sempre era isenta de vicissitudes.
Sala de Jantar e Bar da 1ª Classe
O Serpa Pinto saíra de Lisboa a 15 de Maio com 385 passageiros. Próximo da meia noite de 26 de Maio, quando se encontrava a cerca de 600 milhas a Leste das Bermudas foi interceptado por um submarino alemão, o U-541. Após o exame da documentação do navio, o imediato do Serpa Pinto, que a apresentara, foi feito refém a bordo do submarino, enquanto o comandante deste informava o capitão Américo dos Santos da sua intenção de torpedear o navio português. Era-lhe dada ordem de abandonar o navio com passageiros e tripulação no prazo de vinte minutos. Felizmente o mar estava calmo, e a operação de transferência das mais de 500 pessoas do navio para as baleeiras processaram-se sem incidentes graves, mas foi nessa fase que se registaram as três vítimas mortais do incidente: o médico de bordo, que acabou (paradoxalmente) por falecer vítima de crise cardíaca; um membro da tripulação, um cozinheiro português, que se terá atirado (ou caído) ao mar para nunca mais ser visto; e um passageiro, uma criança polaca de alguns meses de idade que desapareceu da vigilância dos pais nas circunstâncias confusas do embarque nocturno.
O navio foi abandonado à deriva, sem ninguém, durante horas, enquanto tripulação e passageiros aguardavam expectantes que fosse torpedeado de um momento para o outro. Próximo da alvorada, o comandante do Serpa Pinto, Américo dos Santos, foi levado a bordo do U-541 onde o respectivo comandante, o Capitão-Tenente Kurt Petersen (abaixo), o informou que aguardava instruções de Paris (cidade onde estava localizado o QG da arma de submarinos da Kriegsmarine) a confirmar a autorização para o torpedeamento. Petersen deveria estar compenetrado e ansioso: afinal seria o seu primeiro afundamento, e logo de um paquete de 8.000 toneladas! Mas a resposta que acabou por chegar às oito da manhã era afinal negativa. Por muito que isso enriquecesse o palmarés de Petersen, algum Almirante mais avisado terá temido que o afundamento de um navio daquelas dimensões de um país neutral, naquelas circunstâncias, arriscar-se-ia a ser excessivamente contraproducente para o valor militar da presa. Recorde-se que, desconhecido dos intervenientes, o desembarque da Normandia teria lugar dali por dias, a 6 de Junho de 1944. Sem ressentimentos, procedeu-se ao reembarque dos passageiros e tripulantes e o Serpa Pinto lá prosseguiu a viagem até Filadélfia, sem mais incidentes.
O Serpa Pinto continuou ao serviço nas rotas da América da CCN até 1954. Kurt Petersen conseguiu finalmente afundar o seu navio em 3 de Setembro de 1944 ao largo do Canadá: o cargueiro britânico Livingstone, de 2.000 toneladas. Morreu em 2010 com a provecta idade de 93 anos. E não me surpreenderia nada que Petersen tenha morrido convicto que os passageiros e tripulantes do Serpa Pinto e os portugueses em geral lhe deviam agradecer a magnanimidade de que deu provas. É aquele muro de incompreensão basal que nos separará dele, de pessoas como Wolfgang Schäuble e de uma apreciável percentagem de alemães...

22 novembro 2016

O CONGRESSO DOS GDUPs

A 22 de Novembro de 1976, cumprem-se hoje precisamente 40 anos, tinha lugar o I Congresso dos GDUPs. Os GDUPs foram uma tentativa de amalgamar (quase) todas as formações da extrema-esquerda fora da órbita do PCP à volta da figura de Otelo Saraiva de Carvalho, aproveitando a dinâmica das eleições presidenciais que tinham tido lugar em Junho daquele mesmo ano, onde o major tinha alcançado um resultado que fora mais do dobro do obtido pelo candidato oficial e canónico dos comunistas (Octávio Pato). O slogan era Unidade Popular e o objectivo político mais próximo eram as primeiras eleições autárquicas que iriam ter lugar no mês seguinte. O mais engraçado, contudo, é ler as notícias da época (abaixo) o nome de proeminentes figuras da organização que hoje são paradigmas da moderação política (ou talvez um pouco mais do que isso...), casos (por exemplo) de Luís Salgado de Matos ou de Jorge Almeida Fernandes. Para o que à História interessará, os GDUPs recolherão 2,5% dos votos nas eleições autárquicas de Dezembro, a uma grande distância (17,2%) da coligação comunista (FEPU). O projecto terá que esperar outros 20 anos e a formação do Bloco de Esquerda. Mas o que pessoalmente haverá a ressalvar é como estas visitas ao passado, relembram um país que hoje nos parece ter sido outro.

A SAGA DO PAQUETE QUANZA

O Quanza foi um navio de passageiros (um paquete, com então se designavam tais navios) que foi construído em 1928/9 em Hamburgo, na Alemanha, nos estaleiros da Blohm & Voss ao abrigo das reparações de guerra concedidas a Portugal pelo Tratado de Versalhes. O navio, destinado à Companhia Nacional de Navegação (CNN) recebeu originalmente o nome de Portugal, como se verifica na quilha da fotografia acima, tirada ainda em águas alemãs, mas, como já existia um outro navio português registado com aquele nome, a proprietária foi forçada a alterá-lo para Quanza, em alusão ao rio angolano. Caracterizava-o as 6.657 toneladas de arqueação bruta, os 133,5 metros de comprimento e 16 de largura. Tinha capacidade para acomodar até 429 passageiros nas três classes que oferecia. Podia atingir uma velocidade máxima de 13 nós e meio. Os seus motores funcionavam a carvão. O navio estava vocacionado para operar nas rotas de África: a sua viagem inaugural, com a saída de Lisboa em 20 de Outubro de 1929, teve apropriadamente como destino Angola. Muitas outras se seguiriam.
Mas, aquela que porventura será a viagem mais interessante da sua existência, ocorreu durante a maturidade do Quanza, em Agosto e Setembro de 1940. E, para a contar, vale a pena recordar o que acontecera nos meses anteriores: a partir de 10 de Maio desse ano, a Alemanha invadira a Bélgica, o Luxemburgo, os Países Baixos e, posteriormente, a França. Os exércitos alemães empurraram à sua frente uma torrente de refugiados – muitos deles judeus – que, por receio do comportamento das autoridades alemãs, tinham acabado – aqueles mais persistentes mas que que tiveram também mais sorte... – sendo escorraçados até Portugal. Por isso, naquele Verão de 1940, a cidade de Lisboa fervilhava com muitos milhares de refugiados, normalmente abonados e fugidos à guerra, temerosos que as vicissitudes da Guerra também se estendessem proximamente à Península Ibérica e ansiosos de colocar todo um Oceano (Atlântico) entre eles e essa eventualidade.
Por causa dessa procura de segurança e do mercado representado por esse novo género de clientela, a CNN acabou por deslocar naquela altura uma das unidades da sua frota, o Quanza, das rotas tradicionais de África (e também da América do Sul) para destinos menos concorridos na América do Norte. O anúncio acima, publicado nos primeiros dias de Agosto no Diário de Lisboa, é um exemplo disso e publicitava a saída do Quanza no dia 9 de Agosto com destino a Nova Iorque e à cidade de Vera Cruz no México. O navio saiu de Lisboa com 317 passageiros. Entre eles o casal de actores franceses Marcel Dalio (que era judeu) e Madeleine Lebeau (que reconheceremos em 1942 a cantar A Marselhesa em lágrimas numa famosa cena de Casablanca). Outros eram ainda menos conhecidos. Uma percentagem deles (que nunca veio a ser contabilizada) deveria a sua presença a bordo aos (hoje) famosos vistos emitidos em Bordéus pelo nosso cônsul Aristides de Sousa Mendes.
Tombadilho e Salão de Música da 1ª Classe
Aliás, a autenticidade de alguns dos vistos com que alguns dos passageiros pretendiam desembarcar no novo Mundo era ainda mais duvidosa. Tanto isso era sabido que a própria Companhia Nacional de Navegação insistira em muitos casos que os passageiros comprassem também bilhetes de regresso, para a eventualidade de eles não receberem autorização de desembarque num dos portos de destino. O Quanza chegou a Nova Iorque a 19 de Agosto de 1940. Houve 196 passageiros a quem foi permitido desembarcar – incluindo 66 que eram cidadãos norte-americanos. Mas aos restantes 121 foi-lhes negada a autorização. O navio seguiu depois para Vera Cruz, como estava previsto, onde chegou a 30 de Agosto. Aí, as autoridades mexicanas autorizaram o desembarque a 35 outros passageiros entre os quais Dalio e Lebeau (onde vieram a descobrir que os vistos chilenos que haviam obtido em Lisboa eram falsos - mas essa é toda uma outra história...). Restavam ainda 86 passageiros a bordo, que na sua maioria eram judeus belgas, muitos deles de Antuérpia onde sempre existira uma importante comunidade judaica ligada ao comércio e lapidação de diamantes. E que ficaram naturalmente desesperados com a perspectiva de ter de regressar à Europa.
Sala de Jantar e Salão de Fumo da 1ª Classe
Não se tem registo de que tivesse havido passageiros que tivessem embarcado no México para a viagem de retorno. Mas antes dela e vindo de Vera Cruz, o Quanza teve que fazer uma escala técnica no porto de Norfolk na Virgínia, outra vez nos Estados Unidos, para se reabastecer de carvão. Foi aí que Jacob Morewitz, um advogado marítimo judeu, se lembrou do expediente de intentar uma acção judicial em nome de quatro dos passageiros ainda a bordo (a abastada família Rand, de origem polaca), visando a CNN por incumprimento contratual de os não ter levado até Vera Cruz(...). Os procedimentos judiciais seguraram o Quanza no porto. A ideia era ganhar tempo. Nesse compasso de espera, um dos passageiros a bordo atirou-se à água e nadou até atingir terra. As autoridades portuárias rapidamente capturaram o fugitivo e o ambiente a bordo agravou-se com o incidente, pois o capitão Alberto Harberts foi forçado a colocar homens armados nos deques para que o gesto não se repetisse.
Salas de Jantar da 2ª e da 3ª Classes
Mas enquanto isso, o lóbi judaico nos Estados Unidos movimentou-se eficazmente para chamar a atenção para o drama daqueles 86 refugiados. Conseguiram alcançar Eleanor Roosevelt, a primeira-dama, e, por inerência, o próprio presidente Franklin D. Roosevelt. Este despachou um funcionário do Departamento de Estado para se inteirar do caso, Patrick Murphy Malin, um funcionário que acompanhara a situação dos refugiados da Guerra Civil de Espanha e que era, desde aí, conhecido pelas suas posições simpáticas para com as causas dos refugiados. Mandatado para investigar o incidente, Malin não tardou a conceder o estatuto de refugiado político aos 86 passageiros que ainda viajavam no Quanza. Com isso todos poderiam desembarcar, o que aconteceu a 14 de Setembro de 1940. Ironicamente, houve 6 refugiados que não quiseram aproveitar essa oportunidade e preferiram, depois de tudo, regressar a Portugal.
Não fosse o evidente patrocínio presidencial e o gesto generoso de Malin tê-lo-ia feito sofrer consequências negativas na sua carreira, porque a política oficial de acolhimento dos Estados Unidos por aqueles anos era a oposta da que ele praticou. Mas, pelo preço de 80 admissões suplementares, evitou-se que o caso viesse a assumir proporções desagradáveis junto da opinião pública norte-americana. Tanto mais que se aproximavam as eleições presidenciais, dali por dois meses. O Quanza acabou por ser o veículo essencial de todo este relativamente desconhecido episódio. O paquete voltou às suas tradicionais e menos acidentadas viagens da carreira de África até Junho de 1968, tendo estado afecto nos últimos anos da sua existência ao transporte de tropas. Na sua última viagem transportou elementos do Batalhão de Cavalaria 1884 de regresso de Angola. Consta que, depois de quase 40 anos de bons e leais serviços à Patria, viajar no Quanza era uma viagem inolvidável.
Fotografias recolhidas de Paquetes Portugueses de Luís Miguel Correia, Ed. Inapa, Lisboa 1992

21 novembro 2016

«- PLAY IT AGAIN, SAM»

Ontem realizaram-se umas eleições primárias em França para se seleccionar quem será o candidato mais bem colocado para disputar o papel que era o do capitão Renault em Casablanca. Em contraste e no mesmo dia, na Alemanha, houve apenas uma manifestação de disponibilidade da parte de quem se apresta a continuar a desempenhar, muito provavelmente, o papel de major Straßer.

OS PRIMÓRDIOS DA POLÍTICA PÓS-FACTUAL

Muhammad Saeed al-Sahaf, que se tornou mundialmente conhecido pelas alcunhas de Ali o Cómico ou então de Baghdad Bob, foi o ministro da informação do regime de Saddam Hussein. Não sofresse ele a discriminação de ser iraquiano e estaria agora a ser reconhecido como um dos pioneiros da política pós-factual. Foi azar o dele que os factos que lhe pediram para cultivar na percepção pública pudessem ser infirmados com a presença de alguns carros de combate e outra parafernália bélica. Devia-se ter ficado apenas pela promessa de que Saddam iria fazer o Iraque great, again...

A CRUZ

Há cinquenta anos Ernst Haas expunha esta outra perspectiva de um cruzamento de avenidas largas no centro de uma grande metrópole (A Cruz - 1966).

20 novembro 2016

O CRESCIMENTO ECONÓMICO E OUTROS INDICADORES QUE ANIMAM A COMUNICAÇÃO POLÍTICA

Uma boa parte da festa político-mediática desta semana foi feita à conta do crescimento surpreendente da economia portuguesa neste último trimestre (1,6%).
Para que as celebrações pudessem ser melhores, foi preciso esquecer quais haviam sido os objectivos governamentais estabelecidos no princípio do ano (2,1%).
Isso e também não mencionar quaisquer valores embaraçosos de outras recuperações económicas, como é, por exemplo, o caso da economia islandesa (5%)
Mas argumentar com factos seria conferir ao debate uma indesejável seriedade, nesta era política pós-factual. Se um dos indicadores já não presta para argumento, que é que se faz? Arranja-se outro...