30 abril 2016

«QUÁSI...» de SÁ CARNEIRO (o Mário)

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

A 26 de Abril de 1916 (completou-se o centenário há poucos dias) Mário de Sá Carneiro suicidava-se em Paris. E, por uma tortuosa associação de ideias, lembrei-me destes primeiros versos do seu poema mais conhecido quando comecei a ler o princípio da crónica desta semana de José Pacheco Pereira. É que a crónica também estará quase, porque estão lá as referências, o Papa e o MRPP, ele próprio, Manuela Ferreira Leite e José Eduardo Martins, Bagão Félix e Ana Avoila, o que lhe lá falta - e faz muita falta - é a identificação dos referenciadores, os tais poucos que, na sua opinião, passam por muitos porque se multiplicam quotidianamente. Quem são? Serão os activistas disfarçados de jornalistas institucionais como a Helena Matos e o José Manuel Fernandes? Ou os disfarçados de jornalistas travessos como o Rodrigo Moita de Deus e o Paulo Pinto de Mascarenhas? Ou os que não estão disfarçados de jornalistas, são só institucionais, como o João Carlos Espada e o Jaime Gama? Faltando nomeá-los, pelo menos aos nomes principais, quiçá para preservação do seu estatuto sobranceiro de opinador, perde-se muito da limpidez de toda a cena, é como se lhe faltasse o golpe d'asa a que acima se refere Sá Carneiro...

...QUEM?

Durante quase todo o Século XX foi objectivo das sociedade ocidentais promover a universalização do acesso ao ensino, alcançar taxas de alfabetização de 100%. Os problemas foram as ilusões que se geraram por causa disso. Parecia que quando aquele objectivo fosse alcançado se encontraria o mítico local onde o arco-íris toca a terra, e que, alcançando-o, nos tornaríamos numa sociedade mais educada, mais culta, mais esclarecida e mais participativa. Os anos foram correndo, os indicadores de frequência do sistema escolar melhorando cada vez mais, mas os ganhos que daí resultavam eram marginalmente cada vez menores. Tentando explicar o fenómeno, descobriram-se novos conceitos de analfabetismo: o analfabetismo funcional de quem havia aprendido mas que já esquecera aquilo que havia aprendido. Porque a maior parte do que essas pessoas aprenderam não lhes servia para o quotidiano e não lhes parecia importante reter. Passe a ironia, há toda uma utilidade prática corrente em saber os nomes do alinhamento da equipa de futebol do Benfica ou então o nome das personagens da telenovela em curso, que não há em saber quem poderá ter sido Salazar.

Veja-se este conjunto de entrevistas feitas há já uns vinte anos e que deverá ter sido realizado em data próxima ao 25 de Abril, onde o tema é, precisamente, a História recente de Portugal. Por muito que a montagem tenha sido feita propositadamente para acirrar o efeito da ignorância e apesar de os entrevistados acumularem os anos de escolaridade de que as gerações anteriores nunca puderam usufruir, a ignorância que se pode apreciar do resultado é inaceitável e o que talvez mais impressionará nela é a descontração como alguns dos entrevistados a exibem. O requinte da humilhação é o entrevistado chinês que, mesmo dominando mal a língua, parece ser dos únicos a saber o que acontecera a Salazar. Mas, se podemos detectar alguma linha de tendência na evolução social, creio que ela poderá ser identificada pelo conteúdo deste último bilhete, onde se constata como parece haver desde então uma crescente desresponsabilização dos destinatários da alfabetização. A feitura dos trabalhos de casa - que, pelos vistos, são facultativos... - parece incomodar muito mais a desgraçada da encarregada da Tatiana do que a própria. Que género de cidadã será a Tatiana? É um problema que não se resolve com a mudança do nome do cartão. Mais: nem sequer a mudança do nome do cartão contribuirá um avo que seja para a sua solução.

29 abril 2016

O COSMÓDROMO DE VOSTOCHNY


Foi com pompa e a presença de Vladimir Putin que 25 anos depois da extinção da União Soviética, a Rússia inaugurou finalmente o seu cosmódromo de Vostochny (vídeo acima) que se destinará a substituir progressivamente o histórico cosmódromo de Baikonur. A transferência irá implicar uma extensa viagem para Leste de quase 5.000 km da indústria espacial russa mas o novo cosmódromo terá as vantagens de estar implantado em território russo - o que não era o caso de Baikonur, que se localizava no Cazaquistão - e de servir de polo de desenvolvimento na região do Extremo Oriente, onde, por causa das baixas densidades populacionais, persiste uma surda disputa entre russos e chineses. É que naquelas paragens, o aquecimento global do clima, funciona a favor da sua crescente atractibilidade...

COMO UMA CONVERSA DE PUTAS

A lógica da argumentação como se tem defendido preventivamente os potenciais implicados pelos The Panama Papers é engraçada: a evasão fiscal não é condenável só por si, só o é se os capitais evadidos tiverem sido obtidos de forma ilícita - o que tentará desculpabilizar os titulares do dinheiro velho que vierem a aparecer nas listas. E dizem-se mais coisas: a prática já vem de há muito, desde os anos 70 do século passado, ou então que é muito difícil pôr-lhe cobro, porque seria preciso uma autoridade mundial para o fazer. Vindo de quem vem, pessoas de formação liberal que normalmente são pessoas de irrepreensíveis padrões morais em tantos outros aspectos sociais, estes argumentos parecem-me, considerada a amoralidade para onde pretendem remeter a prática da evasão fiscal, perdoe-se-me a franqueza, uma conversa de putas. É que, a propósito delas, e do que não é incomum ouvir a esse mesmo grupo de pessoas em público, e justapondo este caso dos The Panama Papers (que tanto prometeram, mas que já começaram a cansar a audiência ainda antes de revelarem algo de substantivo) com conhecidos e famosos casos de costumes (abaixo), não me recordo de que a revelação da clientela dos bordéis de luxo - por exemplo - fosse temperada antecipadamente pelos activistas da amoralidade fiscal com um alerta para que a prostituição é prática antiga (é aliás conhecida como a mais antiga profissão do mundo), ou para que houvesse uma distinção entre os clientes solteiros dos outros que as frequentassem sendo casados ou comprometidos, porque só esses é que seriam passíveis de condenação. Começo a achar que este liberalismo do século XXI está a revelar-se tão dialéctico quanto o comunismo do século XX.

28 abril 2016

LEMBRANÇAS DO MARXISMO-GROUCHISMO: O ÚLTIMO A SAIR DO MES QUE APAGUE A LUZ

Na sua edição de 5 de Maio de 1976 o Diário de Lisboa concedia todo este espaço abaixo para que o Comité Central do MES (Movimento da Esquerda Socialista) fizesse a sua análise dos resultados das eleições que haviam tido lugar a 25 de Abril. Quanto aos alcançados pelo próprio MES, a que a análise, um pouco paradoxalmente, não se refere, adiante-se que haviam sido maus: a organização perdera quase metade dos já poucos votos que recebera em 1975 (58.000, nenhum deputado); agora ficara-se pelos 31.000 equivalente a 0,6%. Mesmo assim, era o género de organização que concitava uma tal simpatia da imprensa que esta lhes concedia um espaço desmesurado quando avaliado em comparação com a expressão eleitoral que acabara de mostrar. A comparar com os tempos actuais, as simpatias entre a opinião publicada e os correspondentes fracos resultados alcançados nas urnas, o MES seria o equivalente de há quarenta anos daquilo que agora é o Livre. A linguagem actual do Livre, porém, é apenas uma pasteurização do que era a linguagem vernácula do MES original:
«A democracia burguesa não tem viabilidade em Portugal e a médio prazo as reais alternativas de classe, regime autoritário fascizante ou caminho para o socialismo voltarão a colocar-se claramente» - lê-se num texto da Comissão Política do Comité Central do MES sobre os resultados das eleições legislativas e sobre a política actual. Sobre o resultado das eleições «A direita foi derrotada claramente» - diz o texto.
O povo votou contra o fascismo. Mas isso não significa que a esquerda tenha triunfado como demagogicamente têm proclamado todas as forças reformistas. Nem tão pouco significa que a ameaça fascista tenha sido varrida. Com efeito, não será na Assembleia da República que o fascismo será derrotado. Sobre a situação política actual e ainda em relação aos resultados eleitorais: ele «mostra-nos – diz-nos a organização – que a ameaça fascista se mantém e aponta-nos o caminho do fortalecimento da organização da resistência popular e do reforço da unidade da classe operária e do povo, pela retomada da ofensiva do Poder Popular a caminho de uma sociedade nova: socialista e independente.»
O MES analisa as votações obtidas pelos diversos partidos, começando por aqueles a que chama «partidos fascistas e fascizantes» (CDS, PPD, PDC, PPM, AOC e PCP (m-l)). «A expressão eleitoral dos partidos fascistas e fascizantes, apesar de ter ficado longe da expectativa da direita que esperava tirar mais proveito eleitoral da histeria anticomunista e dos erros dos sucessivos governos provisórios de conciliação, dá-nos razão quando apontamos que a alternativa burguesa para Portugal é o fascismo, adaptado aos nossos dias, isto é, um regime fortemente autoritário com alguma fachada democrática. Dá razão às forças da esquerda revolucionária quando «apontam como inimigo principal a combater a ofensiva burguesa e o avanço da direita. Apesar da bazófia eleitoral de Sá Carneiro e Freitas do Amaral ter sido desmentida pelos números que expressam uma afirmação de repúdio popular da opção fascista, confirmam as nossas posições de combate intransigente pela unidade dos revolucionários, da classe operária e do povo, no terreno fundamental da luta de massas, única condição para enfrentar com êxito a ameaça real do fascismo. Apontam-nos o caminho da construção de uma frente antifascista e anticapitalista.»
Sobre os resultados obtidos pelo PS: «os resultados obtidos pelo PS, apesar das suas perdas relativas, expressam um muito importante peso eleitoral que se explica pela influência que ainda mantém na pequena burguesia que, não tendo sido hegemonizada pela classe operária na fase da ofensiva popular de massas antes do 25 de Novembro, também não aderiu à alternativa fascizante (...) posições oscilantes que, no entanto, só temporariamente poderão ser recolhidas pelas forças democráticas e por uma política de conciliação como a do PS.»
Quanto ao PCP: «O reforço relativo da votação PCP reflecte a influência reformista sobre as massas populares. Apenas conseguindo recolher significativamente votos do MDP/CDE no sul e provavelmente votos do PS também no sul.»
O MES acusa o PCP de ter (...) a expressão eleitoral da esquerda revolucionária através da campanha do «voto útil» e da «maioria de esquerda».
Enfim, «a crise política permanece em aberto», sustenta a organização. «A situação política criada depois destas eleições deixa em aberto a crise na medida em que o novo quadro em que ela se desenrola torna o golpe fascista ou da extrema direita inviável a curto prazo, ao mesmo tempo que não criou as condições para que qualquer partido imponha as suas soluções aos outros.»
Oculto por detrás deste texto onde já se notam ligeiras inflexões ao patois marxista-leninista tradicional - um implícito reconhecimento pelo veredicto das urnas, por exemplo - intui-se como as cabeças dos militantes mais vanguardistas do MES já haviam começado a reavaliar a situação e a concluir só para si que afinal a democracia burguesa era muito bem capaz de vir a ter viabilidade em Portugal. E como as suas próprias carreiras políticas e profissionais não poderiam ficar amarradas àqueles mesmos disparates pelos quais se haviam notabilizado até então. Entre os percursos do elenco de dezenas de ex-militantes distintos de que o MES se pode orgulhar, 1976 é o primeiro ano de um período fluído em que é difícil precisar de todos os militantes, quem já se viera embora, quem e quando só estava a pensar fazê-lo em breve e quem continuava ainda por lá, numa certa certeza fatal , a de que seriam os últimos aqueles que iriam apagar a luz... Eles não sabiam então, mesmo os intelectualmente mais sólidos, mas, de todos os marxismos, o marxismo-grouchismo era a doutrina política mais implacável capaz de explicar as ambições das massas militantes do MES.

«OBER OST»

Sob o nome de Ober Ost, formou-se a partir de 1915, uma estrutura administrativa dos territórios que haviam sido conquistados e estavam ocupados pelo exército alemão na frente oriental. Ocupando as terras imediatamente adjacentes à Prússia e ocupando também as costas do Báltico, o Ober Ost, conforme os mapas que se exibem, tinha uma extensão total de 108.800 km² (20% da Alemanha) e, de acordo com o último recenseamento que fora efectuado pelo poder imperial russo em 1897, uma população cifrada em 2.900.000 habitantes. Mas muito heterogénea, tanto na composição como também na forma como se distribuía: havia uma área central onde predominavam os lituanos (34% da população), outra onde predominavam os bielorrussos (21%) a sul e noutra ainda os letões (10,5%) a norte, mas os judeus (13,5%), os polacos (12%) e os russos (6%) estavam disseminados por toda a parte, sobretudo nas cidades. A sua capital, que era a localização do Quartel-General alemão para a Frente Leste era a cidade de Kaunas. De acordo com as leis internacionais e as práticas da época, os territórios conquistados seriam para ser administrados pelas autoridades civis pré-existentes durante o período que durasse a ocupação militar. O status quo político só poderia ser alterado depois da guerra. Porém, naquele caso, as autoridades imperiais russas também haviam fugido à frente dos exércitos alemães, cumprindo as instruções de Petrogrado de criar aos invasores a tradicional política russa de terra queimada diante de um invasor. Os militares alemães foram assim sugados para aquele vácuo administrativo e tiveram que assegurar muitos aspectos triviais do quotidiano para o prosseguimento das suas operações. Não sendo assim uma criação deliberada dos alemães – o regime em vigor na mesma época na Bélgica também ocupada era diferente deste, por exemplo – o Ober Ost tornou-se, apesar disso, no mais famoso sistema de ocupação militar a que se assistiu durante a Primeira Guerra Mundial. E isso porque, como veremos adiante, configurou um claro antecedente aos métodos brutais que os mesmos alemães viriam a assumir no Leste da Europa na Segunda Guerra Mundial.
A figura dominante desse estado militar de Ober Ost foi Erich Ludendorff (acima), a sua pessoa mas também o seu pensamento político-militar, que depois se viria a impor em toda a Alemanha nos dois anos finais do conflito (de 1916 a 1918). Como se fosse uma adaptação ao século XX do trabalho dos cavaleiros teutónicos que haviam colonizado a Prússia, Ludendorff descrevia esta sua tarefa como uma obra de civilização que iria beneficiar o exército, a Alemanha mas também o próprio país e os seus habitantes – atente-se à ordem como os factores são nomeados... Os oficiais de Ludendorff tornaram-se vítimas da sua própria propaganda e concebiam-se como paladinos da civilização e da cultura. Ober Ost estava destinada a ser uma colónia adjacente ao Reich, um estado tampão onde se fixariam os alemães vindos da Rússia depois da vitória. A engenharia militar, por exemplo, não só reerguera as diversas pontes destruídas pelos russos à retirada como até construíra outras, 434 no total, incluindo uma extensíssima cruzando o rio Bug na província meridional de Bialystok. Outros investimentos foram feitos directamente nos sectores produtivos, conservas, lacticínios, serrações, carpintarias para aproveitar a rica cobertura florestal do sul do país. Também a educação, pelo menos a dos níveis mais elementares, não foi descurada: sob o regime militar o número de escolas primárias duplicou para mais de 1.350. O problema era o que esta utopia custava, e não apenas em custos materiais, aos habitantes locais, para quem tudo aquilo não estava a ser construído. Naquilo que seria um híbrido entre uma Constituição local e uma Ordem de Serviço de uma unidade militar, deixava-se isso claro a 7 de Junho de 1916 quandos e escrevia que os interesses do exército e do Reich alemão se sobreporão sempre aos do território ocupado. Como uma qualquer colónia de África, a menor preocupação dos militares alemães era captar a simpatia das populações submetidas...
Considerações várias, algumas delas pertinentes, levaram as autoridades a restringir completamente a circulação das pessoas. Havia barreiras para o exterior mas também as havia internas, separando as várias províncias, tornando os passes obrigatórios para a mais ínfima deslocação. Com uma meticulosidade alemã, todo o país foi submetido a um registo de pessoas – um cartão de identificação para os maiores de 10 anos – e de propriedades – um cadastro como as autoridades russas nunca haviam elaborado. O regime tributário tornou-se opressivo, não apenas através dos impostos directos sobre as pessoas, os imóveis ou os lucros, mas sobretudo via impostos indirectos, cobrados através de monopólios estatais em produtos como os cigarros, bebidas alcoólicas, cerveja, sal, açúcar, sacarina e fósforos. E o rigor alemão dava uma outra eficácia fiscal a documentos como licenças de pesca ou a autorizações - muito contestadas - para a posse de cães. Mas a exigência das autoridades militares de Ober Ost que era pior suportada pelas populações locais fora m as corveias que lhes começaram a ser impostas a partir de Janeiro de 1916. Muitos milhares foram assim recrutados para trabalhar nos projectos alemães de construção de novas estradas, vias férreas e linhas telegráficas, em que os empreendimentos saíam a um preço de saldo – os trabalhadores não eram remunerados... Os judeus, como grupo predominantemente urbano, sem trabalhar nas áreas que os alemães reputavam de sensíveis (como a agricultura), foram desproporcionadamente afectados por essa mobilização para os Z.A.B. – Zivil Arbeiter Batallionen (batalhões de trabalhadores civis). Só na província da Lituânia, estima-se que 130.000 homens e mulheres foram recrutados dessa maneira. Não se sabe o número de mortes mas sabe-se o de execuções: 1.000 - mais uma vez: apenas nessa província. As condições eram horríveis, a alimentação má e escassa (250 gramas de pão/dia), os alojamentos estavam rodeados por arame farpado, as sanções por mau comportamento eram frequentes e envolviam agressões físicas, e os prisioneiros – pois não passavam disso – raramente conseguiam contactar com as suas famílias. As taxas de deserções e, sobretudo, de mortalidade eram impressionantes.
Em Agosto de 1916, porque a dupla Hindenburg/Ludendorff foi chamada a Berlim para assumir a direcção estratégica do esforço de guerra alemão, o Ober Ost passou a ser dirigido por uma figura decorativa e mais amena do que o fora o austero Ludendorff, o príncipe Leopoldo da Baviera (acima), um velhote de 70 anos (acima). Ainda bem para os alemães porque um dos efeitos colaterais da Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia, e da consequente capacidade de atracção que ela produziu entre as populações locais, foi que obrigou os alemães a terminar com as práticas mais criticáveis, dissolvendo, por exemplo, embora apenas na teoria, os ZAB em Setembro de 1917. Claro que sob outro nome acabou por quase nada mudar, porque o investimento nas infra-estruturas do Ober Ost, agora numa perspectiva de vitória, parecia ser cada vez mais importante para os alemães para poder ser cancelado. O problema é que as duas revoluções russas de 1917 - a de Fevereiro, derrubando o czar, e a de Outubro que levou os bolcheviques ao poder - haviam criado uma dinâmica independentista entre as várias nacionalidades que anteriormente haviam estado submetidas ao poder imperial russo – polacos, finlandeses, lituanos, letões, estónios, ucranianos – dinâmica essa que os alemães já não conseguiam controlar por causa da forma como haviam malbaratado a boa vontade dessas nacionalidades nos primeiros anos da guerra. Tipicamente, quando num gesto de leniência os alemães permitiram que em Setembro de 1917 se reunisse a Taryba, uma assembleia de notáveis lituanos, esta rapidamente extravasou as suas competências e em Fevereiro de 1918, em antecipação às concessões que os alemães haviam obtido dos russos no Tratado de Brest-Litovsk, proclamou a independência da Lituânia. Relativamente pouco conhecida, como de resto o é toda a História da Frente Leste da Primeira Guerra Mundial (1914-17), esta proto-colónia chamada Ober Ost demonstra a superioridade implícita como os alemães sempre se apresentaram diante dos seus vizinhos europeus e de como se trata de um fenómeno social independente (que até precedeu historicamente a ascensão) do nazismo.

27 abril 2016

O ÁLCOOL MEDICINAL PARA O Hon. WINSTON CHURCHILL

Se se conhecem dezenas de fotografias onde Winston Churchill aparece de charuto na mão, pelo contrário, são surpreendentemente poucas aquelas em que aparece de copo na mão, apesar da sua reputação de apreciador desses dois aspectos, tabaco e bebida, se equivaler - para dizer o mínimo... Mas o documento mais engraçado deste conjunto dedicado a Churchill e ao seu gosto pela bebida é o último documento, uma receita que lhe foi prescrita pelo Dr. Otto Pickhardt quando Churchill esteve de visita aos Estados Unidos e neles vigorava a famosa Lei Seca. Ali se lê que, por razões medicinais, por Churchill ser um convalescente, ele necessitava de ingerir bebidas alcoólicas, especialmente às refeições, numa quantidade naturalmente indefinida, mas nunca inferior a 250 c.c.
De realçar a nota adicionada a lápis, do lado esquerdo, lembrando como era importante que o portador guardasse a receita à mão, não fosse ele vir a ser interpelado por alguém mais extrovertido e preocupado com os costumes da época. Vale a pena acrescentar que, como uma boa patranha, a história da receita possuía uma base real: na verdade, Churchill fora atropelado em Nova Iorque em Dezembro de 1931. Estivera hospitalizado durante uma semana com ferimentos na cabeça e duas costelas partidas e convalescença era um termo tão vago que se podia prolongar por vários meses. Agora que o álcool a acompanhar as refeições fosse condição indispensável para a sua completa recuperação é que é capaz de ser uma opinião clínica assim mais controversa...

OS REIS TAMBÉM DESAPARECEM DAS FOTOGRAFIAS

Embora apontado como um método típico do realismo socialista, o desaparecimento conveniente de figuras importantes das fotografias oficiais não se circunscreve apenas aos países onde vigoraram tais regimes avançados. Também aconteceu em monarquias reacionárias. Na primavera de 1939, o rei Jorge VI de Inglaterra e a rainha Isabel realizaram uma visita de um mês ao Canadá. Na fotografia original (a da esquerda), o casal real foi fotografado na companhia do primeiro-ministro canadiano Mackenzie King na varanda de um hotel, diante de uma paisagem lindíssima em Banff, na província de Alberta, no Oeste do Canadá. Ainda hoje não existem certezas sobre as razões que terão levado o primeiro ministro canadiano a dar instruções para que fosse feita uma versão adulterada da fotografia em que apenas aparecia ele e a rainha a olhar para si. Os motivos de King são difíceis de decifrar, ele era pessoalmente uma pessoa estranha, fria, com poucos amigos, nada convencional, permaneceu solteiro toda a sua vida, tinha uma obsessão (secreta) pelo espiritismo e pelo oculto. O que se tem a certeza é que esta versão (grosseiramente) adulterada da foto chegou a ser utilizada na campanha eleitoral do Partido Liberal de King para as eleições de 1940.

26 abril 2016

A BATOTA É PRATICADA PELOS «ARTISTAS DE RUA» DA «VERMELHINHA»...

...mas também não vejo razão nenhuma para me fiar na palavra de Fátima Lopes a propósito de um automóvel «desaparecido» no painel de um qualquer concurso da TVI...

ZONA PROIBIDA

É a tradução do aviso que se lê na fotografia acima, um painel a afixar para assinalar as fronteiras da zona de exclusão. Há 30 anos acontecia o acidente nuclear de Chernobyl e muitas coisas pareciam mudar. Para além do enorme problema da contaminação nuclear, houve o problema político da reputação internacional da União Soviética e, em cima desses dois, o problema político da seriedade das reformas anunciadas por Mikhail Gorbachev, no caso, a Glasnost como os problemas passariam a ser abordados. Afinal, alguém havia ouvido falar da fuga de antrax que ocorrera numa fábrica militar em Sverdlovsk (agora Yekaterimburgo) em 1979, que provocara mais de 100 mortos? Agora, assumindo a verdade, havia quem pensasse que se poderiam corrigir os desvios do passado. Mas afinal constatou-se que até a própria procura de uma certa respeitabilidade para o comunismo vinha tarde demais: em quase 70 anos os seus militantes, não só na Rússia como por todo o Mundo, já haviam desperdiçado todas as palavras mais bonitas em simulacros de verdade.

A GUERRA PXICOLÓGICA

Quem sabe qual terá sido o contributo da formação na especialidade de Acção Psicológica (para as guerras em Àfrica) que terá enformado algumas das mais bem sucedidas carreiras da nossa sociedade, depois do 25 de Abril. Foi uma especialidade que, por exemplo, reuniu personagens (e carreiras) tão distintas e tão (politicamente) distantes quanto Francisco Seixas da Costa e Jaime Nogueira Pinto. As novas gerações é que já não foram à tropa...

25 abril 2016

O PRÓXIMO PRESIDENTE AUSTRÍACO

A importância do cargo de presidente da Áustria tem várias semelhanças ao português. Também é eleito por sufrágio universal embora os mandatos sejam de seis anos e não cinco, como em Portugal. Mas, por outro lado, também por lá um presidente também só pode só ser reeleito para mais um mandato consecutivo. Uma análise comparativa do âmbito das funções presidenciais num país e noutro levar-nos-ia demasiado longe para os propósitos deste poste. A grande diferença será que a história presidencial democrática da Áustria é 30 anos mais antiga que a nossa, pois recomeçou em 1945, depois do fim da Segunda Guerra Mundial. E logo com algumas tradições surpreendentes: os presidentes que foram sendo sucessivamente eleitos nunca tinham nascido na Áustria propriamente dita e, por outro lado, com tanto azar que morriam todos em funções. Aconteceu isso com Karl Renner, presidente de 1945 a 1950 e que nascera na República Checa, aconteceu com o sucessor Theodor Körner, presidente de 1951 a 1957 e que nascera na Hungria, aconteceu ainda com Adolf Schärf, presidente de 1957 a 1965 e que também nascera na República Checa, e aconteceu finalmente com Franz Jonas, que foi presidente de 1965 a 1974 que, embora sendo vienense, pertencia a uma família originária da Morávia. Foi só com Rudolf Kirschläger, presidente de 1974 a 1986 que se assiste ao fenómeno de um presidente de raízes austríacas e que conseguiu completar o duplo mandato por doze anos até ao fim! O seu sucessor, Kurt Waldheim, eleito em 1986, terá sido o presidente austríaco de maior notoriedade internacional por uma boa e por uma má razão: por ter sido secretário-geral da ONU entre 1972 e 1981 e também por se ter descoberto que mentira sobre a sua participação como oficial da Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial. O escândalo tê-lo-á forçado a não se apresentar à reeleição em 1992. Nesse ano foi eleito o vienense Thomas Klestil, que teria sido o segundo presidente austríaco a conseguir cumprir os dois mandatos encadeados (1992-2004), não tivesse morrido de ataque cardíaco a dois dias de terminar o mandato! O sucessor é o actual presidente, Heinz Fischer, que, depois de reeleito em 2010 e, se tudo correr bem que a profissão parece ser de alto risco, se apresta para terminar o seu segundo mandato no próximo dia 8 de Julho. Já se realizou o primeiro turno das eleições para o substituir. E o candidato mais votado nessas eleições foi o senhor da fotografia acima, Norbert Hofer, apoiado pelo FPÖ, o partido da extrema-direita austríaca. Recebeu 35% dos votos e apresenta-se bastante bem colocado para ganhar as eleições. Pelo menos, mais bem colocado na primeira volta que um outro austríaco famoso que, nas únicas eleições presidências que disputou em 1932, só obteve 30% dos votos. Mas o mais interessante será seguir que género de cobertura a comunicação social europeia irá dar a estas eleições. A causa para a subida eleitoral destas formações xenófobas será a mesma, mas estou preparadíssimo para ouvir explicações imaginativas por que os partidos da direita nacionalista são perigosos na Hungria ou na Polónia, mas na Áustria não...

O 25 DE ABRIL E AS PARTICIPAÇÕES DE CADA UM DOS RAMOS DAS FORÇAS ARMADAS

Se analisarmos a participação de cada um dos ramos das Forças Armadas com os seus meios próprios no movimento de 25 de Abril, para além da participação mais óbvia, dir-se-ia mesmo omnipresente, do Exército, começando pela da coluna da Escola Prática de Santarém, acaba por se descobrir que o momento mais significativo da participação da Armada terá sido... a não participação da fragata Almirante Gago Coutinho, quando se recusou a obedecer às ordens de fazer fogo sobre as forças rebeldes que ocupavam o Terreiro do Paço (na foto acima, de Alfredo Cunha). Por outro lado, a respeito da participação da Força Aérea, cuja participação nas operações daquele dia, em apoio de qualquer dos lados, não me recordo de alguma vez terem sido referidos, vim a surpreender-me, muitos anos depois com esta fotografia abaixo de Jorge Horta, onde se vê um helicóptero voando sobre a Baixa naquele dia, não sei a que horas nem sei com que propósito, se em manobra de intimidação,...
...e aí de quem sobre quem, se apenas em manobra de observação de como pairavam as coisas... Há ainda quem levante a hipótese do helicóptero ter vindo ver da (im)possibilidade de evacuar Marcello Caetano cercado no Quartel do Carmo. Isso combinaria com a cronologia que consultei. Ali, a primeira vez que se menciona a adesão de unidades militares da Força Aérea é às 20H00 de dia 25 de Abril, precisamente a mesma hora em que se tornam a mencionar unidades da Armada. Nessa altura, já Marcello Caetano se rendera. Esta última fotografia abaixo de Alfredo Cunha, feita na sede da PIDE com um fuzileiro de guarda e o retrato oficial de Marcello Caetano pelo chão, mas feita já a 26 de Abril, parece ser icónica por mais do que aquela razão aparente pela qual a fotografia é tão conhecida: o regime caíra; e mal se dera por ela no dia decisivo, mas no dia seguinte a Marinha já se tornara no ramo mais revolucionário das Forças Armadas. Iria manter essa vantagem nos 19 meses que se seguiriam...

25 de ABRIL de 1976 - AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS

Perdidas entre as diversas efemérides que se comemoram na mesma data, há precisamente 40 anos tiveram lugar as primeiras eleições para a Assembleia da República, as segundas eleições gerais a ter lugar em liberdade em Portugal. Tendo já como referência as que haviam tido lugar precisamente um ano antes para a eleição da Assembleia Constituinte, os resultados não alteraram substancialmente o quadro político da vontade popular que havia ficado desenhado - e que havia sido desdenhado pelas vanguardas militares do PREC. O partido mais votado continuou a ser o Partido Socialista (PS) com 35% dos votos, seguido do mesmo Partido Popular Democrático (PPD) com 24%. Todavia, os dois partidos dos extremos do espectro partidário mais do que duplicaram a sua votação de um acto para outro: a UDP passou de 45 para 92 mil votos, começando a agregar o dispersíssimo voto dos grupúsculos de extrema esquerda e, mais significativo, o CDS passou de 435 mil para 876 mil votos, ao fazer uma campanha em que se apresentava como a Alternativa 76 (cartazes acima), dissociando-se do discurso hegemónico predominante do socialismo. Não se sabia então, mas nunca mais o CDS conseguiria repetir nos quarenta anos que se seguiriam os resultados eleitorais alcançados nesse dia, a evidenciarem um país rural, interior e conservador (assinalado abaixo a azul) que constituiria o contraste directo com o então muito mais promovido Alentejo comunista (a vermelho). Nas urnas, ao ultrapassar a votação do PCP, os azuis mostraram que valiam eleitoralmente mais do que os vermelhos.

24 abril 2016

PELO CENTENÁRIO DA REVOLTA DA PÁSCOA EM DUBLIN, NA IRLANDA

Em 1916 a Páscoa calhou a 23 de Abril. Estava-se em plena Grande Guerra. A relação da Irlanda com o resto do Reino Unido continuava a ser um assunto delicadíssimo. Depois de décadas de confrontação política e de um processo moroso e complicadíssimo (1911-14), viera a ser concedida finalmente autonomia à Irlanda (conhecida por Home Rule) mas apenas para a ver suspensa por causa da eclosão da Guerra em Setembro de 1914. A frustração acabou por se revelar um estopim para que o nacionalismo irlandês se expressasse de formas cada vez mais radicais. A Revolta armada veio a ter lugar ao meio-dia de 24 de Abril de 1916, a Segunda-Feira que se seguiu à Páscoa. Participaram nela cerca de 2.000 homens e o principal objectivo dos revoltosos era controlarem militarmente Dublin, a capital irlandesa. Contavam com a fraqueza do dispositivo militar e policial dos britânicos, sugado por vinte meses de desgaste nas várias frentes de combate da Grande Guerra.
Conseguiram o seu objectivo, pelo menos numa grande maioria da cidade. O Quartel-General dos Revoltosos passou a ser o edifício central dos Correios de Dublin. A esmagadora maioria da população dublinesa manteve-se indiferente. De uma certa forma, tratava-se de uma revolução no mesmo género daquela que havia ocorrido em Lisboa a 5 de Outubro de 1910 - fora o telégrafo a anunciar ao país a mudança de regime. Só que na Irlanda havia uma grande diferença: os derrotados britânicos possuíam não apenas tropas fieis no resto da ilha, sobretudo no Ulster, mas também possuíam infindáveis reservas à distância de 100 km, do outro lado do Mar da Irlanda. Por isso, ou se contava com a desistência dos britânicos perante o facto consumado ou, sem ela e perante um confronto simétrico com o exército britânico, a Revolta dos civis armados irlandeses tornar-se-ia numa estupidez sangrenta, o que veio realmente a acontecer.
O resto da sua história é previsível, que a bravura pessoal dos conjurados é irrelevante nestas circunstâncias - o que conta é o poder de fogo. Cinco dias depois, a 29 de Abril, os revoltosos estavam confinados ao edifício central dos Correios, submetido a um intenso bombardeamento de artilharia. As forças lealistas montavam a 16.000 homens. Os líderes da Revolta renderam-se sem condições. Uma apreciável maioria das baixas foram civis e a maioria delas foram causadas pela artilharia dos britânicos, que foi empregue destrutivamente na cidade para desalojar os rebeldes. Isso, conjugado com as sanções severíssimas aplicadas aos rebeldes - 3.500 detenções, 190 julgamentos em tribunal marcial, 90 condenações à morte, 15 efectivamente executadas - criaram a alienação completa da esmagadora maioria da opinião pública irlandesa. No último momento e nesse aspecto, a Revolta acabou por se vir a revelar uma vitória irlandesa.

COMO É QUE É MESMO A NOTÍCIA?

Há notícias que se percebem, o que não se percebe foi o que passou pela cabeça dos seus autores para lhes dar os títulos que deram. O título deveria ser sempre uma síntese do conteúdo do corpo do artigo embora no jornalismo essa regra tenda cada vez mais a ser subvertida para que aquele desperte a atenção e o interesse do leitor. Agora o que passou pela cabeça dos autores do artigo acima para chamarem a nossa atenção escrevendo que Portugal é o mais expansionista do euro? É para logo a seguir o desmentirem no subtítulo, quando esclarecem que este ano (2016) Portugal é afinal batido pela Áustria, Estónia e Alemanha? Mas então, se este ano Portugal já foi batido por esses três países e o período em análise é o biénio 2015-2016, a verdadeira notícia não deveria ser que Portugal foi o mais expansionista do euro (e por grande distância), mas em 2015? E em 2015, o executivo responsável pelo impulso orçamental português não terá sido o do PSD/CDS? E aí, não é lídimo especular se a razão para isso terão sido a realização das eleições em Outubro? Então, qual é que é mesmo a notícia? O do Portugal do biénio, o do Portugal de 2016 ou o de Portugal de 2015? E qual é mesmo a intenção ao dar-lhe aquele título?

OS CRAVOS NÃO TÊM DONO

Quanto mais o tempo passa, mais o que aconteceu se esvanece e mitifica e mais importante se torna recordar o que é essencial, que o 25 de Abril se fez por todos e para todos os portugueses, mesmo para a liberdade daqueles que preferem não o celebrar, em suma, que os cravos não têm dono. Abaixo, recorda-se uma notícia publicada pelo Diário Popular em 19 de Maio de 1975 a pedido de José Afonso, mostrando como os ídolos (também) tiveram pés de barro e por que terá sido preciso, mesmo indispensável, um 25 de Novembro de 1975. Tanto houve (e continua a haver) os que não queriam andar de cravo ao peito como houve (e não os continuará a haver?) os que queriam selecionar quem poderia cantar o «Grândola, Vila Morena».
«Tendo lido nos jornais diários a notícia de que, no decurso de um comício - piquenique, promovido no passado dia 11, pelo P.P.D., teria sido cantada em coro a canção «Grândola, Vila Morena», venho por este modo reafirmar que, muito embora considere a canção desvinculada de qualquer ideia de autoria, a fiz em tempos (há cerca de 12 anos) fora de imaginar qualquer abusiva apropriação cantante por parte de grupos ligados ao capital deste ou de qualquer outro país.
Considero pois abuso ou despudor, dadas as características populares com que no início da sua história como canção, foi «utilizada» em ambientes e situações de luta, que os mesmos indivíduos que designam para os representar à Assembleia Nacional Constituinte defensores da censura fascista e continuadores da ordem colonial, se sirvam dela para lançar poeira aos olhos dos incautos.
Tomo ainda a liberdade de lembrar o significado dos factos que recentemente se verificaram em Setúbal, dos quais fui parcialmente testemunha, onde comprovadamente se mostrou inequívoco o papel repressivo que o P.P.D. adoptou contra as massas populares, de que resultaram ferimentos em 20 pessoas (9 baleadas) e a morte do jovem João Manuel».
Lisboa, 14 de Maio de 1975,
Respeitosamente, José Afonso

23 abril 2016

ENTÃO NÃO ERA PORREIRO, PÁ, PORREIRO?!

«...veja onde é que nós chegámos. Onde é que a Europa chegou. Todos os acordos, todos os tratados que assinámos a partir daí, e o tratado orçamental e a união bancária levou a isto, a que tenhamos colocado nas mãos do banco central europeu, uma entidade não eleita, não apenas a regulação, não apenas a política monetária mas até isto: a política externa de um país. Porque o que é que está a dizer o banco central europeu quando diz a um banco como o BPI, olhe os senhores não podem ter uma exposição a partir de um determinado... valor em Angola. Está a dizer que um país não pode promover uma política externa, uma política económica com um determinado país porque a exposição de um banco a uma determinada economia é prejudicial.»

Na última entrevista que deu à Antena 1, José Sócrates faz o comentário que acima se transcreve (pode ouvi-lo aqui, a partir do minuto 13:00). Lamenta a forma como perdemos totalmente a autonomia de decisão. Subscrevo o seu lamento. Só que não me lembro em que circunstâncias José Sócrates terá feito tal inflexão de opinião sobre os benefícios e os perigos da construção europeia, desde o momento em Outubro de 2007 que recordamos, em que o vemos exuberante a felicitar-nos e a felicitar-se pelo Tratado de Lisboa mais o famoso Porreiro, pá, porreiro! trocado com Durão Barroso, assim como o cumprimento (não) dado a Luís Amado, seguido e substituído pelas imensas mesuras a todo o who's who europeu de então - o beijinho à Merkel não podia faltar... Querem ver que ele agora nos quer convencer que o progressivo estrangulamento da nossa autonomia de decisão pelos alemães por interpostas entidades comunitárias só começou depois de ele ter abandonado o poder em 2011? Podia ter sido contrariado, mas estas imagens mostram-nos que foi alegremente, com uma análise de curto prazo e exclusivamente centrada na sua pessoa, que Sócrates também contribuiu para o atoleiro em que estamos metidos. E, deixe-me que vos digaaaaa, com toda a sinceridaaade, o resto é uma grande treta.

22 abril 2016

AGORA A TROCA DA FOTO DE JEROEN DIJSSELBLOEM, MINISTRO DAS FINANÇAS HOLANDÊS

Se até os holandeses que estavam incumbidos disso não sabem identificar o ministro das Finanças português, em contrapartida há muitos portugueses que, não tendo obrigação alguma disso, conseguem identificar bem demais o ministro das Finanças holandês. Tanto que me imaginei a retribuir a cortesia agora praticada e ilustrar a ficha do governante holandês - com fotografias criadas "para facilitar a identificação dos ministros antes da reunião do Eurogrupo" - apenas pela foto de um boneco. Reconhece-se logo, basta colocá-lo juntinho ao seu homólogo alemão.
Ou então, com uma montagem feita por outros que têm muito mais competências do que eu para o Photoshop:

PRESIDÊNCIA HOLANDESA DA UNIÃO EUROPEIA TROCA FOTO DE CENTENO PELA DE JOSÉ GOMES FERREIRA

Se, como dizia o fado, Coimbra tem mais encanto na hora da despedida, estas gaffes também têm muito mais piada porque a Europa está pela hora da morte na ignorância demonstrada por cada país em relação aos seus parceiros. Mas também tem piada porque se instalou esta promiscuidade confusa entre quem informa, quem comenta, quem decide e quem usa os dois primeiros para pressionar os últimos. E, valha-lhe a imodéstia (abaixo), porque assim vale a pena repegar o episódio e continuar a zombar de José Gomes Ferreira lembrando que quase de certeza ele não se ficará por aqui e não perderá as esperanças de um dia destes ser confundido numa outra publicação com António Costa...

LÁ VEM O JOÃO BRANDÃO...

Alguém ma lembrou ontem e eu aqui republico a cena, que estas personagens são tão típicas de uma certa forma de discutir em português que não merecem ser esquecidas, são de uma qualidade tal que merecem a reposição.

Orador - ...eu na primeira hora disse ao senhor Brandão: Senhor Brandão, se algum problema houver com o advogado, o meu amigo está credenciado, está mandatado, para recorrer a qualquer advogado para o defender. É verdade ou mentira, Brandão?
Brandão (fora da imagem): - É mentira.
Orador - É verdade! Tu és aldrabão!

21 abril 2016

OS NUS E OS MORTOS

O facebook acabou de me informar que haviam apagado um dos meus postes porque continha um nu. Um daqueles absurdos: o nu tem por modelo Rudolf Nureyev e foi fotografado há 55 anos por (um pornógrafo como) Richard Avedon - mas continua a ser um nu e isso incomodará a ponto de o censurar. Ou isso do nu não incomoda nada, mas será então o tamanho do badalo de Rudolf Nureyev que incomodará... Uma dessas, pouco interessa. Não se pode exibir no facebook. Perguntaram-me se ficara muito chateado. Não. Mas não me peçam para elaborar sobre o que possa pensar de quem produziu tão sábia decisão. O episódio de censura - não tem outro nome - foi ocasião para me lembrar de uma passagem de Apocalypse Now e de uma citação do Coronel Kurtz:

"We train young men to drop fire on people but their commanders won't allow them to write FUCK on their aeroplanes because... it's obscene."

Nestes episódios surge irremediavelmente a pergunta, tão pertinente quanto impertinente, o que será afinal a obscenidade: o objecto da sanção ou a sanção propriamente dita?

AS CONDECORAÇÕES DE MARCELO E AS MENSAGENS - A PROPÓSITO DE CONDECORAÇÕES - DE MARCELO

Nada melhor do que confrontar as notícias emanadas de Belém com os factos para nos assegurarmos das contradições, de quais são as intenções de Marcelo e a quem se destinam os seus recados - a Passos Coelho, talvez também ao resto do elenco do governo cessante. Porque, se o propósito fosse mesmo o de tornar mais selectivas as condecorações daqui para o futuro, então Marcelo nunca deveria ter condecorado o seu antecessor Cavaco Silva com o Grande Colar da Ordem da Liberdade. A não ser que se entenda por "feito excepcional" o de ter terminado este seu segundo mandato com uma popularidade como nenhum presidente antes dele.

A ASTROFÍSICA DO QUE SE PUBLICA NAS REDES SOCIAIS

De acordo com o estabelecido pela Teoria da Relatividade de Einstein, o aumento da densidade da matéria encurva progressivamente o espaço-tempo que lhe está adjacente. Mas se no Universo, aquilo que se concebe de mais denso é um buraco negro, deformação de onde nem a luz consegue sair, no universo paralelo das redes sociais, pode haver deformações muito mais densas que essas, textos com 500 e muito mais palavras, excessos de densidade para quem já se habitou à síntese intelectual do twitting.

MATT DAMON COMO JASON BOURNE


Sendo uma alienação e sabendo-se que o é, é uma daquelas em que eu me deixo arrastar com muito gosto. Para comparação com outro exemplo clássico, é como aquela fase inicial em que Sean Connery foi James Bond. Depois a personagem franchisou-se. Esta ainda não.

BILHETE POSTAL PRÉ IMPRESSO: O «SKYPE» DE HÁ CEM ANOS

Se há cinquenta anos a forma consagrada para os soldados destacados se corresponderem para casa eram os aerogramas, cinquenta anos antes disso, durante a Primeira Guerra Mundial, o instrumento mais comummente posto à disposição dos soldados eram estes bilhetes postais com as novidades pré impressas que a alfabetização era mais gabada que efectiva. Este bilhete-postal, distribuído às tropas do Império Austro-Húngaro nesses anos, contém a curiosidade adicional de estar escrito em várias línguas, dado o carácter multinacional daquele império. Nove idiomas, para ser exacto, e a ordem como elas estão dispostas no bilhete corresponderá, não por acaso, à hierarquia da sua importância no xadrez político e não ao seu peso demográfico: alemão, húngaro, checo, polaco, ucraniano, italiano, esloveno, croata e romeno. Mesmo sem se ser um poliglota compreende-se que o conteúdo da mensagem em qualquer dos idiomas é monotonamente apaziguador: estou bem e de boa saúde. Com uma pitada de humor poder-se-ia acrescentar: E se me acontecer qualquer coisa vão receber outro postal pré-impresso, mas com uns dizeres diferentes...

A MULHER MAIS BONITA DO MUNDO... MAS NÃO AO VIVO NEM DE MUITO PERTO

É bom que de quando em vez se refresque esta sensação do quanto o Mundo está dominado pela imagem. Numa dessas não notícias que a superficialidade se encarrega de propagar, corre Mundo que a revista norte-americana People elegeu este ano Jennifer Aniston como a mulher mais bonita do Mundo. Ora das curiosidades deste mundo que eu fixei, é que Jennifer Aniston é uma presença recorrente numa outra lista, menos simpática, a dos actores e actrizes de que os colegas de profissão se queixam do mau hálito. Surpreendi-me a concluir num trocadilho que se tratará de um caso em que até se pode dizer que Jennifer Aniston é uma estampa, mas haverá toda a conveniência que ela permaneça estampada.
Jennifer Aniston terá sucedido a Sandra Bullock e não deixa de ser engraçado comparar como estas listas das mulheres mais bonitas do Mundo costumam ser compostas quase exclusivamente por norte-americanas enquanto para contraste os seus compatriotas em geral continuam misteriosamente ausentes das listas dos Panamá Papers... Até Bill Gates está surpreendido.

20 abril 2016

O DESERTOR SOBREDOTADO

Se a defecção para o Ocidente de qualquer expoente da cultura soviética se tornava normalmente um acontecimento maior no quadro da guerra-fria, a do bailarino Rudolf Nureyev (1938-1993), que teve lugar em 16 de Junho de 1961 em Paris foi-o ainda mais. Para além dos pormenores rocambolescos de quem se decide a desistir de embarcar de volta a Moscovo no próprio aeroporto, o desertor assim tornado ainda mais famoso, não passou muito tempo incorporando eventuais culpas por aquele gesto, pois no mês seguinte adquiria ainda mais notoriedade mundial, se possível, ao chocar tanto o Leste donde fugira, quando o Ocidente que o acolhera, com a publicação desta fotografia, tornada famosa, onde aparece nu, da autoria do fotógrafo Richard Avedon. Descobria-se com ela, e especialmente para as almas menos sensíveis às questões culturais, mas mesmo assim sempre interessadas nas rivalidades Leste-Oeste, que o Ocidente ganhara alguém que era dotado, senão mesmo sobredotado, e não apenas para a dança... Em contrapartida, para a enorme legião das suas admiradoras, terá sido um desapontamento confirmarem-se simultaneamente os rumores que Nureyev era homossexual. Virá aliás a morrer de complicações geradas pela SIDA ainda contava 54 anos.