30 junho 2014

AFINAL, JÁ SE DESCOBRIU DE QUEM SE TRATA

Este antigo cartaz da JSD que atacava José Sócrates pela sua falta de imagem anos atrás, perguntando-nos se sabemos quem ele é, tornou-se hoje num anacronismo quando aquilo que o PSD agora mais deseja é dar-lhe a maior visibilidade possível nos seus ataques ao PS. Ironicamente, pode concluir-se da mudança que até os seus adversários políticos lhe reconhecem agora que a passagem de Sócrates pelo governo lhe trouxe uma notoriedade incontestável.

«WAR PRESIDENTS»

Durante os anos que se seguiram a 2003, insistiu-se até à exaustão em comparar o Vietname com o Iraque, nomeadamente as fragilidades dos dois regimes (mal) edificados pelos Estados Unidos, o primeiro dos quais, recorde-se, acabou por colapsar inesperadamente em Abril de 1975. Mas parece que foi preciso a analogia ter sido abandonada (por se perceber que ela esgotara o seu impacto junto da opinião pública) para que a mesma tivesse mais pertinência que nunca. De repente, cidades secundárias com a importância de Tikrit com um quarto de milhão de habitantes e situada a uns meros 150 km ao norte de Bagdade caem inexplicavelmente sob o controlo de rebeldes islâmicos, alegadamente aliados aos vindos da Síria.
O regime de Bagdade pediu auxílio enquanto anunciava uma contra-ofensiva para recuperar a cidade, sem dissipar a sensação que a iniciativa está do lado dos adversários. Sintoma de mau estar em todo o Mundo (salvo naturalmente em Portugal...), noticiam-se demissões na administração norte-americana. No caso análogo sul-vietnamita tudo acabou com uns blindados norte-vietnamitas à porta do palácio presidencial de Saigão, mas o envolvimento norte-americano no Iraque desenvolveu nestes onze anos uma memorabilia própria que só torna a expressão imagética da situação ainda mais ridícula: é que Lyndon Johnson e Richard Nixon nunca se deixaram fotografar entre militares com um letreiro atrás onde se lia Missão Cumprida

29 junho 2014

«ARBEIT MACHT FREI» EM INGLÊS NORTE-AMERICANO

Newt Gingrich (1943- ) é uma daquelas personalidades políticas norte-americanas, republicano empedernido, que não são compreendidas deste lado de cá do Atlântico. E a incompreensão parece ser recíproca, admiremo-lo acima numa fotografia sua com a sua mulher Callista em que aparecem os dois postados à porta do campo de extermínio de Auschwitz, na Polónia, sob o inesquecível letreiro Arbeit Macht Frei. A fotografia, de uma inconveniência indefinida, como a daqueles turistas que atrapalham as cerimónias religiosas com a sua ignorância, só ganhou notoriedade depois de aparecer publicada no próprio website dos Gingrich.

PRISIONEIROS DAS CIRCUNSTÂNCIAS

Registe-se e apoie-se, por parecer ser mediaticamente minoritária, a atitude de Bagão Félix elogiando a decisão de Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque na sua recusa em apoiar o buraco financeiro em que se descobriu que o BES se encontra. Associo-me tanto mais ao elogio quanto a decisão parece ter sido acolhida no meio de um ambiente de um silêncio concordante. Mas não quero deixar de frisar quanto estas decisões estão condicionadas pelas circunstâncias em que ocorrem: se José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos teriam corrido um risco político imenso se não tivessem intervindo no caso do BPN e depois as coisas descambassem para o resto da banca, também Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque estariam a cometer agora um suicídio político se se decidissem a intervir no caso do BES e o buraco financeiro ora detectado mostrasse tendência depois para aumentar de tamanho…

...DE 1ª CLASSE

Mão amiga fez-me chegar esta portaria assinada o mês passado por sua excelência o ministro da Defesa Nacional, José Pedro Correia de Aguiar-Branco. Em circunstâncias normais haveria que pedir ao leitor que clicasse sobre a imagem acima, lesse a fundamentação aduzida para a concessão da Medalha da Defesa Nacional de 1ª Classe ao presidente da Câmara de Cascais, e abster-me de comentários adicionais, deixando ao leitor a liberdade de concluir o que quiser. Mas não resisto a deixar um comentário, sem interferir nessa liberdade. Porque me fica a sensação daquela redacção que, se o condecorado ainda para mais soubesse marchar e marcar passo, ele teria recebido uma condecoração ainda mais elevada, talvez uma Cruz de Guerra (abaixo, à direita) e das de 1ª Classe, naturalmente. Pelo espírito da coisa, para os militantes ilustres do PSD (equiparados a oficiais generais como critério de concessão de medalhas), as condecorações terão de ser sempre de 1ª classe

28 junho 2014

O ARQUIDUQUE POR QUEM A EUROPA ENTROU EM GUERRA (Evocação do centenário)

Por causa de hoje ser o centenário do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo, assassinato esse que esteve na origem da Primeira Guerra Mundial e porque – como já é motivo de troça por o evocar recorrentemente – neste blogue já se escreveram postes sobre muitos assuntos importantes, tomei a liberdade de republicar o abaixo que foi escrito já há quatro anos, não apenas sobre o assassinato mas sobretudo sobre o casal assassinado.
A história do arquiduque austríaco Francisco Fernando a que, ao ser assassinado em Sarajevo em 28 de Junho de 1914, se atribui o começo da Primeiro Guerra Mundial encerra alguns pormenores interessantes que vale a pena contar. Começando por o conhecer em fotografia, vemos nela um homem de olhos muito claros, vestido, como seria de esperar, de uma forma distinta (isso incluiria naquela época uns enormes bigodes armados) mas não muito bonito, de uma fisionomia quase porcina.  
Aos 12 anos tornou-se anormalmente rico, mesmo para um arquiduque austríaco, ao acumular a sua própria fortuna com a de um primo, Francisco, duque de Modena (Itália), que o fizera seu herdeiro universal. Foram também circunstâncias inesperadas (o suicídio do seu primo Rudolfo) que o fizeram herdeiro do trono aos 25 anos (1889). Mas, por outro lado, era também um homem invulgarmente determinado, que quis casar por amor, muito abaixo do que se considerava ser a sua classe social, apesar das descomunais pressões em contrário.
Contra as pressões do seu tio, o imperador Francisco José, Francisco Fernando pediu a intercessão do papa Leão XIII ou a do imperador alemão Guilherme II (acompanhando-o acima), mas foi só após quatro anos de impasse, que a grande paixão da sua vida se veio a concretizar (1900), quanto o noivo já contava 35 anos e a noiva 31 (Sophie Chotek, oriunda da baixa nobreza checa – mas germanófona), e mesmo assim, a autorização estava cheia de ressalvas: tratava-se de um casamento morganático, o que queria dizer que a esposa não adquiria por casamento o mesmo estatuto do marido.
Também os filhos que resultassem do matrimónio não adquiriam os respectivos direitos sucessórios. A praxe infligida ao casal começou na própria cerimónia do casamento, a que quase ninguém da família imperial austríaca assistiu, e continuou a prolongar-se em todos aquelas cerimónias da Corte vienense em que os dois eram obrigados a apresentarem-se separados, por causa dos pesados protocolos. Mas havia uma excepção a esse ritual: no protocolo militar, Sophie era reconhecida simplesmente como a esposa do general comandante-chefe e autorizada a figurar ao lado do marido…
Esse terá sido um dos factores tomados em conta por Sophie ao decidir-se a acompanhar o marido naquela sua visita de carácter militar a Sarajevo. A possibilidade de poder deslocarem-se e aparecerem juntos nas cerimónias devia ter para eles um valor tal que os levou a assumir o risco. O resto da História é conhecida, mas não deixa de ser uma das pequenas ironias que Sophie tenha morrido pela felicidade de aparecer numa fotografia como a de cima. A enorme ironia foi a Áustria-Hungria ter partido para a guerra para vingar a morte de um príncipe de certa forma subversivo e tão pouco apreciado na própria corte de Viena…
Foi por acaso, que Gavrilo Princip (o assassino) deu com os arquiduques e apenas porque o motorista destes se enganou no caminho. E este apenas se enganara no percurso porque o arquiduque teimara em alterá-lo e passar pelo hospital para ver o estado dos feridos do verdadeiro atentado original – que fora cometido com uma bomba mas que acertara no carro errado. Ao contrário do que acontecera em Portugal em Fevereiro de 1908, Gavrilo não foi morto no local, nem sequer foi depois executado judicialmente. Foi condenado a 20 anos de prisão. Mas talvez a maior ironia foi a que ele quase sobrevivia à Guerra que desencadeou: morreu em Abril de 1918, de tuberculose ou foi mais uma vítima da famosa gripe espanhola. Tinha 23 anos.

27 junho 2014

ENCONTRO (Porta dos Fundos)


Sendo muito boa, a série Porta dos Fundos tem alguns episódios que se superam. É o caso deste acima, com um desgraçado recém-separado, deprimido, que encontra acidentalmente um daqueles portentos da cortesia formal que, pelo autismo, mostra o quanto se está a cagar para os problemas do interlocutor. Todos conheceremos um, dois, três exemplares daquele mesmo género, uma torrente de palavras num só sentido, e confesso que, na sua presença e perante aquele género de monólogo, a mim só me dá ganas de ser gradualmente cada vez mais grosseiro com eles para descobrir quão rija pode ser a carapaça da sua indiferença...

ELI WALLACH

Mais do que o abrutalhado Tuco de O Bom, o Mau e o Vilão de Sérgio Leone (acima), a melhor imagem que guardo do recém-falecido Eli Wallach (1915-2014) é a do melífluo Don Altobello em O Padrinho III de Francis Ford Copolla. A cena abaixo, envolvendo Al Pacino, Joe Mantegna e Eli Wallach é um portento de encenação e representação. Como se fosse uma cena do teatro clássico grego, a saída de cena de Don Altobello como apaziguador nada pressagia de bom. É aliás durante a cena que Joe Mantegna, no papel de Joey Zasa, o modelo do gangster pseudocivilizado moderno, pronuncia a frase que pela forma como é pronunciada¸ mais do que pelo conteúdo, se transforma noutra frase memorável da saga: I have been treated this day with no respect¹, continuando a tradição de frases como I'm gonna make him an offer he can't refuse² ou Keep your friends close but your enemies closer³

¹ Fui tratado aqui e agora sem qualquer respeito.
² Vou-lhe fazer uma proposta que ele não pode recusar.
³ Mantém os teus amigos próximo de ti mas os teus inimigos ainda mais.

26 junho 2014

A HISTÓRIA QUE UMA PRIMEIRA PÁGINA DE JORNAL NOS PODE CONTAR


A forma, frequentemente exagerada, como os jornalistas qualificam de histórico aquilo que estão a relatar, deviam levar-nos a obrigá-los a revisitar o passado para que modestamente reconhecessem como, por vezes, a História lhes passa à frente do nariz e eles nem a cheiram, outras vezes proclamam como tal episódios que não passam de fait-divers, ou então, numa ironia ainda mais carregada, quando qualificam como históricos episódios que o virão a ser mas não propriamente pelas causas por eles publicadas. Este último foi o caso do Acordo de Munique, firmado por Neville Chamberlain e Adolf Hitler em 29 de Setembro de 1938, para uma resolução da Crise dos Sudetas que passou pelo desmembramento da Checoslováquia. E, contudo, o primeiro-ministro britânico parece ter regressado a Londres visivelmente satisfeito.
Além de um entusiástico e espontâneo comité de recepção à sua chegada no aeroporto, onde as câmaras de filmar estavam prontas para captar o seu depoimento devidamente encenado com a exibição da carta (mais acima), a espontaneidade mudou-se à noite para Downing Street para a porta do nº10, residência oficial do primeiro-ministro, de uma janela da qual ele pronunciou novo discurso, desta vez incluindo a frase que se tornará emblemática da sua ingenuidade quanto às verdadeiras intenções de Adolf Hitler: «I believe it is peace for our time” (Acredito que é a paz para o nosso tempo). Mas o que é interessante é que vejamos aquilo que publicava o Daily Herald, um jornal arreigadamente trabalhista – e portanto adverso a Chamberlain – hoje desaparecido, na sua primeira página do dia seguinte, 1 de Outubro.
O destaque dos títulos é compartilhado entre a angústia que grassa em Praga (Prague’s day of sorrow) e uma indisfarçável satisfação com o desfecho da crise, citando a famosa frase do primeiro-ministro (Mr. Chamberalin declares “It is peace for our time”). No meio dos dois títulos, uma daquelas informações que parecem concebidas para tranquilizar a opinião pública num momento delicado, mas que depois nunca se concretizam: anunciava-se o envio de 5.000 soldados britânicos para os Sudetas, como se os britânicos ainda possuíssem um direito de supervisão do que não passava de um negócio fechado. Do lado direito da página, uma nota sórdida adicional: a Polónia aproveitava a debilidade dos checos para anexar a cidade de Český Těšín e seus arredores. Se o que ali se pode ler é história, é uma história mal contada

25 junho 2014

SLOGANS DATADOS

Sem a hermenêutica sugerida pelo Papa Francisco e referida no poste imediatamente anterior, estes dois slogans a insecticidas dos anos 60/70 – com Dum Dum não escapa nenhum e com Bomba H é um ar que lhes dá – parecem-nos de uma violência que os ecologistas modernos dificilmente tolerarão por causa da incorrecção política. Registe-se que foram as nossas atitudes que mudaram nestes 40 anos: os insectos continuam tão chatos como sempre...

SOLDADOS UNIDOS VENCERÃO! ...E OS CREDORES EXTERNOS TAMBÉM!

Depois de os termos visto mais abaixo a pontapear reaccionários e aqui embuçados numa conferência de imprensa, é pertinente recordarmos ao que se propunham os membros daquela organização de Soldados Unidos Vocacionados para Vencer. Para isso recuperemos o manifesto com que eles se apresentaram em Setembro de 1975 ao povo trabalhador. Hoje, a redacção dada ao manifesto será capaz de nos fazer sorrir, mas o alerta para esse tipo de incompreensão foi uma das passagens mais interessantes da entrevista que o Papa Francisco deu recentemente à SIC Notícias: o conselho para que nos obriguemos a ler os textos considerando a hermenêutica da época que os viu nascer.

SOLDADOS UNIDOS VENCERÃO (S.U.V)
MANIFESTO
1 – Soldados Unidos Vencerão (SUV) é uma frente unitária anti-capitalista e anti-imperialista que aparece no momento em que a reacção fascista se organiza de novo, aproveitando-se das hesitações e das divisões introduzidas no seio dos trabalhadores assim como da política dos governos que não souberam nem quiseram defender as justas reivindicações das lutas dos operários e camponeses dos quais, nós, soldados, fazemos parte.
2 – Considerando que já por diversas vezes fizemos cedências à burguesia nomeadamente ao submetermos a nossa luta à aliança com o MFA, movimento de oficiais das Forças Armadas, que por causa das suas contradições e hesitações no passado, e de hoje estar ao serviço de elementos contra-revolucionários, nos tem valido não só o afastamento e hostilidade de camadas importantes da população (especialmente os nossos irmãos camponeses), como também a desmoralização de numerosos combatentes das nossas fileiras e o adormecimento perante a ofensiva reaccionária dentro e fora dos quartéis,
S.U.V. propõe-se levar a cabo uma ofensiva autónoma com carácter de classe
- Para lutar por uma vida democrática nos quartéis (impondo eleições e funcionamento democráticos das ADU´s, a livre circulação de imprensa e propaganda operária e popular, e a realização de plenários de soldados quando e sempre nós o queiramos);
- Para lutar pela constituição de comissões de soldados, órgãos de poder dos trabalhadores fardados nos quartéis, eleitas e revogáveis a todo o momento em plenários de soldados;
- Para incentivar e aprofundar a ligação dos órgãos de poder popular (comissões de trabalhadores, conselhos de aldeia e comissões de moradores), fortalecendo o poder dos explorados através de Assembleias Populares;
- Pela expulsão dos oficiais reaccionários;
- Contra todas as tentativas de afastamento de militares progressistas;
- Pela melhoria das condições de vida dos soldados (contra o pré de miséria, pelos transportes gratuito, pelo rancho comum, contra a disciplina militarista).
3 – Soldados Unidos Vencerão (S.U.V.) luta com todos os trabalhadores, pela preparação de condições que permitam a destruição do exército burguês e a criação do braço armado do poder dos trabalhadores: o Exército Popular Revolucionário.

SEMPRE, SEMPRE AO LADO DO POVO É O NOSSO LEMA
OPERÁRIOS, CAMPONESES, SOLDADOS E MARINHEIROS – UNIDOS VENCEREMOS    
 
S.U.V.          SOLDADOS UNIDOS VENCERÃO Setembro/1975
Em pleno PREC quem escrevia e quem lia aquilo que consta do manifesto levava-se muito a sério, com uma seriedade que actualmente, 39 anos depois, pensando em muitos dos que foram intervenientes directos daqueles acontecimentos, talvez nem interesse que os outros compreendam… Como quem cá ainda estiver em 2050 há-de troçar com o mesmo distanciamento de toda esta conversa ideológica actual de termos vivido para além das nossas possibilidades e das virtualidades de implementar uma austeridade ainda mais severa do que a proposta pelos representantes do sindicato dos nossos credores externos…

Mau grado a retórica, a estratificação das classes não desapareceu e os países prosseguem depois das bancarrotas.

24 junho 2014

PEIXES CANTORES


Um dos mistérios do Universo para a maioria da Humanidade é a diversão que uma minoria dela consegue extrair da existência de adereços como estes peixes cantores e decorativos acima. Possivelmente levando o disparate a novas fronteiras da ironia sobre as artes vocais piscícolas, o autor e cantor francês Jacques Dutronc deixou-se fotografar por Jean-Marie Périer numa pose compenetrada escutando outro peixe, este deitado em cima da mesa e ainda não dependurado da parede, naquilo que, acrescento eu, bem poderia passar por uma paródia a todos estes programas televisivos de revelação de novas estrelas.

A ORTOGRAFIA DO FUTURO

Em A Armadilha Diabólica, uma aventura de BD de Edgar Pierre Jacobs de 1960, o professor Mortimer foi transportado involuntariamente para o futuro, em época que ele não ainda conseguiu precisar quando das imagens acima. Nas suas explorações, algo surpreende o herói: a estranha ortografia das inscrições que ele vai lendo, até que aquilo que parece um epitáfio data os textos do Século XXI. E basta a leitura das asneiras que alguns dos nossos múltiplos amigos publicam no Facebook para nos demonstrar como se está perante uma daquelas antecipações concretizadas: chegados ao Século XXI, somos surpreendidos quotidianamente pela profundidade da ignorância de amigos que só sabem escrever como falam: ontem, e apenas para dar um exemplo assim mais caricato, um deles referia-se à Federação Portuguesa de Box (sic). As novas tecnologias parecem ter conferido uma renascida importância à expressão escrita como ela apenas tivera no apogeu da fase epistolar, só que agora, muito mais pública e disseminada, também contribui para uma outra reestratificação social, já não entre os que sabem ler e escrever e os analfabetos, mas entre aqueles que o sabem fazer correctamente e os outros.

23 junho 2014

…DOS ESMAGADOS PELA HISTÓRIA

Rodolfo Llopis (1895-1983) foi o secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) desde o XIV Congresso, realizado em Setembro de 1944, até ao XXV Congresso, vinte e oito anos passados, em Agosto de 1972. Este último, realizado em França (num exílio forçado como todos os depois de 1939), destacou-se pela chegada de uma nova geração (e de um novo estilo) à direcção dos socialistas: Felipe González (1942-), posteriormente eleito como secretário-geral do PSOE, tinha menos 47 anos do que o seu antecessor. Podia ser neto de Rodolfo Llopis! Porém este último aceitou mal a derrota, a perda de importância conferida aos militantes exilados em favor dos que viviam em Espanha, a redução da influência da maçonaria no partido e até mesmo o cargo honorífico de presidente que os rivais lhe queriam atribuir, e acabou por encabeçar uma cisão nas estruturas do PSOE, de que passou a haver duas facções, a dos vencedores do congresso conhecida por Renovada (PSOE-R), a outra por Histórica (PSOE-H). Franco morreu três anos depois dessa cisão. Houve a Transição e, nas primeiras eleições livres realizadas em Espanha após a sua morte (Junho de 1977), o PSOE Renovado recebeu 5.372.000 votos (29,3%) enquanto o PSOE Histórico recebeu 127.000 (0,7%). O exílio já se havia tornado uma segunda natureza de Rodolfo Llopis que regressou a França onde veio posteriormente a falecer. Nos partidos verdadeiramente democráticos, como os socialistas, que medram sob a Democracia, a capacidade de atrair o eleitorado acaba por prevalecer a longo prazo sobre o manobrismo entre militantes. As confusões são só importantes durante os períodos intercalares...

OS INIMIGOS DA REVOLUÇÃO

Ainda na continuidade do tema anterior, repare-se como, pelo menos na estética, a via original portuguesa de transição para o socialismo muito pouco teve de original. Já na fase final do PREC no Outono de 1975, quando as apostas revolucionárias se centraram na subversão da autoridade nas organizações com poder efectivo (como as Forças Armadas) através de organizações como os SUV (Soldados Unidos Vencerão!), a estética ia inspirar-se em cartazes de propaganda dos princípios da Revolução soviética que já contavam então com mais de cinquenta anos. Note-se abaixo como o soldado à esquerda empala os (pequenos) inimigos da Revolução com a sua baioneta enquanto Lenine, como intelectual, apenas lhes dá uma vassourada. No cartaz português acima a estética escolhida foi a mesma mas preferiu-se uma solução de compromisso menos sangrenta: o soldado pontapeia violentamente os graduados reaccionários.

22 junho 2014

O QUARTO ESTADO PORTUGUÊS

A fotografia acima foi tirada na Praça de  Londres de Lisboa no período que imediatamente se seguiu ao 25 de Abril de 1974. No cartaz lê-se: A Classe Operária do Bairro da Liberdade apoia o Movimento das Forças Armadas. Viva a Liberdade! Viva a Classe Operária! Adivinha-se em quem o redigiu o dedo de Lenine e uma solidez de conhecimentos políticos teóricos mais do que qualquer genuína consciência de classe. É a referência por extenso ao Movimento das Forças Armadas que data a fotografia, antes dele se ter transformado no muito mais prático MFA, sigla de que todos os portugueses vieram a conhecer o significado. A localização da fotografia também não será casual, tendo ao fundo o letreiro do Ministério das Corporações e Segurança Social, empregando uma nomenclatura que seria um dos últimos vestígios ideológicos do regime deposto na sua negação da conflitualidade intrínseca às relações laborais. Não tardaria a ser substituído pela designação de Ministério do Trabalho. E típico da negligência portuguesa (numa característica que é transversal a qualquer regime, Revolucionário ou Reaccionário), o outdoor dependurado da 3K ainda nos prometia, em plena Primavera, presentes de Natal...
Mas aquilo que tornará a fotografia mais politicamente engajada (para quem conheça as referências) será o enquadramento escolhido pelo autor (ignoro quem tenha sido), defronte da cabeça da manifestação e no mesmo plano dos manifestantes, numa estética que se vai inspirar obviamente no exemplo do quadro (que naquela época já se havia tornado de referência) O Quarto Estado, que fora pintado pelo italiano Giuseppe Pellizza (1868-1907) cerca de 75 anos antes (acima). Ainda hoje, muitos dos que por lá passaram não sabem que muitas das referências que então utilizaram e que agora consideram tipicamente suas nos seus baús de memórias não passaram de reciclagens vindas de outras paragens, rapidamente colocadas ao serviço da Revolução portuguesa. Só para (mais um) exemplo, os manifestantes da fotografia bem poderiam estar a clamar naquele momento que o povo unido jamais será vencido! sem saberem (e desconhecendo-o possivelmente ainda hoje) que, tais palavras de ordem tão inspiradoras, se tratavam da tradução de um slogan e de uma canção que haviam sido criados no Chile um ano antes.

A PERSONALIDADE DAS «NOSSAS CORES»

Feita a preto e branco, à primeira vista não se percebe quais as simpatias do adepto da fotografia até repararmos nos castelos e no escudo do cachecol. As duas cores da bandeira nacional até nem serão as mais felizes para contrastar, mas o desenho do escudo na esfera armilar dá-lhe uma personalidade única e inconfundível entre todas as bandeiras do mundo. Não consegui identificar o autor da fotografia: merecia a referência.

21 junho 2014

NORILSK SOB O SOLSTÍCIO

Em dia de Solstício, evoque-se Norilsk que, com os seus cerca de 175.000 habitantes, é, depois de Murmansk, a segunda cidade mais populosa situada para lá do Círculo Polar Árctico. Naquelas paragens nos meses de Junho e Julho, não há noites, o Sol limita-se a rodopiar pelo Céu como está agora a acontecer em Norilsk. O que não quer dizer que, com o nível de poluição gerado pelas indústrias locais de refinação do níquel extraído das minas da região, os habitantes locais possam verdadeiramente apreciar esse tal Sol que nunca se põe. Para mais quando no Inverno acontece precisamente o contrário, mês e meio de uma noite contínua em que a temperatura atinge regularmente os -50º C. A cidade é considerada, de longe a mais poluída de toda a Rússia e, embora de fundação recente (1935), não deixa de ter uma interessante história.
Começou por ser um campo de trabalho do arquipélago do Gulag destinado aos prisioneiros (sobretudo políticos) da União Soviética. Faz parte do historial da Resistência ao Comunismo a revolta de prisioneiros (sobretudo nacionalistas ucranianos) que ali ocorreu durante os meses do Verão de 1953 após a morte de Estaline. De acordo com as estatísticas mantidas pelas próprias autoridades, durante os 21 anos de funcionamento do campo (1935-56), morreram em Norilsk 16.806 prisioneiros, uma média de 800 mortos/ano – e um número que vale a pena ser comparado com os 32 mortos oficialmente registados no campo do Tarrafal durante os 18 anos (1936-54) em que este último funcionou (média de 2 mortos/ano). Uma comparação para meditar e para que algumas memórias não se deixem apagar mais do que outras

20 junho 2014

EFEMÉRIDES (2)…

Ontem, uma substancial percentagem dos sítios por onde passei nas minhas navegações assinalava o 70º aniversário de Chico Buarque. Hoje vamos ver quantos assinalam outra data também muito importante: o 1563º aniversário da Batalha dos Campos Cataláunicos. A ameaça da hegemonia dos hunos sobre a Europa foi ali derrotada. O Flávio Aécio que empresta o nome a este blogue participou nela e é considerado um dos seus vencedores (abaixo, uma sua reprodução - totalmente imaginada - em figura de cera). Noutro plano, registe-se que não sobraram registos históricos das vidas e obras dos bardos do Século V. Muito menos especificações sobre a cor dos olhos, ao contrário dos de Chico Buarque que parecem permanecer fatais ao fim de quase 50 anos. Deve ser essa ausência de assuntos de interesse que torna a História do Século V tão enfadonha...

OS «BLACK MERDA»

É ainda submetido ao mote dos maus-tratos que o português e o inglês podem sofrer quando traduzidos em circunstâncias desfavoráveis que aqui vos apresento a banda norte-americana Black Merda (pronunciar blaque mêrda), que se considera ter sido a primeira banda de rock totalmente negra, composta por uns músicos de Detroit onde obviamente não pontuava ninguém que tivesse conhecimentos, ainda que remotos, de português, castelhano ou francês...

Aos mais interessados posso propor-vos a audição de um dos seus trabalhos mais significativos, não se pudesse tratar de músicos ignorantes mas dotados, mas posso-vos adiantar, naquela expressão do português mais chão, que se trata de uma banda que, logo pelo nome, não engana ninguém. Acrescente-se à laia de pormenor perfeitamente inútil que, noutro registo, black merda pode também ser o subproduto de uma alimentação exageradamente rica em ferro...

MENU À BRASILEIRA

E, por me ter referido no poste precedente, ainda que de passagem, a um caso de um menu em inglês que não estava devidamente traduzido para a língua de Camões, permitam-me agora contrastar com este menu indevidamente traduzido para a de Shakespeare. Se tudo o que lá aparece tem de ser à alguma coisa, então o menu, pelo desenrascanço e pelo rigor, é mesmo à brasileira. Vinguem-se dos gringos!

19 junho 2014

OS PROFISSIONAIS DA LAMÚRIA

Esta sociedade que gira à volta dos blogues já tem idade para ter gerado as suas próprias histórias. Havia (há?) um companheiro de lides que se tornou conhecido pelo seu trabalho cívico de ir recolhendo fotografias documentando a impunidade do estacionamento selvagem pelos vários sítios que frequentava. Era um trabalho ilustrado (acima e abaixo) complementado pela denúncia de outras incivilidades, de que recordo particularmente a descrição de um episódio de um restaurante no Algarve explorado por estrangeiros onde, ao contrário do que estabelece a lei, apenas se apresentavam menus em inglês aos clientes. Da historieta que li narrada no blogue ficou-me a dúvida sobre o que fora feito para além do que lia e perguntei directamente: e o livro de reclamações? Não havia. E chamar a GNR para lavrar a competente queixa? Não, que havia uma senhora de idade no grupo que ficaria muito incomodada com o incidente. Mas foi-se embora sem consumir, ao menos? Não, comeu e calou – concluí eu de uma resposta que era compreensivelmente mais redonda nas explicações. Ficava a denúncia: um profundo incómodo para os donos do restaurante - apetece ironizar. Estava-se perante um cidadão repleto de um sentido cívico peculiar. Civismo sim, mas desde que não lhe causasse chatices. Fotografias de viaturas mal estacionadas sim, mas com as matrículas apagadas, que o autor delas não quer passar por bufo, apesar das incessantes denúncias!
Assemelhava-se a uma atitude de quem, mais do que estar preocupado a ajudar Portugal a chegar a algum lado, prefere optar por lamuriar-se que assim Portugal não chega a lado nenhum. É o mesmo tipo de atitude que me está a cansar em Pedro Passos Coelho mais as suas repetidas queixas a respeito do comportamento do Tribunal Constitucional. Não se percebe tanta queixa quando há apenas que compreender que, com a oposição socialista em frangalhos, este momento político é o ideal para que o PSD e a maioria avancem para eleições antecipadas tendo precisamente essa questão da realização de uma profunda revisão constitucional no centro da agenda política dessas eleições. Se a questão fosse linear e com a multiplicação dos episódios, certamente que os portugueses já se teriam apercebido das limitações ao exercício do poder de que Passos Coelho se queixa e, mostrando-se confiante da compreensão dos portugueses no percurso político que percorreu até agora, os eleitores só o haviam que o recompensar com uma maioria eleitoral reforçada que lhe permitiria posteriormente rever os aspectos da Constituição que neste momento opõem os dois órgãos de soberania. Mas não. Pedro Passos Coelho saberá que a maioria dos portugueses não o segunda nesta confrontação e tudo o que se tem vindo a passar não passará de um esbracejar exuberante mas inconsequente, parecido com o civismo daquele nosso amigo do parágrafo lá de cima…

O PEQUENO REDACTOR DE UMA PEQUENA NOTÍCIA SOBRE UM PEQUENO PAÍS

Neste momento em que o desemprego caiu que nem uma martelada concreta sobre os profissionais de um certo grupo da imprensa escrita, analisemos o caso concreto da notícia acima publicada ontem num jornal desse mesmo grupo como exemplo da insustentabilidade do formato que os despedimentos pretendem preservar. Trata-se de uma notícia despretensiosa sobre um episódio despudorado de censura no Uganda. Onde? Uma parte dos leitores não sabe nem quer saber onde fica o Uganda, apenas lhe interessa saber que é num sítio rupestre, mas a restante sabe e não se contenta com a descrição medíocre do redactor da notícia: pequeno país pobre da África oriental. E é assim que podemos apreciar esse momento raro de uma caixa de comentários de um jornal: uma crítica fundamentada ao conteúdo do que acima fora escrito. O pequeno Uganda é três vezes maior que Portugal em área e população. Porém, todos, a começar pelo leitor que se deu ao trabalho de ali deixar o comentário, duvidaremos que aquele gesto possa provocar um sobressalto de competência no pequeno redactor da notícia que o leve, nas próximas vezes, a documentar-se melhor sobre os países sobre os quais venha a escrever: não o fará progredir na carreira, não o impedirá de ser despedido quando do próximo avanço para outra reestruturação. O leitor proactivo também descobrirá que ninguém se interessa pelas manifestações da sua erudição e abster-se-á de mais comentários. Resta saber o que manterá os jornais em circulação… A excelência dos conteúdos (como dizia Mário Crespo) é que não será, com certeza.

18 junho 2014

O CANDIDATO CANELEIRO

Lê-se no Expresso que Marcelo Rebelo de Sousa considerou Rui Rio o melhor candidato presidencial da área social-democrata, acrescentando que ele próprio (Marcelo) já lhe dissera isso e que ele (Rui Rio) terá de optar entre ser candidato presidencial ou reservar-se para primeiro-ministro. Manda a boa educação que Marcelo não possa referir qual a reacção de Rui Rio, mas, quem imaginar o diálogo, adivinha-se uma resposta entre o esclarecimento e a ironia, no caso, ressalve-se, dessa conversa ter mesmo acontecido – é que sobre estas histórias paira sempre o espectro da vichyssoise… E a conclusão é que, mesmo sendo o candidato que parte da pole position, Marcelo não resiste a distribuir caneladas por todos aqueles que ele considera concorrentes à mesma corrida.

O «FUNDO DO TACHO» DA DIALÉCTICA

Qualificados como the most vicious of Communist leaders (vicious: vicioso, imoral, perverso, depravado, rancoroso, vingativo, mau) na legenda do livro de onde retirei a fotografia (The Rise & Fall of Communism), os dirigentes khmers vermelhos que acima aparecem não desiludem a impressão do até onde pôde ir a interpretação mais pura da construção da sociedade marxista-leninista, observando a ostentação do uniforme único (macacão, sandálias, boné e lenço), que funcionará como uma metáfora do que era o pensamento na organização. Anacrónico só mesmo o Mercedes (identificável pelo símbolo na roda traseira), num contraste contra-revolucionário entre o conforto do transporte e o ascetismo do vestuário. Da esquerda para a direita (1) Pol Pot, (2) Nuon Chea, (3) Ieng Sary e (4) Son Sen (a quem recentemente aqui me referi). O segundo ainda está vivo e prestou recente testemunho daquilo que mandou fazer e porquê. Para que também aqui não se apague a Memória, já nem pergunto quantos viram o documentário Enemies of the People (2009), já que dele não conheço versão em português. Pergunto apenas quantos sabem que o documentário existe, atendendo aos galardões que recebeu...

17 junho 2014

EU QUERO UM MITSUBISHI!


Na continuidade de anúncios televisivos estrelados por Herman José, estoutro, dedicado à Mitsubishi, data do apogeu do cavaquismo (1991-92) e aproveita-se da popularidade dos bonecos protagonizados por Herman José nos seus programas de humor (a televisão, recorde-se, estava a viver os seus últimos tempos de monopólio estatal). O fracasso desta campanha da Mitsubishi em dar reconhecimento à marca nesta outra linha de produtos foi uma lição de como os homens providenciais nunca podem constituir uma solução consolidada para qualquer problema, quer se trate de Herman José, de Cavaco Silva ou, como se viu ontem, de Cristiano Ronaldo.

COMO VAI ISSO DE AMORES?

O Ultra Brait foi um dentífrico que teve uma passagem meteórica pelo mercado português uns poucos anos depois do 25 de Abril. Hoje estão tão justamente esquecidas as qualidades do produto como injustamente está esquecido um dos anúncios televisivos da sua promoção, onde aparecia um jovem Herman José. A mensagem do anúncio é estúpida, como se esperaria da promoção a um artigo de consumo, prometendo uma vida sentimental bem-sucedida a quem passasse a usar o dentífrico. Mas o que o podia ter tornado memorável, digno de nota, foi aquela primeira parte em que Herman José responde evasivamente cantarolando à pergunta precisa que surge em off:

- Como vai isso de amores? Na época em que os políticos ainda andavam a aprender a exprimir-se em televisão e os telespectadores andavam a aprender a escarnecer dos mais desajeitados, a cantilena posada e canhestra de Herman José não se distinguia muito de certas respostas com que alguns entrevistados de programas políticos se tentavam evadir às perguntas mais incómodas. Houvesse justiça na Terra e a Ciência Política portuguesa teria sido enriquecida com o ensinamento: não tentes iludir a pergunta ao estilo do anúncio do Ultra Brait. E andaria provavelmente um jovem politólogo a fazer flores explicando o que fora o Ultra Brait assim como o Vasco o fez com o Maneta.
Sendo a vida como é, fica a tarefa reservada a este blogue, que o assunto é até demasiado apalermado para uma tese de mestrado…

16 junho 2014

PORQUE É QUE OS ALIADOS NÃO BOMBARDEARAM AS VIAS FÉRREAS QUE LEVAVAM A AUSCHWITZ

A entrevista que o Papa Francisco concedeu a Henrique Cymerman e à SIC Notícias parece ter sido geralmente muito bem acolhida, lendo-se por aí variadíssimos comentários favoráveis, embora, também por isso, pareça também ter desencadeado as suas controvérsias. Uma delas está associada a uma espécie de pergunta que o entrevistado deixa no ar quando se questiona a conduta dos diversos intervenientes na Segunda Guerra Mundial por causa do Holocausto. Porque é que os Aliados não bombardearam as vias férreas que conduziam aos campos de concentração interrompendo o transportes e a execução dos deportados? A resposta é simples, embora desagradável: porque não era importante para eles bloquear aqueles transportes. Bombardear as vias férreas por onde passavam os comboios com judeus não iria perturbar nem directa nem indirectamente o esforço de guerra dos alemães e era apenas esse objectivo que lhes merecia o risco dos bombardeamentos.
A prioridade de qualquer guerra é a de lesar a capacidade combatente do inimigo até que ele perca a vontade de combater. Foi por isso que estrategicamente fez muito mais sentido que os Aliados se concentrassem em atacar a Alemanha e conquistar Berlim do que a perderem tempo com a libertação das dezenas de milhões de pessoas que ainda permaneciam sob o jugo alemão quando do momento da vitória. Aliás, se o analisarmos com distanciamento, só o fanatismo nazi pode explicar a forma como os alemães alocaram (mal) os seus recursos enquanto simultaneamente travavam uma guerra em várias frentes. Na retaguarda, havia milhares de homens das SS afectos à captura e policiamento dos judeus, havia quantidades incomensuráveis de material circulante ferroviário alocado para o seu transporte para os campos de extermínio, eram recursos humanos e materiais que faziam imensa falta nas frentes de combate: eram batalhões que faltavam, eram munições e reabastecimentos que não chegavam, eram feridos que não podiam ser evacuados. Não seriam os Aliados que se arriscariam a perturbar uma actividade que, por muito desagradável que a constatação seja, era diversionária para o objectivo principal da Guerra.
O debate sobre o Holocausto já tem 70 anos. E a pergunta colocada por Francisco não é, evidentemente, nova. Tem a virtude de colocar quem queira defender a conduta dos Aliados numa posição frágil: a resposta honesta é, como se lê acima, antipática; quem o não quiser ser, tem que ser evasivo na forma como responde. Aceito que Francisco não a tenho colocado com essa intenção. Mas percebe-se ali uma certa confusão entre todos terem culpas e o grau diferentes das culpas que todos podem ter. Estou a ler que, entre aqueles que ouviram a entrevista do Papa Francisco, o argumento se terá apresentado como algo de novo. Tratando-se de um tema tão mediaticamente ventilado quanto o do Holocausto, parece-me demonstrativo do quanto, apesar das preocupações e das pretensões, a ignorância das pessoas sobre estes assuntos se mantêm grande, apesar da riqueza da informação a que a internet lhes dá acesso. A acrescer, parece também demonstrativo que, mais do que o conteúdo da informação, se torna muito mais importante a pessoa que a transmite. O que devia ser um disparate. Eu gostei de ouvir o Papa Francisco na entrevista mencionada. Tanto que até a recomendei a terceiros. Cativou-me. Parece um velhote porreiro, verdadeiramente acessível. Mas é preciso não sermos (positivamente) preconceituosos quanto à sua pessoa. É que eu tenho a certeza que bastantes dos que se predispuseram a ouvir e a considerar agora a pergunta de Francisco sobre este assunto não a teriam ouvido (e/ou não teriam reagido) da mesma forma se ela tivesse sido colocada por Bento XVI, o seu antecessor...
Fotografias aéreas do tempo da guerra dos campos de concentração de Auschwitz, Dachau e Treblinka.