31 março 2016

QUANTO VALERIA A INTELIGÊNCIA DOS DIRIGENTES NAZIS?

Quando da realização dos julgamentos de Nuremberga em 1946, os 21 réus foram acompanhados por um staff de dois psiquiatras e um psicólogo que aproveitaram a ocasião para submeter os detidos a uma bateria de testes. Mau grado a controvérsia que depois se veio a criar quanto à valia de tais testes - então muito em moda - aquele deve ter sido o primeiro e, até agora, único momento da história em que as capacidades intelectuais de uma amostra significativa dos líderes de um país foram sujeitas a um escrutínio público, e não propriamente pelos cidadãos do país que eles haviam dirigido.

(DES)REFORMAR PORTUGAL

Há que reconhecer a verdade de Pedro Passos Coelho quando acusa o actual governo de ainda não ter procedido a reforma alguma. Mas, caso houvesse honestidade ou isto não fosse política e da barata, haveria que reconhecer que algumas prioridades governamentais mais fáceis de executar podem consistir apenas na reversão das reformas disparatadas efectuadas pelos dois governos precedentes... chefiados precisamente por Pedro Passos Coelho. O actual líder da oposição detém a liberdade de dar o enfoque que quiser aos tópicos a que pretende que a comunicação social dê maior destaque, mas, mesmo assim, o silêncio comprometido como esse mesmo Pedro Passos Coelho tem acolhido as pesadas acusações de que tem sido alvo quando em relação a algumas das mais celebradas decisões reformistas dos seus executivos (como é o exemplo da notícia abaixo), condicionam evidentemente a seriedade das críticas que ele possa produzir. Ele deixou muitas pontas soltas, mal implementadas e que o tempo demonstrou estarem erradas, por onde actualmente se pode desreformar Portugal...

JÁ CHEGASTE ATRASADO, PÁ! ou «ENTÃO, PARABÉNS!»

Em política, admiram-se os protagonistas que antecipam os problemas, toleram-se aqueles - a maioria - que os reconhecem ao mesmo tempo que nós mas desprezam-se os que já só lá chegam atrasados. Há uns três anos, Luís Amado, convidado para aparecer na RTP devido à sua condição de ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, opinava assertivamente sobre a relação entre Portugal e a União Europeia e as relações de poder dentro dela:

- A Alemanha está a chegar à hora da verdade. A Alemanha tem que dar, e depois das eleições seguramente o fará, um sinal claro de responsabilidade, de liderança que tem no projecto europeu. E tem que definir um mecanismo de solidariedade sem o qual o projecto europeu não se constrói (...)
Claro que as tais eleições legislativas alemãs, que ali se apresentavam qual luz ao fundo do túnel, tiveram lugar dali a cinco meses e, apesar das certezas convictas de Luís Amado e como qualquer observador prudente (e com memória...) estaria à espera, nada de substancial se alterou. Sobre a atitude e esta notícia (acima) de o descrever dois anos depois de tudo isso a rever o que pensa sobre a instituição, é com ironia que me apetece cumprimentá-lo, como o outro: « - Então, Parabéns! »

30 março 2016

TROCADILHOS A PROPÓSITO DE NOMES TELEVISIVOS DE AGORA E DE OUTROS TEMPOS

Muito mudou desde os tempos em que Gomes Ferreira era também nome de locutor de televisão, mas quando os profissionais daquele ramo apresentavam as noticias nos telejornais sem qualquer veleidade de complementar a actividade com a elaboração de... programas de governo. Aquele a quem estava - mas a sério... - assacada essa responsabilidade de o elaborar era o Marcelo, nome de político que aparecia na televisão, mas que só   ia explicar aquilo que havia decidido, não o que vinha da televisão depois de nos habituar a explicar o que achava, para ocupar o mais alto cargo da nação...
Pelos padrões do valor da capacidade de comunicação da actualidade e se o tempo se rebobinasse, teria havido uma grande probabilidade de ter sido José Hermano Saraiva a suceder a Salazar...

A BATALHA DE TALAS (751)

No Verão de 751 os exércitos muçulmano e chinês defrontaram-se directamente pela primeira e última vez no vale do rio Talas, perto da actual cidade cazaque de Taraz (embora já em território que hoje faz parte da Quirguízia). Os árabes venceram a batalha mas as fontes que relatam a batalha são predominantemente chinesas. As elites dirigentes pertenciam aos grupos mencionados (com a curiosidade adicional do general chinês ser de origem coreana) mas os contingentes envolvidos na batalha seriam predominantemente locais, povos iranianos e turcos, antes de se islamizarem. Como costuma acontecer, os participantes não se terão apercebido do significado simbólico do embate. As móveis formações árabes não prosseguiriam a sua expansão militar pela Rota da Seda até ao Sinkiang e pelo Deserto de Gobi. Por seu lado, as preocupações chinesas com a expansão para Ocidente sofreriam uma pausa que duraria todo um milénio. Nem mesmo a desforra militar que se impunha ao Imperador Xuanzong (da dinastia Tang) promover acabou por ter lugar, por causa da eclosão da revolta de An Lushan em 755. Do outro lado, também os Califas Omíadas haviam sido substituídos pelos Abássidas.
Esta Batalha do rio Talas travada em pleno coração da Ásia terá o mesmo significado simbólico que a Batalha de Poitiers, travada no Outono de 732 (19 anos antes) em pleno coração da Europa, quando os exércitos francos derrotaram os seus homólogos árabes que procediam à sua característica expansão militar no extremo ocidental do vasto território já subjugado à dominação muçulmana. Há quase 5.500 km a separar os dois locais mas, se as consequências da vitória de Carlos Martel são razoavelmente conhecidas no Ocidente, as da derrota de Gao Xianzhi são quase completamente ignoradas. Numa altura em que tanto se discute a relativização da importância atribuída às notícias conforme a localização geográfica do local onde ocorrem - se os mortos de Bruxelas são mais importantes do que as vítimas do terrorismo de outros locais mais distantes, por exemplo - forçoso é reconhecer quanto o fenómeno da distorção das importâncias relativas dos temas é antigo. Seria desejável e eu seria dos primeiros a corrigi-lo, mas tenho que reconhecer que a exigência de que que haja uma globalização equilibrada sobre a importância absoluta das notícias parece-me fenómeno que não esteja para ocorrer assim tão depressa...

29 março 2016

DEGENERESCÊNCIA

Um painel publicitário vago é um painel de publicidade vago. Dispensa legenda, muito menos uma exaltando (the joy of not being sold anything) de que esse vazio implica que nada seja vendido. É que um painel não é uma loja, nunca foi ali que se vendeu aquilo que era anunciado. É a expressão de uma certa cultura de acrescentar informação aonde ela não é precisa, a toleima de um Ricardo Costa a sumarizar-nos um discurso presidencial que acabou de ser proferido.

OS PROBLEMAS EM CIMA DA MESA E AS INFORMAÇÕES QUE NORMALMENTE ESTÃO DEBAIXO DELA

Eu até gosto daquela expressão que se refere aos problemas que estão em cima da mesa, mas aprecio-a sobretudo para a contrastar quando o que que por lá acontece, em cima da tal mesa, não se consegue explicar satisfatoriamente a não ser que haja outras coisas a acontecer, mas essas por debaixo da mesa. Como estará a acontecer na Bolsa de Lisboa hoje, com a cotação das acções do BCP a descerem 6%, com quase outro tanto a acontecer com as do BPI e com as do Montepio a seguirem a mesma tendência embora de forma menos acentuada... Mais um daqueles momentos espectaculares da hipocrisia das bolsas em que parece que haverá alguém que está convencido de saber algo que os outros ainda não sabem. Como é que o saberão? Quando isso resulta do operador ter tido acesso a informação privilegiada é proibido e é conhecido por inside trading. É proibido mas é uma daquelas proibições ao jeito do hoje famoso aborto do Marcelo: mas pode-se fazer, porque o que é mesmo proibido é ser-se apanhado escabrosamente a praticá-lo.

28 março 2016

...AFINAL PASSARAM...

Hoje completam-se 77 anos sobre a data em que as tropas franquistas entraram finalmente em Madrid depois de tentarem conquistar a cidade por cerca de dois anos e meio. Eu gosto das sagas épicas e trágicas e a Guerra Civil de Espanha até se presta a essas coisas mas não ao ponto do enredo ser adulterado por omissão do desfecho. Tanto se menciona a celebrada proclamação de la Pasionaria (Dolores Ibárruri 1895-1989) de que os inimigos ¡No pasarán! que manda a verdade esclarecer que no fim eles passaram mesmo... Madrid não foi a tumba do fascismo. Aliás, o franquismo ia usá-la nos 36 anos seguintes como a capital para governar a Espanha. Ora, como parecem ser tão raras as coberturas dos acontecimentos de então utilizando o material de propaganda que era produzido pelos nacionalistas, até surpreende onde terão ido eles desencantar esta multidão de madrilenos que os acolhe entusiasticamente de braço em riste neste vídeo abaixo, quando da sua entrada na cidade a 28 de Março de 1936... A Guerra Civil de Espanha estava a dias de terminar.

...A PROPÓSITO DOS ACONTECIMENTOS DE BRUXELAS, DESENVOLVIMENTOS SOBRE O FAMOSO QUADRO DE MAGRITTE, QUE ATÉ ERA BELGA

Ceci n'est pas une opinion.
Adenda com outros exemplos opinativos recolhidos do facebook:

ESTALINE EQUÍVOCO

Sem a datação do cartaz acima e sem que o observador saiba russo, torna-se-lhe difícil decidir qual é a sua finalidade: se é mais um dos inúmeros e entusiásticos endossos à figura de Estaline (até 1953), se pode ser uma condenação ao culto da sua pessoa, corrente a partir do XX Congresso do PCUS em 1953. Na verdade é uma destas últimas, a legenda é um apelo para que não se deixe que a situação se repita, mas o potencial equívoco da mensagem gráfica numa tradição gráfica comunista em que a distinção maniqueísta entre os agentes do bem e os do mal nunca se presta a hesitações, pode ser levado à conta de um indício evidente do desconforto gerado por este mal acolhido revisionismo do passado.

27 março 2016

AS CRIANÇAS, AS FLORES E AS ARMAS

Em 1968 ainda seria possível tentar fazer humor com a situação acima: uma criança absorta na contemplação de uma papoila que se intromete involuntariamente na realização de umas manobras militares, imobilizando três carros blindados. Quase cinquenta anos passados, a ascensão dos valores da ecologia, uma relação muito mais permissiva e indulgente para com as crianças, acompanhada da subordinação da importância dos aspectos correntes ligados à segurança e defesa tornaram a piada e o absurdo da situação completamente obsoletos.

A FORÇA DA CLASSE OPERÁRIA

Para quem gostar de evocar efemérides, assinale-se que hoje se completa o 35º aniversário da primeira demonstração da central sindical Solidariedade contra o governo comunista da Polónia. Apesar de ter sido denominada suavemente por greve de advertência, a greve parcial de quatro horas (das oito da manhã ao meio dia, como se pode ler acima) teve um sucesso retumbante, com uma adesão estimada entre os 12 a 14 milhões de grevistas. Fazendo uma proporção com o que isso poderia representar em Portugal, seria uma adesão equivalente a quase 4 milhões de trabalhadores, o que seria muito mais do que aquilo que o PCP e o seu braço sindical, a CGTP, se atreveriam à época (e depois disso) a reivindicar em situação equivalente dentro de portas. Não seria só pelas óbvias razões ideológicas mas também por prosaicas razões aritméticas que a situação laboral na Polónia era - e permanecerá - um assunto tabu para os comunistas portugueses.

26 março 2016

2400 ANOS DEPOIS DE ARISTÓTELES

Sempre acreditei que o desfecho do Caso Sócrates - fosse ele em que sentido fosse - se revestisse da seriedade que a questão exigia. Mas enganei-me. Como muito do que é sério em Portugal a história do hipotético enriquecimento inexplicado de um ex-primeiro-ministro arrisca-se a terminar em jeito de paródia - o que não quer dizer que as consequências no descrédito do visado não sejam igualmente fulminantes como o seriam se o assunto tivesse sido levado a sério até ao fim. Se a posição de José Sócrates se havia tornado extremamente periclitante com a divulgação pública de algumas escutas este mês pela CMTV, ela terá colapsado por completo nesta semana que passou, quando o assunto veio a ser repegado sarcasticamente por Ricardo Araújo Pereira, por escrito na Visão (abaixo) e em stand-up comedy (por acaso realizada com ele sentado...) no programa Governo Sombra que passa na TSF em rádio e na TVI em televisão (ainda mais abaixo). Já aqui constatei que a influência de Ricardo Araújo Pereira será mais destrutiva do que construtiva, mas é forçoso reconhecer que, com esta sua ajuda, a argumentação substantiva apresentada pela defesa de José Sócrates acabou virtualmente ridicularizada perante quem estivesse interessado no assunto de uma forma minimamente desengajada. Entre o capital de simpatia restar-lhe-á o dos incondicionais.
Mas uma coisa distinta será a Acusação vir a conseguir produzir prova da sua tese do enriquecimento inexplicado do antigo primeiro-ministro para levar o caso a julgamento em conformidade com os prazos legais. Arriscamo-nos a ter mais um antigo político naquele limbo entre o amesquinhado e o absolvido. Vai uma grande distância entre a inanidade das explicações para a origem e propriedade dos fundos até à constituição de uma prova robusta da irregularidade da sua origem. Outra coisa distinta ainda, será o veredicto desse julgamento (se ele se vier a realizar), assim como o encadeado de recursos em que este género de casos, quando chegam a essas fases, são costumeiros. E uma terceira coisa distinta final, a dispensar os condicionalismos legais anteriores, será a interrogação (que não sei que repercussão pública terá...) de como terá sido possível que o sistema político português fosse tão desprovido de moral e de deontologia que pudesse ter catapultado tal pessoa para o estrelato no firmamento da política portuguesa - é que nos tempos da guerra-fria era um pesadelo do orgulho de um qualquer país ocidental, a hipotética descoberta de que um seu primeiro-ministro havia sido um espião soviético. Então e se tivesse sido um escroque?

ATÉ ENJOAR...


O problema da minha saturação ocasional com Ana Moura nada tem a ver com a própria artista, uma das melhores intérpretes da actualidade, por sinal. O problema tem a ver com quem a promove e com a técnica que adopta para o fazer. Pega numa (e só numa!) das canções do último disco publicado e consegue-a (com muito sucesso, reconheça-se) reproduzir vezes sem conta nas rádios. Mas, tanta é a eficácia e como a música é sempre a mesma, acaba-se a despejá-la pelos ouvidos...

25 março 2016

A CULTURA DA (IR)RESPONSABILIDADE POLÍTICA

Comprovada a incompetência dos respectivos ministérios, os ministros do Interior e da Justiça da Bélgica demitiram-se. É a norma de conduta que se espera nestas circunstâncias, tradição política essa que parece demorar a implantar-se em Portugal - recordem-se os exemplos recentes naquelas mesmas pastas (e transversais ao espectro político) de Rui Pereira na Administração Interna e de Paula Teixeira da Cruz na Justiça . A esta última, a par da sua incapacidade de se responsabilizar pelas consequências das suas decisões, reconheça-se ao menos a discrição mediática como se tem conduzido depois de ter abandonado o governo, mas o primeiro, talvez por considerar que a sua argolada política já terá prescrito, passeia-se lampeiro pela CMTV, especialista no tema da ocasião (abaixo), esta semana o terrorismo, precisamente aquele que provocou a demissão dos seus homólogos belgas. Uma coincidência mais do que infeliz (e que nos devia incomodar...). Mas, por falar de prestações televisivas e de Rui Pereira, será que o actual presidente da República ainda mantêm a opinião que lhe ouvimos à época quando falava dominicalmente na TVI? - Rebelo de Sousa defende demissão de Rui Pereira

«FROM THE DULL TO THE BRIGHT SIDE OF LIFE»


Na minha infância a Sexta-Feira Santa era um dia pesado de solenidade. Não se podia comer carne. A programação radiofónica e televisiva caprichava na soturnidade, tudo peças clássicas como a Paixão segundo São Mateus de J.S. Bach acima, acompanhadas por um serão transmitido pela Eurovisão de Roma onde se exibia uma Via Sacra multilingue protagonizada pelo Papa Paulo VI que rivalizava em previsibilidade com a do ano anterior. Compreenda-se que naqueles tempos só se mobilizava a Eurovisão para qualquer transmissão interessante e aquilo, decididamente, não o era. Enfim, tanto se esmerava na tristeza que o ambiente nem chegava a recuperar com o Sábado de Aleluia e a pretensa alegria da Ressureição de Cristo do Domingo de Páscoa mal chegava para conseguir saldar a disposição do fim de semana prolongado, como se se tratasse de um balancete contabilístico. Até que nos anos 70 alguém nos veio mostrar que não era necessário ser assim, que até uma cerimónia de crucificação podia ser abordada de uma forma refrescada: os Monty Python com Always Look on the Bright Side of Life

24 março 2016

O MAIS FINO DEBATE POLÍTICO

Será que a senhora de cima empunharia o seu cartaz com tanta segurança se a intervenção militar, já! fizesse com que o poder fosse parar todo a um Copcon*? E, nesse caso, aqueles que por sua vez se indignam com o seu pedido, continuariam a indignar-se da mesma forma? Ou, como de costume, o debate político só aparentemente se situa no domínio dos princípios e para um amplo conjunto de democratas a intervenção dos militares na política só é perniciosa se eles não comungarem das nossas ideias políticas?
* Comando Operacional do Continente: organização de coordenação político-militar criada em Julho de 1974, abrangendo várias unidades de elite das forças armadas portugueses e que acabou controlada por organizações políticas de extrema-esquerda (PRP-BR/UDP/MES), antes de ser desmantelada no seguimento dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975.

NUNCA É DEMAIS REPETIR O ÓBVIO

Com o anúncio (ainda provisório) do défice orçamental apurado em 2015 (4,4%), pode-se finalmente completar de forma (quase) definitiva o famoso quadro da página 54 do Documento de Estratégia Orçamental que foi apresentado em Agosto de 2011 pelo xix governo constitucional chefiado por Pedro Passos Coelho. A situação era muito grave, os responsáveis tinham passado os dois primeiros meses a avaliar da sua gravidade e a prioridade era o saneamento da situação financeira. Vou fazer por esquecer a dureza da recessão económica (o PIB diminui 2,7% entre 2011 e 2015) e os atropelos sociológicos que se fizeram por causa de tal prioridade (a população empregada diminuiu 4,0% entre 2011 e 2015), para simplificação da argumentação vou até admitir que teria valido a pena vender a própria mãezinha se isso nos tivesse permitido sanear as finanças públicas. Mas não, quanto a isso, o prometido saneamento das finanças, custasse o que custasse, parece estar hoje no mesmo ponto onde estava há cinco anos. Nem pretendo explicar o gráfico: ele explica-se por si mesmo, o completo fracasso técnico e o monumental embuste político que foram os xix e xx governos constitucionais. Deles, só a agenda ideológica se aproveitou. E isso não é nada para quem, como eu, admiro a competência e a eficiência, nas não professo a fé do liberalismo...

23 março 2016

HELENA MATOS E A TÉCNICA DAS CHOCAS

Há truques jornalísticos para os quais creio que vale a pena chamar a atenção, especialmente porque os vejo regularmente praticados mas raramente os vejo denunciados e, porque não sei o que dirá a doutrina deles, vejo-me forçado a baptizá-los conforme a minha parca inspiração de momento. Acima e por exemplo, vemos Helena Matos a praticar aquilo que costumo designar por técnica das chocas. Exactamente: as chocas, aquelas vacas que aparecem no fim da corrida para recolher o touro. Precisam de ter um certo perfil dócil para rodearem o touro para que este se deixe conduzir com a docilidade circundante para os currais (vídeo abaixo). Quando se escreve um artigo de opinião como é o exemplo acima, com um título a namoriscar descaradamente aquele batido lugar comum dos militares de volta aos quartéis, uma jornalista experimentada como Helena Matos tende a invocar exemplos que sejam dóceis como as chocas. Nunca se perdendo de vista que o tópico do artigo do Observador é a polémica Lula (assinalada acima), os três exemplos de juízes que suscitam a admiração da jornalista - o português Carlos Alexandre, o brasileiro Sérgio Moro e o italiano Giovanni Falcone - apresentam-se por uma ordem que não me parece nada inocente: o brasileiro Sérgio Moro vai no meio, como o touro segue rodeado pelas chocas depois da lide. E as chocas servem aqui para conferir dignidade a um juiz que, até ao mês passado, ninguém havia ouvido falar fora do Brasil. Expliquemos um pouco melhor a ideia, acentuando o contraste e analisando as implicações disso no conjunto do texto se mudarmos a composição da manada com outra troica de juízes prestigiados: o português Rui Teixeira, o espanhol Baltazar Garzón e o italiano Antonio di Pietro. O problema com este outro naipe, que já não sei se também terá potencial para despertar a admiração de Helena Matos, é que as conclusões para onde o artigo de Helena Matos nos quer conduzir se tornam muito mais complicadas de extrair assim que os exemplos dos juízes são mudados. A sede de protagonismo de que qualquer um dos novos nomeados deu mostras na sua carreira evidencia um outro aspecto da classe que já não combinará assim tão bem com a narrativa de Helena Matos do juiz-herói que só se envolveu na política contrariado... Os juízes podem constituir um perigo para a Democracia equivalente ao que os militares representaram no Século passado. Isso não parece incomodar Helena Matos que, de democrata, tem só uns tiques - é assim como os comunistas: serviços mínimos. Mas, de qualquer forma e é disso que eu aqui queria falar, é um truque giro, que nem sei se terá uma designação mais académica para o referir, às vezes até faz pena que o Mundo não funcione de acordo com estas espertezas do jornalismo-militante - veja-se aqui, no mesmo Observador, o que está a acontecer ao juiz Sérgio Moro...

FOTOGRAFIAS A QUE FALTA O CHEIRO

Procurou-se-lhes acrescentar o movimento, a cor, depois o som, houve e ainda há algumas experiências em tridimensionalidade (à laia de sucedâneo do tacto) mas o cheiro e o sentido associado do paladar foram sempre menosprezados por todos aqueles que se dedicaram ao esforço de muitas décadas de conferir cada vez mais verosimilhança à arte das imagens. Esforço esse que numa fotografia como esta acima faria toda uma diferença - imagine-se apenas o cheiro combinado das farinheiras, das morcelas, dos salpicões e das chouriças, como naipes de instrumentos de uma orquestra olfactiva... Infelizmente o futuro promete-nos outra coisa, com as regulamentações comunitárias a imporem-nos o empacotamento obrigatório dos enchidos, fazendo desaparecer dos ares aquele cheiro bom que, misturado com o dos queijos de cura e dos presuntos dependurados, fazia de uma visita a uma daquelas mercearias especializadas em gourmandises do género, uma experiência única, um prazer para os sentidos...

...E AFINAL TEVE MESMO ABORRECIMENTOS, E MAIS DO QUE OS ESPERADOS...

Creio que se fosse hoje, Hergé já não precisaria de enviar Tintin e os seus companheiros pelo Mundo em busca de aventuras. Podia vivê-las em Bruxelas...

22 março 2016

«BANCO DE PORTUGAL»

Há fotografias que, não sendo excelentes fotografias, são fotografias excelentes mas apenas por causa da oportunidade e do título que lhes possamos dar. E há títulos para as fotografias que, não sendo excelentes títulos, são títulos excelentes apenas por causa de alguma circunstância que confere um significado especial ao que é fotografado - e é só pelo efeito encadeado de tudo isso que acho que Banco de Portugal, com toda a ironia dos resultados da sua supervisão, é um excelente título para a fotografia supra.

AS MAIS AMPLAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS

Reconheça-se que o enorme circo mediático que acompanha Barack Obama por todo o Mundo não se costuma pôr a fazer perguntas sobre prisioneiros políticos quando o seu presidente vai visitar o seu homólogo chinês ou o rei saudita, por exemplo. Mas também é verdade que um e outro regime, no seu mais descarado desrespeito pelos direitos do Homem, não fingem ser o que não são, ao contrário daquilo que acontece com o cubano. Cuba é uma ditadura mas é sobretudo uma teia de mentiras. Se Cuba assumisse ser a ditadura que é, creio que se esgotaria metade do interesse jornalístico sobre o assunto. Só a fraseologia das entrevistas dadas por Bernardino Soares é que seria ainda mais rebuscada e complexa... Mas o que provocará o nosso mais profundo desprezo por quem assim tenta iludir aquilo que é óbvio, não será tanto a prática da repressão mas antes a hipocrisia como se tenta negar a existência dessa repressão. Será isso ou então é a senhora da foto acima que se deve estar a sentir mal e o pessoal da assistência médica cubana farda-se de verde...

AFINAL, NEVOU OU NÃO CHEGOU A NEVAR ONTEM EM LISBOA?

Sempre que se criticam os jornalistas tende a cometer-se a injustiça de se esquecer a vertigem da página em branco ou dos minutos de silêncio e a compulsão para os preencher mesmo quando, como é o caso acima, a investigação jornalística estará nitidamente longe de estar concluída...

21 março 2016

O CARNAVAL DO «CHABAL»

No calendário o Carnaval é para ser festejado durante três dias, mas naquele caso não era bem isso que acontecia. Para a Turma D, tornara-se assim como uma espécie de tradição que o Carnaval, especialmente naqueles seus aspectos mais pirotécnicos, durasse todo o 2º período, prolongando-se até às férias da Páscoa. Desde Janeiro começavam os testes, complexos, de bombas cada vez mais potentes, cuja potência era medida pelos tostões que custavam (15 tostões, 25 tostões, cinco escudos...) acompanhados de ensaios sobre pavios cada vez mais engenhosos, cujo estado da arte do retardamento acabou por ser um daqueles cigarros português suave sem filtro depois de aceso, que garantia uns bons quinze minutos de alibi antes de explodir no pleno silêncio das aulas em curso, tendo certo dia quase causado uma síncope ao desprevenido Dondon. Enfim, no domínio do petardismo o PRP-BR da Isabel do Carmo não faria melhor e não se pensava nisso assim, mas, consideradas as simpatias políticas dos actores principais, formar-se-iam ali quadros para uma organização terrorista de extrema-direita e/ou anarquista caso ela tivesse sido necessária.
O clímax deste experimentalismo, ocorreu certo dia quando alguém sugeriu ao patrocinador-mor que se estudasse os efeitos de tais detonações quando realizadas em meios líquidos... Como? Porque não encher um lavatório com água e largar lá para dentro uma bomba impermeabilizada para ver o que acontece? O ensaio terá tido uma audiência muito menor do que mereceria, considerando a romaria que se formou para ir ver como ficara o lavatório após a experiência, mas contam os testemunhos dos membros da comissão de controlo de estragos que a explosão em si terá sido um desapontamento: não houve nenhuma coluna de água que se elevasse da superfície da água, encharcando os presentes; em contrapartida, foi do fundo do lavatório, súbita e amplamente esburacado, que se formaram uma espécie de cataratas espectaculares cujo único defeito foi durarem tão pouco até ao esvaziamento do lavatório, tornado definitivamente imprestável... Bem se sabe que os nossos conhecimentos gerais de Física eram uma lástima, tanto mais quanto propiciados por um pedagogo como o Semita, mas, que diabo, o senso comum chegava para desconfiar do que iria acontecer...
E saudades desse tempo porque, se fosse hoje e como se vê acima, o autor da proeza acabava identificado pela PSP...

SERGE GAINSBOURG

Entre uma fase inicial em que as suas composições continham uma inocência cuidadosamente estudada para ser provocante (Poupée de Cire, Poupée de Son de 1965, cantada por France Gall, abaixo)…

…Serge Gainsbourg passou depois por uma fase intermédia em que as sugestões das suas canções já não eram definitivamente inocentes (abaixo, com a mesma France Gall a cantar Sucettes à l´anis em 1967)…

… até ele atingir o vértice do sucesso da sua carreira em 1969 em que além de compor e escrever, aparece a cantar (?) em dueto com Jane Birkin Je T'aime... Moi Non Plus, onde as referências sexuais se tornaram explícitas.

Depois, foi a gestão da imagem de um autor maldito, permanentemente ébrio, fumador compulsivo, apadrinhado pela sorte e sobrevivente a consecutivos ataques cardíacos (4), e que não se inibia de dizer em estúdio a Whitney Houston que a queria comer

PERGUNTAS QUE O TEMPO TRANSFORMOU

Inserida na campanha para as eleições europeias de Junho de 1999, que o PS venceu com uma lista que era encabeçada por Mário Soares, este cartaz acima (que não incluía originalmente a pera) insere-se na guerra (que à época não era fraticida) entre o CDS (que à época era bem mais PP e eurocéptico) e o PSD, cujas listas eram encabeçadas respectivamente por Paulo Portas e José Pacheco Pereira. A pergunta que se lê acima é um exemplar canónico de publicidade negativa personalizada, rara na política portuguesa neste formato de cartaz. Mas considerados o estilo e a reputação do visado em pairar intelectualmente por cima das preocupações consideradas comezinhas, era para ser de resposta óbvia, numa qualidade de pera transformada no bastião da lusitanidade. Mas os quase dezassete anos entretanto transcorridos e os percursos políticos posteriores de José Pacheco Pereira e de Paulo Portas tornaram-na traiçoeira para quem a concebeu então como arma de arremesso político. Aquilo que se tornou importante no percurso de Portugal dentro da União Europeia tem sido muito mais do que frutícola, dando, senão toda a razão às prioridades outras de José Pacheco Pereira, a certeza que os problemas de Portugal na Europa vão muito para além das peras...

20 março 2016

OS SAPATOS ORTOPÉDICOS DO GENERAL JARUZELSKI

«No Brasil de 1966, ainda com o som das botas cardadas da ditadura militar a ecoar nas ruas.»
Retiro de um entre aqueles que não têm quaisquer dúvidas sobre o que estará a acontecer no Brasil, a frase supra, recuperação naquele estilo pseudopoético - as botas cardadas - da conhecida linguagem de pau da malta do costume, que de há 25 anos para cá não esqueceu nada mas também não aprendeu nada. São o simétrico em disparate daqueles que, também sem hesitações, apelam ao regresso dessas botas cardadas (a que não chamam botas cardadas). E é tanto assim que nem adianta perguntar aos primeiros se as botas cardadas são a identificação poética de todos os regimes militares ou se as botas dos regimes de direita são mais cardadas que as dos regimes de esquerda. Alguns casos haverá, como o regime militar instaurado em 1981 na Polónia, em que suspeito que para eles, os militares até calçavam sapatos ortopédicos. Qual é mesmo a diferença entre uns e outros?

É UMA LEI PORTUGUESA, COM CERTEZA

O que me continua a surpreender e que vale a pena recordar mais uma vez em todo este canhestro processo de retrocesso ao que nos fora apresentado como muito favorável foi o sentido do voto do PSD e do CDS no parlamento quando da votação desta lei que restabeleceu os quatro feriados que haviam sido abolidos previamente pelos mesmos PSD e CDS: desta vez, abstiveram-se. Ou seja, agora já ninguém parecia ter sido a favor da abolição dos quatro feriados ou então, quem o foi já se arrependeu, mas esqueceu-se de se penitenciar com a mesma publicidade como promoveu a ideia... É maravilhoso aquilo que pode vigorar em forma de lei em Portugal sem que ninguém concorde com a sua vigência, apenas por uma questão de inércia!

Deve ter sido por isso que o 25 de Abril conseguiu ser bem sucedido apesar de ter sido realizado apenas por um punhado de soldados - eles seriam muito poucos para um golpe de Estado num país mais convencional, mas a verdade é que eram mais do que os nenhuns que (não) saíram em defesa do Estado Novo.
PS - Ainda a propósito do tema original e só para dar um nome a um boi, por onde tem andado ultimamente Miguel Frasquilho, ele que defendeu pessoalmente que a supressão dos quatro feriados produzia ganhos até 148 milhões? Foi ele que, tanto gostando de visibilidade, se deixou neste caso esquecer? Foi a comunicação social que não quis ir à sua procura para o mostrar como o último mohicano a defender a abolição dos feriados? Ou entretanto arrependeu-se da bacorada que promoveu?

19 março 2016

Uma condecoração para ALEXANDRE MIGUEL MESTRE, o novo Moisés da diáspora portuguesa

Já que se anuncia que as cerimónias do próximo Dez de Junho terão lugar pela primeira vez num país estrangeiro, em Paris , permitam-me lembrar em antecipação a tão injustamente esquecida figura do secretário de Estado da juventude e do desporto, Alexandre Miguel Mestre, que se tornou célebre em 2011 com a sua profética frase Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras. E para lá foram, e já lá estão muitos mais, todos esses que este próximo Dez de Junho especial pretenderá homenagear, ocasião que acredito única para distinguir Alexandre Mestre com um qualquer grau da - neste caso, mais do que apropriada - Ordem do Infante D. Henrique, figura histórica que, como o antigo secretário de Estado, também ficou com a reputação de mostrar aos outros o caminho, sem que o próprio praticasse - qual Frei Tomás - aquilo que pregou.

UM DIA MAU PARA AS EVOCAÇÕES DOS CASAMENTOS DE PRINCÍPES E PRINCESAS

Dá-se a coincidência de que foi em 19 de Março de 1976 que foi anunciada a separação da princesa Margarida (1930-2002, irmã da rainha Isabel II de Inglaterra), depois de um casamento de 16 anos; e foi também nesta mesma data, mas em 1992, que, creio que as mesmas entidades, terão anunciado a separação do príncipe André (1960- , segundo filho da monarca) depois de um casamento de apenas 6 anos. Vai-se a ver e apesar do estadão das celebrações - apreciem-se a sequência de fotos abaixo - a felicidade matrimonial não tem sido propriamente uma característica da casa de Windsor. Os únicos casamentos canónicos e à moda antiga em vigor, para além do da própria monarca, celebrado no longínquo ano de 1947, são o do seu filho mais novo Eduardo (1964- ) ,que já dura há 17 anos, quiçá por ter sido mais discreto que o dos irmãos) e o do neto William (1982- ), a nova coqueluche da imprensa britânica.

O QUASE AFUNDAMENTO DO USS FRANKLIN

A 19 de Março de 1945 (completa-se hoje o 71º aniversário), quando navegava a cerca de 100 km das costas japonesas, onde os seus aviões haviam realizado um raid aéreo contra o porto de Kobe, coube ao porta-aviões norte-americano USS Franklin a oportunidade de sofrer por sua vez um contra-ataque da aviação japonesa. Surpreendido por um céu encoberto e um avião solitário, o navio foi atingido inesperadamente com duas potentes bombas de 250 kg cujas explosões foram ampliadas pelo combustível das operações de reabastecimento que estavam então em curso e posteriormente com as detonações das bombas dos aparelhos a bordo.
Mas, apesar dos cerca de 800 mortos e quase 500 feridos (numa tripulação próxima dos 2.600), a história termina com um final feliz, com o USS Franklin a manter-se a flutuar apesar dos efeitos devastadores das explosões, que o fizeram mesmo adornar 13º para estibordo. Os britânicos, aqui representados pela British Pathé, fizeram valer a sua reputação única de, para efeitos de propaganda, conseguirem transformar quaisquer desastres militares em acontecimentos épicos. Até o capitão do navio, Leslie E. Gehres, com uma conduta controversa durante o incidente (e a quem a US Navy não confiará mais nenhum navio...), aparece retratado como um herói.

Mais do que a sua (fraca) qualidade, as duas fotografias acima têm a característica comum de terem sido retiradas daquelas compilações enciclopédicas e profusamente ilustradas sobre a Segunda Guerra Mundial que fizeram as delícias da minha juventude.

18 março 2016

ALIADAS SOB A PORTA DE BRANDEBURGO

Num instantâneo que nos parece demasiado bom para não ter sido encenado, três WACs (Women's Army Corps) norte-americanas saúdam com uma continência uma sinaleira do Exército Vermelho (Красная армия) em Berlim, junto à famosa Porta de Brandeburgo. O mau estado desta indicia que a fotografia terá sido tirada ainda no segundo semestre de 1945 ou seja, pouco tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial e ainda antes das relações americano-soviéticas arrefecerem. Os sinais em fundo, de uma veemência socialista soviética (note-se o ponto de exclamação), intimam as viaturas a reduzirem a velocidade para os 5 km/h ao atravessar o portão.

À ESPERA QUE A CHUVA PASSE

Para quem queira encontrar uma visão distante e equilibrada do que está a acontecer no Brasil a melhor sugestão que lhe posso fazer é que tenha paciência, aguarde pelo desenrolar dos factos e espere que deixe de chover. Tudo o que tenho encontrado na opinião publicada portuguesa tem sido de um engajamento em favor de uma das partes que só desabona o florilégio constituído pelos nossos maiores pensadores abonados com colunas de opinião. Acima, os títulos escolhidos hoje por Eduardo Dâmaso no Correio da Manhã e por Ferreira Fernandes no Diário de Notícias para torcerem pelos respectivos clubes.

E a propósito de paixões clubísticas, permitam-me a rematar, ainda a propósito deste assunto, esta nota auto-congratulatória final: a detenção de Lula da Silva era e anunciava-se muito mais importante do que a de Manuel Damásio, como defendi num poste que aqui publiquei há duas semanas. Não parece, mas continua a ser mais importante ser-se um ex-presidente do Brasil do que ter-se sido um presidente do Benfica... Especialmente se o problema do primeiro for tratado como se se tratasse de um gigantesco erro de arbitragem...

17 março 2016

DEDICADO AOS XENOFONTES QUE AVALIAM AS RETIRADAS SEM CONHECER AS TROPAS


Em 30 de Maio de 1974, pouco mais de um mês depois do 25 de Abril, uma equipa da televisão francesa (ORTF) entrada clandestinamente em território guineense realiza esta entrevista a Francisco Mendes, um dos comandantes militares do PAIGC, mais conhecido pelo nome de guerra de Chico Té. Desde há duas semanas que vigorava um cessar fogo no território. O teor das suas declarações - que se podem ler mais abaixo - são um testemunho da época, da autoconfiança arrogante dos nacionalistas africanos que depois do golpe de Estado em Portugal se passaram a sentir - provavelmente com razão - como os vencedores do conflito que os opusera a Portugal ao longo do decénio precedente. O revisionismo como hoje se reanalisa a época e as especulações quanto às condições em que se poderia ter realizado a descolonização raramente tomam em conta esta atitude contra a qual os negociadores pela parte portuguesa se confrontaram, para além de se esquecerem que, entre as tropas portuguesas que poderiam disciplinar no terreno Chico Té e os seus homólogos tanto na Guiné como nos outros Teatros de Operações, desaparecera subitamente todo o ânimo combativo a partir do momento em que se começara a falar da descolonização. Perante o anúncio do fim de uma guerra, ninguém quer ser o seu último morto. Retirar disciplinadamente, como já explicava Xenofonte na Anábase do tempo da Grécia clássica, foi sempre uma das operações mais complexas de realizar sob a pressão do inimigo... Chico Té veio a falecer em 1978, quatro anos depois desta entrevista, num desastre de automóvel cujas circunstâncias ainda hoje estão sujeitas a interrogações. A história encarregou-se de vingar a sobranceria de algumas das suas declarações, a começar pela forma como quase faz o favor de se dispor a acolher uma eventual futura cooperação portuguesa... Quanto a isso, hoje a Guiné-Bissau passa por ser um caso perdido.

- Considero que o general Spínola, que empregou entre nós todas as suas táticas de guerra contra-subversiva para vencer a nossa luta em dois e depois em quatro e cinco anos, acabou por registar um fracasso total. Consideramos que a sua presença entre a nova equipa (dirigente) de Portugal no que respeita à nossa realidade e à do nosso partido, e quanto a qualquer decisão dos portugueses, ele conhecer-nos-á possivelmente melhor do que os restantes em Portugal.
- Que é que vai acontecer em sua opinião?
- Pensamos que depois do cessar-fogo, como já o disse, é necessário que as tropas portuguesas abandonem definitivamente o nosso país. Depois disso, pensamos continuar a luta, seja na Guiné no plano da construção do país, seja em Cabo Verde para libertar as ilhas de Cabo Verde da dominação portuguesa...
- Já fixaram um calendário para a evacuação das tropas portuguesas?
- Ainda não ficámos um calendário para a evacuação das tropas portuguesas porque isso depende das negociações em Londres.
- E que concessões estão disponíveis para fazer a Portugal?
- Em todas as negociações há sempre concessões que se têm de fazer e actualmente não me vou pronunciar clara ou concretamente sobre as concessões que estaremos dispostos a fazer, porque isso dependerá também da vontade dos portugueses, das propostas que nos vão apresentar.
- Tem impressão que eles estão mesmo dispostos a descolonizar, os portugueses?
- Sim temos a impressão que eles estão prontos para descolonizar, pensamos que a nova equipa (dirigente) quer realmente descolonizar mas isso depende também de muitos factores do ponto de vista económico, por exemplo em Angola e Moçambique, nesses sítios onde eles têm grandes interesses, grandes capitais estrangeiros mas onde, de uma forma ou outra, pensamos que estão decididos a descolonizar.
- E como é a situação no terreno aqui na Guiné?
- Nós temos os organismos do Estado já instituídos em todas as regiões e que funcionam normalmente.
- Que parte do território é que vocês controlam?
- Nós controlamos efectivamente ⅔ do território mas há uma grande parte dele que está em litígio.
- E que proporção da população?
- Pode-se dizer por estimativa 350 mil pessoas.
- Ou seja, a metade?
- Sim, a metade, porque há uma outra parte considerável que está refugiada no Senegal e na República da Guiné; há ainda uma pequena parte que está sob controle dos portugueses.
- O que é que é negociável?
- A retirada das tropas portuguesas do nosso país, por exemplo uma futura cooperação com Portugal é negociável. Uma assistência, por exemplo, em que Portugal pode-nos fornecer quadros técnicos, do ensino, operários; o que não é negociável é a dignidade do nosso país, a independência.
- E se os portugueses vos propuserem que se proceda a um referendo quanto à autodeterminação, aceitariam?
- Pensamos que é absurdo que os portugueses nos proponham esse princípio porque não pode existir um voto a perguntar à população se ela quer ser independente ou se não o quer, porque a prova existente é esta luta de onze anos que nos parece uma enorme prova que a população deseja a independência.
- E se não houver acordo entre os movimentos independentistas de Angola e Moçambique e Portugal e se nesses dois territórios a guerra continuar? Que farão nesse caso? Serão solidários ou farão um acordo, mesmo assim, com os portugueses?
- Pensamos que Portugal não pode pretender que concedendo-nos ou mesmo aceitando aquilo que apresentámos para a nossa independência, se pode permitir a continuar a guerra nas outras colónias portuguesas.

(MAIS) UM PARADOXO SOBRE KATYN

Katyn é, sucintamente, o nome de uma floresta onde, entre Abril e Maio de 1940, se procedeu a um massacre das elites polacas que no Outono anterior haviam sido capturadas pelos soviéticos, quando da quarta partilha da Polónia entre alemães e russos. A estimativa mais conservadora do número dos que foram então executados é de 22.000 pessoas. Controversas permaneceram durante os cinquenta anos seguintes (até 1990) a nacionalidade de quem foram os autores do massacre. Por conveniência das circunstâncias, conveio que, durante e logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial a sua autoria fosse atribuída aos alemães vencidos (acima) ignorando as provas esmagadoras de que a responsabilidade do acto pertenceria verdadeiramente aos soviéticos (abaixo). Em mais uma ironia que, mesmo depois da verdade esclarecida, se tendem a perpetuar sobre este assunto, quando se busca na internet imagens sobre as execuções, podem aparecer-nos mais facilmente fotografias (forjadas) sobre aquilo que não aconteceu (acima), enquanto sobre o que agora se sabe indiscutivelmente que aconteceu só dispomos de desenhos estilizadas (abaixo) - é que, a propósito deste último, reconheça-se que, mesmo não estando em cuecas como na foto acima, é muito improvável que os oficiais polacos executados envergassem estes uniformes tão imaculados depois de já estarem há sete meses em cativeiro...