31 agosto 2014

EM MEMÓRIA DOS DESMEMORIADOS

Porque foi muito criticada, insisto em deixar assinalado que gostei muito da crónica escrita por José António Saraiva a respeito de, e a propósito da morte de, Emídio Rangel. Posada, como de costume, parece-me ao menos sincera, o que não se pode dizer de muita hipocrisia mal camuflada que se escreve naquelas ocasiões. Aqueles que temos por estupores podem deixar de ser estupores activos mas não deixarão de ter sido estupores apenas por falecerem e tenho a certeza que isso será notório no conteúdo de várias notas necrológicas – algumas escritas precisamente por aqueles que agora se indignam – que se virão a redigir quando a ocasião for a da morte do próprio José António Saraiva...

CAVACO E O BES (2): EM JEITO DE PENITÊNCIA

Quando há três semanas recomendei a Cavaco que, após a sua inexplicável e inaceitável reserva sobre o caso BES, preservasse ao menos a coerência de não sair dela (reserva veranil) durante as férias por motivos pueris, profetizei ironicamente quão provável seria que ele não fizesse aquilo que então lhe recomendava e viesse a assestar mais uma (pequena) machadada no prestígio do cargo que ocupa, se saísse dessa reserva para felicitar um qualquer atleta que acabe de ganhar a medalha de bronze nuns (…) campeonatos europeus de taekwondo. Pois bem, há que confessar o quanto me enganei: não foi um mas uma atleta; não foi uma medalha de bronze mas de prata; não foram uns campeonatos europeus mas mundiais; e sobretudo não foram de taekwondo mas de uma outra arte marcial, o judo. Aprendendo com os erros: quando for mais crescido hei-de aprender a gerir silêncios como o Cavaco…

30 agosto 2014

EFEMÉRIDES REVOLUCIONÁRIAS


Completam-se hoje 96 anos que Lenine foi vítima de uma tentativa de assassinato perpetrada por uma militante social-revolucionária chamada Fanni Kaplan. Como os seus correligionários, Kaplan era uma entusiasta da Revolução Russa, que consideravam traída pela actuação de Lenine e pelos bolcheviques. O vídeo é uma reconstrução realizada cerca de 15 anos depois e é um exemplo típico da cinematografia de propaganda da época. De realçar a ironia da cena final, a da protecção contra a fúria popular que se vê a ser prestada pelas forças policiais. Na realidade, depois de vários interrogatórios para que lhe fosse extraída a identidade dos cúmplices (deixo à imaginação do leitor os pormenores de como eles se terão realizado…), Kaplan foi executada – um tiro na cabeça! – sem qualquer outra forma de processo apenas quatro dias depois do atentado. Seguiram-se cerca de 800 dirigentes sociais-revolucionários e outros opositores de esquerda dos bolcheviques, todos executados sem julgamento. Dialecticamente camuflou-se a (primeira de muitas)purga(s) designando-a por justiça revolucionária…

AFINAL...

Já se tornou uma normalidade que tudo aquilo que é publicado explicando fundadamente algo que fora anteriormente apresentado como um mistério inexplicado recebe apenas uma fracção da divulgação que o mistério original recebera. Em informação está-se sempre a aludir ao primado do logos mas é o pathos que desperta o interesse da clientela - e, ao fim e ao cabo, vende os jornais com que se pagam as contas...

29 agosto 2014

OS MARQUES PORTAVOZES

A comunicação do governo parece ter definitivamente assentado na articulação virtuosa entre os dois Marques Portavozes: há o Marques Guedes que se encarrega da comunicação formal e de nos informar como terá sido (as resoluções do conselho de ministros, por exemplo) e há o Marques Mendes que exibe um registo pretensamente informal e que nos informa como há-de vir a ser (…o que estará Passos Coelho a pensar fazer). E ninguém na área governamental se finge indignar sequer com as pretensas fugas de informação que o segundo exibe todos os Sábados.

O VELHO MISSIL DO APOCALIPSE

Esquecidos por alguns silos da antiga União Soviética as fotografias mostram-nos que ainda existem in situ alguns misseis que outrora foram instrumentos temíveis, mas que hoje estão mais do que desactivados, carcomidos. As imagens lembraram-me Batalha no Arrozal, uma aventura de BD (1975) protagonizada por Bruno Brazil (William Vance e Greg), onde um comando disputava a posse de um desses misseis terríveis de ameaçadores (embora japonês), mas antigo de trinta anos, cuja perigosidade se despenha (literalmente) à frente dos heróis no final da história.

28 agosto 2014

A HABILIDADE DE SABER LER JORNAIS

Ainda hoje o Expresso se orgulha dos seus meses iniciais e das dificuldades que sofreu então às mãos da censura. Um artigo de opinião como este acima, assinado por Francisco Sá Carneiro e publicado em Novembro de 1973, no rescaldo das eleições legislativas daquele ano, é rematado com uma caixa publicitária com os dizeres Expresso, um jornal para saber ler, que os leitores do jornal de então conheciam o significado: a censura cortara o texto de Sá Carneiro no equivalente àquele espaço. Mais de 40 anos depois a censura formal não passa de uma evocação histórica, mas não pude deixar de pensar no mesmo conceito das notícias dadas para os leitores saberem ler quando vi a notícia abaixo, publicada ainda hoje. O tema é completamente diferente: é um caso criminal. Em nenhum lado se pode escrever, porque socialmente incorrecto, que os condenados são ciganos, e é assim que, apelando à cumplicidade do leitor, é a fotografia que o sugere. É irónico que a redacção do título pareça destinada a acirrar a antipatia do leitor pelos réus e nesse sentido seja uma notícia de uma parcialidade gritante. Mas qualificá-los de ciganos é que parece verdadeiramente censurável e a evitar…

COMO SE FOSSE A ILUSTRAÇÃO DE UM ROMANCE DE AGATHA CHRISTIE

O ambiente que rodeia a fotografia do italiano Gianni Berengo Gardin adequa-se precisamente ao meio e às circunstâncias em que sempre decorrem os romances de Agatha Christie. A nota adicional de mistério é fornecida pela mulher que aparece estendida no chão, escondida por uma mesa de refeição, conjuntamente com um homem que se afasta. Em dezenas de enredos nunca Hercule Poirot se relacionou com um mendigo nem Miss Marple entrou num casebre. Além da vida dos pobrezinhos ser um mistério (frase de uma outra autoria...), de acordo com o que Agatha Christie escreveu ao longo de toda a sua vida, os pobres nunca foram dados à sofisticação nas formas como escolhiam assassinar os seus semelhantes. Os ricos sim. Apesar das aparências, qualquer leitor de Christie sabe que, nestas circunstâncias tão incriminatórias, o homem da fotografia teria de estar inocente.

27 agosto 2014

OUTRO «DAYDREAM»


Este outro Daydream é até mais antigo (1966) do que o que o precedeu. Parece-me evidente que mostra uma imaginação bem mais trabalhada que o anterior, embora a entrada da wikipedia nos diga que se tratou de uma tentativa de John Sebastian, o autor, em reescrever um outro sucesso musical, Baby Love, cantado pelas Supremes.

«THE SLEEPWALKERS» (OS SONÂMBULOS)

Há tarefas que, para serem bem feitas, consomem um tempo ingrato. Quando Pedro Passos Coelho afirmou no princípio deste mês que a solução encontrada para o BES fora a melhor atendendo às circunstâncias, houve que aceitar a honestidade da opinião, considerando que ele estaria simplesmente a transmitir adiante as conclusões do exército multidisciplinar de assessores que o rodeia. Mas quando um outro exército, o de comentadores, se fez eco dessa mesma ideia, foi estranho como nenhum daqueles analistas encartados (pelo menos nenhum que eu tivesse visto), se sentiu na obrigação de a explicar mais detalhadamente, com o descartar de outros dois, três, ou quatro processos alternativos de intervir no banco, sustentando porque endossava a ideia do primeiro-ministro. Tem vezes que há que fazer um trabalho suplementar (e não espetacular) para poder formular uma opinião devidamente sustentada. É custoso e pouco remunerador.
 
Para poder continuar a recomendar com consciência a quem manifeste interesse pelo assunto o veterano (1963) livro The Guns of August de Barbara Tuchman como o mais agradável de ler a respeito dos preâmbulos da Primeira Guerra Mundial, tornou-se necessário acompanhar o que se foi publicando (e republicando) sobre o mesmo assunto a pretexto do centenário desses mesmos acontecimentos. É assim – mas também e talvez sobretudo para aprender mais sobre o assunto – que me dispus a ler as 562 páginas de The Sleepwalkers de Christopher Clark, que fora editado originalmente no Reino Unido em 2012. Ao contrário de outros casos e uma excelente ocasião para elogiar a editora Relógio d’Água, refira-se que foi editada este mês a tradução portuguesa do livro por uns razoáveis € 22 (o original custa € 9,50 na Amazon.uk). Em minha opinião, Os Sonâmbulos não me parece destronar o estilo muito mais ameno do clássico de Barbara Tuchman, contudo não desaponta quem o lê, mesmo já tendo lido outros sobre o mesmo tema.
 
A maior crítica que o livro poderá merecer é que Clark é um germanófilo assumido, detecta-se um esforço contínuo do autor em reanalisar os acontecimentos daquele Verão de 1914 numa perspectiva exoneradora das responsabilidades tradicionalmente assacáveis às potências dos Impérios Centrais e que foram aliás vertidas para o art.º 231 do Tratado de Versalhes. Nessa perspectiva, parte do sucesso do livro incluir-se-á num amplo movimento revisionista da História recente da Alemanha que tem estado a ter lugar depois da reunificação, e de que já mostrei neste blogue alguns outros exemplos. A leitura destes livros trazem consigo, ainda e porém, aspectos lúdicos que terão escapado até ao próprio autor. Devo-lhe a ele, por exemplo e apesar de já ter lido sobre este período noutras fontes, o ter reparado ao correr da leitura, nos apelidos contraditoriamente cosmopolitas dos embaixadores daquela época.
 
A começar por Maurice Paléologue, o embaixador francês em São Petersburgo, que exibia um apelido de inequívoca ressonância medieval, imperial e bizantina. Em contraste, o conde de Pourtalès, que usava um apelido de uma evidente sonoridade francófona, era o representante da Alemanha na mesma capital. Em Londres, os contrastes chegavam a cruzar-se: competia ao príncipe Lichnowsky, apesar da ressonância eslava do título que ostentava, representar a Alemanha e ao conde Benckendorff representar a Rússia. Mas gostaria de terminar com uma nota séria, que o autor guardou para a conclusão (p. 562): pergunta-se ele, distinguindo a Europa de 1914 da que se seguiu a 1945, se os grandes protagonistas de então (1914), e mau grado a retórica que exibiam sobre a guerra, sentiriam aquilo onde se iriam meter. Em 1945, umas dezenas de milhões mortos depois e sob o espectro da guerra nuclear, é que já não havia retóricas fingidas...
 
A pergunta que eu coloco, por analogia, é se os políticos light da actualidade – como um Pedro Passos Coelho ou um François Hollande – sentirão aonde os irá conduzir as austeridades que irão liquidar o estado social, através de medidas para onde têm estado a ser induzidos. Será que eles se apercebem que, sem ele (estado social), no quadro do que será a evolução política consequente e daquilo que já sabemos pelo que aconteceu no passado, figuras populistas como Marinho Pinto ou Marine Le Pen não tardarão a passar por opções bastante razoáveis no quadro daquilo que passará a ser, devido ao desespero, uma disputa política pontificada por políticos heavy… Em suma, e para regressar ao título do livro, o sonambulismo parece-me uma boa forma de retratar também esta insistência de Pedro Passos Coelho de como não há alternativas às medidas que têm vindo a ser adoptadas pelo governo. A ausência de resultados está aí para o demonstrar...

«DAYDREAM»


Daydream foi um hit musical de 1969 da autoria de uma banda belga denominada Wallace Collection. A melodia é uma cópia de tal forma óbvia do bailado do Lago dos Cisnes de Tchaikovsky que se torna irrelevante acrescentar que em todos estes anos os membros da banda nunca reconheceram o plágio. Quando o que existe, existe desta forma tão flagrante, a ausência da constatação da realidade é apenas pormenor. É como a queda do Muro de Berlim. O que é irónico é que eu conheci esta música antes de conhecer a de Tchaikovsky e portanto comecei por pensar que o bailado é que era o plágio desta: a ignorância conjugada com a ingenuidade pode justificar transitoriamente alguns erros. Mas apenas transitoriamente…

26 agosto 2014

O DOUTORAMENTO DO CAUDILHO

Salamanca, 8 de Maio de 1954. Haviam-se passado precisamente nove anos após o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, mas o que se celebrava na famosa Universidade local (a mais antiga da Europa) era o seu 700º centenário, oportunidade para a cerimónia da atribuição do grau de doutor honoris causa ao generalíssimo Francisco Franco (1892-1975). Há muito que o reitor da universidade deixara de ser um Miguel de Unamuno (1864-1936), cuja conduta levara a que fosse expulso do cargo em 1936. Dezoito anos depois o reitor chamava-se Antonio Tovar (1911-1985), viria a ser um filólogo de mérito, mas cujo êxito da carreira inicial se deveria muito mais à militância na Falange e à protecção de Serrano Súñer, o cunhadíssimo (1901-2003), do que aos predicados académicos. Para a ocasião, o caudilho de Espanha, que nunca pretendera passar por intelectual, e a quem se conhecia até alguns comentários de desdém pela actividade, mostrava estar nitidamente fora da sua zona de conforto. O discurso de aceitação que proferiu (acima), após as quase obrigatórias expressões de modéstia preliminares, foi de uma auto-congratulação deslocada, com referência àqueles de nós que fazem a História, comparando a sua obra aos caudilhos reais que no Século XIII, já na fase de merecido descanso após a conclusão vitoriosa da Reconquista, lançaram as fundações sobre as quais a gloriosa Universidade de Salamanca viria a ser erigida. Foi uma cerimónia tensa, descreveu-a quem a ela assistiu: a certa altura, um dos professores catedráticos presentes tentou tirar a sua bolsa de tabaco do bolso e viu o seu gesto ser escrutinado por um punhado de membros da equipa de segurança do chefe de Estado espanhol subitamente reunidos à sua volta. Franco permaneceu rígido durante toda a cerimónia, mal abriu a boca durante o banquete que se lhe seguiu, e este terminou com o homenageado que a ele presidira a levantar-se bruscamente sem quaisquer palavras finais. Fora um frete para ele… e fora outro frete para a docência da Universidade. Porém, a história deste frete recíproco não se terá perdido na memória colectiva da instituição e não terminou ali assim. Em 2008, 54 anos passados, a Universidade rejeitou a concessão do título académico a Francisco Franco. Como alguém disse na altura e a propósito: não para reescrever a história, que essa foi a que foi, mas para reescrever a dignidade da Universidade.

AS TRAGÉDIAS E AS ESTATÍSTICAS

Moscovo 1943. Um cortejo de vários milhares de prisioneiros alemães capturados durante e após a Batalha de Estalinegrado é passeado pelas ruas da cidade. Note-se o palanque onde se instalaram as câmaras para filmar toda a cena e depois a difundir. A tradição russa de passear prisioneiros pelas cidades para os sujeitar às humilhações da população civil é portanto uma prática antiga, pelo menos com 70 anos. Já vi muitas fotografias deste mesmo género, há mesmo vídeos no you tube, mas não me recordo de manifestações de solidariedade para com o tratamento sofrido pelos alemães. Acrescento mesmo que, na legenda que acompanha a fotografia acima (recolhida de A Segunda Guerra Mundial, Raymond Cartier, Vol. 3, p. 117) se precisa que os prisioneiros alemães sorriem e fazem sinais à multidão, para eles a guerra acabara. Uma alegria, apetece ironizar. O que haverá de novo nas fotografias que nos chegam de Donetsk, aproximando-se, individualizando as expressões dos prisioneiros, é a manifesta intenção de nos despertar simpatia pela sua sorte, como se constata pelo caso exemplar daquela que foi ontem utilizada pelo Público na sua primeira página. Porém, a humilhação que se percebe nas expressões das dezenas de ucranianos abaixo não deve ser muito diferente da que só se pode adivinhar nos milhares de alemães acima, de quem muito poucos se condoeram. A proximidade ou a distância humanizam ou desumanizam conforme as conveniências da propaganda. Tudo é relativo, resumir-se-á a uma questão de enquadramento que pode transformar (numa lógica imorredoura atribuída, nem de propósito, a Estaline) a desdita de alguns numa tragédia e a desdita de muitos milhares numa estatística.

25 agosto 2014

«JE SAIS QU'ON NE SAIS JAMAIS»

O assunto é recorrente, já foi aqui abordado no blogue, mas como ele se perpetua, evidenciando o fracasso total do governo em controlar o crescimento da dívida pública (quando medida em comparação com o PIB), julgo tornar-se adequado adicionar ao gráfico uma banda sonora lúgubre com a voz respeitada (mas não propriamente dotada) de Jean Gabin: a canção intitula-se Je Sais, onde ele narra como ao longo da vida foi sucessivamente sabendo até se aperceber que, a saber, só saberá que nunca se virá a saber. Também a nós nos tem vindo a ser prometido encadeadamente que a austeridade que nos impõem há de vir a estabilizar e depois a reduzir o peso da dívida pública (ao contrário do que sucede no gráfico exibido acima). Quando é que isso virá a acontecer? Como remata Jean Gabin na canção: – Maintenant je sais: je sais qu’on ne sais jamais

(A tradução não é das mais conseguidas mas a cavalo dado não se olha o dente)

O COMETA E A FICÇÃO DE VERNE

As fotografias que têm sido dadas a conhecer do cometa 67P (Churiumov-Gerasimenko para os amigos...) são realmente espectaculares. Tiradas a uma proximidade crescente daquele corpo celeste, a riqueza dos detalhes induzem-nos a imaginarmo-nos instalados na sua superfície e fizeram-me lembrar um livro que li na juventude,…
Heitor Servadac, um romance dos menos valorizados de Jules Verne onde o herói que dá o título ao livro, conjuntamente com um punhado de acompanhantes das origens mais diversas, se vêem arrastados involuntariamente para uma viagem interplanetária de dois anos num outro cometa de período curto que raspara pela Terra.

BANCA FUTURO MELHOR

Agência bancária algures em Moçambique, não sei se mais vocacionada para o mass market ou para o segmento de prestige... Se calhar, esta Banca Futuro Melhor não cumpre os rácios exigíveis de liquidez e/ou solvabilidade mas, em contrapartida, estará muito bem classificado nos índices de optimismo dos clientes. Os meus votos de boa sorte!

Adenda: Ficou indesculpavelmente em falta a identificação do autor da fotografia: José Pimentel Teixeira, a quem, ainda por cima e ao contrário de outros fotógrafos que aqui refiro e promovo, eu devo a atenção adicional de ser um leitor regular deste blogue.

24 agosto 2014

AS GUERRAS QUE NÃO PRODUZEM ESTROPIADOS

aqui o registei mas nunca é de mais insistir o quanto os esforços militares de Portugal e de Cuba em Angola se equivaleram em recursos humanos engajados. Os portugueses de 1961 a 1974 (13 anos), tendo atingido um máximo de 65.000 efectivos em 1973; os cubanos de 1975 a 1989 (14 anos) e um máximo de 55.000 efectivos em 1988. Os portugueses sofreram 3.250 mortos; os cubanos 2.289 mortos (as duas cifras são oficiais). Segundo dados estimados da própria Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA) em Portugal, a acrescer haverá cerca de 1.500 veteranos que terão ficado estropiados em consequência das operações em Angola, uma permanente recordação das sequelas dessa guerra, um incentivo para a continuidade da sua discussão em Portugal até à actualidade.
Em Cuba não há nada disso. Não há muitas fotografias (esta acima é praticamente clandestina), não havendo fotografias de estropiados não há estropiados, e não haver estropiados simplifica qualquer discussão sobre o impacto da guerra internacionalista de Angola nos veteranos que a viveram. Isto parece ser uma daquelas vantagens concretas que os comunistas portugueses costumam apontar às sociedades socialistas cientificamente organizadas de que Cuba é uma das últimas ainda subsistentes. Ironicamente essa vantagem evidencia-se pelo contraste quando na própria Angola, num retrocesso capitalista lamentável, se procura chamar a atenção para as vítimas civis que ainda nos dias que correm são estropiadas pelo rebentamento de minas deixadas esquecidas no terreno em consequência da guerra.
Uma ironia colateral a esta história acaba por ser também a forma como a ADFA acabou por ficar conotada – pelo menos durante os tempos do PREC e os anos que se seguiram – com os comunistas por causa da forma como aqueles a manipularam como instrumento de pressão política na satisfação de algumas das suas justas reivindicações. Abaixo uma recordação dessa instrumentalização, uma reportagem da RTP realizada na época, em Setembro de 1975, apresentada mais recentemente no quadro das reconstituições da série televisiva Depois do Adeus (2012).

VITÓRIA DE SETÚBAL 1970-71

Em Domingo de futebol, esta é uma daquelas evocações que quem a faz se dispensará de a explicar com receio de que com elas, as explicações, se perca um pouco da mágica diáfana que os outros tempos possuíam. Apresentada num 4-2-4 táctico que, mesmo que inexistente no terreno, se acabara de consagrar no Mundial do México: 1 – Torres, 2 – Rebelo, 3 – Cardoso, 4 – José Mendes e 5 – Carriço; 6 – Octávio e 7 – Wagner; 8 – José Maria, 9 – Vítor Baptista, 10 – Guerreiro e 11Jacinto João. Treinador: José Maria Pedroto. Terminou em 4º lugar.

23 agosto 2014

OS PREDICADOS DE UM SALTADOR COM VARA QUE CANTAVA MAL


Este anúncio, quando foi originalmente para o ar nos finais dos anos 70, foi um contributo marcante para o desmoronar das minhas ilusões sobre a fidedignidade da publicidade televisiva. Para lá das bolachas, não que eu duvidasse (que eu até o conhecia…) das capacidades do saltador com vara que lá aparecia – pois ele até se veio a tornar campeão nacional na modalidade (1985)! O problema surgia depois, quando ele emitia aquela espécie de trinado - Muito Melhor! - acabado de cair no colo da moça rechonchuda, pois o Becas (é bem dele que se trata) era conhecido por cantar tão mal que nem toda a boa vontade do padre Miguel, o Carioca, o conseguia qualificar em qualquer das quatro vozes do orfeão do Colégio Militar...

DISTO JÁ NÃO HÁ MAIS – 7

Estes outdoors promocionais que ainda se vêem de quando em vez esquecidos em algumas paredes adjuntas às estradas mais antigas do Algarve são um legado de uma outra era. Em primeiro lugar pela perenidade dos anúncios, absurda pelos padrões actuais, feitos de uma montagem de azulejos que os fez sobreviver às intempéries do quase meio século que transcorreu desde a sua aplicação às paredes. Em segundo lugar porque a marca promovida, a Schweppes, já não representa a sofisticação cosmopolita prometida pela campanha teaser que a havia lançado nos meados dos anos 60. E em terceiro lugar porque a imagem do Algarve já não é a mesma: não é apenas o mar que já passou a ser muito mais do que apenas a banda azul escura intermédia na paisagem, é preciso discernimento para perceber que a banda inferior era a representação estilizada do muro de uma açoteia e alguns conhecimentos suplementares para conhecer as razões da importância da chaminé típica algarvia, que podem levar-nos até ao concurso das Aldeias mais portuguesas de Portugal de 1938, onde Alte (Loulé) ficou classificado em 2º lugar (depois de Monsanto da Beira). Uma promoção a um refrigerante feita com tanta elaboração: disto, já não há mais.

22 agosto 2014

O ATENTADO DO PETIT CLAMART

Hoje cumprem-se 52 anos sobre a data do segundo atentado – e o mais sério – que de Gaulle sofreu às mãos da OAS, a propósito do desfecho da questão argelina. Ao fim da tarde, quando o presidente francês acompanhado da esposa realizava um percurso que o levaria do palácio do Eliseu até à Base Aérea de Villacoublay (nos arredores de Paris), local onde um helicóptero os aguardava para os transportar para a sua residência em Colombey-les-Deux-Églises, a viatura presidencial (um Citroën DS 19 - os famosos bocas-de-sapo) foi emboscado e metralhado por um comando de doze homens armados de pistolas-metralhadoras – veja-se a descrição no vídeo acima. Dos quase 200 tiros que os peritos posteriormente estimaram ter sido disparados, 14 foram identificados na carroçaria do DS onde viajava de Gaulle, a esposa, o motorista e o ajudante de campo (e também genro) do general. Embora o vidro traseiro da viatura tivesse sido estilhaçado, nenhum dos passageiros foi atingido. De Gaulle reconheceu publicamente ter tido sorte.
Ao contrário do precedente a motivação para este atentado só podia ser mesmo vingança pessoal: a independência da Argélia tivera lugar um mês e meio antes, a 3 de Julho de 1962, e a hipótese da OAS condicionar de Gaulle visando-o pessoalmente esgotara-se com ela. Todavia, também a reacção de de Gaulle foi bastante personalizada: os implicados vieram a ser julgados por um Tribunal Superior Militar de Justiça de uma legitimidade pelo menos controversa considerada a impossibilidade de recorrer das suas sentenças. Mau grado, o julgamento foi expedito e em 4 de Março de 1963, três dos réus vieram a ser condenados à morte. Foi o próprio de Gaulle, exercendo a sua magnanimidade, que comutou a sentença de dois deles. Porém, o tenente-coronel Bastien-Thiry (abaixo), que fora o mais qualificado responsável pela organização de todo o atentado foi executado por fuzilamento uma semana depois. Costuma atribuir-se a realização de atentados deste género a tresloucados mas este é um caso que demonstra o quanto a política pode gerar animosidades ferozes.

SUPERLATIVOS E QUALIFICATIVOS

Encontrado no facebook, esse polo da liberdade de expressão que em situações como esta nos alarga os horizontes da compreensão da semântica da língua portuguesa. Fico para imaginar a que qualificativo corresponderão as 5 estrelas mas creio ser razoável reconstruir que, abaixo do muito muito bom!, o muito bom! singelo corresponderá a 3 estrelas e o bom! ainda mais singelo a apenas 2. Uma estrela (1) austeritária equivalerá a uma apreciação modesta mas não por isso negativa. O Mário Nogueira havia de gostar de um critério destes, generoso e assimétrico, para aplicar na avaliação dos professores...

21 agosto 2014

A BRIGADA SOVIÉTICA EM CUBA

No Verão de 1979 surgia um novo recrudescer das tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética. Os primeiros sentiam-se fragilizados pela recente (Janeiro) deposição do Xá do Irão, um aliado de décadas, enquanto acusavam a segunda de estar a perturbar deliberadamente os equilíbrios da guerra-fria naquela região, ao apoiarem (em Março de 1978) um golpe de estado comunista naquele que fora até então o neutralizado Afeganistão. A alimentá-las, às tensões, surgem, não se sabe bem como, rumores nos corredores do aparelho de estado de que a União Soviética estacionara recentemente uma brigada de combate de 3.000 homens em Cuba. Após a crise dos misseis de Cuba do Outono de 1962, quando as duas superpotências estiveram à beira de um conflito nuclear, qualquer menção ao tema Cuba e presença soviética na ilha faria tocar todas as campainhas de alarme em Washington. Para mais, era praticamente do conhecimento público o acordo que então fora selado entre John F. Kennedy e Nikita Khrushchev: este último mandara retirar os mísseis e as armas nucleares que estacionara em Cuba contra a discreta promessa norte-americana de não promover o derrube do regime de Fidel Castro. 17 anos depois, a descoberta inopinada desta brigada assemelhava-se a uma iniciativa soviética de desafiar o status quo então firmado, aproveitando quiçá aquilo que parecia a fragilidade dos Estados Unidos.
Zbigniew Brzezinski, o conselheiro nacional de segurança de Jimmy Carter, deu instruções aos serviços de informações que descobrissem tudo o que pudessem a respeito da nova brigada soviética. Em meados de Agosto, a informação fora confirmada: havia de facto uma brigada soviética estacionada em Cuba. E essa informação escorregou para fora dos círculos governamentais, tornando-a um factor de combate político doméstico contra uma Administração Carter acusada de ser muito branda para com os comunistas. Todavia, a continuação das investigações vieram a revelar também, com uma transparência que as administrações norte-americanas nunca mais mostraram depois da de Carter, três aspectos embaraçosamente notáveis: em primeiro lugar, que Kennedy havia solicitado a retirada das tropas soviéticas de Cuba, mas que o pedido não fora feito com muita insistência nem fora posteriormente monitorizado; em segundo lugar, que a famosa brigada era uma unidade predominantemente de comando e serviços (portanto não combatente) que ficara encarregada de coordenar os milhares de instrutores que os soviéticos mantinham em Cuba para ensinar a operação do seu material aos cubanos; e em terceiro lugar, porventura o aspecto mais embaraçoso dos três, que a brigada já existia desde 1962, a sua existência já só se justificava pela inércia a que estas organizações são propensas, a gigantesca reconversão do exército cubano (62.000 efectivos em 1968) ao emprego de material de origem exclusivamente soviética que a tinha justificado já houvera tido lugar vários anos antes. Embaraços como este não terão deixado de reaparecer entre a comunidade dos serviços de informações nos 35 anos que se seguiram desde aí: o maior de todos terá mesmo sido a ineficácia de não terem conseguido antecipar o colapso da União Soviética. O que nunca mais se repetiu foi o seu conhecimento público, pelo menos com a candura e honestidade como este foi conhecido e debatido.

1.000.000 VISITANTES

Assim como o já fizera para o meio milhão, permitam-me a vaidade de assinalar a efeméride do um milhão de visitas. Entretanto, passando a reportar 1.000.000 de visitantes numa das contagens (a copiada acima) mas simultaneamente quase 1.006.000 noutra, até parece que o sitemeter terá subcontratado os técnicos do ministério das Finanças encarregues do acompanhamento do défice público.

A OBRA

O cartaz foi usado para a campanha autárquica de 1997 mas aquilo que me domina quando olho para ele – e creio não ser o único – é a reacção instintiva e retrospectiva de pensar o quanto deve ter sido muito bom para a Amadora que a Amadora não tenha naquela ocasião posto mãos à obra. A avaliar pela experiência nacional em curso... Ou então não, não teria sido assim: aos 33 anos, a idade de Cristo, Pedro Passos Coelho ainda não encontrara as âncoras ideológicas propiciadas por pessoas de grande prestígio técnico como António Borges. Ainda não se tornara notado por querer privatizar a Caixa Geral de Depósitos. Hoje a experiência (e não a qualidade técnica dos discípulos de Borges) já lhe devem ter ensinado que não é uma boa ideia para já. Remate-se que a vitória foi então para Joaquim Raposo do PS e Pedro Passos Coelho ficou em 3º lugar com 22.200 votos e 26,7% da votação.

20 agosto 2014

COMO UMA CAVALGADA DAS VALQUÍRIAS


Já é a própria história do cinema que nos torna impossível olhar para uma imagem com helicópteros disseminados pelo céu nesta perspectiva sem nos ocorrer automaticamente os sons da Cavalgada das Valquírias de Wagner. Mesmo neste caso, em que os helicópteros são Mi-17 russos e a fotografia tirada a semana passada em Vladivostoque.

A REALIDADE E AINDA MELHOR QUE ELA

Perdoem-me repetir uma fotografia recentemente afixada no blogue, mas o impacto de uma fotografia real da visão do resultado de uma explosão atómica numa paisagem urbana (Las Vegas, 1957) não se comparará com aquilo que já se consegue fazer actualmente com o photoshop (imagem retirada daqui). Nesta última produz-se uma imagem muito mais vivida, captando o momento preciso da detonação e mostrando a reacção assustada de um casal de observadores. Uma é verdadeira mas a outra seria indiscutivelmente a favorita para ilustrar um artigo qualquer que se escrevesse sobre o tópico num qualquer jornal: não só tem mais impacto visual como é mais explícita. A informação - e não só... - neste momento padece disto: entre o espectáculo e o rigor, privilegia-se o primeiro; entre presumir que o interlocutor está informado ou que é ignorante, aposta-se no segundo.

AMIZADES DE INFÂNCIA

Nunca torna a haver amizades tão incondicionais quanto as da nossa infância. A fotografia acima, feita numa piscina, é de Jacques Sonck, a debaixo, tirada previsivelmente num aeródromo ( vê-se por detrás um Junkers Ju-52 trimotor)  pertence a uma campanha publicitária das pastilhas PIRATA, vai para mais de quarenta e cinco anos.

19 agosto 2014

«SIMPLIFY ME WHEN I'M DEAD»

Há um excelente poema em língua inglesa, composto durante a Segunda Guerra Mundial (veja-se mais abaixo), que se intitula Simplify Me Whem I'm Dead (Simplifiquem-me Quando Morrer). Mas não será decerto nesse género de simplificação que os assessores encarregados da redacção do pão-com-manteiga dos comunicados, tanto os de Cavaco Silva (acima), como os de Passos Coelho (abaixo), terão pensado quando se esmeraram em quase se copiarem nos clichés constantes das notas que enviaram para a comunicação social em que, em nome das duas figuras, assinalam o falecimento do general Pires Veloso (1926-2014). Comparando-as e avaliando-as, quase apetece dizer que seria preferível morrer num outro anonimato mediático a ver-se publicamente evocado em tais notas medíocres, tão transparentes no frete, tão falhas de espírito, tão desprovidas de respeito.
Em contraste, creio que vale a pena ler o poema (ainda que no original porque não me atrevo a traduzi-lo!), escrito por um poeta britânico chamado Keith Douglas (1920-1944) que viria a morrer em combate durante a invasão da Normandia, três dias depois do desembarque.

Simplify Me When I'm Dead by Keith Douglas

Remember me when I am dead  
and simplify me when I'm dead.  

As the processes of earth
strip off the colour of the skin:
take the brown hair and blue eye

and leave me simpler than at birth, 
when hairless I came howling in
as the moon entered the cold sky.

Of my skeleton perhaps,  
so stripped, a learned man will say
"He was of such a type and intelligence," no more.

Thus when in a year collapse  
particular memories, you may
deduce, from the long pain I bore

the opinions I held, who was my foe
and what I left, even my appearance
but incidents will be no guide.

Time's wrong-way telescope will show  
a minute man ten years hence
and by distance simplified.

Through that lens see if I seem
substance or nothing: of the world
deserving mention or charitable oblivion,

not by momentary spleen  
or love into decision hurled,
leisurely arrive at an opinion.

Remember me when I am dead
and simplify me when I'm dead.

A ETIQUETA ESTIVAL E A IRRESOLÚVEL QUESTÃO DO XIXI NO MAR

Tema recorrente da etiqueta estival é a dúvida sobre o comportamento a adoptar quando se tem vontade de urinar na praia. Já foi tempo em que a mijadela discreta dentro d’água era considerada inequivocamente um gesto de um plebeísmo grosseiro…
…mas razões científicas e ecológicas ponderosas estão a recuperar a aceitabilidade do acto. Atendendo às explicações lidas, lembrei-me até de uma descrição antiga do capitão Haddock: mais do que a urina, o que é mesmo nojento é a própria água do mar.

18 agosto 2014

CSI LAS VEGAS

Mesmo actualmente, quando o espectro de uma guerra nuclear parece ter desaparecido, a imagem de uma nuvem resultante de uma detonação nuclear por detrás de uma paisagem urbana é capaz de provocar um segundo olhar mais atento. A cidade é Las Vegas, Nevada, famosa pelo jogo, pelo entretenimento e, mais recentemente, pela sua equipa de CSI. A data é 24 de Junho de 1957 e a nuvem, que se estende até uma altitude de doze quilómetros, é o resultado de um ensaio baptizado com o improvável nome de Priscilla. Englobado numa série de 29 testes que se prolongará por seis meses (de Maio a Novembro), série essa também detentora de outro nome improvável – Operação Plumbbob – o ensaio teve lugar no conhecido sítio de testes no Nevada que se localizava a cerca de uns cem quilómetros em linha recta daquela cidade.
Pela fresquinha (06H30), uma bomba termonuclear com uma potência equivalente às das bombas de Hiroxima e Nagasáqui somadas (37 kton.) foi detonada suspensa de um balão a 200 metros do solo. Ironicamente, por causa da ignorância científica prevalecente na época e numa Las Vegas ensinada a aproveitar tudo como factor de animação, este tipo de explosões não eram apreciados com aquele conteúdo ameaçador que as gerações futuras lhes vieram a atribuir: havia um Atomic View Hotel onde os turistas se podiam hospedar para ver as nuvens, havia quem servisse hamburguers e cocktails atómicos, cabeleireiros que faziam penteados com esse epíteto mas, como ex-libris de Las Vegas, nada me parece bater em excesso o concurso para a eleição de Miss Bomba Atómica, consagrada com uma coroa de formato fungiforme

OBRIGADO

Numa consulta ao Sitemeter que regista as estatísticas dos visitantes a este blogue encontro alguém anónimo que ontem à noite passou quase três horas lendo o que se escreve por aqui. Discretamente, ao longo de mais de quarenta páginas e sem deixar um daqueles comentários finais inócuos em estilo mija-de-cão, para se tornar notado que passou por cá. Obrigado a ele e a outros como ele.

17 agosto 2014

OS GODZILLAS DO MARXISMO-LENINISMO

Ainda a propósito da entrevista de Ruben de Carvalho ao Expresso julguei apropriado recuperar esta outra passagem:

Ruben de Carvalho: - (…) Em rigor, a derrota (no 25 de Novembro de 75) não foi nossa, e isso dá-me uma grande força moral. A história que se conta sobre o papel do PCP é falseada. Porventura leu um pequeno volume que se chama “Verdade e Mentira na Revolução Portuguesa”, de Álvaro Cunhal? 

Ana Soromenho (entrevistadora) - Não.
Ruben de Carvalho: - Mas devia ler. Está lá tudo muito bem explicado.

O trecho da entrevista mostra-nos o quanto a entrevistadora é tenrinha nas mãos de um sabidão veterano forjando um argumento de autoridade. Quem é que realmente se dispõe a ler actualmente as obras de Álvaro Cunhal? Desde quando é que Cunhal pode ser fonte idónea para nos esclarecer sobre aquilo que aconteceu no 25 de Novembro? Como protagonista dar-nos-á a sua visão, agora procurar usar aquilo que escreveu como matéria de fé para comprovar a tese revisionista da História de que o PCP não saiu derrotado dos acontecimentos daquela data só ocorre mesmo aos comunistas e de uma certa geração. Que, mais do que propriamente dinossauros, parecem comportar-se mais como godzilas do marximo-leninismo, saídos ocasionalmente do fundo do mar e vindos à cidade para fazer estragos no discurso transmutado que o PCP usa na actualidade. Ruben de Carvalho é um daqueles monstros do passado que são capazes de recordar com a sua presença, apenas pela sua existência, que o PCP já foi o mais internacionalista dos partidos portugueses face à União Soviética e que, depois de uma reviravolta de 180º, hoje se consagra como o campeão do patriotismo face à União Europeia… A propósito sabiam, pela fotografia abaixo de 1976 em que aparece a ler o Pravda, que ele parecia ser fluente em russo?... Hoje há muito menos gente a precisar de mostrar saber russo.