31 outubro 2015

RUGBY - COMO É QUE SE JOGA?

Hoje conclui-se o Campeonato Mundial de Rugby. E o que eu tenho notado de mais interessante no seu acompanhamento pela imprensa escrita - a que o acompanha que não é necessariamente a que se reclama desportiva - é que as notícias sobre a matéria já não são sobre as regras do jogo mas sobre as razões para o sucesso da expansão do jogo (nomeadamente quando comparado com o futebol). Nesse aspecto, curiosamente, tenho acabado por adoptar a mesma atitude que os jornais, selecta não inclusiva. Longe vão os anos em que, perante o meu entusiasmo manifesto ao assistir a um jogo pela televisão, havia as pessoas que, pelas redondezas, talvez invejosas de não conseguirem compartilhar aquele mesmo entusiasmo, talvez para início de conversa se estivesse a seguir o jogo num café, se lamentavam de não compreender as regras do jogo, às quais eu me disponibilizava para explicar o que estava a acontecer em campo. Décadas passadas já me deixei disso. Não por ter perdido entusiasmo pelo rugby e deixar de me preocupar em que ele tenha divulgação. Mas por ter percebido que o interesse - a existir - era circunstancial e que os tempos mudaram e que o acesso à informação está hoje extremamente facilitado. As regras de uma qualquer modalidade estão hoje à distância de alguns cliques da internet. E, depois, pensando no meu próprio caso, conheço as regras de imensas modalidades e, se não conheço as de outras (casos do beisebol ou do críquete) é porque não estou interessado em as conhecer. Portanto, quem se lamentar por não conhecer hoje em dia as regras do rugby, será por seu desinteresse. Tão simplesmente.
De uma certa forma, aquilo que acima escrevi é válido para quase tudo para além do rugby. A ignorância destes dias que correm merece muito menos contemplação do que a de outrora. E, paradoxalmente, por causa da mesma internet que facilita a sua extinção, essa ignorância torna-se tantas vezes tão mais visível... É só dar uma vista de olhos pelos erros gramaticais que pululam, quais piolhos, pelo facebook!

30 outubro 2015

«JUST A NORMAL DAY» do álbum «CRISIS? WHAT CRISIS?» dos Supertramp


Woke up crying with the break of dawn and
I looked out at the sky
The air was still, yet all the leaves were falling
And can you tell me why?

Well, I just don't know the reason
I don't know what to say
It just seems a normal day

And I've got to live my own life
I just can't spare the time
'Cause you've got strange things on your mind

Well, I just feel that every minute's wasted
My life is unreal
And anyway I guess I'm, I'm just not rated
At leastwise, that's how I feel

Well, I just don't know the reason
I don't know what to say
It just seemed a normal day

Oh, and, I've got to live my own life
I just can't spare the time
You've got strange things on your mind

Eat a lot, sleep a lot, passing the time of day
Maybe I'll find my way
Who am I kidding? Yes, it's just myself

Postado num dia normal quando grassa, dizem, uma crise política.

O INDISPENSÁVEL CAVACO DE HOJE, O INCONTORNÁVEL CAVACO DE HÁ QUATRO ANOS

O conteúdo do discurso presidencial proferido por Cavaco Silva pela ocasião da tomada de posse do governo foi muito mais moderado do que o que o antecedeu e serviu mesmo para acalmar a tensão política que pairava no ar. Até o inflamável João Galamba o reconheceu. (Isabel Moreira deve ter sido amordaçada...) Ou seja, temos um Cavaco igual a si mesmo, que recua depois de uma última bravata para impressionar a assistência. Mas antes de o querermos culpar totalmente pelo momento que atravessamos, recordemos como era o boletim de voto para as eleições presidenciais de 2011. Que alternativas é que estão ali a ver?

29 outubro 2015

CONVERSAS À QUINTA (III)

Hoje é quinta-feira, dia da semana em que o Observador publica mais um vídeo com uma daquelas excelentes charlas com Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto mediadas por José Manuel Fernandes e ocasião em que, por coincidência, acabados de se conhecer os nomes dos secretários de Estado, se fica a saber que tanto o filho de um (João Taborda da Gama, administração local) como o de outro (Eduardo Nogueira Pinto, adjunto do vice-primeiro-ministro), integram o elenco governativo com aquela categoria. Para quem comece a magicar associações, rebata-se a ideia com a constatação que só o mérito e uma coincidência explicarão este fenómeno. As elites em Portugal não são hereditárias. Tratasse-se de sinais de nepotismo na cooptação dos filhos dos colaboradores de mais prestígio do Observador para o governo, colocar-se-ia evidentemente a falta de explicações para a ausência do filho de José Manuel Fernandes no novo executivo...

INQUIETAÇÃO


Musicalmente esta será a enésima versão desta canção. Uma versão bem bonita, por sinal, cantada por Camané, acompanhado pelos "Dead Combo". Politicamente é que é apenas a segunda versão desde há quarenta anos. Vivemos uma segunda (grande) inquietação.

PROCURA-SE VAN DAMME POLÍTICO QUE SAIBA FAZER ESPARGATAS


Quando em finais de 2013 o actor Jean Claude Van Damme fez um anúncio promovendo os camiões da Volvo, o vídeo ter-se-á tornado aquilo que se costuma qualificar por viral, um sucesso mundial, copiado e retransmitido milhões de vezes. Mas sempre fiquei com a impressão que, para além do mundo, para os portugueses, aquele afastamento entre camiões poderia também ter um significado simbólico adicional, correspondendo ao que parecia estar a acontecer - com gravidade - à sua situação política. A tentativa de Cavaco Silva em Julho de 2013, na sequência do abandono de Vítor Gaspar e da decisão irrevogável de Paulo Portas, em procurar associar e corresponsabilizar António José Seguro e o PS saldara-se por um fracasso saldado com desdém pelos dois blocos. Os fundamentos que durante décadas pareceram consensuais entre as principais formações políticas estavam a deixar de o ser, de que as sucessivas rejeições de legislação por inconstitucionalidades várias eram apenas a expressão mais óbvia. Não se pode dizer que, para as últimas eleições legislativas não se tenha tentado, dos dois lados, preencher, conquistando-o, esse hiato central. Não me parece que nenhum dos blocos o tenha conseguido. Nem me parece que ninguém de prestígio fora deles consiga por agora ter um dos seus pés assente simultaneamente em cada um. O que é pena, porque na ordem constitucional está previsto que haja alguém que tenha sido eleito precisamente para isso.

28 outubro 2015

«THE TRUTH IS (STILL) OUT THERE»

Fazer das admissões do governo um cabeçalho, como o fez a TVI24 (Governo admite que país voltou os anos 60: 110 mil emigraram) não é apenas estúpido, é também estupidamente submisso. A realidade está - sempre esteve - aí para todos a verem: que relevância tem que exista um relatório de um obscuro grupo de burocratas que admite o que todos sabemos? Não é verdade que eles continuavam a ter emigrado mesmo que o tal relatório não tivesse sido escrito?... O que é relevante é sabermos - e isso a TVI24 não esclarece - o que o governo faz de tal constatação, se o governo que entra continua a achar o que achava o que o precedeu: que isso pode ser positivo, quanto é importante que saiamos da zona de conforto? Ou também nissoPassos Coelho mudou de opinião? A verdade (estando out there e não precisando de admissão governamental) é que Pedro Passos Coelho tem mudado muuuuuito de opinião. Está velho, está desgastado, com rugas, assim como aparecem Fox Mulder e Dana Scully neste vídeo promocional.

OS URSOS DE MARTE

Há quem tenha visto um urso polar numa foto de Marte. Tanta capacidade de observação foi de um ufólogo norte-americano chamado Scott C. Waring que até notificou o secretário-geral da ONU da sua descoberta. São estes cientistas à procura de ursos em Marte e nós rodeados de outros aqui no ciberespaço da Terra, basta ir-se à página do Observador onde, desde há um bom par de semanas, com a história da possibilidade de um governo de esquerda, os opinadores residentes andam piores que ursos...

UMA OFERTA QUE ATÉ UM REI NÃO DEVIA TER RECUSADO

Já tive oportunidade de escrever uma apreciação aqui no Herdeiro de Aécio a este livro, Os Sonâmbulos. Mas, se regresso a ele, é porque me quero referir a um outro aspecto seu, o seu capítulo inicial que, como expectável, remete para os Balcãs, o berço conhecido dos antagonismos que levaram ao início da Primeira Guerra Mundial, mas onde o autor nos surpreende com a data e o acontecimento. Em vez do canónico assassinato do arquiduqueFrancisco Fernando e de sua mulher em Sarajevo a 28 de Junho de 1914, Christopher Clark remete-nos para a narrativa de um outro assassinato régio anterior, o do rei Alexandre I Obrenovic da Sérvia e de sua mulher Draga (abaixo) que ocorrera em Belgrado a 11 de Junho de 1903. Tinha sido perto das duas da manhã que um grupo de conspiradores formado por 28 oficiais sérvios havia atacado o palácio real, derrotado e desarmado as sentinelas e a guarnição depois de uma intensa mas breve troca de tiros.
As buscas pelo palácio demoraram quase duas horas até os descobrirem um pequeno quarto anexo cuja porta estava coberta por uma tapeçaria suspensa, onde ambos se haviam refugiado. Os conspiradores executaram o casal quase imediatamente depois de descoberto, primeiro a tiro, depois à espadeirada, mutilando os cadáveres (a ilustração abaixo, publicada no Le Petit Journal parisiense de 28 de Junho não é muito rigorosa quanto a esse aspecto...). Simultaneamente, nessa mesma madrugada, outros correligionários seus estiveram activos, assassinando os dois irmãos da rainha, oficiais do exército sérvio como os conspiradores, mas a quem se atribuía ambições de virem a suceder ao cunhado. Assassinados em sua casa foram também o primeiro-ministro Cincar-Markovic e o ministro da Guerra Pavlovic – este com o pormenor macabro de ter sido executado com 25 tiros dentro de uma arca de madeira onde se escondera. O ministro do Interior Todorovic também foi executado, mas foi mal executado – deixaram-no por morto, mas sobreviveu até 1922.
Porque já não é importante para o que quer contar, Christopher Clark não dá qualquer destaque à indignação internacional que estes acontecimentos provocaram. Mas os protestos foram tão abrangentes quanto veementes. Envolveram tanto a Rússia quanto a sua rival Austro-Hungria (que viriam a ser os antagonistas na raiz da Grande Guerra), mas também potências distantes como o Reino Unido. O ostracismo a que foi votado o novo regime sérvio fez com que, em meses, só os gregos e os otomanos estivessem representados ao nível de embaixador presente em Belgrado, numa pressão diplomática muito desconfortável. Mas depois da tempestade veio a bonança da realpolitik. Um novo rei da Sérvia, Pedro I, do clã rival (os Karadjordjevic) foi coroado em Setembro de 1904. E, se esquecermos essas coisas das pomposidades das realezas e dos governos, tudo não passara de um necessário ajuste de contas entre famiglias, mesmo ao jeito das cenas de O Padrinho.

27 outubro 2015

PARECEM-ME SUBTILEZAS ANÁLOGAS À DO COBRADOR DO FRAQUE

Eu bem gostaria de ter a candura de acreditar que a queda sustentada do preço do barril de petróleo (gráfico acima) não terá correlação alguma com a mobilização e a visibilidade das iniciativas que por cá se tem vindo a registar em relação à situação interna em Angola, nomeadamente ao respeito que por lá (não) se professa pelos direitos humanos. Como as pessoas, também os países se habituam a certos níveis de vida luxuosos a que lhes custa renunciar de imediato e isso pode provocar aqueles incumprimentos (vulgo calotes) para os quais há que chamar a atenção polidamente. Admita-se assim que será natural que o fluxo de capitais entre Luanda e Lisboa já tenha conhecido melhores dias e que vale a pena espevitar a memória dos devedores para agilizar esse fluxo. Mesmo quando um jornal notoriamente detido por capitais angolanos escolhe a fotografia abaixo para ilustrar a notícia do protesto do embaixador angolano em Lisboa pelos protestos que aqui decorreram, desconfia-se que, ou a liberdade editorial do jornal se tornou subitamente absoluta, ou a supramencionada causa dos direitos humanos é arrebatadora, ou então serão as dificuldades de tesouraria em Luanda que estão tão disseminadas que até os mais incondicionais têm que dar mostras subtis do seu descontentamento para se fazerem lembrados.
Acessoriamente, também não existe qualquer respeito em Moçambique pelas regras do estado de direito, mas a verdade é que nós nunca contámos muito com o dinheiro que venha de lá... Assim, não há velinhas pelo Dhlakama.

AS FACES DE UMA TRAGÉDIA PROSAICA, QUASE CENTENÁRIA

John William (tratado por Jack) Mudd nascera em 1886 no empobrecido East End londrino, um puro cockney. Jack não pertencera àquelas muitas centenas de milhares de britânicos que se voluntariaram inicialmente em 1914 para servir nas fileiras. Constituíra família, era casado com Elizabeth (tratada familiarmente por Lizzie) e já completara 30 anos quando fora chamado a cumprir o serviço militar obrigatório, tornado entretanto extensível também aos homens casados, como o governo britânico havia aprovado em legislação complementar de Maio de 1916. E é assim que o vamos encontrar em 26 de Outubro de 1917 (completaram-se ontem 98 anos) como soldado raso do 2/4º Batalhão do Regimento de Londres dos Royal Fusiliers, destacado na frente de combate na Flandres. Ao amanhecer desse dia, o batalhão de Jack participou numa das últimas acções daquela que ficou conhecida oficialmente como a Terceira Batalha de Ypres (também conhecida por Batalha de Passchendaele).
Segundo o relatório oficial, o ataque do batalhão de Jack encontrou uma resistência decidida da parte do inimigo. Adivinha-se o eufemismo. Além disso, as condições do terreno eram, como se pode ver acima, horríveis, com lama pelas coxas - são hoje imagens simbólicas do completo disparate táctico em que muitas acções daquela guerra tiveram lugar. Um parágrafo desse relatório esclarece que se tornou impossível recolher os feridos e mortos na acção. O soldado Mudd¹ foi um dos muitos que não respondeu à chamada que teve lugar depois dela terminar. A 22 de Novembro de 1917 (quase um mês depois) uma cópia do impresso regulamentar B. 104-83 foi enviado a Lizzie Mudd informando-a que o seu marido fora considerado desaparecido; a 4 de Dezembro (pouco mais de uma semana depois) Lizzie recebeu novo impresso regulamentar, o B. 104-82A, onde se estabelecia que, não tendo sido recebidas quaisquer notícias adicionais o Conselho Militar se via pesarosamente forçado a concluir que o marido da destinatária havia morrido. O corpo do soldado Mudd nunca foi encontrado. O seu nome é um dos 34.888 que constam de um Memorial aos Desaparecidos no cemitério de Tyne Cot, na Bélgica (abaixo).
¹ No inglês original há um segundo sentido que se perde na tradução. O apelido do soldado (Mudd) é homófono a uma das palavras inglesas para lama (mud).

«FROM POLAND WITH LOVE»


Pelos vistos haverá vários modos como os resultados eleitorais dos países da União desagradam aos mercados – não acontece só quando se vota maioritariamente à esquerda como foi o caso português ou num partido sem tradição de poder como era o Syriza na Grécia. No caso da Polónia esse desagrado foi provocado pela vitória e pela maioria absoluta alcançada pela direita nacionalista, uma ideologia a que por cá não estamos acostumados – Passos e Portas também são de direita, mas da internacionalista, e ainda por cima de um internacionalismo muito centro-europeu. Uma das características desta direita nacionalista vencedora é que, não implicando com todo o capital como se acusa a esquerda de fazer, implicam com o capital estrangeiro por serem nacionalistas. E, no caso concreto polaco, propõem-se tributá-lo mais, ao tal capital estrangeiro. Para nós, são propostas capazes de parecer interessantes de experimentar por cá, já que andámos estes últimos anos habituados a que a nossa direita internacionalista, em vez do capital estrangeiro, se concentrasse em tributar mais o trabalho nacional. Mas como o nacionalismo português de direita anda desaparecido... De toda a forma, vi como muito precipitada esta campanha de simpatia (acima) que foi logo desencadeada no dia seguinte ao das eleições polacas em prol das futuras vítimas portuguesas (Jerónimo Martins, o BCP ou a Eurocash¹) da nova maioria política em Varsóvia. Por maior que seja a respeitabilidade e independência de órgãos de informação como o Expresso ou o Observador a relação corporativa entre os nossos agentes económicos, mesmo não estando propriamente dominada pela luta de classes tal qual preconizada pelo marxismo clássico, ainda está muito marcada pelas antipatias espoletadas pelo famoso Aguenta! Aguenta! de Fernando Ulrich... É a vez de Soares dos Santos e de Nuno Amado Trzymaj się! Trzymaj się!

26 outubro 2015

SALAZAR NA TELEVISÃO

Apesar destas fotografias serem dos primórdios da televisão em Portugal dá para perceber como a comunicação televisiva do tempo de Salazar podia já conter alguns elementos de sofisticação. A foto acima data de Junho de 1958 e um presidente de Conselho (e um regime) assustado com o episódio das eleições presidenciais (quase) ganhas por Humberto Delgado, socorria-se de tudo o que estivesse à mão para aparecer. Mas a imagem que a televisão – que era então um meio de comunicação só ao alcance das elites – pretende passar é a de um Salazar estadista, estudioso (os livros em fundo...) e resguardado que não se vai bater (porque perderia...) em concursos de popularidade com o general rebelde. A fotografia da outra intervenção televisiva de Salazar é posterior em cerca de meia dúzia de anos e datará de meados da década de 1960 (28 de Maio de 1966?) e o objectivo é muito diferente, é de consagração: o que agora se pretende mostrar é um Salazar dirigente da nação, nação essa que se apresenta simbolicamente por detrás dele com os seus lídimos representantes empunhando os guiões municipais. Numa comparação não desprovida de ironia, retirando os guiões, a estética que é ali utilizada pelos comunicadores do Estado Novo não é muito distinta da que ainda hoje é utilizada recorrentemente pelos comunistas e as outras formações políticas da extrema-esquerda em geral. 

OS «PAINELEIROS» DE «PRIME-TIME»

Promover os seus dois paineleiros mais recentes para o jornal das 8 de ontem da TVI mostrará aos ainda cépticos quais as prioridades daquela estação, agora que a emissora vive a crise da orfandade pela saída do professor Marcelo. Se, numa certa perspectiva é reprovável, noutra o expediente utilizado (trazer as peixeiradas futebolísticas para o prime-time) é até engraçado porque ridículo, conhecida a incompetência gritante de Judite Sousa quanto a assuntos de futebol, muito abaixo dos mínimos daquilo que se considera que qualquer adepto deve saber: há dois anos e só para dar um exemplo, quando entrevistou Paulo Bento perguntou-lhe se ele ambicionava vir a treinar um dos grandes, ignorando (e o entrevistado recordou-lho!) que Paulo Bento já treinara o Sporting (ou então excluindo implicitamente esse clube da lista de grandes, o que também não seria muito assisado naquelas circunstâncias...). O que na TVI se pretenderá explorar é a animosidade entre aquele género de convidados. É um equilíbrio perigoso. Há quem mantenha o sangue-frio e quem não o consiga fazer e há uma franja substantiva da audiência que só assiste ao programa para lá estar no momento em que isso – a porrada – acontecer. Porque o paineleiro ideal para um programa destes é um paineleiro veemente... mas manso. Mas o objectivo principal deste texto é que eu quero condenar em antecipação a atitude hipócrita (de condenação e demarcação) da TVI, que eu tenho a certeza que ela adoptará na eventualidade de isso acontecer...

25 outubro 2015

OLHAI, SENHORES, ESTA LISBOA D'OUTRAS ERAS

Esta é o desenho de abertura de uma aventura de Michel Vaillant denominada 5 Filles Dans la Course! (1969). Foi rebaptizada de Rally em Portugal quando foi originalmente publicada na revista Tintin (do nº 16 até ao 36 do 2º ano). Foi aliás a primeira história responsável por romper a tradição que a revista mantivera até aí – e que viria posteriormente a abandonar – de acabar todas as histórias no mesmo semestre onde haviam começado. Vê-se que a imagem foi claramente inspirada numa fotografia tirada então do castelo de São Jorge (abaixo). Há porém dois pormenores no desenho que lhe conferem um delicioso cunho de inverosimilhança. O primeiro tem a ver com o avião, um Boeing 727 da TAP com as cores da companhia naquela época e a matrícula CS-TBK (que até permite identificá-lo).
O problema é que, para o destacar, o desenharam a voar a uma altitude tal que correria o risco de se espetar logo de seguida contra o torreão do próprio castelo, senão mais adiante contra um dos prédios mais altos, lá para as zonas da Alameda D. Afonso Henriques, da Praça de Londres ou do Areeiro. O segundo pormenor anacrónico do desenho é o da paisagem da outra banda. Está lá a estátua do Cristo Rei mas nada de Almada nem de Cacilhas ou, mais longe, da Trafaria, o que se vê são margens tão despovoadas que acabam por vir a justificar com uma antecipação de 40 anos aquela famosa descrição que Mário Lino fez da Margem Sul, nem de propósito a respeito da construção de um (novo) aeroporto: um deserto. Naquele sítio, um aeroporto? (respondia ele, nem de propósito em francês) Jamé! Jamé!


MEMÓRIA

Duas notícias no mesmo espaço do mesmo jornal separadas por menos de um mês. Pelo meio houve as eleições legislativas e o contraste entre as duas notícias é tão evidente que creio bastará ler os cabeçalhos e os sublinhados. Mas, mais do que a incompetência dos jornalistas e a subsequente aposta na falta de memória dos leitores, o que mais insultará estes últimos será a falta de consideração por eles, que nem lhes mereceu até ver, aos jornalistas, um pedido de desculpas a quem os lê. Porque a missão do bom jornalismo tem de ser muito mais do que denunciar à posteriori as manipulações de dados de execução orçamental pelos partidos no poder. Há que escrutiná-las, às noticias (e às manipulações...) antes de as publicar, para esclarecer o leitor, o que não foi feito, para mais quando a notícia está redigida num estilo que, adequado ao momento, mais parece uma caixa de ressonância amplificadora da propaganda governamental (a devolução ainda pode vir a ser maior do que a prometida pelo governo!).
O Expresso (e a sua página de Economia) carrega consigo o fardo do hoax de Artur Baptista da Silva de há três anos, em que foi notória a coragem de Nicolau Santos em responsabilizar-se pelo embuste. Há, ao contrário do que possam pensar os jornalistas que assinaram as notícias acima, entre os leitores do Expresso quem tenha boa memória. E quem fique à espera do que se possa esclarecer ainda mais – no Expresso mas também nos outros órgãos de informação – acerca deste assunto esquisito. Esquisito também pela rapidez como foi denunciado. E não me estou a referir às costumeiras indignações exuberantes de José Gomes Ferreira na SIC, que só veio constatar o óbvio (que ele e os seus colegas, jornalistas económicos, só descobriram depois dos votos terem sido contados...), mas ao secretário de Estado Paulo Núncio que foi a face mediática do que parece não ter passado de uma boa moscambilha política, daquelas que pode ser plausivelmente negada. Aqui o secretário de Estado até é mesmo secretário de Estado, mas convém que se saiba quem são os espertalhões da política portuguesa.

À BOLA, OS QUE A ESCREVEM... ENFIEM-NA NO CU

Acabei de transpor aqui abaixo as dez notícias desportivas de maior destaque do Google Notícias deste momento em que escrevo. Dessas dez, nove tem a chancela do jornal A Bola, incluindo a fascinante vitória do Benfica sobre a Quinta dos Lombos em futebol de salão. É fascinante porque apetece fazer um inquérito aos leitores para que nos localizem a dita Quinta, a dos Lombos. Acidentalmente, esclareço eu, hoje houve a primeira meia final do Campeonato do Mundo de Rugby, que se disputou à tarde no estádio de Twickenham em Londres, opondo a África do Sul e a Nova Zelândia, perante 80 mil espectadores (veja-se mais abaixo um vídeo com o resumo do jogo) e muitos outros milhões espalhados por todo o Mundo.
Não vou discutir os critérios editoriais de A Bola, mas perante a ausência de qualquer menção a esse acontecimento desportivo, e mesmo sabendo que a África do Sul e a Nova Zelândia ficam bem mais longe do que a dita Quinta dos Lombos, ver o meu interesse pelo rugby de alta competição assim tão desdenhado faz-me fazer votos para que os responsáveis de A Bola a enfiem, à dita... no cu. De preferência (e esses votos são extensíveis à concorrência do Record e de O Jogo), uma oval, que certamente lhes há-de entrar melhor. Que me desculpem, mas não concebo como quem faz da sua profissão noticiar desporto, deixa passar em branco imagens como as que se podem apreciar abaixo. 

24 outubro 2015

A POLÍCIA JUDICIÁRIA PEDE-NOS QUE FAÇAMOS O SEGUINTE APELO...

Para uma geração que hoje terá mais de cinquenta anos, era assim que começavam os apelos que, nos intervalos comerciais dos tempos da televisão a preto e branco, dissidiam da tradição do que costumava ser publicitado (detergentes, margarinas, sabonetes e dentífricos, etc.). Seguiam-se os dizeres De casa de seus pais desapareceu, no passado dia..., acompanhados da afixação de uma fotografia tipo passe muito semelhante a esta abaixo, que normalmente não favorecia particularmente o desaparecido sobre o qual se buscavam informações a respeito do paradeiro. Essa foto, pelo aspecto do infeliz, indiciava preemptivamente aquilo que depois vínhamos a confirmar quando a voz em off rematava no final do anúncio, que a pessoa em causa sofria de perturbações mentais.
Pois bem, é a respeito de António Pires de Lima (que terá idade suficiente para se recordar deste género de anúncios televisivos, mas que não creio sofrer de perturbações mentais) que hoje fazemos um apelo semelhante, pois, não tendo desaparecido de casa dos seus pais, terá desaparecido do executivo, logo ele, que se mostrou tão proeminente a dizer coisas a respeito da TAP quando da contestada fase de privatização (abaixo) e que agora deixa sozinho o secretário de Estado Sérgio Monteiro e o seu colega Marques Guedes a descalçar a bota em que o assunto entretanto se tornou. É verdade que aquilo de que o governo fala não resolve o problema de fundo: a falta de credibilidade creditícia dos novos donos da TAP. Mas a presença do ministro da tutela - ainda para mais com um passado tão efusivo - conferiria alguma credibilidade adicional a este encanar a perna à rã. Parafraseando-o numa cena que o popularizou imenso num depois-de-almoço na Assembleia da República, eu só espero que exista uma explicação plausível para o seu desaparecimento...

23 outubro 2015

(COMO AS) HISTÓRIAS DE UM AVÔZINHO BABADO

Vai para quase cinquenta anos, a inauguração da ponte sobre o Tejo era acontecimento suficientemente recente para que o passeio de Domingo dos avós com o neto incluísse a sua travessia nos dois sentidos, para ir à outra banda, que fora sítio remoto até então. Ao regresso, a horas do lusco-fusco, quis o acaso que as luzes se acendessem precisamente na altura em que o carro passava, coincidência que o avô não quis deixar de aproveitar para impressionar o neto, em jeito de brincadeira: - Estás a ver? Fui eu que lhes dei ordens para que acendessem as luzes à nossa passagem. O miúdo, de uns cinco anos matreiros, assoma do banco de trás (quais cintos de segurança...) e cioso de uma verdadeira demonstração de autoridade, replica: - Ah é? Então mande-os lá apagar as luzes outra vez. O avô (que não era o meu...) contava esta história enternecido pela esperteza do neto. E, se me lembrei hoje desta história já tão antiga, foi por causa de algumas notícias que li, que dão os mercados a reagirem positivamente depois do anúncio por Cavaco Silva da indigitação de Passos Coelho. Justamente tão desconfiado quanto o puto, lembrei-me de como seria pertinente mandar o presidente indigitar hoje mais alguém, só para ver se os mercados e os analistas lhe obedecem realmente, como insistem em nos fazer crer.

O GRÁFICO QUE AVALIA O TRABALHO DOS ESTRATEGAS

Em Agosto de 2011, o governo que agora cessa funções tornou público um documento de 65 páginas intitulado Documento de Estratégia Orçamental 2011-2015, aquilo que à altura poderia ser interpretado como o seu plano de combate para a disciplina das finanças públicas durante a legislatura que se seguiria. Lá para as páginas finais (p. 56) aparecia o gráfico abaixo, onde eram apresentadas as expectativas do que seria o comportamento futuro das finanças públicas portuguesas implementando a referida estratégia orçamental. Porque já foram as eleições e o assunto deixou de ter importância como arma de arremesso político, lembrei-me de o publicar aqui mas com uma adenda: a coluna a vermelho (laranja no caso de 2015, porque o ano ainda está em curso), em que se podem comparar as previsões de então (a cinza) com aquilo que efectivamente se alcançou. O que ali se vê é, possivelmente, a demonstração da maior tragédia destes últimos anos: os estrategas não faziam a mínima ideia da razoabilidade daquilo que se propunham fazer e os resultados que alcançaram foram, além de socialmente dolorosos, penosa e financeiramente escassos. É discutível se se poderia fazer melhor, contudo é-o muito menos se a questão for a de saber se se poderia fazer de forma diferente.
Adenda: E já agora, algumas páginas antes (p. 53) do mesmo documento está este outro quadro que previa um rácio de endividamento público em relação ao PIB de 101,8% para os finais de 2015. Os últimos dados disponíveis (anunciados ontem) informam-nos que o valor actual desse indicador é de 128,7%...

NO DIA EM QUE SE PUBLICOU MAIS UM ÁLBUM DE ASTÉRIX E EM QUE CAVACO SILVA DISCURSOU MAIS UMA VEZ

Duas reflexões a propósito de dois acontecimentos de ontem. Em primeiro lugar, a respeito do lançamento do 36º volume das Aventuras de Astérix, para o qual gostaria de manifestar o meu contristamento ao detectar a necessidade de press-releases explicando as piadas subtis. Se os leitores não conseguirem reconhecer a caricatura de Julian Assange então é porque até agora nunca se preocuparam em saber quem ele é (e o que ele fez) e não se vão rir da sua caricatura. A isso chama-se uma piada desperdiçada e as aventuras originais de Astérix tinham-nas, imensas, caricaturas de personagens francesas que não reconhecíamos, caso de Caius Saugrenus acima, descaradamente inspirado naquele que seria o futuro presidente Jacques Chirac (1995-2007) e que aparece na aventura Obélix & Companhia (1976). Ficou-me para mais tarde, para outra maturidade, descobrir de quem se tratava, mas sempre sem ajudas. O que nos leva ao segundo tópico: sou, por aquilo que acima escrevi, de uma geração que se habituou a compreender sozinho aquilo que se passa, incluindo o conteúdo dos discursos presidenciais. Por isso dispenso a romaria de opinadores, politólogos (e o Ricardo Costa...) que normalmente se segue a tais momentos. Mas não vi nenhum deles a ventilar a hipótese que, depois de terminado o mandato presidencial de Cavaco Silva e à semelhança do que aconteceu em França precisamente com Jacques Chirac depois de ele sair da presidência, se torne finalmente oportuno investigar seriamente a pujante valorização das acções da SLN de Cavaco Silva e da sua família. É que depois da prisão de José Sócrates, para que haja moralidade, têm de comer todos...

22 outubro 2015

COMO UM MODERNO AQUILES ARQUELAU

Depois de o ver comunicar ao país, ocorreu-me que parte do segredo de Cavaco Silva bem poderia estar na cópia da postura da saudosa personagem lunática de Agildo Ribeiro: fisicamente inclinam o corpo para a esquerda mas ideologicamente os seus discursos está todos tombados é para a direita. A diferença é que não existe por ali uma (oportuna) múmia paralítica que lhe toque a campainha de quando em vez, até irritar o presidente.

PRÉ-DISSIDENTES COMUNISTAS DO TEMPO EM QUE ESSE ESTATUTO AINDA ERA INTERESSANTE

Ontem, encontrei esta fotografia dos tempos de parlamentar comunista de Carlos Brito, discursando na Assembleia da República algures durante a década de 1980, mais de uma década antes de se tornar em mais um dissidente do PCP. Tão ou mais importante que o próprio quando discursa, na época como líder do grupo parlamentar dos comunistas (que o foi entre 1976 e 1991), são os camaradas que o acompanham sentados. Da primeira fila para as seguintes e da esquerda para a direita identificam-se: Carlos Carvalhas, que veio a tornar-se no secretário-geral adjunto (1990-92, sob Cunhal) e depois secretário-geral do partido (1992-2004); Octávio Teixeira, que veio a suceder a Carlos Brito como líder parlamentar (1991-2001); atrás, José Magalhães que veio a dissidir do partido em 1991; Jorge Lemos que adoptou a mesma atitude nessa mesma altura; e finalmente, na terceira fila, Zita Seabra, que também abandonou o partido, ainda que mais cedo que os anteriores (1988). Uma fotografia destas, a mais de 25 anos de distância faz-nos compreender que discordar, criticar e abandonar o PCP tornou-se moeda tão corriqueira que nos últimos anos perdeu totalmente o glamour. Nos últimos anos, qualquer comunista de saída do partido tornou-se só mais uma curiosidade.

TVI 24, UMA ESTAÇÃO QUE SE ESTÁ A "ESPECIALIZAR" EM ASSUNTOS MILITARES

A notícia acima é recentíssima e nela a TVI24 notabiliza-se – mais uma vez – pelo rigor como domina os tópicos militares: como se pode ler, o acidente envolveu um F-18 norte-americano e o jornalista de serviços escolheu uma fotografia para a ilustrar de um F-16 e (ainda por cima) turco. É assim que se constroem as reputações sólidas. Não bastou a cobertura patética que a estação realizou ao exercício do desembarque anfíbio da NATO – também ele ridículo no seu fracasso. Mas, se este último fiasco que nos foi presenteado pelos directos televisivos foi devidamente noticiado e analisado posteriormente em tom jocoso pela informação escrita, mais reflectida e sustentada, pareceu-me escutar um esquecimento corporativo em relação à qualidade da cobertura noticiosa do directo televisivo que foi tão medíocre – pelo menos o que pude observar na TVI24 – quanto as cenas a que se assistia no areal. Para além de uma locução arrastada, naquele péssimo estilo TSF de quem demora muito tempo a dizer o que tem a dizer, não porque está a procurar ser cuidadoso com o que diz, mas porque há tempo em excesso para o muito pouco que se sabe, o repórter mostrou não perceber patavina do assunto, não se preparara, não deve saber sequer o que terá sido o Dia mais longo, não terá percebido muito bem o que se passara nas cenas iniciais do Resgate do soldado Ryan e nem sequer conseguiu identificar as viaturas Humvee que estavam atascadas no areal. Para ele, eram todo o terreno, assim como o seu estatuto de repórter: todo o terreno, reporta tudo, perceba ou não do que fala. Para quem ache esta situação aceitável, convido-o a imaginar alguém a relatar um jogo de futebol onde desconhece o nome dos jogadores e as regras: o nº6 chutou a bola para o nº8, este não a apanhou e agora vem o nº5 da outra equipa com a bola nas mãos? Convém realçar que aquilo que se passou na Comporta foi duplamente ridículo.

21 outubro 2015

A PRIVATIZAÇÃO DA TAP, AS PESSOAS COM SENTIDO POLÍTICO E AS PESSOAS COM SENTIDO HISTÓRICO

Acredito que a notícia não tenha o espaço que mereça dada a situação política. Mas também é possível que Pires de Lima e Sérgio Monteiro se estejam a fazer pequeninos e esquecidos, a arrumar as secretárias (quiçá a mandar tirar uns milhares de fotocópias se se inspirarem em Paulo Portas...), nesta arrastada fase de transição do actual para o próximo executivo. O problema é que o problema da TAP parece subsistir, mesmo que aqueles dois lavem agora dali as suas mãos, mesmo depois da empresa privatizada, esquecidas as surpresas e os apelos dos tempos militantes (abaixo), agora já sem compadecimento pelos calendários políticos. Os bancos não parecem convencidos com os novos donos da TAP.
Se o argumento fosse esgrimido por aqueles a quem é neste caso destinado, rematar-se-ia a argumentação com um: é a realidade, estúpidos! Mas a realidade nestes contextos sólidos é uma frase e tem a volubilidade da mudança das opiniões sobre Jorge Jesus entre a temporada futebolística de 2014/15 e a de 2015/16, quando passou do Benfica para o Sporting. Mais séria e sobriamente, estas notícias são pontos a favor de quem considera que a privatização da TAP, entre outras, foi uma estupidez precipitada. E Portugal deve ufanar-se da duvidosa reputação de ser o país onde, em 40 anos, se passou das nacionalizações despropositadas do gonçalvismo (caso das cervejeiras) para privatizações com falta de siso e de oportunidade equivalentes. E, com sentido histórico, José Manuel Fernandes (com outros) esteve na vanguarda das duas!

«BACK TO THE FUTURE DAY»


Hoje é o dia do futuro para o qual Marty McFly foi transportado em Back to the Future II. Houve quem andasse a fazer um levantamento comparativo das tecnologias disponíveis e é triste ver o resultado... Em contrapartida, na Hill Valley, Califórnia, de 21 de Outubro de 2015 (a cidade virtual onde decorre a acção desta célebre trilogia), não parecem ter chegado os ecos do anúncio da disponibilidade dos comunistas portugueses em apoiar um governo socialista, qualquer coisa que soaria a verdadeiramente ficcional à data – antes da queda do Muro de Berlim... – em que o filme foi produzido.

A COLIGAÇÃO E AS COLIGAÇÕES NEGATIVAS

A expressão parece ter sido recuperada para o coloquialismo político por Marcelo Rebelo de Sousa na noite eleitoral. Com a carga negativa de ser negativa. E a partir de então tenho-a escutado repetida por aí, associada à restante argumentação que nega aos deputados comunistas e bloquistas o estatuto de filhos de Deus e de poderem apoiar executivos. Ora o que eu queria lembrar é que as coligações negativas tiveram o seu lugar importante na História, caso desta retratada acima. Os Aliados da 2ª Guerra Mundial foram uma colossal coligação negativa. Muito pouco os reunia a não ser o desejo de derrotarem a Alemanha de Adolf Hitler. E nesse sentido, esta coligação negativa que agora se pode vir a formar, acaba por ser um reconhecimento implícito ao sucesso do programa liberalizante de Pedro Passos Coelho.

20 outubro 2015

DIZ-ME O QUE APREENDES, DIR-TE-EI ONDE ESTÁS

Conforme o país em que tem lugar, assim serão as características da apreensão de armamento que a polícia se encarregará de registar. Numa esquadra russa, não será anormal registar a apreensão daquilo que me parece um morteiro, assim como não pareceria absurdo que ali estivesse em cima da mesa outro género de material militar como um lança-foguetes RPG ou uma caixa de granadas. Em contrapartida, nos Estados Unidos, a quantidade substitui-se à qualidade: a um qualquer marginal desequilibrado não lhe apreenderão menos do que quatro armas de fogo (uma delas uma réplica BB) e três armas brancas...

O POVOAMENTO DA FEDERAÇÃO DA RODÉSIA E DA NIASSALÂNDIA

A Federação foi um projecto político britânico criado após a Segunda Guerra Mundial e que se destinava a conceder um certo modelo de autonomia política a alguns territórios britânicos em África contornando as pressões para que as descolonizações se processassem da maneira mais convencional onde o poder fosse transferido para as elites africanas indígenas maioritárias. A ideia era criar condições para replicar o modelo da África do Sul, onde a população de ascendência europeia, ainda que minoritária (20%), o era substantivamente e atingia uma dimensão crítica (eram 2,5 milhões de sul-africanos brancos em 1950) para conferir estabilidade a um regime de supremacia branca.
A Federação foi constituída no centro da África meridional, entre Angola e Moçambique (ver mapa acima), reunindo as regiões que são hoje a Zâmbia, o Zimbabué e o Malawi (e que na época eram conhecidas por Rodésia do Norte e do Sul e Niassalândia). Quando foi fundada, em 1953, possuiria uns 6.850.0000 habitantes, dos quais apenas 2,5% (170.000) eram de origem europeia, e cerca de ⅔ destes últimos concentravam-se na Rodésia do Sul, que era, naturalmente, o cérebro e a locomotiva do projecto. E a ideia não era copiar exactamente o modelo sul-africano, onde os africanderes haviam acabado de institucionalizar o apartheid, mas implementar um modelo de inspiração britânica, mais benigno.
É no quadro desse ambicioso projecto que se pode compreender a notícia de jornal dessa época que insiro abaixo, onde se antecipava que nos 25 anos seguintes a Federação esperava receber um milhão de imigrantes europeus para a equilibrar demograficamente. Esse milhão de emigrantes europeus transplantados para o meio de África foi um projecto exuberantemente falhado e esquecido e que se chega a tornar cómico quando conhecido a 60 anos de distância, agora que se conhece a continuação dos acontecimentos. Nunca os territórios africanos conseguiram despertar um interesse da imigração europeia à escala antevista pelos visionários do projecto da Federação. Os europeus emigrados preferiram outros destinos, sobretudo na própria Europa. A Federação durou dez anos (1953-1963), até que cada um dos seus membros seguiu o seu percurso distinto.  
No final da década de 1970, ao fim dos tais 25 anos míticos da notícia acima, a população de origem europeia total dos três países separados cifrava-se em cerca de 350.000 pessoas, das quais mais de 80% se concentrava na então Rodésia do Sul, o único deles que ainda prosseguia em versão reduzida o projecto de supremacia branca. Também esse terminou em 1980. O número de brancos actualmente na região outrora concebida para receber um milhão deles cifrar-se-á à volta dos 75.000. Convém remexer de quando em vez nestes projectos neocoloniais britânicos fracassados para não se ficar com a opinião que as ambições coloniais anacrónicas só aconteceram connosco...

19 outubro 2015

PARECE QUE O TEMPO NÃO PASSA (2)

Deixou de se dar a palavra de honra à Câmara de Deputados e ao país (leia-se a legenda) mas as câmaras da televisão desempenham um papel semelhante ao destes juramentos solenes de há 110 anos. As contradições - solenes e envolvendo o chefe de Estado - parecem perpetuar-se (a figura rotunda à direita é o rei D. Carlos I).

PARECE QUE O TEMPO NÃO PASSA (1)

Esta caricatura bem pode ter 110 anos mas é difícil olhar para ela sem a associar de imediato à questão dos táxis versus a Uber.

MAIS DE 14% DOS ARTIGOS SOBRE SISTEMAS ELEITORAIS SÃO ENVIEZADOS

O que me irrita nesta notícia é a manipulação do título, que nos sugere que o sistema eleitoral distorce gravemente a representação popular, mas onde não consigo descortinar qualquer intenção ou sequer sugestão de, pedagogicamente, dar uma explicação do que podem ser os impactos nas várias eleições. Admito, porque não confirmei, que os números apresentados estão certos e que mais de 14% dos votos das legislativas não contaram para a eleição de deputados. Parece preocupante e soa a tal. E que tal complementar essa informação com uma outra, a de que mais de 50% dos votos das últimas autárquicas (2013) não contaram para a eleição de qualquer dos 308 presidentes de câmara? Também será grave? Creio que também não... É que me parece da própria natureza da Democracia mas também da natureza de cada uma das eleições que nela têm lugar que os votos nas candidaturas com menos votos (e por isso derrotadas) acabem desperdiçados. É assim que, sendo verdade e também soando a preocupante, é um absurdo constatar que, tendo Cavaco Silva sido eleito com um pouco menos de 53% dos votos, mais de 47% dos votos das últimas presidenciais (2011) não contaram para a eleição do presidente da República. Percebe-se a preocupação de quem promove estas notícias em procurar um sistema de representação proporcional que esteja mais afinado com a expressão do voto popular. Agora as críticas e eventuais correcções ao sistema em vigor (método de lista, eleição pelo método de Hondt em círculos distritais que tem sido adoptado nas eleições legislativas desde 1975) têm que ser mais bem fundamentados do que a ligeireza bombástica que aqui se pode apreciar. Uma das sugestões de alteração que tenho lido com mais veemência, por exemplo, é a abolição dos círculos distritais em favor de um único círculo nacional, conforme já se vem praticando em Portugal nas eleições europeias. Explicam-me que as distorções diminuiriam. Acredito, mas mesmo assim fui verificar os resultados das últimas eleições europeias em 2014 e, analisando os dados, nem imaginam o cabeçalho que dali se pode arrancar: Mais de 16% dos votos das europeias não contaram para a eleição de (euro)deputados... (É que as cinco listas que elegeram eurodeputados só totalizam 83,55% da votação). Mas o que eu estou mesmo desconfiado é que não há qualquer sistema eleitoral que sobreviva a este género de jornalismo.

18 outubro 2015

O MUNDO DO RUGBY

Invertendo a apresentação tradicional, o mundo do rugby é assim, quem está para cima é o hemisfério Sul. As suas quatro selecções - África do Sul, Argentina, Austrália e Nova Zelândia - atingiram as meias finais do Mundial que se está a disputar em Inglaterra. Voto pela renovação do título pelos All Blacks numa final contra os Pumas. Os Springboks têm o condão de me estragar os desejos
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