31 março 2014

OS RETORNADOS E OS QUE NÃO RETORNARAM

Mesmo tendo-se iniciado por um processo impecavelmente democrático, a História posterior do Zimbabwe independente sob o poder político da ZANU e de Robert Mugabe mostrou como parece ser impossível manter-se o estatuto económico privilegiado de uma minoria branca sem a protecção do poder político: de um máximo de 275.000 nas décadas de 1960 e 70, a minoria de zimbabweanos de ascendência europeia reduziu-se actualmente a umas 30.000 pessoas. São números semelhantes, senão mesmo inferiores, às dos moçambicanos e angolanos da mesma ascendência, apesar dos processos de independência destes últimos países terem sido muito mais atribulados, tendo provocando inclusive um êxodo brusco de muitas centenas de milhares de pessoas (abaixo). Durante anos, esses que vieram quiseram acreditar na ficção que só o fizeram por causa do fracasso na forma como decorrera a descolonização portuguesa. Mas manda a honestidade intelectual reconhecer, consideradas as analogias entre o exemplo posterior do Zimbabwe com o de Angola e Moçambique, o quanto essa crença estava errada. As circunstâncias e o ritmo poderiam ter sido diferentes mas o desfecho final não. (A fotografia inicial foi tirada no Zimbabwe em 2000, 20 anos depois da independência)

«IN THE CAGE»


Correndo o risco de ser desmentido pelo futuro, num fracasso (como profeta) esplendoroso, à Marcelo Rebelo de Sousa (felizmente mais discreto), apesar dos contínuos tratamentos de imagem, o governo parece estar a exalar dele uma antecipação de próximo colapso por astenia (com a consequente implosão), uma daquelas especificidades da história da vida política portuguesa (um governo que não é derrubado, colapsa sozinho), fenómeno frequentíssimo durante o período da monarquia constitucional e ainda recorrente na história portuguesa recente (Balsemão 1982, Guterres 2001). A banda sonora é In the Cage dos Genesis (1974) que me apareceu a tocar dentro da cabeça desde que me levantei.

30 março 2014

AS PRIMEIRAS E ÚLTIMAS ELEIÇÕES LIVRES DO ZIMBABWE

Costuma dizer-se e escrever-se que Portugal foi a última potência europeia a abandonar as suas colónias em África. Não é verdade, nem factual, nem formalmente. Foi só em Junho de 1977, por exemplo, que a França concedeu a independência a Djibuti, 19 meses depois da de Angola e, por quatro meses, entre Dezembro de 1979 e Abril de 1980, a Rodésia voltou a ser uma colónia britânica, para reganhar uma nova independência sob um governo de maioria negra. De acordo com os Acordos de Lancaster House, durante esses quatro meses a Rodésia voltou a ser uma colónia britânica com o Reino Unido a responsabilizar-se pela administração do processo de transição do país que viria a ser conhecido por Zimbabwe.
Um dos elementos basilares dessa transição era a organização das eleições de onde sairia a nova assembleia legislativa do país. Como o futuro executivo precisaria de uma maioria nessa câmara de 100 deputados, os resultados e a transparência dos mesmos seriam cruciais para o sucesso do processo de transição. Um dos resultados das negociações em Lancaster House fora que a minoria branca, que detivera o poder até então, havia conseguido cativar para si 20 lugares numa sobrerrepresentação do seu peso demográfico (equivalente a 6 a 7%). Estes 20 lugares eram círculos uninominais seguindo a tradição eleitoral britânica. Os outros 80 lugares seriam ocupados pelos eleitores da maioria negra.
Considerada a celeridade imposta ao processo, esses outros 80 deputados seriam eleitos proporcionalmente em sistema de listas apresentadas a oito círculos eleitorais correspondentes à divisão administrativa do país (um processo muito semelhante ao empregue em Portugal). O problema que incomodava a administração colonial britânica dirigida por Lord Soames era, não apenas o acantonamento e controle dos guerrilheiros da ZANU e da ZAPU que haviam até aí lutado contra o governo (acima), mas uma forma desburocratizada de assegurar a justiça eleitoral, em que todos votavam, mas que o faziam apenas uma vez. E foi assim que apareceu a tinta indelével a marcar os eleitores que já haviam votado¹!
Num último vestígio nostálgico do Império, a administração de Lord Soames recorreu à mobilização de 570 polícias britânicos que, com os seus reconhecíveis uniformes tradicionais (abaixo), acompanharam as eleições durante os três últimos dias de Fevereiro de 1980 em que elas tiveram lugar. Entre o eleitorado branco, as eleições não tiveram história: só 6 dos seus 20 lugares foram disputados, e mesmo assim, todos os 20 foram ganhos pela Frente Rodesiana que apoiara o governo anterior. Como é óbvio, a verdadeira disputa travava-se pelos 80 deputados e pelos votos dos 2,7 milhões de eleitores da maioria negra. E aí havia três grandes partidos que as ambicionavam vencer: a ZANU, a ZAPU e a UANC.
A ZANU (União Nacional Africana do Zimbabwe) e a ZAPU (UniãoPopular Africana do Zimbabwe) eram as duas organizações que haviam combatido militarmente o governo da minoria branca. Estavam separadas pela etnia predominante nas suas bases (shona vs. ndebele), pelos apoios materiais e ideológicos externos que recebiam (chinês vs. soviético), pelos países de onde as suas guerrilhas operavam (Moçambique vs. Zâmbia) e, claro, pela personalidade dos seus dirigentes (abaixo: Robert Mugabe vs. Joshua Nkomo). Contudo, ambas capitalizavam o prestígio de terem sido organizações combatentes. Depois, havia a organização moderada, a UANC (Congresso Nacional Africano Unido).
A UANC, dirigida pelo bispo (metodista) Abel Muzorewa, que sempre se opusera à luta armada assim como nunca aceitara um regime de supremacia branca, via-se agora acarinhada com meios inauditos de propaganda eleitoral financiados por ela, incluindo mesmo uma frota de helicópteros. A esperança era fazer com que a UANC conseguisse alcançar um mínimo de 30 lugares que, adicionados aos 20 da minoria branca, formassem uma maioria parlamentar e um governo moderado para o futuro Zimbabwe independente. Os rodesianos (e os sul-africanos) acreditavam que isso seria possível mas estavam redondamente enganados. No encerramento do escrutínio, a UANC elegera só 3 deputados, menos do que os helicópteros da frota…
A ZANU de Mugabe, com 63% dos votos e 57 lugares, obtivera sozinha a maioria absoluta no parlamento. A ZAPU de Nkomo ficara-se pelos 24% e pelos 20 deputados. Os 3 deputados da UANC correspondiam a 8% dos votos. Foi a primeira vez que em África um partido marxista-leninista chegara ao poder pela via eleitoral, em eleições livres monitoradas e avalizadas pelo Reino Unido. Nas eleições seguintes disputadas em 1985 já havia os 80 círculos uninominais e os candidatos governamentais foram reeleitos com mais de 90% dos votos. Já se realizaram meia dúzia de eleições depois disso, mas 34 anos depois (virtudes científicas do marxismo-leninismo), Robert Mugabe e a ZANU ainda continuam a ocupar o poder no Zimbabwe…
¹ Um método hoje recorrentemente empregue em todas as eleições mundo fora onde possa haver dificuldades com a existência de documentos de identificação.

VIDA DE CÃO

Ainda há pouco, dirigia-me para o carro estacionado, quando me deparo com uma senhora passeando dois cães, estranhamente aparcada do (meu) lado do condutor. Um compasso de espera, para que a senhora se apercebesse que me estava a bloquear, enquanto eu espreitava a ver se algum dos bichos não estaria a regar sanitariamente pneu e jante, até a senhora se aperceber da minha presença e eu aperceber-me que a obra era outra, pela posição inconfundível de um dos bichos. Aflitivos pedidos de desculpa até terminar a arqueação e a senhora civicamente se dobrar para apanhar apressada e stressadamente o produto daquela nossa espera. O cão impávido e indiferente ao incómodo que causara, qual nababo indiano. O outro cão implacavelmente solidário, qual sindicalista da CGTP. A língua portuguesa possui a expressão vida de cão mas a modernidade tê-la-á transformado numa felicidade quando comparada com a vida de dono de cão.

29 março 2014

BELEZAS DE CINEMA

Willy Rizzo (1928-2013) foi um fotógrafo demasiado consagrado para que duvidemos das suas capacidades em conseguir captar apropriadamente a beleza destas duas vedetas do cinema europeu clássico dos anos 60, a francesa Anouk Aimée (à esq., 1932-) ou a italiana Monica Vitti (dir.,1931-). Se aquilo que vemos não confere com a imagem que formámos das actrizes, há que apreciar a questão por um outro prisma, o da mestria dos realizadores que as transformaram nas beldades da tela que nos ficaram na memória, em filmes como Um Homem e uma Mulher de Claude Lelouch (1937-)...

...ou O Eclipse de Michellangelo Antonioni (1912-2007).

28 março 2014

PARECENÇAS E ANALOGIAS

As actrizes Frances de la Tour (esq.) e Allyce Beasley (dir.) são aquilo que se considera pessoas parecidíssimas, daquelas parecenças que creio nem ser preciso explicar. Na realidade, não há qualquer relação entre elas, a primeira é britânica e a segunda norte-americana, há dez anos a separá-las e elas nunca contracenaram sequer. Mas a semelhança fisionómica é evidente.

A alusão ao exemplo do Kosovo quando das referências ao recente caso da Crimeia assemelhar-se-á à foto acima: tratara-se inicialmente de uma promoção norte-americana a uma secessão apesar da oposição russa, trata-se agora de uma promoção russa a uma secessão apesar da oposição norte-americana. As semelhanças quedam-se por aqui, mas são consistentes. Os Estados Unidos é que se deram por surpreendidos ao constatarem que não possuíam o monopólio do poder de redesenhar fronteiras internacionais ao arrepio de opiniões terceiras. Leio por aqui pela internet quem queira contestar a habilidade russa da desculpabilização do episódio da secessão da Crimeia invocando o Kosovo, desmentindo semelhanças, empolando pormenores que os diferenciam. Ora isto das analogias é instintivo e será como as parecenças ou mesmo como o daltonismo: é congénito. Nasce com as pessoas: ou se vêem ou não adianta de nada explicar.
É que para a discussão sobre a fotografia inicial não tem qualquer relevância argumentar que Frances de la Tour tem dois filhos enquanto Allyce Beasley tem só um.

OS «MERCADOS» ESTÃO A REAGIR MUITO BEM MAS O GOVERNO DEVE ESTAR COM DIFICULDADES EM EXPLICAR-NOS AO QUE É QUE ELES ESTÃO A REAGIR

Manda a evidência constatar que o comportamento das yields dos títulos da dívida portuguesa têm registado um abaixamento significativo no último mês, como se observa no mapa acima (exemplo para o prazo a dez anos), estando prestes a franquear a fronteira dos quatro pontos percentuais. São excelentes notícias. O que não se compreende é porque o governo não esteja a fazer uso delas. A explicação mais simples é que se poderá tratar de inépcia: quem está encarregue da propaganda governamental tem os factos (a diminuição das yields) mas no governo ninguém lhes forneceu uma história de algo positivo que o governo tenha feito ultimamente para a justificar. A segunda explicação possível, é que o governo se tenha disposto finalmente a abandonar a Doutrina Moedas: postulado económico que assumia a ilusão que os agentes financeiros internacionais iriam tomar boa nota que era o PSD e não o outro a governar Portugal e que isso iria afectar positivamente as suas reacções à nossa capacidade creditícia. Afinal não afecta nada e, ao fim de três anos, lá se terão decidido (possivelmente) a aceitar que não adianta nada contar essa patranha aos portugueses. A terceira explicação admissível (e muito mais preocupante...) é que, ao contrário do que nos querem fazer crer quando se procura abafar o debate entre portugueses para que os mercados lá fora não saibam, desta vez seja lá fora nos mercados que já se saiba aquilo que ainda não pode ser comunicado aos portugueses. Isso que os mercados já saberão só nos irá ser contado depois das eleições...

27 março 2014

PORTUGAL: DA INICIATIVA DA ÉTICA ATÉ À «ÉTICA» DA INICIATIVA

Não consegui identificar a obra de Júlio Dinis em que se trava um instrutivo diálogo entre um jovem ilustrado pelos estudos e um retrógrado camponês em que o primeiro desafia o segundo a explicar-lhe o que é o vento, ao que este candidamente responde que era como se fosse um sopro. Foi pretexto para que o camponês recebesse uma explicação consolidada pelos últimos conhecimentos de meteorologia (era a diferença de pressões que provocava a circulação atmosférica), explicação da qual suspeita-se que o destinatário não deverá ter tirado grande proveito. Mas claro, aquele era o Portugal atrasado, rural e interior do Século XIX que Júlio Dinis tanto gostava de descrever nas suas obras. Entretanto passou-se quase século e meio desde a publicação das obras daquele escritor tão prematuramente desaparecido 
Apesar da universalização do ensino de então para cá, percebe-se que o senhor da fotografia acima não terá tido uma conversa prévia com qualquer jovem ilustrado que lhe explicasse que as ondas, como o vento, são energia que se propaga e não água que se desloca, o que esvazia de sentido este gesto de as tentar engarrafar para as vender. Mas no Portugal dinâmico, comercial e litoral do Século XXI, mais do que o rigor científico, parece que o que importa mesmo é mostrar iniciativa e, nesse sentido, a ignorância do senhor acima está adequada aos tempos de uma forma que a do camponês de Júlio Dinis não estava. Não é este Portugal dirigido por um primeiro-ministro consultor de uma empresa que se propunha ministrar cursos de formação a centenas de empregados de aeródromos onde não aterravam aviões?

A PROPÓSITO DO SORTEIO DOS AUDIS RELEMBRE-SE QUE O CONCURSO AINDA NÃO COMEÇOU MAS CARLOS ZORRINHO JÁ FOI (AUSTERAMENTE) CONTEMPLADO

…ou como se ironiza no blogue Imprensa Falsa: se fosse para ganhar um Audi, os portugueses tinham-se tornado todos políticos, uma actividade que fornece não só o Audi, mas também o motorista.

26 março 2014

ANATOMIA DE OUTRO INSTANTE


Todos os portugueses com mais de cinquenta anos teriam uma certa obrigação de saber o que se passou com a tentativa de golpe de estado que teve lugar em Espanha em 23 de Fevereiro de 1981. Na altura foi cabeçalho de todos os jornais e motivo para interromper as emissões regulares da rádio e da televisão. Ainda haverá muitos milhares que se lembrarão do episódio, incluindo os pormenores da rocambolesca erupção dos guardas do tenente-coronel António Tejero Molina pelo congresso de deputados em plena sessão, a imagem mais simbólica do golpe (acima), embora seja de esperar que a maioria já não tenha hoje nem ideia sobre o assunto. Contudo, uma das excepções a essa maioria silenciosa terá de ser o professor Marcelo, tanto mais que o episódio e os seus detalhes foram até objecto de um refrescamento há três anos quando foi editado um discutido livro sobre o assunto intitulado Anatomia de um Instante – e é sabido como o professor lê (e recomenda...) dúzias de livros por semana.
Quando no Domingo passado, no seu habitual programa daTVI, o professor Marcelo se referiu ao episódio da invasão do congresso de deputados na evocação que fazia ao recém-falecido Adolfo Suárez, esquecendo-se do nome do general que confrontou os guardas (Gutiérrez Mellado, ministro da Defesa) ou de nomear Santiago Carrillo como outra pessoa presente que não obedeceu às ordens dos insurrectos para se baixarem, mostrou a vários milhares de pessoas na sua audiência quanto há assuntos cuja profundidade ele domina ainda menos do que os próprios. O que não o impede de os abordar com aquela desfaçatez de vendedor de mezinhas de feira. Está de parabéns a redacção da TVI, por ter deixado a nota correctiva no auricular de Judite Sousa; não está de parabéns esta última, que já tem os mais de cinquenta anos que acarretariam uma certa obrigação – também profissional – de saber alguns detalhes do que se passou durante o golpe que ficou a ser conhecido por 23F.

NÃO HÁ QUEM SEGURE A BONEMINE!

É uma pena não se dever ser mais específico sobre a história aqui simbolicamente retratada mas garanto-vos que ela é tão divertida quanto as imagens sugerem.

25 março 2014

«O MEDO PELAS CIDADES»

Ainda a propósito do cabeçalho obscenamente exagerado do jornal Libération a que aqui ontem me referi, deixem-me usar este par de fotografias encadeadas para mostrar uma cidade onde deveria haver medo, mas onde ele não se nota. Está-se em Berlim em 1936, o cinema tem em cartaz a comédia A Familia Schimek, protagonizado pelo actor austríaco Hans Moser, filme estreado em finais de Dezembro de 1935. O autor das fotografias chama-se Roman Vishniac, era russo e judeu. A casualidade dos transeuntes (os carrinhos de bebé) e da paisagem urbana (a carroça com as barricas) não seria perturbada não fosse aquela pequena bandeira dependurada do estabelecimento comercial que aparece do lado esquerdo. Sem o desenho familiar da cruz gamada da bandeira nem valeria a pena referir que Adolf Hitler e os nazis haviam alcançado o poder na Alemanha havia três anos. Verdadeiramente preocupante seria o facto de, três anos passados sobre a sua subida ao poder, aquele comerciante ainda sentir necessidade de afirmar assim tão ostensivamente as suas simpatias políticas. Estas viagens ao passado sempre nos servem para moderar os exageros do presente.

A CHUVA QUE NÃO MOLHA MALTA

Malta é um dos nossos parceiros da União Europeia. Imaginem que a Madeira se tinha tornado independente e com ela teremos uma boa base retocável para descrever Malta. Transferindo-a das franjas do Atlântico para o centro do Mediterrâneo (acima), reduzindo-a nas dimensões (abaixo – a ilha da Madeira tem 740 km², o conjunto das ilhas de Malta 316 km²) e alterando-lhe a morfologia: a Madeira é de formação vulcânica, Malta, com os seus terrenos calcários, de formação sedimentar. Porém Malta, com mais de 400.000 habitantes, tem uma população que é cerca de 50% superior à da Madeira, uma das maiores densidades populacionais da Europa. Climas semelhantes, o turismo é uma actividade fundamental para a economia de ambas. Mas, para terminar, complementarmente a esta comparação e tendo em conta o que são tradicionalmente as prestações desportivas da selecção maltesa de futebol, imagine-se a tragédia futebolística que não seria a independência da Madeira: é que não afectaria apenas a selecção portuguesa lesada com o desaparecimento do seu mago Cristiano Ronaldo; afectaria também o rendimento deste último se acompanhado pelos dez coxos que lhe caberia como companheiros de selecção.
Mas embora situados ambos na zona de fronteira entre Europa e África, e reconhecendo-se pertencentes à primeira, a história dos dois arquipélagos ilhas é totalmente distinta, a começar logo pelo povoamento, pré-histórico no caso de Malta, iniciado apenas a partir do Século XV no caso madeirense. A Madeira foi sempre portuguesa enquanto Malta, mesmo contando apenas a sua história depois do Século XV, foi aragonesa, depois passou a ser administrada pela Ordem dos Hospitalários (1530), de seguida francesa (1798), depois britânica (1800), até se tornar independente em 1964. Apesar de Malta, por causa da sua localização geográfica, se ter preocupado em adoptar uma política de neutralidade durante o período da Guerra-Fria, quando esta acabou procedeu a uma inflexão, fazendo o seu pedido de admissão à União Europeia (1990). A admissão veio a ter lugar em 2004 e em 2008 integrou-se na zona Euro. Malta está localizada na periferia da União, não tem nesta aliados poderosos, não foi um país importante no xadrez do processo de alargamento que teve lugar a partir de 1989 mas, por outro lado, pela sua pequena dimensão, também nunca foi um país propenso a despertar antipatias.
Há cerca de um ano, no seguimento da crise financeira de Chipre, surgiram rumores que algo de muito semelhante ao que se estava a passar com a banca cipriota poderia vir a acontecer com Malta – rumores que foram rapidamente desmentidos. Não impediu que alguns meses depois as agências de notação tivessem discretamente revisto em baixa a classificação atribuída àquele país. É que sempre se pode explicar o quanto se considera que a banca maltesa (ao contrário da cipriota, da irlandesa, da islandesa, etc.) está sólida mas os factos mostram, até aos leigos, que existe um potencial problema congénito: os balanços agregados dos bancos malteses representam cerca de 800% do PIB da Malta. Assim, a solução adoptada tem sido passar mediaticamente desapercebido, o que em linguagem coloquial costumamos designar por passar entre os pingos da chuva. Malta tem a (falta de) dimensão para conseguir isso, assim como – reconheça-se – Alberto João Jardim também o está a conseguir fazer na Madeira. Depois do conceito económico do too big to fail (demasiado grande para falir), descobre-se o conceito oposto do too small to bother (demasiado pequeno para incomodar). Azar o de Portugal, ser um país de dimensão intermédia… 

24 março 2014

MAIS DO QUE UMA CONTRADIÇÃO, UMA VERGONHA

A vergonha, que me desculpem os que aqui chegaram atraídos pela capa do jornal para se indignarem pelos motivos errados, é a própria capa do Libération e não o resultado das eleições municipais francesas de ontem. Se feita livremente – e não há razão para pensar que assim não tenha sido – os resultados da votação expressam apenas a vontade popular dos franceses, por muito que ela nos desagrade. Houve (e ainda há) outros projectos igualmente não democráticos e totalitários como os da Frente Nacional (que afinal obteve apenas 7% dos votos) que suscitaram muito menos indignações: precisamente numa primeira volta destas mesmas eleições municipais, mas em 1977, a lista encabeçada pelo comunista Henri Fizbin surgia no primeiro lugar em Paris com 32% dos votos. Perdeu a segunda volta para Jacques Chirac, mas os comunistas alcançaram nessas eleições as presidências em 72 das 221 cidade francesas (⅓) com mais de 30.000 habitantes – sem que se espalhasse o medo pelas cidades como agora se pode ler no cabeçalho do Libération... Pelos vistos, na interpretação esquerda chic, quanto o povo votava em massa em partidos totalitários não democráticos da sua área não havia problema; agora que o faz nos da direita amedronta-se a si mesmo. Tenham paciência!: quem se quiser indignar com populismos tem que se indignar com todas as suas manifestações e quem se dispuser a acatar a expressão da vontade popular tem que a acatar apesar dela não agradar.

«DUTCH» SCHULTZ

O gangster nova-iorquino Dutch Schultz chamava-se na realidade Arthur Flegenheimer e era de ascendência alemã (não holandesa como a alcunha sugere) e religião judaica, embora tenha morrido católico romano. Com ele, a engenhosidade de o apanhar por fraude fiscal, como aconteceu na (demasiado) propagandeada história do que o FBI fez com Al Capone, não funcionou: Schultz contratou o reputado advogado James M. Noonan, que fora um antigo promotor estadual em Albany, a capital do estado de Nova Iorque (abaixo, ao lado do seu cliente),…
…que o conseguiu fazer ser julgado à fraude fiscal numa remotíssima terreola (Malone) do estado, onde foi absolvido (fotografia inicial) a 2 de Agosto de 1935, quatro dias antes de completar 34 anos. Mas vivia-se depressa naqueles tempos e naqueles meios. Passados dois meses e meio, a carreira de Dutch Schultz era encerrada de outra forma num restaurante de Nova Jérsia. Oficialmente foram rivais e ninguém teve pena. Eram tempos difíceis, hoje esquecidos, esses onde, na falha da formal, existia uma certa tolerância por certas formas heterodoxas de justiça.

23 março 2014

CUBITUS E A HISTÓRIA UNIVERSAL

Apesar de já a conhecer há mais de 40 anos, sempre apreciei muito este quadro da História Universal imaginado por Dupa, o criador de Cubitus, o cão branco redondo peludo que aparece nele reencarnado em dezenas de personalidades, algumas reais outras inventadas, encaminhando-se na direcção do observador, dispostas numa cronologia de cima para baixo embora não muito rigorosa. No canto superior direito, por exemplo, Obélix não está muito distante do infante D. Henrique. Ao centro Napoleão precede Luís XIV e parece perseguir Guilherme II. O local mais destacado do conjunto está ocupado pelos irmãos Marx. O pioneiro da aviação está completamente fora da cronologia, que termina com um hippie e um cosmonauta. Parece haver algo de despreocupadamente casual na escolha das figuras da galeria, assim como eu procuro que sejam os temas dos postes que vou publicando neste blogue.

SOBRE A INCONTINÊNCIA URINÁRIA E A AUTORIDADE POLÍTICA


Esta foi, para mim, uma estreia. Não tenho conhecimento de outro episódio em que a incontinência urinária se houvesse tornado num tópico principal de uma disputa eleitoral. O episódio conta-se sucintamente: durante um comício em Barranquilla na Colômbia, o presidente e candidato à reeleição Juan Manuel Santos foi filmado discursando enquanto as suas calças iam adquirindo progressivamente uma tonalidade inequívoca na zona púbica. Por mim, o mais incomodativo naquele vídeo é mesmo o primarismo dos lugares-comuns que o visado profere na ocasião. Mas o vídeo foi depois colocado na internet, ridicularizando-o. Como se tem de fazer nestas ocasiões, o presidente reagiu vitimizando-se, tentando despertar a empatia do eleitorado, explicando que se tratara das sequelas de uma operação à próstata a que ele se submetera há ano e meio. Entretanto, num outro continente – quiçá num outro planeta – Silva, um homólogo do presidente Santos, fazia um apelo para que se evitassem querelas artificiais e controvérsias estéreis numa próxima campanha eleitoral, esquecendo-se de ter presente que as regras do marquês de Queensberry só vingaram porque o júri se reserva para si a capacidade de desqualificar quem não as cumprir.

A SUPERFICIALIDADE DE UM«A BALANÇA»

Ainda a propósito da crise da Crimeia e do elogio aqui deixado a Pedro Mexia por se mostrar disposto a ler substanciadamente sobre os antecedentes do assunto, ainda que em inglês, registe-se o contraste com Vasco Pulido Valente, que reputadamente já leu sempre tudo o que há para ler sobre qualquer assunto, especialmente em inglês, o que não o impede de escrever catedraticamente uma data de disparates, infelizmente em português, para aplauso de uma classe muito específica de admiradores seus que se mostra de uma ignorância muito intelectualizada.

Na sua crónica de ontem do Público, intitulada A Balança, Vasco Pulido Valente produziu uma análise histórico-estratégico-oracular sobre a importância da Crimeia para a Rússia, a começar pelo seu porto principal, o de Sebastopol no mar Negro, o «porto de águas quentes», «aberto o ano inteiro», «a via principal da influência russa no Ocidente. Militar e comercialmente, era insubstituível.» A crónica conclui-se com a analogia, previsível em Vasco Pulido Valente, com os eventos do Século XIX. É a opinião do cronista. Em contraste, há a realidade.

Sebastopol sempre foi sobretudo uma base naval. Foi essa a razão que levou a aliança anglo-francesa a escolhê-la como objectivo durante a Guerra da Crimeia (1853-56), como se explica de resto em páginas de Crimea de Orlando Figes que Vasco Pulido Valente deve ter saltado (p. 194 e ss.). A verdade é que o «grande porto de águas quentes» no mar Negro, tanto para o império russo como depois para o soviético nos Séculos XIX e XX foi o de Odessa. Como referi recentemente, no primeiro censo russo (1897), Odessa já era a quarta maior cidade do Império¹.

Significativamente quanto à importância dos dois portos, quando se deu a conhecida revolta no couraçado Potemkin em 1905, apesar do navio estar baseado em Sebastopol foi para Odessa que ele se dirigiu para fomentar a revolução. Ao longo do Século XX, excepto nos anos da guerra² (1941-45) e mesmo depois da queda da URSS, Odessa sempre permaneceu o maior porto do mar Negro embora não «um emblema do nacionalismo russo e da sua “porta aberta” para a Europa e para o Atlântico» – atributos poéticos atribuídos a Sebastopol pelo Vasco.

Actualmente, Odessa tem cerca de um milhão de habitantes e o seu porto movimenta mais de 30 milhões de toneladas de carga por ano (sensivelmente o dobro do de Leixões). Sabendo que Odessa é o maior porto ucraniano, lamento não ter conseguido encontrar dados para o movimento do porto de Sebastopol, embora considere significativo que a cidade tenha apenas ⅓ da população de Odessa. Mas deve ser aquilo tudo espectacularmente russo do modo que o Vasco Pulido Valente descreveu e como os seus indefectíveis admiradores gostam.

Como é que as suas conclusões podem ser sempre tão elogiadas de tão acertadas, se as premissas são falsas?

¹ Depois de São Petersburgo, Moscovo e Varsóvia.
² Ao contrário do que Vasco Pulido Valente sugere, e como já aqui expliquei neste blogue, a neutralidade turca e as regras da Convenção de Montreux de 1936 impediam que a União Soviética pudesse ser abastecida de material militar pelo mar Negro.

22 março 2014

CRIMEA, de ORLANDO FIGES

Ontem, apreciei o efeito produzido pelo gesto de Pedro Mexia quando, em pleno Governo Sombra na TVI24, exibiu o livro acima: Crimea, de Orlando Figes. Houve uma reacção de aprovação admiradora entre colegas de programa a que me associo: é sempre bom constatar que há comentadores que procuram robustecer os seus conhecimentos sobre temas necessariamente complexos para os quais estão a ser convidados a pronunciarem-se. Há que enaltecer os que o fazem e há que encorajar os que modestamente os admiram. O tema do livro é, evidentemente, a Guerra da Crimeia (1853-56). Comprei-o há quase três anos, em Agosto de 2011 na FNAC. É um livro com muita informação colateral curiosa, como costuma acontecer normalmente com as obras de Orlando Figes. Foi pretexto, por exemplo, para eu ter publicado aqui no Herdeiro de Aécio um poste sobre alguém importante cuja importância desconhecia completamente: o médico russo/ucraniano Nikolai Pirogov, a quem se pode atribuir a paternidade da triagem médica. Creio que o livro não chegou a ser traduzido, nem aqui nem no Brasil. O exemplar exibido por Pedro Mexia assim como o meu, que aqui exibo em frente e verso como ilustração, são a versão em inglês.

21 março 2014

UMA SINTÉTICA HISTÓRIA DA UCRÂNIA

Uma das ironias mais interessantes da actual situação que confronta Rússia e Ucrânia é que o primórdio da História dos dois países é comum. Ou melhor: a História da Rússia começou na Ucrânia. O primeiro capítulo de A History of Russia c. 882 – 1996 de Paul Dukes é dedicado à construção e colapso de Kiev, 882 – 1240; também em Russia’s Empires de Philip Longworth o primeiro dos impérios russo é o de Kiev, c.850 – 1240. O primeiro capítulo deste segundo livro aborda até um tema pertinente, mas de discussão impertinente nos dias que correm: quem são os russos? Serão os ucranianos um subgrupo dos russos? Mas ultrapassemo-lo para começar a narrativa da fundação da cidade de Kiev (Kyiv em ucraniano) nas margens do rio Dniepre, na encruzilhada de duas rotas comerciais: uma terrestre que ligava de Leste para Oeste a Europa e a Ásia Centrais, a outra fluvial e na época muito mais importante, de Sul para Norte, conectando o mar Báltico e o mar Negro e, através deste, a grandiosa metrópole de Constantinopla, a capital do Império Romano.
As elites desse primeiro estado russo terão vindo de Norte, da Escandinávia, numa época em que, como vikings, os povos nórdicos atravessaram uma verdadeira explosão populacional que os fez instalarem-se por quase toda a Europa. Mas as principais influências culturais vinham do Sul. O ano de 988 é considerado o ano da adopção do cristianismo como religião oficial pela corte de Kiev – compare-se com datas simbólicas semelhantes para a Polónia (966) ou a Hungria (1000). Porém, ao contrário destes dois casos, o rito adoptado em Kiev é o Ortodoxo e a subordinação é ao Patriarca de Constantinopla, em vez do Papa. É a expansão deste estado conectando Kiev num eixo de Sul para Norte até à cidade mercantil de Novgorod (veja-se o mapa acima) que lhe confere o carácter pan-eslavo que o torna o antepassado daquilo que seria uma ideia mais vasta transcendendo o que seria apenas os primórdios da nacionalidade ucraniana. Esse estado foi-se expandindo e fraccionando em unidades menores autónomas ao longo dos Séculos XI e XII, até à data inequívoca do seu colapso final, a da conquista e o saque de Kiev pelos mongóis em 1240.
Os centros de poder mudaram-se com ela. A Ocidente haviam sobrado da conquista mongol os principados da Galícia e da Volínia, em breve fundidos num só reino e também numa complexa relação de hostilidade política mas aproximação cultural com os reinos católicos adjacentes da Polónia e da Hungria. A Nordeste, uma miríade de principados genuinamente russos começava a recompor-se dos efeitos do tsunami mongol e a evoluir paulatinamente para a concentração à volta de Moscovo como centro do primeiro estado genuína e especificamente russo. Mas foi de Noroeste que vieram os próximos senhores da Ucrânia: em 1362, Kiev foi conquistada, passando a fazer parte de um grão-ducado da Lituânia que estava em vias de se tornar territorialmente num dos maiores estados europeus (acima). Em 1386, esse grão-ducado reuniu-se ainda num regime de união pessoal com o reino da Polónia. Durante quase 200 anos a unidade dessa associação de coroas permaneceu frágil, à mercê das vontades dos nobres polacos, onde a escolha do rei se processava por eleição. Era um estado extensíssimo, mas frágil por falta de uma metrópole central: note-se no mapa abaixo o rosário de cidades importantes mas todas periféricas, sem capacidade de assumir a preeminência, desde Vilnius no Norte, a capital da Lituânia propriamente dita e depois, no sentido horário, Smolensk, Kiev, Lvov, Cracóvia e Varsóvia.
Finalmente, em 1569 deu-se a formalização da União dos dois estados, num figurino que iria durar outros 200 anos, embora a solução tenha sido alcançada à custa de uma supremacia da metade polaca (e católica) sobre as restantes nacionalidades. No entanto, reconheça-se que o ressurgimento económico de Kiev data dessa época da segunda metade do Século XVI. É nessa altura que a palavra Ucrânia (que quer dizer região fronteiriça) começa a ser empregue, que a nobreza ucraniana, que era originalmente lituana, se torna polaca por aculturação, e que uma identidade verdadeiramente ucraniana se começa a forjar com o aparecimento dos cossacos. Cossaco é uma palavra que tem uma interpretação fluida: há quem o considere um grupo étnico, há quem o considere sobretudo um modo de vida. Tratava-se originalmente de servos que abandonavam as suas regiões de origem para se irem instalar para lá do Dniepre, terras ainda por desbravar e que, por isso, estavam fora do alcance das autoridades tradicionais. Essas sociedades que aí se formavam eram predominantemente masculinas, violentas, permitiam ascensões sociais abruptas e eram também ferozmente ortodoxas, nem que fosse para acentuar o contraste com o catolicismo polaco do status quo que haviam abandonado. Os cossacos costumam ser frequentemente comparadas aos cow-boys do Oeste norte-americano embora tivessem ainda sobre eles a possibilidade adicional de se tornarem mercenários.
Em 1648, um desses generais mercenários, Bohdan Khmelnytskyi (1595-1657), desencadeou uma revolta bem-sucedida contra o poder lituano-polaco no fim da qual (1654) conseguiu obter o reconhecimento de uma autonomia para um estado cossaco na Ucrânia a Leste do Dniepre englobando a própria cidade de Kiev. O mapa acima mostra-nos a área desse estado autónomo. Mas note-se como, tratando-se da fronteira da civilização de então, quase todo o terço oriental da Ucrânia moderna, incluindo até a cidade de Kharkov (Kharkiv em ucraniano, cidade que só virá a ser fundada em 1656), ainda não faz parte dessa civilização. Ora, no Portugal contemporâneo já se havia dado a Restauração (1640) e era a última dinastia da sua História que ocupava já o trono. As inúmeras análises que se lêem actualmente sobre a Ucrânia tendem a esquecer esse aspecto: a sua relativa juventude quando comparada com os espaços da velha Europa. Para o que interessa, Khmelnytskyi transformou-se num herói da história ucraniana… mas também da história russa: as necessidades da política internacional obrigaram-no, para que a secessão tivesse sucesso, a trocar a suserania polaco-lituana pela dos russos de Moscovo. Em contrapartida, o tratamento histórico dado ao seu sucessor Ivan Mazepa (1639-1709) já não será assim tão consensual, porque ele tentou inflectir a política de associação com a Rússia, coligando-se com os seus inimigos suecos. Infelizmente para ele, o tsar Pedro o Grande venceu a decisiva batalha de Poltava em 1709. Os cossacos da Ucrânia Oriental perderam quase todos os seus direitos especiais. E 84 anos mais tarde, nas partições da Polónia de 1793 e 1795 (abaixo), a Rússia conseguia anexar quase toda a Ucrânia Ocidental, com excepção da Galícia (com a cidade de Lvov, rebaptizada de Lemberg), que coube à Áustria.
Apresentando-se repartida por dois Impérios multiculturais, a Ucrânia desaparece da História política por 200 anos para conseguir ressurgir no Século XIX através da sua identidade cultural. A questão é que existiam dois pólos que a dinamizavam, através da literatura e da poesia: Kiev na Rússia e Lvov na Áustria. Havia muito a distingui-los: o passado histórico, que fazia com que a religião predominante na Galícia fosse o greco-catolicismo (ortodoxos, mas integrados na hierarquia da igreja católica romana) enquanto a religião maioritária do resto dos ucranianos era a ortodoxa tradicional (sedeada em Moscovo); mas também o presente político, dividindo para reinar, os austríacos incitavam o nacionalismo ucraniano para que ele servisse de contrapeso ao polaco, os russos, pelo seu lado, reprimiam-no brutalmente, o ucraniano e o polaco. Entre 1876 e 1906 proibiu-se na Rússia a impressão de obras escritas em ucraniano. Eram publicadas em Lvov. A relação entre as duas metrópoles da cultura ucraniana faz lembrar, ainda hoje, a de dois irmãos que não desenvolveram grande intimidade entre si. Mas note-se a ausência nesta equação de cidades importantes situadas na Ucrânia, como a já acima referida Kharkov ou então Odessa, fundada em 1794 por decreto de Catarina II, uma cidade portuária de formação cosmopolita (teve até o duque de Richelieu por um dos seus primeiros governadores), situada nas costas do mar Negro. Em 1917, Odessa era a quarta maior cidade do Império e a maior da Ucrânia, mas era uma cidade imperial, mais russa que ucraniana.
O colapso dos Impérios russo em 1917 e austro-húngaro em 1918 constituiu uma oportunidade impar para que os nacionalistas obtivessem a independência da Ucrânia. A fotografia acima é de Janeiro de 1919, foi tirada em Kiev, uma manifestação celebrando a proclamação da união da antiga Ucrânia russa com a Ucrânia ocidental que fora austríaca. As ameaças à existência desta Ucrânia eram, porém, poderosas. Não apenas as duas facções russas (vermelhos e brancos) que se digladiavam na guerra civil pelo domínio do Império e que recolhiam significativas simpatias entre os ucranianos de concepção pan-eslava, mas também as aspirações nacionalistas de uma Polónia entretanto renascida, disposta a recuperar territórios da Ucrânia ocidental que haviam sido seus 125 anos antes. Em 1925, a Ucrânia estava de novo dividida por uma nova fronteira que se assemelhava muito à de 1914, só que a Galícia e a Volínia (com Lvov) estavam agora sob tutela polaca (abaixo). Agora era do lado russo que havia uma maior tolerância para a cultura ucraniana – embora a capital da república socialista soviética da Ucrânia até 1934 tivesse sido Kharkov! – enquanto a repressão cultural se fazia sentir mais vincadamente a Ocidente, com os polacos a procurar assimilar culturalmente os ucranianos. Porém, para além dos aspectos culturais, a administração soviética da Ucrânia tornou-se responsável por uma palavra específica, cunhada para acontecimentos que só se tornaram verdadeiramente conhecidos de há uns 25 anos para cá: Holodomor. É sinónimo de uma fome generalizada e deliberadamente provocada, consequência directa do processo de colectivização das terras agrícolas e que terá custado a vida a vários milhões nos princípios da década de 1930, sob Staline.
Foi em consequência disso que, durante a Segunda Guerra Mundial e especialmente depois da invasão da União Soviética pela Alemanha em 1941, os nacionalistas ucranianos começaram por acolher favoravelmente os invasores alemães até se aperceberem que eles não passavam de um terceiro partido num gigantesco embate de titãs, pouco atreitos às subtilezas de quem estava de permeio. Acabaram por ser aliados de uns e outros (alemães e soviéticos) assim como também os combateram. Serão poucos os que sabem que um dos principais generais soviéticos a ter combatido na Ucrânia, Nikolai Vatutin (1901-1944), morreu em consequência dos ferimentos causados por uma emboscada montada por guerrilheiros ucranianos; serão poucos os que sabem que vários anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial ainda havia uma guerrilha nacionalista activa que obrigava à mobilização de vários milhares de homens do KGB. Mas a verdade é que não foi apenas por culpa dos soviéticos que os nacionalismos dos povos constituintes da União Soviética (é também o caso dos povos bálticos) desapareceram da agenda mediática nos 45 anos que se seguiram ao fim da guerra. Os Estados Unidos também os consideraram causas nacionais desinteressantes, demasiado expostas e com poucas possibilidades de sucesso, situadas muito para além das fronteiras de segurança que os soviéticos haviam traçado em Ialta – nomeadamente a cortina de ferro. Mas não nos antecipemos…
A Ucrânia terá sido uma das repúblicas da União Soviética mais severamente devastada pelo conflito de 1941-45. Depois da guerra recuperou as duas províncias ocidentais que haviam pertencido à Polónia. O processo foi também acompanhado de uma importante migração de populações: mais de um milhão de polacos foram transferidos para Ocidente, um número substancialmente inferior de ucranianos atravessaram a fronteira no sentido inverso. A Ucrânia era a segunda república mais importante da União, a seguir à própria Rússia e a política oficial era de que tudo corria pelo melhor na relação entre elas (acima, um cartaz de propaganda a esse respeito). É claro que nem sempre era bem assim: em 1972, Leonid Brejnev afastara o primeiro secretário do partido comunista ucraniano Petro Shelest, acusado de nacionalismo e substituído por um Vladimir Shcherbytsky de muito mais confiança. Tanta, que ele ainda por lá estava, no mesmo cargo, em 1989… Nesse mesmo ano realizou-se aliás o último censo soviético. Segundo ele, 72% da população da Ucrânia era classificada como ucraniana, enquanto 22% era russa, concentrada sobretudo nas províncias (oblast) orientais e meridionais (abaixo). Mas tratava-se de uma daquelas imagens convenientes, típicas da lógica soviética de mostrar aquilo que se deseja (uma nacionalidade maioritária dentro da sua própria república), e não aquilo que já então deveria existir e que se mostra no mapa final, resultado do censo realizado em 2001: há uma apreciável proporção de ucranianos que se exprimem em russo e que constituem, com os russos propriamente ditos, um bloco sociológico (e também político) que tem um peso demográfico (e também eleitoral) muito semelhante ao dos ucranianos que se exprimem em ucraniano (mais abaixo).
Podem-se ver nesta ligação alguns exemplos da coincidência entre a distribuição geográfica das votações de diversos actos eleitorais e estes mapas etno-linguísticos. Pode dizer-se que na Ucrânia coexistem dois eixos ligando cidades importantes: há um, cultural, no sentido Leste-Oeste que liga Kiev a Lvov (azul), cidades a que aqui várias vezes nos referimos ao longo desta sintética História da Ucrânia; há outro, económico, de Nordeste para Sudoeste, unindo Kharkov com Odessa (vermelho), cidades que foram muito menos referidas. O que é muito mais difícil será perceber como se pode conectar um eixo com o outro… e manter a unidade da Ucrânia sem que uma das metades tenha a sensação que está a ser dominada pela outra. Trata-se de um país dividido e será uma evidência dizer que não se devem propor propostas de divisão de um país de ânimo leve. Mas também é verdade que não se pode excluir tal hipótese e que houve várias razões circunstanciais que levaram as potências a decidirem-se pela divisão de um país: fosse por 20 anos (o Vietname), por 70 anos (e ainda a contar: caso da Coreia) ou mesmo sem fim à vista (a Índia e o Paquistão). Mas permitam-me agora regressar à cortina de ferro que deixámos em suspenso lá em cima e evocar o exemplo da Alemanha, com uma sociedade aparentemente muito mais cimentada do que aquilo que acontecerá na Ucrânia, que também permaneceu dividida por 45 anos devido às tais circunstâncias. Vale a pena essa referência para nos apercebermos do quanto as fronteiras de segurança da Rússia recuaram neste últimos 25 anos, quando a criação de um estado satélite quase no centro da Europa (Alemanha Democrática) é agora substituída pela hipótese de um seu equivalente (Ucrânia oriental) na sua vizinhança imediata. Esta última observação não é para o leitor ter pena dos russos, é para que se perceba que os norte-americanos não andam nisto para lhes facilitar a vida.

20 março 2014

EUROPA A VÁRIOS TONS DE CABELO

Além de uma cada vez mais assumida Europa a duas velocidades quanto a questões de prosperidade económica, o nosso continente é também um local de encontro de três tipos de cor de cabelo. Os mapas do poste assinalam as distribuições das duas minorias, a dos louros (acima) e a dos ruivos (abaixo), embora esta última seja muito inferior: nos locais onde estão assinaladas as suas maiores concentrações a sua percentagem em relação à população total é ainda minoritária, apenas ultrapassa os 10%. Como se vê, a maior concentração dos louros (acima dos 80%) localiza-se na Escandinávia (Finlândia, Suécia e Noruega) enquanto a maior concentração de ruivos acontece nas orlas célticas das Ilhas Britânicas (Irlanda, Escócia, Gales), mas também, complementarmente, no outro extremo da Europa, na Udmúrtia, que é uma das 21 (agora 22) Repúblicas da Rússia, aquelas repúblicas que só damos por elas quando elas dão sinal de si

«WARNING»

Seja o canal em que a virem, não tentem copiá-la nem argumentar como ela que esta senhora é profissional.

2ª Feira, 10 de Março, RTP 1
Se há cenas que passam com uma argolinha vermelha no canto superior direito do ecrã porque contêm imagens que podem ferir a susceptibilidade dos espectadores, Raquel Varela parece despertar a necessidade cívica de um outro sinalzinho (também vermelho, mas no canto superior esquerdo), por conterem opiniões que podem agoniar a inteligência dos espectadores.

3ª Feira, 18 de Março, SIC Notícias
Há que reconhecer que a elevada frequência dos convites não pode ser responsabilidade da própria convidada, é de quem a lá leva: as duas anfitriãs não se conseguirão aperceber que, independentemente da ideologia, as opiniões da convidada são um disparate?... E o salutar equilíbrio de opiniões originais não agradeceria convites simétricos a pessoas oriundas do outro extremo do espectro, das áreas próximas do PNR, como o seu cabeça de lista às próximas eleições europeias, Humberto Nuno de Oliveira, que tem um currículo académico equivalente ao de Raquel Varela? Porque é que são só pessoas de opiniões exóticas do género Raquel Varela (quando não Tino de Rãs...), que estão sempre a receber estes wild-cards para comparecerem em programas de televisão?

19 março 2014

BERLIM DE ANTES E DEPOIS DA GUERRA

Duas fotografias dos arredores de Berlim apartadas por uns 20 a 25 anos, o mesmo tema (crianças brincando), feitas em locais sensivelmente semelhantes (notem-se as ruas empedradas), mas observa-se uma outra prosperidade na mais recente, colorida, evidente não apenas pelos brinquedos das crianças como sobretudo pelo parque automóvel dos pais. De permeio (atente-se na fotografia mais antiga a umas pequenas bandeiras dependuradas ostentando a cruz gamada), uma derrota numa Guerra Mundial que terá levado os soldados soviéticos (e depois aliados) a calcorrear com as suas botas de vencedores aquelas mesmas ruas. Nada que o tempo não tenha sarado. A fotografia de cima, da década de 1930, é de Roman Vishniac, a de baixo, da década de 1950, de Josef Darchinger.