31 janeiro 2015

AS BODAS DE PRATA DO PRIMEIRO MC DONALDS SOVIÉTICO

Há quase precisamente 25 anos, a 30 de Janeiro de 1990 e após uma dúzia de anos de elaboradas negociações entre a multinacional e as autoridades soviéticas, a Mc Donalds inaugurou o seu primeiro restaurante na União Soviética, em Moscovo. A fotografia acima evidencia a estranha semelhança estética das bandeiras das duas instituições, compostas por campos vermelhos de onde se realçam, a amarelo, símbolos universalmente reconhecidos, o M estilizado por um lado, a foice, o martelo e a estrela, por outro. E, pela perspectiva como a foto foi tirada, a primeira, em representação do capitalismo, parece prevalecer sobre a que sempre passara por representar o comunismo. Embora a loja fosse detida em 51% por capitais soviéticos, o dia da inauguração tornou-se um sucesso histórico nos anais da McDonalds, e isso aconteceu muito por culpa desse mesmo povo que fora uma referência incontornável do discurso comunista nos 70 anos precedentes. De uma previsão inicial de uma afluência de mil a três mil clientes para o dia da inauguração, a loja veio a registar o décuplo das estimativas mais optimistas (30.000), em filas compactas que davam a volta a praças e quarteirões adjacentes conforme se pode ver no vídeo abaixo. Nos dias seguintes a cena e as bichas repetiram-se. Em termos das aspirações dos trabalhadores, mesmo antes da desintegração da União Soviética, para quem o quisesse ler, o episódio tornara-se na exibição da vitória do capitalismo.

A história do comunismo ortodoxo em Portugal passou ao lado de tudo isto que aqui se observa e que se designava pragmaticamente por socialismo real, submetido a todas as suas deficiências funcionais e carências materiais. Só essas deficiências e carências explicarão esta adesão popular aos padrões de consumo ocidentais logo que se tornaram disponíveis, porque aquilo de que os soviéticos dispunham era mesmo muito mau. Por outro lado, no caso português, e porque todas estas conquistas das classes trabalhadoras nos passaram ao lado, tenho as minhas dúvidas, quando assisto às intervenções dos jovens parlamentares comunistas e os ouço com as suas propostas recicladas do que foi implementado sob aqueles regimes (as tais outras políticas...), se eles saberão o que foi a realidade concreta do que defendem e se - só para exemplo - alguma vez se dispuseram a observar com distanciamento como funcionavam os supermercados soviéticos em Moscovo (abaixo). É que ao ver-se a degradação das imagens abaixo apercebemo-nos porque, nessa fase, o soviético comum abraçou aquilo que o capitalismo lhe apresentava com tanto entusiasmo.

30 janeiro 2015

O CABEÇALHO

Mais do que os sucessivos - muitos deles dolosos... - cabeçalhos do Correio da Manhã, é este do Público, de ontem e que passou relativamente desapercebido, que se arrisca a formar a opinião para aquela minoria mínima que ainda seguirá o assunto de José Sócrates com alguma imparcialidade, onde me quero contar. Por muito que não se questione que aquele deverá ser o melhor processo de defender o seu cliente do ponto de vista legal, a atitude dos advogados de contestar a admissibilidade de provas torna-se incompreensível num tribunal da opinião pública onde a tese, expressa pelo próprio, fora - ainda será? - a da completa inocência de Sócrates. Sendo-o, porquê esta cautela preventiva a respeito de informação que a acusação venha a receber de bancos estrangeiros sobre as contas pertencentes a Santos Silva? Salvaguardadas todas as diferenças, muitos se lembrarão do que aconteceu à credibilidade de Isaltino de Morais quando se soube que o titular das contas na Suíça era o seu sobrinho motorista...

A BOLA, UM FORMATO JORNALÍSTICO TÃO PORTUGUÊS QUANTO O PASTEL DE NATA

Já aqui elogiei a capacidade como o fotógrafo Neal Slavin captou a nossa paisagem urbana única. Nesta outra foto, elogio-o pela forma como consegue captar a nossa alma através do olhar compenetrado dos dois leitores de A Bola a lerem-na num café. Com quase 50 anos (ainda A Bola era um trissemanário), a foto mostra-nos como somos, naquilo a que dedicamos atenção (não encontraríamos num café leitores de um Diário de Notícias tão concentrados quanto estes) e também nas nossas condescendentes hipocrisias: proclamando-se um jornal de todos os desportos, A Bola raramente dá destaque a outros desportos que não o futebol e nesse campo, embora nunca o assumindo expressamente, sempre foi um jornal conhecido por ser tendenciosamente benfiquista, do género de imparcialidade facciosa que todos os portugueses apreciam – se não fosse assim não se discutiria tanto a arbitragem em vez do jogo. Uma leitura atenta dos títulos permite datar a foto: Segunda-Feira, 5 de Fevereiro de 1968, 14ª e primeira jornada da segunda volta da época de 1967-68; o Sporting conseguira superiorizar-se à tangente ao Leixões em Alvalade por 3-2 e o Porto vencera claramente o Belenenses nas Antas por 4-0. Dali por seis meses o presidente do conselho cairia acidentalmente de uma cadeira de lona batendo com a cabeça mas isso serão assuntos que, suspeito, não virão a despertar uma atenção assim tão atenta daquela dupla de leitores. Antes disso, em Maio, o Benfica ganhara o campeonato.

UM ARTIGO DATADO DO FINANCIAL TIMES QUE READQUIRE ACTUALIDADE

Nunca foi minha intenção usar este blogue para publicar traduções de trabalhos de outros. Mas apercebi-me ontem ao fazer uma ligação para um artigo já datado do Financial Times, em que se descreve o papel incontornável de Durão Barroso no derrube em 2011 do primeiro-ministro grego George Papandreou, que aquilo que eu dava por sabido de todos, afinal não o seria. Apesar de ter assinalado à época a importância do artigo publicado pelo Financial Times, apercebi-me, oito meses passados, que o mesmo não terá sido traduzido para português, nem o seu conteúdo terá sido sequer discutido devidamente na comunicação social portuguesa, apesar da importância do seu significado. Afinal esse Outono de 2011 foi constituído por meses em que se percebe retrospectivamente quanto o euro poderá ter estado à beira de um colapso por efeito de contágio. Agora não é importante discutir isso, muito menos a ignorância como atravessámos esse período, não se levantem aquelas questões impertinentes sobre a competência da comunicação social.
Recorde-se que em 31 de Janeiro de 2012, há precisamente três anos, a yield dos títulos da dívida pública portuguesa atingiram o pico de 18%, com um governo ainda fresco a fingir-se distraído esquecendo-se que fizera desse indicador – que associava à confiança dos mercados – uma das medidas do sucesso da sua governação. Na verdade, o cerne do problema das dívidas soberanas e do euro não estava, nunca estivera, em Portugal. Como se pode ler abaixo, importantes eram a Grécia (o elo mais fraco) e a Itália (o elo impossível de consertar), A tradução que fiz é parcial e cobre especialmente a questão da relação da União e dos poderosos dessa União com a Grécia. Acho importante recordar aquilo que então se passou para mais considerando os recentes desenvolvimentos políticos nesse país. Os méritos da história pertencem inteiramente a Peter Spiegel e ao Financial Times; as imagens, com excepção do gráfico acima, também são as do artigo, não se pretendem infringir as regras do copyright que o blogue não tem objectivos lucrativos; as lacunas da tradução são evidentemente minhas.
Tudo começou na Grécia, tal como acontece com quase tudo o que se relaciona com a crise da zona euro.

George Papandreou, o herdeiro da mais famosa dinastia política da Grécia, tinha regressado a Atenas após uma das mais conclusivas cimeiras de crise da UE para se deparar com um país em convulsão. A 27 de Outubro, em Bruxelas, tinha-se acordado o maior default de dívida soberana da história, envolvendo uma reestruturação da dívida grega de 200 mil milhões de €, que reduzia para cerca de metade a dívida de Atenas nas mãos de credores privados. Porém, dentro de portas, Papandreou estava em maus lençóis. Para um filho e neto de dois primeiros-ministros gregos que haviam sido detidos na mesma noite por uma junta militar golpista em 1967 - George Papandreou ainda se podia lembrar de como se armou nessa noite, com 14 anos, com uma caçadeira quando as autoridades entraram em sua casa - o que aconteceu no dia seguinte ao do seu regresso de Bruxelas foi particularmente enervante. Durante uma parada militar em Salónica que assinalava o aniversário da entrada da Grécia na Segunda Guerra Mundial, milhares de manifestantes anti-austeridade, incluindo radicais de direita e anarquistas, invadiram o percurso do desfile, forçando Karolos Papoulias, o presidente da Grécia, a abandonar a cerimónia. Papandreou viria a dizer posteriormente aos seus colegas primeiros-ministros que considerou o incidente como um sinal de que o seu país estava à beira de um outro golpe militar. "Por todo o lado se dizia que o governo era composto por traidores", lembrou Papandreou. "Apercebi-me quanto a situação estava a ficar fora de controlo." Naquele fim de semana, reuniu um pequeno grupo de conselheiros e revelou-lhes o seu plano: iria convocar um referendo nacional sobre o novo programa de resgate no valor de 172 mil milhões €. Aqueles que criticavam o acordo, a começar pelo líder da oposição, Antonis Samaras, mas incluindo os rebeldes dentro do seu próprio partido PASOK, seriam forçados a fazer uma opção, deduzia Papandreou, e a maioria apoiaria o plano e o resgate - especialmente porque sem os fundos de resgate, o colapso e a saída do euro seriam o resultado mais provável. A vitória no referendo dar-lhe-ia a legitimidade política para as reformas que os credores exigiam.
Mas George Papandreou não consultara ninguém fora de seu círculo mais próximo. Em vez disso, ele apresentou o seu plano como se se tratasse de um facto consumado aos deputados de seu partido numa reunião no dia seguinte. Muitos dos que estavam presentes ficaram em estado de choque, a começar por Evangelos Venizelos, o ministro das Finanças do governo de Papandreou. "Na noite de domingo, durante a nossa última reunião e pessoalmente em privado, Papandreou [falou] apenas referindo-se a uma proposta de [um voto de] confiança, não sobre um referendo", disse Venizelos, acrescentando que ele padeceu de dores abdominais agudas durante as horas seguintes, forçando-o a ir para o hospital. "Foi a consequência", diagnosticada pelo médico, "do stress." Outros tiveram uma preocupação de teor diferente. "Lembro-me que a primeira coisa que me passou pela minha cabeça foi:" Espero que ele tenha avisado a Merkel'", disse um outro ministro. Papandreou afirmou mais tarde que tinha dado a entender a sua intenção a alguns colegas seus, líderes de países da União. Alguns reconhecem terem umas vagas lembranças disso, mas outros dizem não se lembrar de nada. "Eu nunca o levei a sério", veio a dizer um deles. "Parecia um gesto um pouco desesperado." Mas quando Sarkozy se apercebeu que Papandreou tinha decidido colocar o seu acordo de resgate tão cuidadosamente trabalhado nas mãos dos eleitores gregos, explodiu. "Entrou em órbita", descreve um assessor seu. "Entrou completamente em órbita". Os mercados de obrigações que se haviam momentaneamente acalmado depois do acordo sobre a dívida grega, entraram em pânico. As yields dos títulos da dívida grega a 10 anos subiram 16,2% numa só sessão e, mais preocupante, a subida arrastou consigo as yields de títulos da dívida pública de outros países da zona euro, fazendo-os atingir valores que haviam forçado outros países a pedir o seu resgate: os da Itália, também a 10 anos, atingiram e ultrapassaram os 6,2%.
Nicolas Sarkozy convocou os seus conselheiros mais próximos para uma reunião de emergência no Palácio do Eliseu. De acordo com alguém na sala, a intenção inicial do presidente francês fora forçar Papandreou a “arrepiar caminho”: ou ele aceitava as condições de resgate incondicionalmente ou a Grécia seria forçada a sair do euro. Mas Henri Guaino, um confidente, também autor dos discursos de Sarkozy, fez-lhe ver que Charles de Gaulle fora um adepto dos referendos em detrimento das votações parlamentares. Pedir a Papandreou para cancelar um plebiscito seria um contra-senso consideradas as tradições gaullistas de que Sarkozy se reclamava. Foi assim que Sarkozy acabou por estabelecer uma alternativa: Papandreou poderia ir em frente com o seu referendo - desde que ele não fosse sobre as condições do resgate. Com isto Sarkozy telefonou a Merkel para que se acertassem numa estratégia comum. Eles iriam convocar Papandreou para ir a Cannes, onde a cimeira dos G20 iria arrancar daí a apenas 48 horas, e persuadi-lo a realizar um referendo mas onde se perguntasse se a Grécia queria ou não permanecer na zona euro. Em Berlim, Merkel estava hesitante sobre a questão da "Grexit", a saída da Grécia, com vários dos seus conselheiros - particularmente Wolfgang Schäuble, o poderoso ministro das finanças - argumentando como a saída poderia gerar uma maior coesão entre os 16 restantes membros da zona euro, o que facilitaria a solução da crise da moeda. "Ela estava muito interessada em que a questão fosse definida por um claro “in” ou “out”", disse um funcionário alemão. "Para ela... a questão fundamental era que os próprios gregos decidissem se queriam ficar dentro ou fora, e se eles se decidissem em referendo pela saída, quanto isso simplificaria os problemas.” Muitos funcionários da União ainda hoje se perguntam por que razão Papandreou se dispôs a aparecer em Cannes para ser tão maltratado. Se ele se surpreenderia com a fúria contra si por parte dos líderes da UE quanto partiu naquela terça-feira de manhã, o primeiro-ministro grego parecera também partir iludido com a chance de ganhar o apoio internacional para a sua ideia de um referendo num palco mediático global como o G20. Embora seja famoso por sediar o glamoroso Festival de Cannes, o Palais des Festivals é um calhau sem charme feito de pedra e vidro virado para o Mediterrâneo. Num esforço para dar aos longos salões bege do palácio alguma presença durante a cimeira, a organização cobriu-os de um verde fluorescente mas um nevoeiro feito de gotículas vindo do mar veio cobrir tudo e sujar os vistosos tapetes de um castanho enlameado.

Sarkozy convocou os líderes seus colegas para o palácio às 05:30 de quarta-feira, uma hora antes de se reunirem com Papandreou, para chegar a um acordo sobre a forma de o enfrentar. Os convidados incluíram Merkel; Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro do Luxemburgo que presidia ao eurogrupo dos ministros das finanças; Christine Lagarde, do Fundo Monetário Internacional e os dois presidentes da UE, José Manuel Barroso e Herman Van Rompuy. Quando o grupo se reuniu numa pequena e desengraçada sala de conferências, mobilada por cadeiras rococó Luís XV e uma longa mesa, Sarkozy passou em volta uma única folha, onde se lia " Position commune sur la Grèce" - posição comum sobre a Grécia. "A ideia era colocar Papandreou de castigo no canto, contra a parede", disse uma pessoa na sala. O plano de seis pontos de Sarkozy, obtido pelo Financial Times, era claro e duro: Papandreou devia aceitar o plano de resgate acordado na semana anterior, e não seria prestado qualquer auxílio adicional até que o parlamento grego votasse o seu parecer favorável. "Estamos sempre prontos para ajudar a Grécia, apesar da decisão unilateral de anunciar [o referendo], sem qualquer notificação prévia," lê-se no ponto dois do plano, num claro reflexo da irritação de Sarkozy. O ponto seis não podia ser mais claro: "O referendo será apenas sobre a permanência da Grécia na zona do euro e na União Europeia." Papandreou afirmaria mais tarde que fora Sarkozy principalmente que argumentara com ele para mudar a redacção da questão a colocar a referendo para "dentro ou fora" do euro e que Merkel estivera do seu lado. Mas aqueles que estiveram na sala disseram que houvera pouca divergência no bloco de líderes, incluindo a chanceler alemã.

Acertada a posição em relação à Grécia, Sarkozy passou para o assunto que realmente os incomodava: a Itália. A ideia do referendo de Papandreou tinha criado um problema em relação à Grécia, mas também dera origem a uma ameaça muito maior: a de que o contágio de Atenas se espalhasse por toda a zona euro e aí nenhum país representava mais um perigo mais sério do que a Itália. Com uma dívida soberana de quase 2 Biliões- a quarta maior dívida do mundo – os funcionários do ministério das Finanças italiano haviam estimado que um programa de resgate de três anos (semelhante aos da Irlanda e Portugal) custaria cerca de 600 mil milhões de €. Não havia dinheiro suficiente na UE ou do FMI para suportar esse montante. A Itália era simplesmente grande demais para resgatar. "Nós não podíamos aguentar a Itália", reconhecia um funcionário do Ministério das Finanças francês. "Ninguém podia aguentar a Itália e isso seria provavelmente o fim da zona euro." Christine Lagarde havia chegado a Cannes com um plano para atribuir a Itália um Programa Preventivo de 80 mil milhões de €, uma linha de crédito que poderia ser usada em caso de emergência, mas para usar apenas com um acompanhamento intensivo, evidenciando a Sílvio Berlusconi, o primeiro-ministro italiano, quanto ele tinha perdido a confiança de seus pares da EU para implementar as reformas económicas necessárias. Só depois delas implementadas, argumentou, é que os mercados começariam a emprestar novamente a taxas sustentáveis. "A Itália perdeu a credibilidade", disse Lagarde ao grupo. Mas qualquer decisão respeitante à Itália teria que esperar porque Papandreou estava prestes a chegar.
A reunião deixaria muitos participantes em estado de choque. No seu diário, François Baroin, o ministro das Finanças de Sarkozy, utilizou a expressão "guerra psicológica". Outros, no caso os dois presidentes da EU (Barroso e Rompuy), disseram depois às suas equipas que se haviam sentido extremamente desconfortáveis com a cena de um pequeno grupo de líderes europeus a forçar a mão de um primeiro-ministro democraticamente eleito de um país soberano. "Por mim, nunca vi uma reunião tão tensa e tão difícil", disse um outro assessor. Quando Papandreou acompanhado pelo ministro das Finanças Venizelos chegaram à sala de conferências, Nicolas Sarkozy deu início àquilo que um funcionário designou por “Sarkozy em Grande”: uma denúncia irritada e contundente da decisão de Papandreou em convocar um referendo. "É evidente que o sentimento era: tínhamos feito tudo para o ajudar, tínhamos feito tudo para o manter na zona euro, assumíramos riscos financeiros e políticos", descreve um membro da delegação francesa. "É a maior reestruturação da dívida do mundo de sempre e agora o que você faz é trair-nos."
 
Papandreou foi apanhado completamente de surpresa. "Ele começou a barafustar desabridamente sobre o referendo", disse ele depois de Sarkozy. E Venizelos: "A posição de Sarkozy foi muito ofensiva. Nada educada. Muito, muito forte e muito agressivo, com o objectivo de colocar a Grécia num dilema: dentro ou fora?". Os gregos tentaram reagir. Papandreou apresentou o seu plano: o referendo seria realizado dali a um mês e forçaria Samaras e os próprios rebeldes do PASOK a alinharem-se, uma vez que até mesmo os críticos mais virulentos não quereriam opor-se à única opção para que a Grécia permanecesse na zona euro. Em seguida, Papandreou leu a redacção da pergunta proposta para o referendo. "Alonguei-me um pouco demais", admitiu ele posteriormente. Merkel foi a primeira a responder e num registo pouco simpático. "Ou resolvemos isto aqui entre nós, ou vamos fracassar aos olhos do mundo", disse ela. "Wir müssen entscheiden" - temos de decidir. "Ou vocês querem ficar no euro ou sair." Aqueles que estavam na sala aperceberam-se que Papandreou perdeu visivelmente força anímica à medida que a luta prosseguiu. Com ele desgastado foi Venizelos que assumiu o combate, no que muitos viram como a percepção pelo ministro grego que o seu colega se tornara num activo político esgotado - e Venizelos, que sempre tinha cobiçado o lugar, movimentava-se na ocasião para explorar a oportunidade.
Houve uma subtil mudança na linguagem corporal de José Manuel Durão Barroso, que se sentara calmamente a assistir ao carnaval que se desenrolava diante de si. O presidente da comissão europeia contou depois aos seus associados que a cena que se desenrolava à sua frente dele o alarmava cada vez mais. Mais do que a conversa solta da saída do euro da Grécia, que os funcionários da comissão desde há muito tempo acreditavam que provocaria um pânico incontrolável no mercado para todos os países do sul da Europa, a perspectiva de uma campanha para o referendo grego durante um mês iria semear a incerteza durante semanas – que era exactamente aquilo que se estava tentando evitar, quando as yields dos títulos italianos estavam a atingir níveis perigosos. Sem o conhecimento de Sarkozy ou de Merkel, Durão Barroso havia chamado Antonis Samaras, o líder da oposição grega, antes daquela reunião ter lugar. Deduzia-se o quanto Samaras estava desesperado para evitar o referendo. Samaras disse a Durão Barroso, que, dadas as circunstâncias, estaria disposto a assinar um pacto de um governo de unidade nacional entre o seu partido da Nova Democracia e o PASOK - algo que ele tinha cuidadosamente evitado fazer por meses, na esperança de que pudesse chegar ao poder sozinho. 
 
Durão Barroso chamou os membros do seu gabinete e outros funcionários da comissão para se reunirem na sua suíte do Hotel Majestic Barrière para traçar uma estratégia. Decidiu que não iria dizer nada a Sarkozy nem a Merkel daquela conversa mas, de acordo com pessoas na sala, começou-se a discutir nomes de possíveis tecnocratas para assumir o lugar de Papandreou num governo de unidade nacional. A primeira pessoa a ser falada oi Lucas Papademos, o economista grego que havia deixado o cargo de vice-presidente do BCE um ano antes. Dentro de uma semana, o Papademos poderia assumir o cargo. Ao assistir às intervenções de Venizelos horas depois, Durão Barroso viu ali a sua oportunidade. Sarkozy deu a reunião por terminada, relendo o seu plano de seis pontos e dizendo a Papandreou para voltar a Atenas para "tomar uma decisão", quando José Manuel Durão Barroso chamou Evangelos Venizelos de parte. "Temos que liquidar esse referendo", disse Durão Barroso. O ministro das Finanças grego concordou imediatamente. A morte da ideia do referendo seria também a liquidação política de George Papandreou.
 
Depois de umas breves declarações à imprensa, na qual disse que o referendo seria "uma questão de saber se queremos permanecer ou não na zona euro", o Papandreou voltou para o aeroporto de Nice para regressar. No carro, ele virou-se para Venizelos e disse que as coisas não tinham corrido tão mal como ele receava. Venizelos ficou incrédulo. Como o primeiro-ministro dormiu no voo de volta, Venizelos, encorajado pela conversa que tivera com Barroso, ordenou a um assessor que escrevesse uma declaração para ser liberada quando eles desembarcassem, às 4h45 de quinta-feira. "A posição da Grécia na zona do euro é uma conquista histórica do país que não pode ser posta em causa", lia-se no comunicado. "Esta conquista do povo grego não pode depender de um referendo."
O referendo imaginado por George Papandreou passara à história. Assim como o seu governo.

29 janeiro 2015

FAZER O MAL E A CARAMUNHA?

Eu não posso ter a certeza, tal a subversão implícita dos poderes relativos dos intervenientes, se a citação acima de Jean-Claude Juncker estará correcta, mas dou-a por certa já que terá a chancela da AFP. Mas é tão evidente que, a haver desrespeito, ele se terá manifestado sobretudo da Europa para com a Grécia e não o contrário, que este despropósito argumentativo de Juncker me fez lembrar uma passagem de uma celebrada entrevista a um Adolf Hitler completamente inocente (protagonizado por Hermann José) em que, quando questionado porque havia invadido a Polónia (abaixo, aos 2:45), deu como resposta que era tudo mentira: A Polónia é que os havia invadido! Estavam quietos e a Polónia é que se veio anichar aos seus pés.

É que sem contraditório, é possível disparates colossais que até parecem fazer sentido. Respeitamos o sufrágio universal na Grécia, mas a Grécia também deve respeitar os outros, as opiniões públicas e os parlamentares do resto da Europa, acrescentou Juncker. No mesmo registo, esta caricatura de Adolf Hitler acima, poder-se-ia lamentar adicionalmente que, no processo de se anicharem, os polacos ainda haviam causado 16.000 mortos e 30.000 feridos entre as tropas alemãs...

A sério, conhecem-se hoje as manobras conspiratórias do antecessor de Juncker, Durão Barroso para, com aliados e adversários locais, derrubar George Papandreou, quando o primeiro-ministro grego de então teve a peregrina ideia de anunciar a convocação de um referendo sobre as condições associadas ao novo resgate da Grécia pela troika no Outono de 2011. Ignoro se seria um dos resultados ou até o princípio em si da soberania popular o que mais incomodaria Bruxelas nessa jogada de Papandreou, o que importa é que a um gesto destes chamar-se-á interferência descarada na política interna grega e creio não se ter dado por fenómeno equivalente e recíproco do poder político de Atenas em relação ao resto de Europa. Mas talvez o senhor Juncker possa explicar melhor à AFP em que sentido empregou o verbo respeitar...

COMO SE FOSSEM DUAS FOTOGRAFIAS DIFERENTES

Quando o italiano Salvatore Piermarini publicou esta sua fotografia em 1988, ela possuía uma preocupação e um significado estéticos que se vieram a modificar radicalmente treze anos depois, em 11 de Setembro de 2001. A arte também é feita de peças que só posterior e casualmente adquirem um outro valor e significado.

28 janeiro 2015

A «TERNURA» DE UMA PISTOLA DE CALIBRE 6,35 mm

A notícia passou discreta que, havendo um poderoso lóbi profissional em prol da venda e livre posse de armas, não há nenhum igualmente organizado promovendo as notícias das consequências disparatadas do seu emprego. E reza assim a tal notícia: um soldado norte-americano de 28 anos chegou antecipadamente a casa e resolveu fazer uma surpresa à mulher trazendo-lhe o pequeno-almoço (à cama, deduz-se do resto da narrativa). Pelos vistos, esqueceu-se de desligar o alarme de casa e a esposa retribuiu-lhe a ternura alvejando-o no peito. O que torna a história mais americana é a redacção e a análise dada à notícia pelas publicações típicas locais, que acabam por atribuir a responsabilidade do acidente ao marido, por não ter desligado o alarme, porventura ao alarme por não se ter desligado, talvez mesmo ao clima de assaltos que se teria vindo a verificar naquela zona, mas não à atiradora que disparou através de uma porta fechada sem ver contra quem atirava e sem que na notícia se levante qualquer interrogação sobre a total dispensabilidade da presença da arma em casa, considerado o desfecho. 6,35 mm é o calibre clássico das armas de defesa pessoal.

FOTOGRAFIAS DE UM PORTUGAL URBANO

Às vezes são precisos os olhos de estrangeiros para, chegando de fora, nos fazer ver aquilo que é caracteristicamente nosso e de que nem nos apercebemos do quão identificativo é da nossa identidade. Neal Slavin (1941- ) é um fotógrafo norte-americano que esteve em Portugal em 1968/69, fase de transição do estado novo de Salazar para a primavera marcelista que não desbrotou,  onde recolheu uma colecção de fotografias interessantíssimas. É por elas que nos apercebemos como, pequeno país que sejamos no Mundo,existe uma inconfundível paisagem urbana portuguesa, feita de um cuidado meticuloso e único como se pavimenta, calcetando, os espaços urbanos.

27 janeiro 2015

...OUTRAS POLÍTICAS


Será preciso algum tempo (42 minutos), bastante paciência, mas não necessariamente muitos conhecimentos de russo, para acompanhar com interesse esta transmissão televisiva de época com a cerimónia de aprovação pelo Soviete Supremo da nova Constituição da União Soviética em 7 de Outubro de 1977. Parece existir um tradutor automático para tudo o que é pomposamente chato. Está lá tudo o que se pode esperar da coreografia de tais cerimónias: um longo discurso do secretário-geral Leonid Brejnev, votações por unanimidade, intermináveis e entusiásticas sessões de aplausos. É uma pena que a nossa RTP não tenha preservado no seu arquivo cerimónias em Portugal deste jaez, como, por exemplo, a segunda reeleição do almirante Américo Tomás feita pelo colégio eleitoral e que teve lugar no hemiciclo de São Bento em 25 de Julho de 1972¹ e que se lhe devia equiparar certamente em solenidade e emoção. Mas é um paradoxo que não são estas últimas, mas as outras, as de cima passadas ainda por cima em Moscovo, as cerimónias que ainda hoje gerarão nostalgias no espectro político português: ainda há pouco ouvi a antiga eurodeputada Ilda Figueiredo repetir pela enésima vez num programa de TV qualquer quanto são precisas outras políticas – que ela e os seus camaradas têm sempre o cuidado de não precisar em detalhe em que consistem. Pois bem, que não restem dúvidas que o arrastado discurso de Brejnev e a constituição da URSS foram uma expressão concreta dessas outras políticas. Para que fiquemos esclarecidos quando nos andam a impingir em novos embrulhos quinquilharia em segunda mão...
¹ Acrescente-se, por curiosidade, que nessa eleição (secreta, ao contrário da do braço no ar acima) não houve unanimidade: registaram-se 616 votos a favor, mas houve 29 nulos.

DEMIS ROUSSOS

Morreu Demis Roussos, o cantor grego que se notabilizou cantando um reportório romântico dirigido predominantemente a um público feminino com a sua reconhecível voz aguda de (quase) castrato, enquanto a sua imagem, para contraste, era a de alguém que exibia ostensivamente a sua masculinidade numa profusa riqueza pilosa (acima - a fotografia é de Xavier Martin). Mas é com uma outra canção da sua carreira inicial (final da década de 1960), quando ele integrava com Vangelis uma banda de rock progressivo chamada Aphrodite’s Child, que prefiro rematar o poste. Apropriadamente para a ocasião, não só por sua causa mas também pela do seu país, intitula-se: The End of World. Pelo menos, o fim de um certo género de mundo...

26 janeiro 2015

VIOLETTA E AS OUTRAS ou TV NOSTALGIA - 79

Há fenómenos de popularidade que não nos são apelativos mas, mesmo assim, ainda geram a capacidade de nos fazer compreender porque existem: é ocaso, para citar um que enche os cabeçalhos, o da telenovela argentina Violetta entre as crianças. Em contrapartida, ando há quase quarenta anos a tentar descobrir que público-alvo se terá atraído entusiasticamente por um formato como os Anjos de Charlie, envolvendo três raparigas bonitas, boazonas, fisicamente desembaraçadas, cujos talentos pareciam complementar-se convenientemente. A série de TV foi líder das audiências televisivas nos Estados Unidos (1976),...

...antes de viajar para a Europa assim incensada e de ali ter chocado com um muro generalizado de indiferença. Usando o comentário de uma das protagonistas originais da série (Farrah Fawcett): quando a série estava em terceiro lugar nas audiências, achava que era o resultado do nosso trabalho de actrizes, mas quando chegou ao top fiquei com a certeza que era porque nenhuma de nós três usava soutien. Nem de propósito, e por muito angelicais que fossem esses Anjos de Charlie originais, repare-se nesta fotografia de promoção de Douglas Kirkland, como os vestidos eram iguais mas os decotes individualizados.

O CONVIDADO EM ESTÚDIO QUE OPINOU, A JORNALISTA QUE SE AUTOPROMOVEU A COMENTADORA, O ENVIADO ESPECIAL QUE ESTAVA EM ATENAS E AS BOCAS QUE ELE DE LÁ MANDAVA

Comece-se por dizer que a extensão do título é uma paródia caricatural àquele que fora escolhido para um outro filme de há 25 anos (The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover), considerado então uma alegoria do thatcherismo. Este será uma alegoria à superficialidade crescente, em jeito de entretenimento, como a informação é tratada em televisão.

Fez muito bem José Manuel Pureza em chamar a atenção (acima) para o teor das reportagens que José Rodrigues dos Santos havia mandado de Atenas para a RTP antes das eleições de ontem. Se não o tivesse feito, eu, por exemplo, não me teria apercebido do teor do trabalho daquele último. A atitude da anfitriã, saltando da mediação que lhe competia para a defesa do trabalho do colega, interrompendo o discurso do convidado (em vez do recato que se esperaria de quem faz de anfitrião num programa televisivo),...

...poderá ficar muito bem no manual de boas práticas solidárias da corporação da classe, mas foi outra desgraça mediática porque a apreciação da cobertura efectuada por José Rodrigues dos Santos mostrou-o, a todos os títulos, de uma parcialidade preconceituosa inaceitável. Será que, na RTP se aceitaria com igual indulgência um trabalho de um hipotético enviado especial a Berlim em que este opinasse que os alemães, não sendo preguiçosos e aproveitadores, eram em contrapartida quase todos uns nazis encapotados?

PS: Em paralelo com o acima descrito, mas corroborante da palhaçada em que se transformou quase toda a informação em televisão, nessa mesma noite uma outra estrela de um canal concorrente (Judite Sousa), em conversa com o professor, mostraram ambos não fazer a mínima ideia quantos deputados compõem a nossa Assembleia da República.

25 janeiro 2015

PARABÉNS, SENHOR PRESIDENTE!

Aqui há pouco mais de mês e meio, quando da celebração do 90º aniversário de Mário Soares, o jornal Público destacou-se pela publicação de um exclusivo sobre o assunto com exuberante destaque de primeira página (acima), em contraste com a concorrência como então assinalei.
Que o assinalar dos aniversários redondos daquele ex-presidente parecem ser um happening do jornal, independentemente de quem o dirija na altura (José Manuel Fernandes neste segundo caso), mostra-o esta outra capa dez anos anterior, por ocasião do 80º aniversário de Mário Soares.
Fiquei na expectativa de saber quais os critérios editoriais do jornal quando fosse a vez de Ramalho Eanes festejar uma dessas idades provectas e redondas – no caso os oitenta anos. Hoje. Onde a capa de edição do Público acima fala por si. Essencialmente pelo que lá não está.
E suponho que, além de endereçar os mais que devidos parabéns ao presidente Ramalho Eanes, é preferível não acrescentar muito mais ao assunto. Houve quem tivesse lembrado (num outro jornal) que hoje é dia de homenagear o rei... Eusébio (que completaria 73 anos... se fosse vivo).

24 janeiro 2015

A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO E A OPERAÇÃO TORANJA

Haverá profundas ressonâncias da Antiguidade Clássica quando se baptiza uma Operação de Nó Górdio que não existem quando se escolhe para outra o nome de Toranja (Grapefruit para os seus participantes zimbabweanos). E haverá uma ressonância épica da História moçambicana ao baptizarem-se as bases com os nomes de Gungunhana, Moçambique e Nampula que parece ausente no nome, quase risível, de Casa Banana. Mas, apesar de tudo, poder-se-ão encontrar semelhanças várias entre as duas operações, ambas executadas em Moçambique, num quadro táctico muito semelhante, embora separadas por quinze anos, período durante o qual a evolução da História havia feito com que o protagonista comum às duas operações – as forças armadas da FRELIMO – tivesse trocado de papel. Em Julho/Agosto de 1970, foi o Exército português a desencadear a Operação Nó Górdio no norte de Moçambique (veja-se o mapa acima), concentrando mais de 8.000 efectivos e um conjunto de meios aéreos, de armamento pesado e de unidades de combate que nunca fora reunido até então para, numa manobra concêntrica, cercar e posteriormente atacar e capturar as três principais bases da FRELIMO na província de Cabo Delgado, junto à fronteira com a Tanzânia, onde estariam estacionados cerca de 2.000 a 2.500 guerrilheiros, o grosso das suas forças combatentes. A Operação foi considerada à época um sucesso pelos portugueses: as três bases conquistadas, o inimigo em fuga sofrendo 650 mortos, 40 toneladas de armamento capturado, etc. Mas num livro escrito mais de 30 anos depois pelo coronel Matos Gomes (abaixo), a avaliação é muito mais circunspecta: as consequências da Operação Nó Górdio são avaliadas a médio prazo e são comparadas ao efeito de uma pedrada no vespeiro (sic): sob pressão em Cabo Delgado, a actividade militar da FRELIMO veio a transferir-se para as províncias do centro, nomeadamente a de Tete, onde se estava a construir a gigantesca barragem hidroeléctrica de Cahora Bassa, esse sim, um objectivo económico relevante. A realização da Operação Nó Górdio acabou por facilitar-lhe a manobra, permitindo que a FRELIMO alargasse o seu campo de acção e, principalmente, escolhesse o momento e o local onde iria travar o combate decisivo.
Em Agosto/Setembro de 1985, quando da Operação Toranja, os protagonistas estratégicos haviam-se invertido. Portugal abandonara as suas pretensões coloniais sobre Moçambique em 1975. A FRELIMO assumira o poder e as suas forças armadas passaram com isso a desempenhar o papel que havia sido o dos portugueses. A subversão era agora protagonizada pela RENAMO que centrara a sua actividade nas províncias do centro, em Manica e Sofala, e que se acolitava nas regiões circundantes do Parque Natural da Gorongosa. Era daí que se conseguia bloquear a rede de distribuição eléctrica da energia produzida por essa mesma barragem de Cahora Bassa já mencionada acima. Para desbloquear politicamente a situação, Moçambique assinara em 1984 um Acordo com a África do Sul em que esta se comprometia a abandonar o apoio logístico aos rebeldes moçambicanos. A sua base situada em Casa Banana era um desafio à autoridade central equivalente ao das três bases da FRELIMO 15 anos antes: até possuía uma pista de aviação! O complexo de bases que a rodeava estaria guarnecido com uns 1.400 a 1.600 guerrilheiros, e contra ele constituiu-se um agrupamento táctico calculado entre 8.000 a 10.000 efectivos, composto por tropas tanto do Zimbabué como de Moçambique. A manobra de cerco e captura dos redutos da RENAMO, protagonizada sobretudo pelos primeiros, era muito semelhante à efectuada pelos portugueses, o que diferiria seria a doutrina e os meios, neste caso fortemente influenciados pelos países de Leste. Mas o sucesso foi considerado igualmente retumbante. Aproveitando a dinâmica desta Operação Toranja, em meados de Setembro outras bases adjacentes (Indoro, Manhatanda) vieram também a cair nas mãos das forças governamentais moçambicanas. Enumeravam-se 500 mortos entre os rebeldes. Como outrora acontecera com Kaúlza de Arriaga, o general português responsável pela Nó Górdio, também o presidente moçambicano Samora Machel se deixou fotografar acompanhando o decorrer de acção em conversa com os operacionais (abaixo). Mas a prazo – e bem curto – percebeu-se que a FRELIMO cometera precisamente o mesmo erro que os portugueses haviam cometido, a tal pedrada no vespeiro. A RENAMO dispersou-se, expandindo a sua actividade para as províncias adjacentes. Pior do que acontecera no passado, a RENAMO teve até o descaramento de aproveitar a retracção do dispositivo do inimigo para reconquistar a base de Casa Banana logo em Fevereiro de 1986...
É consensual reconhecer que Portugal perdeu as guerras em África. Agora, convém alguma moderação nos elogios aos vencedores, especialmente quando esses elogios têm o efeito de nos denegrir desnecessariamente. É que exemplos como este demonstram que se pode cair na tentação de atribuir aos nossos antigos inimigos virtudes e lucidezes que na prática – porque, não esqueçamos, a guerra continuou depois da descolonização, tanto em Angola como em Moçambique – eles demonstraram nunca ter tido.

23 janeiro 2015

OS TEMPOS DA «CORTINA-DE-BAMBU» E DO TERRAMOTO DE 1976

A frequência com que aparecem pequenas notícias insólitas oriundas da China – (1), (2), (3) ou (4) – faz-me lembrar, por contraste, o período em que tudo o que se passava naquele país era opaco – havia quem empregasse a expressão cortina de bambu por analogia com a cortina de ferro que também nos impedia de acompanhar com liberdade o que se passava na Europa de Leste. Aquilo que se passava na China estava vedado à comunicação social que não fosse controlada pelas autoridades. Um exemplo impressionante das consequências disso foi – parece-me que...
...continua a ser – o episódio do terramoto que abalou o leste da China em 28 de Julho de 1976 e que afectou sobretudo a cidade de Tangshan. Por essa época travava-se nas cúpulas do Partido Comunista Chinês uma decisiva batalha política quanto à sucessão de um moribundo Mao Zedong que viria a morrer, aliás, dali por pouco mais de um mês (a 9 de Setembro). As autoridades, mesmo as não assumidamente alinhadas com as facções em disputa, movimentavam-se com a cautela de quem não quer fornecer pretextos aos seus adversários potenciais.
Porém, a dimensão da destruição do terramoto, conjugada com uma cultura maoista orientada para a inflação dos números reportados fez com que as primeiras contagens de vítimas da tragédia que chegaram ao exterior apontassem para 655.000 mortos, o que a transformaria numa das maiores tragédias naturais da História¹. Apesar disso – ou por causa disso – o governo chinês não quis aceitar os meios de auxílio internacional que lhe foram oferecidos pela ONU, acreditando (provavelmente com razão) que, com a chegada das equipas internacionais de socorro, ele perderia o controlo da informação que chegaria ao exterior.
Para uma informação mundial habituada (e dependente) do audiovisual, o terramoto de Tangshan foi um desapontamento e um retrocesso, um acontecimento para ler pelos jornais como acontecia com as catástrofes 50 anos antes. A abertura posterior da China permitiu que se viesse a rectificar (1988) em baixa o número oficial de vítimas, 242.819¹; em 2010 apareceu um filme (Tangshan Dadizhen - abaixo) cujo enredo se desenvolve a partir desse terramoto e que foi um grande sucesso comercial na China. Fora dela contudo, e por causa da escassez das imagens, a tragédia praticamente desapareceu da memória colectiva.

¹ Para comparação, o número de vítimas causadas pelo tsunami que em 2004 varreu o Oceano Índico foi subindo progressivamente até atingir a estimativa final de 230.000.

22 janeiro 2015

A «BAZOOKA»

Bazuca (na sua forma aportuguesada) parece ter-se tornado numa palavra-chave, insistentemente repetida, sem a qual não se consegue ler qualquer notícia a respeito do programa do BCE que foi hoje apresentado por Mario Draghi. São coincidências a mais para que a expressão não tivesse sido propositadamente plantada mas, para quem tenha algumas noções sobre a história do armamento não deixa de ser irónico que se vá buscar um termo designando uma arma de origem norte-americana quando o assunto é exclusivamente europeu e onde, entre armas com as mesmas características aparecidas na mesma época, existem, por exemplo, o panzerfaust e o panzerschreck alemães ou o PIAT britânico. Será porque tanto os alemães como os britânicos - embora por motivos diferentes - não querem ter nada a ver com a tal de bazuca de Draghi?