28 fevereiro 2014

O ZÉNITE DA IMAGEM DA FRANÇA MODERNA

Hoje, já se pode reconhecer sem controvérsias que o zénite da influência francesa no Mundo no período que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial terá sido alcançado durante a presidência de Georges Pompidou (1969-1974), no final do período que ficou conhecido pelos Trente Glorieuses, e não sob a égide do seu muito mais conhecido e controverso antecessor Charles de Gaulle (1958-1969), observe-se a marca que este último deixara, vincada pela capa da Time que foi publicada por ocasião da posse de Pompidou em Maio de 1969. É verdade que o ascendente de que Pompidou usufruiu fora pavimentado pelo seu famoso antecessor, mas também é verdade que o comportamento diplomático desassombrado de de Gaulle, que em 1963 vetou ostensivamente a adesão do Reino Unido à CEE, em 1966 retirou a França da estrutura militar da NATO ou em 1967 apelou ao separatismo do Quebec enquanto visitava o Canadá, criara ao general uma reputação de enfant terrible, que predispôs os actores políticos internacionais a acolher favoravelmente qualquer sucessor que parecesse mais razoável.
Mesmo assim, a razoabilidade de Georges Pompidou pode parecer anedótica quando lemos a posição francesa expressa por si a respeito da adesão britânica à CEE: No que concerne à Inglaterra, a nossa posição é clara. Não alteramos uma linha que seja à posição que temos adoptado até agora e mantemos a solicitação feita aos nossos parceiros da Comunidade que permaneçam solidários connosco enquanto a Grã-Bretanha não apresentar propostas decentes para o estabelecimento do acordo financeiro. Propor-se ser membro de pleno direito da Comunidade suportando 3% dos seus encargos é obsceno. Quando nos encontrarmos na presença de fórmulas que sejam, não ainda satisfatórias mas ao menos decentes, aí poderá haver uma inflexão na nossa atitude. Na Cimeira da CEE em Haia, em Dezembro de 1969, é o discurso prévio de Pompidou, mostrando-se reticente ao alargamento da comunidade, que condiciona algumas passagens do discurso que o chanceler alemão Willy Brandt virá a proferir sobre aquele mesmo assunto. Numa Cimeira actual, decerto que os papéis se inverteriam…
Mas a ocasião em que a imagem da França mais alto se terá projectado internacionalmente (imagem essa mais uma vez protagonizada por Georges Pompidou), terá acontecido dois anos depois, em Dezembro de 1971, e curiosamente em Portugal, na ilha Terceira, nos Açores. Foi o local escolhido (simbolicamente a meio Atlântico) por norte-americanos e franceses para a realização de uma Cimeira que juntava os seus dois presidentes: Richard Nixon e Georges Pompidou. No Verão daquele ano de 71, os Estados Unidos haviam abandonado o padrão-ouro de Bretton Woods que fizera do dólar a divisa de referência do comércio mundial nos últimos 25 anos. Aplaudida internamente, a medida provocara uma desvalorização brusca da divisa norte-americana com as consequentes perturbações nos câmbios e no comércio internacional. Era para estabelecer um novo acordo cambial com o importantíssimo bloco económico composto pelos (então) seis países da CEE¹ que os Estados Unidos conferiam aquela preeminência aos franceses. E estes, com o seu sentido de mise-en-scène, não desperdiçaram a oportunidade…
Os franceses começaram por derrotar os norte-americanos num campo onde estes não gostam de perder: o da tecnologia. Nixon chegou à Base das Lajes viajando no avião presidencial (Air Force One) que naquela época era um Boeing 707. Pompidou viajou de Concorde² e os seus construtores tiveram a preocupação de fotografar o presidente norte-americano na pista com a coqueluche aeronáutica anglo-francesa por detrás (acima). Nixon alojou-se no complexo norte-americano da própria Base Aérea. Os franceses alugaram o que de mais sofisticado em termos arquitectónicos e paisagísticos a Terceira podia oferecer para alojamento, a estalagem da Serreta, para, não apenas instalar Pompidou, mas também insistindo para que as principais reuniões lá tivessem lugar. Intercalado, o anfitrião Marcello Caetano procurava retirar do evento os benefícios em termos de imagem pessoal e de regime que pudesse (abaixo). Lembro-me que, num daqueles fait-divers que a propaganda da altura era pródiga, se deu destaque ao nascimento de um bebé durante a cimeira a que foi dado o nome de Ricardo Jorge…
Do Ricardo Jorge, que hoje terá 42 anos, a História perdeu o rasto. Do que ficou decidido pelos seus dois padrinhos também. O acordo para a fixação de novos câmbios entre o dólar e as moedas das principais economias europeias, qualificado (como de costume) de histórico, ainda não fora implementado pelos norte-americanos dois meses depois. E já estava totalmente esquecido um ano depois. Mas, enquanto durara, os franceses haviam dado o seu melhor para que o evento se parecesse com um encontro entre iguais

¹ Alemanha Federal, Bélgica, França, Holanda, Itália e Luxemburgo.
² Não havia nas Lajes escada adequada para aquele tipo de aparelho. Houve que improvisar.

27 fevereiro 2014

SOPA DE ERVILHAS EM JEITO DE BAPTISTA BASTOS

A sopa de ervilhas é um prato comum a variadíssimas gastronomias. Historicamente, as ervilhas contam-se, com a do trigo e da cevada, entre as primeiras culturas praticadas no Crescente Fértil, vai para dez mil anos. E a sopa feita com elas já aparece documentalmente numa peça teatral de Aristófanes, escrita no Século V a.C. Mas se é possível fazer uma identificação de uma cultura com tal sopa, o resultado é inequívoco: os franco-canadianos. Tanto assim que, quando por lá passaram, Goscinny e Morris puseram Lucky Luke a comer a sopa e Averell Dalton a empanturrar-se com ela (abaixo). E, para os que se interroguem para os motivos para tal discorrer sobre sopa de ervilhas, permitam-me o esclarecimento que este é um poste que se fundamenta naquela famosa asserção de Baptista Bastos: Lembrei-me de escrever isto!

26 fevereiro 2014

DUAS FOTOGRAFIAS DE UM MESMO ACONTECIMENTO

Apreciem-se estas duas fotografias que foram tiradas durante a mesma visita de João Paulo II à Guatemala em Março de 1983. Ambas parecem espontâneas: a dos pombos que sobrevoam o automóvel em que viaja João Paulo II enquanto a multidão o aclama (de Susan Meiselas), ou o instantâneo em que a comitiva que acompanha o papa se prepara para ser transportada em helicópteros da Força Aérea guatemalteca (de James Nachtwey). Mais, embora mostrando realidades muito distintas, elas nem se contradizem no que sugerem: o indiscutível carisma de João Paulo II junto das multidões não contradita o desconforto da hierarquia católica perante as assimetrias sociais dos países da América Latina. Mas há que reconhecer que qualquer artigo de jornal não suportaria a coexistência das duas em pé de igualdade numa reportagem.

A UCRÂNIA, A LUTA DE CLASSES E O PORSCHE

Friedrich Engels (1820-1895) nunca esteve na Ucrânia. Isso não invalida que, para mal dos seus pecados e durante mais de 70 anos, todos os ucranianos tenham tido que saber quem fora Friedrich Engels, nomeadamente as suas contribuições teóricas para a explicação da origem da família, da propriedade e do estado. E é mesmo a propósito de propriedade e associando-o à revolução que grassa na Ucrânia que suponho não se tornar descabido relembrar um slogan descritivo que se popularizou faz uns nove anos, quando a facção ocidentalizada da política ucraniana alcançou o poder com a eleição para a presidência de Viktor Yushchenko¹: tratara-se de uma revolta dos milionários contra os bilionários ucranianos.

Contudo, nesta nova revolta de 2013-2014, não tenho dado por que se tenha repegado naquela dinâmica de luta de classes. Se as análises se apresentam repletas de considerações geoestratégicas sobre os alinhamentos de sempre das facções em contenda (onde se antagonizam uma pró Ocidental e outra pró Russa), as imagens que têm sido captadas e distribuídas Mundo fora não parecem conter qualquer sugestão de luta de classes como motor da revolta dos ucranianos. Será assim pela sua excepcionalidade que destaco este breve vídeo abaixo, onde um grupo de insurrectos aparece a dedicar-se, com algum deleite e evidentes ganas vingativas, à destruição de um Porsche, um inequívoco símbolo do capitalismo.

¹ De então para cá a sua influência política esboroou-se: o seu partido recolheu 1,11% dos votos nas últimas eleições legislativas de 2012.

25 fevereiro 2014

FOTOGRAFIAS QUE «PODIAM SER» HISTÓRICAS E O TRABALHO DO JORNALISMO

Esta é a fotografia daquele que podia ser o táxi que trazia o professor Marcelo do aeroporto, ainda na segunda circular e alguns momentos antes de ele se decidir, súbita e finalmente, que ia dar aquela saltadinha ao congresso do PSD no Coliseu dos Recreios. A propósito, algum jornalista se encarregou do fact-checking encontrou e entrevistou o taxista ou ao menos inquiriu sobre o paradeiro e percurso da maleta de mão que os viajantes costumam trazer consigo nas circunstâncias descritas por Marcelo Rebelo de Sousa? E quem a terá guardado – se alguém o fez… - enquanto Marcelo discursava? Eu bem sei que, com o fact-checking, a política portuguesa se arrisca a perder metade da piada, mas é injusto que seja apenas José Sócrates a não poder ter ouvido os proezas do Eusébio nas circunstâncias em ele mais desejaria...

EPISÓDIOS EM QUE SÓ FICA BEM TEREM CORRIDO MAL

No final percebe-se que tudo não passava de uma manobra para canalizar a irritação e as frustrações dos adeptos do Futebol Clube do Porto¹, acicatando-os contra agentes da Polícia que, paradoxalmente, estavam apenas a adoptar os procedimentos de protecção dos dirigentes prescritos para tais circunstâncias. E teria bastado a Pinto da Costa negar-se a cumpri-los, sem precisar de convocar a comunicação social para mostrar o seu ultraje por algo que a Polícia apenas lhe poderia sugerir e não o podia obrigar a fazer. Só que os jornalistas desta vez não se prestaram ao papel a que os queriam confinar e quando isso acontece estas encenações tendem a fugir ao controle dos promotores, o que as torna verdadeiramente interessantes. As televisões podem depois não lhes dar o destaque que merecem mas são sempre um sucesso no Youtube.

¹ Imediatamente após a derrota em casa contra o Estoril por 0-1.

24 fevereiro 2014

UM PARLAMENTO DE 201 DEPUTADOS

Para aqueles que acham que em Portugal há deputados a mais e que sustentam isso com comparações tão seleccionadas quanto despropositadas¹, deixem-me mostrar-vos esta simulação de como que teria sido a representação parlamentar portuguesa se a Assembleia da República tivesse tido apenas 201 deputados e não os 250 e depois 230 que teve. A escolha do efectivo de 201 é, não apenas por ser menor, mas também por se tratar de um número impar e maneirinho: a maioria absoluta alcança-se com a eleição de 101 deputados; a maioria qualificada de com 134 deputados. Além disso, teria sido uma progressão mais faseada dos efectivos que anteriormente compuseram a Assembleia Nacional que tivera sucessivamente 90, 120 (em 1945), 130 (1961) e 150 (1973) deputados. Penso que o quadro é de fácil leitura: a coluna da esquerda indica o ano das eleições; a linha superior do quadro indica as siglas dos partidos (que me dispenso de identificar); a última linha (em preto), a média, ponderada por tempo, da representação parlamentar de cada formação no parlamento português, por debaixo dela (a vermelho), essa mesma média convertida em valor percentual. Como se vê, o PSD (41,93%) é o partido historicamente mais representado no parlamento seguido do PS (38,31%). Substancialmente, o que poderia ter mudado na história da democracia portuguesa com este parlamento menor, é que Guterres teria dispensado o deputado limiano (1999) e ter-se-ia afundado no pantâno sozinho (2001), além de que o CDS dos seus anos mais difíceis (1987-1995) teria ficado conhecido, em vez de partido do táxi (4 deputados), por partido da motorizada...
¹ Um último exemplo que circulava pela internet e que comparava os 150 deputados da Austrália (com 22 milhões de habitantes) com os nossos 230 (para 10 milhões), esquecia-se que a Austrália tem, para além dos 150 deputados, um Senado de 76 membros e que todos os sete Estados que a constituem possuem, por sua vez, assembleias legislativas próprias.

PARADIGMAS DO COMENTÁRIO POLÍTICO

Esta semana senti-me a dar-lhes uma daquelas notas à Marcelo quando adormeci a meio do Governo Sombra. Insista-se em continuar a dar assim tanto tempo de antena às considerações desinteressantemente sério-soporíferas de João Miguel Tavares e depois admire-se que nem as gargalhadas preemptivas de Carlos Vaz Marques às piadas que Ricardo Araújo Pereira por vezes nem chega a proferir consigam chegar para reacordar a audiência. Para mais em ocasiões quando, no domínio da paródia política, a concorrência é poderosa, protagonizada por exemplo por um Marcelo Rebelo de Sousa que comenta em estúdio o próprio discurso que ele havia proferido no Congresso do PSD. Eu aprecio imenso as ironias de Pedro Mexia mas, no mesmo género, a figura de Marcelo comentando(-se) diante de Judite Sousa é imbatível.

23 fevereiro 2014

DEIXAR A POLÍTICA...

Neste fim-de-semana onde tantos ex-líderes se mostraram casual ou ostensivamente pelo XXXV Congresso do PSD o exemplo de Fernando Nogueira é insofismável de como quando se quer deixar a política, deixa-se, ponto, final, parágrafo.

NUDEZES IMPORTANTES?

Acompanhando o que se costuma fazer por rotina com as notas necrológicas, conviria que as notícias de certas nudezes viessem acompanhadas das necessárias explicações porque é que o pelo da visada que aparece em pelo (falsamente, pelos vistos, neste caso) merece tal destaque.

MUDAM-SE OS TEMPOS. MUDAM-SE AS VONTADES?

As notícias ao redor do XXXV são uma bela oportunidade para recuperar estas duas fotografias do XIII Congresso do PSD, realizado precisamente no mesmo local vai para 28 anos. De um lado os figurões, alguns dos quais continuam a andar por ali, casos de Santana Lopes e de Marques Mendes. Em destaque também, para além naturalmente do incontornável Cavaco Silva, identificam-se ainda António Capucho, recentemente expulso (e bem expulso) do partido,…
 …e também Dias Loureiro, que não foi expulso provavelmente porque os estatutos disciplinares não prevêem sanções aos que estejam envolvidos em falências bancárias de cariz duvidoso. Do outro lado estava (e permanece) a massa amorfa dos delegados ao congresso que, essa sim, parece continuar absolutamente imutável. Assemelhando-se a figurantes de uma cerimónia desentranhada, cada vez menos representativa da sociedade que dizem representar (relembra-se que Pedro Passos Coelho foi reeleito com menos de 16.000 votos),…
 …com a estética do centro térreo mais as bordas em anfiteatro e ainda o género de cobertura informativa que ali se produz, concentrada nas figuras do palco e nas que se assentam na primeira fila, tudo junto ainda é capaz de fazer lembrar (aos que tiverem idade para isso) as cerimónias excepcionalmente transmitidas em directo pela RTP quando o colégio eleitoral que fora propositadamente constituído para o efeito reelegia a veneranda figura do Almirante Américo Tomás para mais um septenato…

22 fevereiro 2014

O MINISTÉRIO DAS FORMAS DE CAMINHAR DISPARATADAS


Quando o sketch The Ministry of Silly Walks foi transmitido, ao 14º episódio da série, já a reputação da inteligência das piadas dos Monty Phyton se consolidara. Ora este sketch é até bastante atípico daquilo que poderemos qualificar como o estilo de humor identificativo dos Phyton, ao basear-se no género de comédia física dos tempos do cinema mudo. À maioria das pessoas que se dispunham a aprender a gostar dos Phyton (e a mostrá-lo...), ter-lhes-á escapado talvez a ironia da cena em que o funcionário enumera as áreas de competência governamental (no vídeo acima, aos 2:15: Defesa, Segurança Social, Saúde, Habitação, Educação e… Formas de Caminhar Disparatadas – com uma dotação de apenas 348 milhões de libras para as últimas, menos do que a Defesa…), mas terão porventura adorado a amplitude como John Cleese alça as pernas, a ponto deste se ter transformado no terceiro sketch mais popular do grupo. Tornado um concorrente involuntário de figuras do cinema cómico como Buster Keaton ou Harold Lloyd, John Cleese tem repetida(e corajosa)mente tornado público o seu desapontamento com a popularidade alcançada pelo sketch (que alguns até consideram o melhor dos Monty Phyton). É raro e não convém fazê-lo de forma ostensiva, mas o artista também pode confessar que uma parte do seu público é desapontadoramente estúpido…

O CANHÃO DA NAZARÉ

O canhão da Nazaré é mais uma daquelas expressões que surgem na comunicação social de repente, vindas não se sabe bem de onde e que passam a ser regularmente ouvidas/lidas sem que os leitores/espectadores cheguem a compreender em que consistem e, mais grave, sem que os jornalistas saibam explicar ou cuidem de investigar porque é que as empregam.

Felizmente o Instituto Hidrográfico da Marinha portuguesa resolveu-se a publicar na net este pequeno vídeo acima com a duração de apenas quatro minutos onde explica sucintamente em que é que consiste esse famoso canhão (geológico) que tanto tem projectado a imagem de Portugal no mundo… do surf.

21 fevereiro 2014

ALANDELÃO DE LA PATRIE

A referência de ontem, ainda que acessória, ao actor francês Alain Delon, paradigma da beleza masculina dos anos sessenta, torna-se hoje um belo pretexto para a transcrição de um divertidíssimo conto de João Ubaldo Ribeiro (1941- ) em que o mesmo actor torna a ser uma referência colateral, ao emprestar o seu nome ao infeliz boi que o protagoniza. Excepcionalmente, o meu destaque no blogue hoje, acompanhando a minha reverência, não é da minha autoria, vai inteirinho para esse grande escritor brasileiro.

Bundão
Não entendo aquele que aprecia o boi. Aqui se criava antigamente muito guzerá, que para mim tem a cara de ordinário, mentiroso, criminoso e cínico.  Inclusive, a maioria possui olheiras, mostrando que são perversos devassos de pouca confiança. O sujeito que já se viu no pasto, ou mesmo no cercado, na companhia de um guzerá, esse sujeito sabe que não pode virar as costas nem se desprevenir, porque ele pega, e quem ele pega ele não trata com simpatia.  De minha parte, que faço outros serviços, tudo muito geral nesta fazenda, o único boi que se dá bem comigo é o boi Bundão, assim mesmo sem essas alegrias todas, porém com bastante sossego, visto o boi holandês ser pela própria natureza uma criatura fina e de maneiras, está se vendo que é holandês mesmo. Deve ser que na terra dele tem reis e rainhas e desde que boi é boi na Holanda, ele vem sendo educado com finura. Então o boi holandês cobre as vacas dele com muito sentido de sua obrigação, e é  até uma coisa bonita de se assistir, porque a vaca holandesa é também educadíssima e então quando Bundão está fazendo um serviço com uma delas até mesmo as visitas gostam de apreciar, porque, no que ele desmonta da vaca, só falta agradecer e ela dar um sorriso. É uma coisa finíssima. Este Bundão, aliás, que está ficando velho, quando eu posso boto uns amendoins no bagaço de cana que ele gosta, que é para ele conseguir desfraldar o instrumento e continuar com emprego fixo -- visto que, no dia que Bundão não for mais espadachim, adeus Bundão, e possa ser até que eu fique com saudades, sendo um boi que, não tendo intimidade com ninguém, me trata parecendo que é formado pelo menos em ginásio. Se um dia eu comer uma buchada dos buchos de Bundão, vou comer com desgosto. Eu como porque nesta vida é um comendo o outro e é melhor que a gente coma o boi do que o boi comer a gente, é uma questão política, mesmo porque o boi não fala.
Antigamente não era igual a hoje, quer dizer, não era esta organização toda. O touro guzerá encarregado de enxertar as vacas era um absurdo. Atendendo pelo nome de Nonô de Bombaim, esse touro guzerá ficava ciscando no meio das vacas da raça dele e, quando uma facilitava, até parecia que ele estava pagando e tinha direito a qualquer coisa, a vaca nem achava tempo para fazer a posição, porque ele já vinha de lá soltando fumaça e completamente armado e uma coisa que eu agradeço a deus é que Deus não me fez eu nascer vaca daquele guzerá. Inclusive, não foi uma nem duas vezes que os vaqueiros tinham que acertar a entrância correta, porque ele não queria saber, ia pincelando onde achasse quarto de vaca. Tipo do boi atrasado, rei da ignorância. Quando eu me lembro de Nonô de Bombaim tratando as vacas, fico destremecendo, a vaca sofre muito. Quando o sujeito compara o tratamento que Bundão dá às vacas holandesas com o tratamento que Nonô dava às vacas guzerás, aí é que o sujeito vê a diferença entre uma pessoa loura e educada como Bundão e uma pessoa sem princípios e amulatada, como Nonô. É por essas e outras que, na próxima encarnação, se Deus quiser e eu merecer, eu volto branco e bem educado. Não quero fazer como Nonô, que chega e vai lascando a vaca toda, se bem que ele é muito bem admirado em toda a redondeza e diz o povo que até hoje tem mulheres que, no entusiasmo de brincar de bicho de duas costas, elogiam o homem dizendo "dá nela, Nonô!", mas considero essas mulheres todas umas vacas guzerás, isto é o que considero, pois que sou a favor do carinho, porradas só quando imploradas ou merecidas verdadeiramente.
Entretanto, com nonôs e bundões e mais uns quanto outros reprodutores de alguma fama nestas terras, as coisas sempre foram dentro do normal. O galo às vezes parece que está conversando com a sombra ou está discutindo eleições ou qualquer coisa, quando que de repente sai com grande brilhantismo e vai bicando as galinhas e virando na direção do sobrecu e assim ele faz o trabalho todo em coisa de cinco minutos, igual a uma faísca. Os ovos sucedentes são pardos, não claros, galados, não pecos, e fortíssimos para a saúde, ou senão saem pintos e todas as galinhas prosseguem galinhando como quis Nosso Senhor. Assim, o calango possui dois vergalhos, um na direita outro na canhota, ficando bem municiada qualquer calanga que venha pela direita ou pela esquerda, sendo que o calango só pega uma calanga de cada vez, não se aproveitando de que pode pegar duas. Porque não é uma questão de vaidade, é um problema de não perder tempo, pois que, se a verdade é que o calango tem muitas moscas para comer, tem também muitos outros bichos desejosos de comer o calango, de forma que não se pode facilitar. O beija-flor trepa nos ares, às vezes de passagem, às vezes cumprimentando e aproveitando, visto o coração do beija-flor zumbir e ele morrer cedo, beijando flores e o coração zumbindo. As jegas e as éguas apreciam a cobertura e há casos de jegas que ficam dando uns coicezinhos no jeque a tarde toda, até conseguirem, e aí rangem os dentes dão umas babadinhas e ficam grandemente admiradoras do macho, se ele soube responder bem àqueles coicezinhos. O cágado ronca em cima da cágada, que tem toda a paciência, porque a construção deles não facilita e dever ser por isso que o cágado ronca nessas horas. O pato e o porco aplicam roscas e tem quem diga que a rosca é para estontear a fêmea, que fica olhando, olhando, até se enroscar completamente. O gato apresenta espinhos que sangram a gata na puxada, sendo porém o sangramento necessário para a gata emprenhar. O louva-deus fica parado e, antes mesmo que a louva-deusa esteja pronta, já vai mastigando o macho e ele cabe todo na barriga dela.   Isto tudo se vê por aqui e muitas mais coisas, desde as lagoas com seus sapos e jias se casando pelas águas, até os barulhos dos bichos maiores. Foi assim que foi feita a natureza e, em cada uma juntada, está se sentindo a força.

Nonô de Bombaim
Pois então, nestes tempos modernos, estamos desnaturados. Embora eu, que não gosto de boi, não estivesse muito sabendo até que tudo começou a ser modificado, recebemos diversos doutores e tudo mais. E não foi assim que, depois de muitos anúncios e forte nervosismo, levamos a gaiola grande para a estação de trem, parecia até uma festa só faltando banda de música, para receber o grande touro charolês francês, que aqui tomou o nome, mesmo antes de chegar, de Alandelão. Todo nome francês termina em ão, e o nome era para ser Napoleão, que foi outro francês rectado, que invadiu a Inglaterra, escarreirou D. João VI, enfim fez o maior cacete e não perdoava nada. Mas se preferiu Alandelão, que é um artista da França muitíssimo cotado e, pelo que eu ouço falar desse Alandelão, era para as vacas aqui estarem grandemente festejando.
Agora, esse Alandelão daqui, na hora que eu vi, achei logo que era um animal bastante triste, todo escuro assim, parecendo de luto. No começo, pensei que era da natureza do boi francês, porque se sabe que o francês aprecia a safadagem mas tudo na maior decência, não é como as coisas de Nonô de Bombaim. Mas, mesmo assim, como é que esse boi podia ser tão triste, sabendo-se que de agora em diante vai ficar instalado igual a um monarca, com massagem, comidinha, alisamento e vitamina?  E, se as vacas para ele trabalhar não eram vacas francesas da maior fineza, também não eram de se jogar fora, inclusive sendo começo de verão e estando a maior trepação em todas as partes da fazenda, até os motucos soltando a lenha nas motucas, os lacraios nas lacraias e assim vai, para não falar em outros, como os preás, que todo mundo sabe que quando não estão comendo estão afogando o ganso, seja inverno ou seja verão. E às vezes o sujeito se veste de preto assim mas não quer dizer nada, haja visto padre Barretinho, que Deus haja, cala-te boca.
Um emprego como o desse boi muitos de nós passamos a vida rezando para encontrar e agora ele chega todo triste, quase uma antipatia. Aquele bicho do tamanho de um elefante atarracado, todo de preto e com uma cara jururu que fazia pena, quando o natural é que estivesse sacudindo o rabo, babando um pouco e preparando o ferramental. Mas é assim que se vê como o animal também tem a sua inteligência, porque esse Alandelão já estava perfeitamente conhecedor do que ia acontecer e era por isso que não se alegrava e tinha toda a razão, coitado.
Quando eu soube, tomei um choque. Já tinha uma semana ou duas que Alandelão estava no seu apartamento, todo ventilado e cheio de nove-horas, inclusive um aparelho  americano para as moscas não incomodarem ele, e então eu, que passava em busca de uns baldes e umas gamelas, perguntei quando era que a folga dele ia acabar e quando é que ele ia sair para cobrir umas vacas.
-- Com essa fama toda, está todo mundo querendo apreciar -- disse eu. -- Deve ser uma coisa de muita competência.
-- Mas ele não vai cobrir vaca nenhuma -- respondeu Dr. Crescêncio, que é uma espécie de engenheiro de vaca, que trabalha aqui dando orientação e é formado em vaca na faculdade.
-- Ô, e o bicho está aqui para quê? Ele não é reprodutor?
-- Um animal desses você acha que a gente ia deixar esperdiçar direto com as vacas? Não, senhor! Tudo o que sai dele vale ouro. A gente extrai, bota no gelo e depois enfia nas vacas com uma seringa. E aí se aproveita tudo.
Nisso, com a cara meio saindo pela abertura, eu vi que Alandelão já devia saber brasileiro, ou então ter estudado na França, porque entendeu a conversa toda e ficou ainda mais de beiço pendurado do que estava antes, uma infelicidade de cortar o coração. Indaguei como era que se extraía o material, se tinha de enfiar uma agulha de injeção nos quibas do coitado do animal, mas o Dr. Crescêncio disse que não. Que, de tantos em tantos dias, o pessoal encarregado ia lá e fazia a manipulação.
-- Como é essa manipulação?
-- Se você quiser, pode assistir, que daqui a pouco nos vamos coletar.
-- O boi não se aporrinha, não, doutor?
-- Que nada, ele está acostumado.
E, de fato, Alandelão, se não ficava entusiasmado, também não criava dificuldade, estava se vendo que era treinado na profissão. Ele via a turma de manipulação e já ia abrindo as pernas e olhando para o outro lado e ai aguardava a extração, tudo muito despachado, sem nem um suspirinho. Naquela hora, vendo um boi tão prestigiado, cheio de medalha e tudo, sujeito a ser chamado pelos outros de reprodutor donzelo, dava bastante pena. No finzinho, os manipuladores ainda davam uma espremidinha, mas ele não tugia nem mugia. Ficava ali passando humilhação com a melhor cara possível. Como é que uma criatura pode viver nessa situação -- ainda mais um francês?
E, inclusive, pode ser até que na França a profissão dele seja mais respeitada, mas aqui, nesta esculhambação, não demorou e ele pegou diversos apelidos -- cinco-a-um, mangueira-fria, desconhece-vaca, come-vento, cassetete-gelado, pinga-na-cumbuca, couriça-de-mão, uma porção mesmo --, que a gente ria mas sentia que não estava direito zombar de uma infelicidade do destino alheio.

Alandelão
Foi assim que tivemos o plano de fazer um benefício a Alandelão, benefício este com a vaca Flor de Mel, pé duro porém forte de ancas, boa envergadura e vaca já com muita experiência de vida, inclusive havendo sido, segundo muitos, amante do Nonô de Bombaim e diz o povo que os dois comiam uns pezinhos de liamba, conhecida por outros como fumo-de-angola, aliás maconha -- o que é que estamos escondendo --, que aqui nasce feito mato e não deixa de haver quem faça um fumeirozinho, enfim, diz o povo que os dois comiam uns pezinhos e ficavam na maior safadagem, isto antes de Nonô ter pegado aftosa numa farra e ter morrido velho e aftoso e desestimado por todos em geral. Está se reconhecendo, então, que Flor de Mel não era nenhuma mocinha, mas, em primeiro lugar, sabe-se que o francês gosta de velha. E, segundo, Flor de Mel estava sempre disposta, coisa que não se pode dizer de todas a vacas, mesmo elas sendo vacas ou talvez por isso mesmo.
Então eu e Emanuel e mais o menino Ruidenor combinamos deixar Flor de Mel no cercado pequeno, que fica perto do apartamento de Alandelão e, de noite, a gente ia lá e soltava o francês. E dito e feito, até com luz de lua para completar. Quando a gente abriu a porta, o bicho tomou um susto, não estava acostumado. E não queria sair de jeito nenhum, mesmo a gente explicando. Emanuel achou até que a gente devia dar uns piparotes lá na estrovenga dele para ver se ele se animava, mas todo mundo ficou com medo de que ele achasse que algum da gente era manipulador e quisesse completar o serviço todo e um boi deste tamanho a pessoa deve procurar não contrariar. Afinal, tanto a gente fez que o bicho foi saindo para o cercado, meio estranhando. Nisso Flor de Mel, que aí foi que eu vi que é mesmo uma velha assanhadíssima, abriu logo as ventas para o lado de Alandelão e foi chegando, foi chegando, mas o boi nem deu sinal.
-- Será que tem pouco tempo que fizeram uma manipulação e ele esta desfraquecido? -- perguntou Emanuel.
-- Que nada, que nada! -- disse Ruidenor, que estava doido para ver a finalização toda. -- Bote o bicho para perto, bote o bicho para perto!
Não sei quantas mil arrobas pesa um desgraçado daqueles, mas a gente foi puxando e só "vai, Alandelão", "vai, Alandelão" e Flor de Mel ali dispostíssima e só faltou a gente botar um macaco de caminhão debaixo do infeliz para ele levantar, mas não tinha jeito. Até que, na hora já de todo mundo desistir, ele deu uma olhada para um lado, uma olhada para o outro, uma olhada para mim, outra olhada para Emanuel e aí fez aquele movimentozinho fraco para subir na vaca, que mais que depressa ficou na posição certa, que a diaba não tinha desistido de papar o francês.
--  Lá vai ele, lá vai ele! Tenha fé, Alandelão!
Mas parece que o boi francês é um boi de pouca fé, porque, bem no meio daquela subidinha fraquinha, que ninguém nem estava acreditando que ia dar na altura de Flor de Mel, Alandelão revirou os olhos, fez um barulhinho na garganta e se despejou todo no chão.
--  Vigessantíssima, que deve ter para mais de setecentos mil contos aí desparramando no chão! -- disse Emanuel. -- Vamos levar esse boi lá para dentro!
E, de fato, numa situação dessas, só podia ser que a gente tinha de levar o bicho de volta, ele com a cara envergonhada e Flor de Mel aborrecidíssima e, pelo visto, com muita saudade de Nonô de Bombaim. No outro dia, bico calado, por causa do esperdício da matéria-prima de Alandelão. E parece mesmo que ninguém notou, porque nós três ficamos nervosos na hora da manipulação seguinte, mas Alandelão trabalhou do mesmo jeito e ninguém se queixou da produção dele. Só nós três é que podíamos notar que, quando ele via a gente, ficava todo sem graça, mas a gente compreendeu e respeitou, de forma que ninguém falou nada. E, de qualquer maneira, depois se descobriu que Alandelão era uma sociedade, porque ninguém tinha dinheiro para comprar ele sozinho, e aí ele passava produzindo numa fazenda e depois em outra e outra e assim por diante. E aí chegou o dia de botarmos ele na mesma gaiola e levarmos ele para o trem. Não se pode dizer que ele deixou amizades aqui, mas também não fez desafetos. E nós três estavam todos sabendo que ele nasceu para a profissão dele, só sabia trabalhar daquele jeito, tinha especialização, que é que se ia fazer. Assim mesmo, Emanuel passou a mão na cabeça dele na hora do embarque e disse: "Deus que lhe dê uma boa mão, Alandelão". E o dono aqui da fazenda também viu, mas nem perguntou, todo satisfeito com o dinheiro que ganhou com o trabalho do francês. Quando o trem saiu, ele cantou baixinho:
-- Alandelão de la Patri-i-i-i-e!
Ele pensou que eu não entendi, mas eu entendi. Ele cantou um pedaço do hino da França, somente trocando o Napoleão pelo Alandelão. Em francês, quer dizer "Alandelão de nossa terra". Lá deles.

20 fevereiro 2014

O CASO MARKOVIC

O Caso Markovic começou em 1 de Outubro de 1968 quando o cadáver de Stevan Markovic foi descoberto a boiar nas águas de uma ETAR dos arredores de Paris. Markovic, um sérvio de 30 anos que emigrara para França, era um belo rapaz (acima, à esquerda) conhecido entre uma certa faixa da sociedade parisiense porque gravitava à volta do círculo de relações de um outro belo rapaz, o actor Alain Delon. Originalmente, pela sua própria aparência e essência, o episódio parecia não passar de mais um caso crapuloso, com a sordidez de tantos outros semelhantes que também haviam culminado com o assassinato de um gigolo que se tornara incomodativo...
O Caso adquiriu uma conotação política quando, segundo se crê hoje, alguns dos verdadeiros implicados no processo o quiseram embrulhar, envolvendo nele figuras gradas da sociedade para se protegerem. Entre as visadas contar-se-ia Claude Pompidou, a esposa do antigo Primeiro-Ministro Georges Pompidou. Para apimentar o assunto apareceram a circular informalmente umas fotografias comprometedoras de participações nuns bacanais cuja posse e utilização para chantagem haviam custado, alegadamente, a vida a Markovic. Transitando assim para as esferas da alta política francesa daquela época, o caso adquiriu um revigorado interesse.

Georges Pompidou deixara de ser o primeiro-ministro francês três meses antes do começo do Caso e perfilava-se como o mais natural sucessor do General de Gaulle, Presidente e então em vias de completar 78 anos. O interesse da facção gaullista contrária à ascensão de Pompidou deu toda uma outra pujança ao Caso, mesmo que isso tivesse sido feito à custa da investigação, que cada vez mais se dispersava da identificação de quem cometera o crime (vídeo acima). Mesmo afastado das áreas do poder Pompidou reagiu com a fúria de quem sabia que em França aqueles casos só aconteciam porque, além de serem fomentados, alguém permitia que eles acontecessem¹.
«Capitant por estupidez, Vallon por sacanice, Couve por negligência.» Pompidou sintetizará nestes três nomes todos aqueles que considerou responsáveis pelo que se passou: incluía em primeiro lugar o Ministro da Justiça (esq.) e a forma como ele acompanhara a investigação e, last, but not least, o primeiro-ministro que lhe sucedera, Couve de Murville (dir.), que deixara a caravana do circo prosseguir estrada fora. A verdade é que o Caso não chegou a afectar a imagem popular de Pompidou. Nove meses depois, em Junho de 1969, Georges Pompidou foi eleito presidente com um pouco mais de onze milhões de votos. E o Caso Markovic perdeu todo o seu interesse.
No final, ninguém veio a ser condenado criminalmente pelo assassinato do belo Stevan Markovic. Mas René Capitant, Louis Vallon, Maurice Couve de Murville e todos aqueles que o Presidente responsabilizara pela evolução do Caso Markovic viveram anos bem desconfortáveis nos cinco anos em que Georges Pompidou ocupou o Palácio do Eliseu. Mesmo depois da sua morte em 1974 (de uma doença oncológica que lhe havia sido diagnosticada em 1971, em mais um dos inúmeros segredos cuidadosamente preservados da política francesa…), nenhum dos visados pela vingança presidencial conseguiu regressar à notoriedade pública e política que adquirira anteriormente.
Eis um Caso com um remate moral, mas sobretudo para tomar em consideração como referência sempre que rebenta um novo escândalo político…
 
¹ Mais de uma dúzia de anos depois, por exemplo, ainda François Mitterrand era eleito presidente sem que um murmúrio se ouvisse sobre a sua segunda família.

...PARA OS APANHADOS

Por vezes é o encadeamento como lemos as notícias que as faz ser lidas sob uma nova (e benéfica) perspectiva. É raro mas proveitoso e aconteceu-me recentemente quando, depois de ler uma notícia banal, sobre um assalto mal engendrado, em que o assaltado o descreve como parecendo ser para os apanhados (acima), passei para uma outra mais formal e propagandística com Carlos Moedas impingindo slogans desconchavados, como só um nerd como ele arranjaria, convicto do seu impacto. A associação foi feliz e flagrante, apear de nunca antes a ter feito: apesar dos mais de dois anos e meio que já leva de função e apesar das suas frequentes aparições públicas, Carlos Moedas continua a ter aquele toque de secretário de Estado a fingir, como se fosse para os apanhados.

19 fevereiro 2014

«TUBULAR BELLS» (para apreciadores)


Pergunto-me quantas pessoas se disporão a passar 25 minutos a assistir a esta sessão em que Tubular Bells foi transmitido originalmente na BBC. Pergunto-me se hoje seria possível (excluindo um canal temático) que isso se repetisse, que houvesse vinte cinco minutos encadeados dedicados a uma única peça musical numa qualquer emissão televisiva. Pergunto-me se nestes quarenta anos que entretanto transcorreram desde Tubular Bells a disponibilidade de tempo ou a apreciação estética das pessoas se terá modificado assim tanto. E pergunto-me se, alternativamente, em todos esses anos transcorridos a sociedade não terá adoptado talvez uma atitude mais genuína, porque a esmagadora maioria de nós não aprecia coisas nem complexas nem extensas. A ser assim, por mim OK, será uma opção dessa maioria, o que não me parece aceitável são essas mesmas pessoas depois tentarem-se desculpar pelas consequências.

A EUROPA DE CIMA, APESAR DOS EUROPEUS DE BAIXO

Mais do que a tão evocada perturbação da harmonia da circulação económica de pessoas e bens dentro do espaço europeu, o que os impertinentes referendos suíços sobre temas interditos poderão ter de aborrecido é o efeito de contágio aos países da vizinhança. Desde a Primavera dos Povos de 1848 que o fenómeno é conhecido e temido pelos defensores do establishment. Sondagens efectuadas na Alemanha parecem mostrar: a) Que uma franca maioria dos alemães (72% contra 23%, segundo o Bild) se mostra favorável à realização de um referendo semelhante ao que teve lugar na Suíça; b) Que também na Alemanha, com 48% a favor da limitação da entrada de imigrantes e 46% contra (segundo a Deutsche Welle), a opinião pública se encontra muito dividida quanto à questão referendada na Suíça. Já se sabia o quanto era inconveniente andar a perguntar aos povos das bordas o que eles pensam da Europa, descobre-se agora que, se calhar, também talvez o único aspecto genuinamente germânico que ainda perdure do tal de Ideal Europeu seja mesmo só a letra da Ode à Alegria

Adenda em jeito de uma espécie de actualização de A Quinta dos Animais e inspirando-se no cartaz acima: O que os alemães genuína e intimamente parecem desejar é tratar-nos como as ovelhinhas brancas tratam a preta, expulsando-as(nos) do redil dos aspirantes a estados sociais confortáveis. O problema, para o pastor (essencial para toda a história embora não apareça no cartaz…), é que no dia em que isso acontecer torna-se muito provável que as ovelhas pretas deixem de contribuir com leite e lã para a economia da quinta. Não só a produção da quinta se vai ressentir como se corre até o risco de que as ovelhas pretas deixem de obedecer aos cães-pastores, apesar de não se organizarem referendos. O dilema dos proprietários da quinta é que as ovelhas brancas, como todas as ovelhas das sátiras políticas, são obtusas e não percebem o conceito económico das economias de escala de uma quinta nem a inconveniência política de irritar as ovelhas negras até ao limiar de elas preferirem regressar ao estado selvagem. Esta história não vai ter nem final feliz nem sequer pedagógico (ao contrário do da obra de George Orwell): quando as ovelhas pretas deixarem de dar lã e leite (para tentarem abater os cento e tal por cento do PIB), o pastor vai deixar as ovelhas brancas fazer a sua vontade.

18 fevereiro 2014

HÁ UM SOM A «PIPOCAS» NO AR


Sucesso musical surpreendente de há mais de 40 anos, as Pipocas ainda hoje podem servir de comprovativo e de exemplo – aprecie-se a sonoridade sinteticamente oca da canção... – de como os sucessos podem ser alcançados de repente, sem explicação aparente, mesmo nada contendo de substantivo, apenas porque as rádios repetem incessantemente a mesma melodia.

O DEPUTADO BRANCO

O senhor da fotografia acima chama-se Salum Khalfani Bar'wani, tem 54 anos e a razão para merecer o interesse deste blogue é o facto de ele ser o primeiro deputado eleito do parlamento tanzaniano a sofrer de albinismo. Somente um em trezentos tanzanianos é albino mas, por causa da importância atribuída à tez da pele, na África Subsariana ser-se albino carrega consigo um estigma particularmente pronunciado que pode chegar a ser ameaçador para a integridade física dos visados. Esta causa das discriminações e maus-tratos sofridos pelos albinos africanos seria uma excelente causa, daquelas causas que as pessoas que adoram causas adorariam abraçar não se desse o caso dela parecer ser contra as convenções do que todas as boas causas devem ser: é que não tem cabimento criticar aqueles que são os discriminados e maltratados por excelência (negros) por essa mesma prática para com terceiros que são brancos, embora por acidente.

17 fevereiro 2014

A BATALHA DA COLINA 3234, A CAMERONE SOVIÉTICA

Se o avaliarmos apenas em termos das consequências, Camerone foi um episódio militar menor de um acontecimento histórico menor, que está hoje completamente esquecido: a intervenção francesa no México (1862-67) – que eu já me referi neste blogue com um desenvolvimento mínimo. Mas aquela pequena batalha travada em 30 de Abril de 1863 entre algumas dezenas de legionários e cerca de dois milhares de insurrectos mexicanos que os cercavam ajudou não apenas a estabelecer a reputação da Legião Estrangeira francesa, como veio criar um formato de batalha táctica cuja narrativa se prestava a galvanizar os exércitos envolvidos em acções contra-subversivas no estrangeiro: apresentando-os em situações em que estavam numa inferioridade numérica esmagadora, e onde o punhado de combatentes expedicionários via-se obrigado a adoptar uma prolongada defesa estoica em algum local esquecido da Terra até deixarem de se encontrar em condições de resistir. No episódio de Camerone, para exemplo de coragem, os cinco legionários que ainda subsistiam no final das dez horas de batalha (dos 62 originais), quando já não lhes restavam munições para disparar, decidiram atacar à baioneta!
O tema foi repetidamente repegado nos 150 anos que se seguiram embora a evolução das mentalidades obrigasse a fazer algumas alterações. Ao desfecho trágico passou a preferir-se o final feliz, consagrado pelos filmes de Hollywood. Já aqui me referira à Batalha da Colina 488, travada entre norte-americanos (poucos e bons) e norte-vietnamitas (muitos e maus) em Hiêp Dúc no Vietname central em Junho de 1966. Aí, os fuzileiros sobreviventes cercados – a maioria deles feridos – foram (felizmente) resgatados no fim. Agora com esta batalha da Colina 3234 no Afeganistão, para além de se constatar que os progressos da cartografia militar retiraram muita poesia à forma de baptizar as batalhas, descobre-se que os soviéticos durante a sua invasão/permanência internacionalista no Afeganistão (1979-89) também tiveram a sua quota-parte deste género de pequenas batalhas intensíssimas, onde a descrição se circunscreve deliberadamente aos aspectos tácticos envolventes que levaram ao combate e à bravura das acções individuais dos combatentes, o que se torna bizarro quando nos lembramos que, com soviéticos, deveríamos estar perante verdadeiros marxistas-leninistas para quem a doutrina torna indispensável, antes de tudo, validar a justeza das razões que opunham os contendores...
Em Novembro de 1987, o 40º Exército Soviético encarregue das missões de contra-subversão no Afeganistão desencadeou a Operação Magistral, destinada a reabrir a estrada que ligava a cidade de Gardez à de Khost (situada mesmo junto à fronteira com o Paquistão), que havia sido cortada pelos mujahidin desde há vários anos, obrigando a que a cidade tivesse de ser reabastecida pelo ar. Para cobrir a coluna blindada que forçaria a reabertura, várias unidades aerotransportadas iam ocupando antecipadamente as posições mais elevadas, para cobrir tacticamente a coluna que progredia. Numa dessas operações, a 7 de Janeiro de 1988, uma desgastada (mas experimentada) companhia de pára-quedistas composta por 39 combatentes, foi desembarcada sobre uma colina designada pela sua altitude (3234), de onde se podia controlar uma extensa secção da estrada em disputa. Mas pouco tempo depois da chegada a unidade foi atacada por uma força bem armada de várias centenas de mujahidin que os pretendeu desalojar daquela posição. Note-se como as condições meteorológicas devem ter sido particularmente hostis para os dois antagonistas: estava-se no pico do Inverno e a mais de 3.000 metros de altitude. Em franca superioridade numérica, entre as 15H30 da tarde do dia da chegada e a alvorada do dia seguinte os mujahidin montaram 12 ataques (inconseguidos…) às posições sobranceiras ocupadas pelos soviéticos. No final, a 9ª companhia do 345º Regimento sofrera 6 mortos e 28 feridos e os sobreviventes tinham uma saga para contar (abaixo). Todos foram condecorados.

Importantes apenas para as pequenas histórias da História, importa lembrar que os dois episódios referidos e o que foi narrado terminaram todos com a derrota dos respectivos protagonistas: franceses no México, norte-americanos no Vietname, soviéticos no Afeganistão. Apenas em jeito de curiosidade adicional, pode-se perguntar se as forças armadas portuguesas terão tido episódios que se assemelhem aos acima referidos e narrados. Não tenho conhecimento de nenhum. A ter havido, o Teatro de Operações em que me parece mais provável que isso possa ter acontecido será o da Guiné. Mas no geral, a desproporção do poder de combate e da qualidade do treino entre os militares portugueses e os guerrilheiros era tal que os confrontos não se podiam prolongar por muitas horas.

UMA DE DUAS OU AS DUAS


Atendendo ao ritmo a que aparecem reproduzidas, uma hipótese é que o cauteloso Durão Barroso se tenha modificado e passado a retirar um prazer malévolo em ser ele a proferir as declarações mais desagradáveis quanto a certos problemas que afectem a União Europeia. Uma outra hipótese é que ele já tirasse imenso prazer disso há muito tempo mas que só agora é que alguém de cá tenha dado por isso e, pensando especificamente nas ambições presidenciais daquele distinto emigrante, se tivesse resolvido a dar-lhes o devido destaque nacional, espalhando-as regularmente pela nossa comunicação social para lhe abrilhantar a imagem. A associação das duas hipóteses também é possível. O que parece impossível é que as declarações atribuídas a Durão Barroso possam ter sido forjadas.

16 fevereiro 2014

OS CENSOS DO IMPÉRIO AUSTRO-HUNGARO

Uma descrição global, ainda que sucinta, do Império Austro-Húngaro será complexa e terá uma extensão um pouco superior aos textos a que venho habituando os leitores deste blogue. Por isso, e como fiz também num caso semelhante de um texto apresentando a composição étnica do Império Russo, também sugiro ao leitor que ponha a tocar o vídeo abaixo, onde pode ouvir a que creio ser a apropriada Marcha de Radetzky de Johann Strauss (não apenas interpretada por ocasião de um Concerto de Ano Novo, mas regida por esse expoente do germanismo musical que foi Herbert von Karajan), enquanto prossegue a leitura.

Formado por um processo de séculos de agregação de regiões através de casamentos oportunos, vitórias militares e negociações diplomáticas intensas cuja explicação iria superar várias vezes o texto que introduz, os contornos do que era então o Império Austríaco ganharam uma configuração mais estável em 1815, em consequência dos acordos do Congresso de Viena, que puseram fim a 20 anos de fronteiras europeias voláteis à conta dos caprichos de Napoleão Bonaparte.
Nos 99 anos que se seguiriam até ao dealbar da Primeira Guerra Mundial (que o viria a matar), o Império iria sofrer apenas pequenas alterações nas suas regiões constituintes, sem que isso reduzisse ou aumentasse significativamente a heterogeneidade física e étnica que o caracterizava. Em 1846 a cidade polaca de Cracóvia foi anexada. Em contrapartida, a Lombardia italiana (com a excepção de 4 cidades fortaleza que ficaram conhecidas por a Quadrilateral) foram cedidas em 1859; seguiu-se a cessão dessas cidades e do Véneto em 1866 para a Itália recém-unificada. Por sua vez em 1878, no Congresso de Berlim, aquele que passara a ser conhecido depois de 1867 por Império Austro-Húngaro, recebeu a administração da Bósnia-Herzegovina além dos direitos de ocupar militarmente uma outra região a sudeste dessa que era conhecida por Sandjak de Novi Pazar. Em 1908, a Bósnia e a Herzegovina, que haviam pertencido formalmente até aí aos otomanos foram anexadas enquanto os austro-húngaros abdicavam dos seus direitos de guarnição num Sandjak cobiçado e prestes a ser atacado por sérvios e montenegrinos.
Como se pode observar pelos dois mapas da Europa de 1815 e 1914, e comparando-os mentalmente com o da actualidade, a existência do Império simplificava sobremaneira a configuração das fronteiras políticas do velho continente. Basear-se nisso para o considerar como se fosse uma unidade natural constituída por regiões que se complementavam seria contudo um artifício, verdadeiro apenas no aspecto que se tratava de uma construção política gradual que evoluíra ajustando-se às circunstâncias de cada época. Por exemplo, a complementaridade, que mais se realçava ao nível económico entre as diversas regiões imperiais, fora mais uma consequência natural da fiscalidade aduaneira de um mercado comum, do que um impulso facilitado pelos ditames da geografia humana e/ou física. A unidade geográfica era coisa que não existia de todo nas terras atribuídas à Coroa imperial austríaca, a começar pelas que ainda restam na própria Áustria actual. A província de Vorarlberg faz naturalmente parte da Suíça e a do Tirol da Baviera; há mesmo algumas regiões do Tirol que são mais facilmente acessíveis pela Alemanha do que pelo resto da Áustria. A Caríntia e a maioria da Estíria estão separadas do vale do Danúbio por uma cadeia montanhosa e constituem, com a moderna Eslovénia uma região geográfica natural virada para o Mar Adriático e para Sul. Ainda às bordas do Adriático, a Dalmácia (que hoje faz parte da Croácia) não tinha qualquer ligação geográfica ou sequer económica com o resto das possessões dos Habsburgos, a não ser pelo facto de constituir, pelo clima e pela localização, o destino de férias veranis predilecto das suas elites.
Nesse núcleo geográfico, económico e cultural mais desenvolvido, definido grosseiramente pelo triângulo que une as cidades de Viena, Praga e Budapeste, descobre-se que a Boémia está separada da Morávia (ambas ainda hoje constituintes da República Checa) por uma cadeia montanhosa e que a via natural de relacionamento dessas duas regiões para o exterior deveria ser o curso do Elba e não o Danúbio e que o seu porto de comércio marítimo inerente seria, por causa disso, o de Hamburgo no Mar do Norte e não o de Trieste no Adriático. A ligação desse núcleo com a província conhecida por Galícia passava por uma pequena região, uma portela conhecida por Silésia austríaca. A Galícia caracterizava-se também por ter uma fronteira interna – com a Eslováquia húngara – vincadamente definida pela natureza – a crista dos Cárpatos – e uma fronteira internacional – com a Polónia russa – deambulando a sentimento pelo meio da planície do Vístula. Quanto à Bukovina, no extremo oriental, essa encontrava-se naturalmente isolada das regiões ocidentais e meridionais que a deveriam ligar ao resto do Império, um mistério dos humores dos negociadores dos Tratados de Viena. Ao menos as terras que faziam parte do Reino da Hungria eram geograficamente muito mais homogéneas, sobretudo se atendermos à grande planície que rodeava o médio Danúbio e os seus grandes afluentes. A excepção mais significativa a essa homogeneidade era a Croácia, contudo indispensável para que a Hungria possuísse uma saída autónoma para o mar.
As preocupações com o amor-próprio dos húngaros constituem aliás uma explicação para que, à medida que o Século XIX progredia e se investia em infra-estruturas de transporte, as que se construíam pelo Império mostrassem importantes anacronismos: não havia ligações ferroviárias entre a Morávia e o norte da Hungria (que hoje constitui a Eslováquia); também não havia uma ligação ferroviária directa entre Viena na Áustria e Zagreb na Croácia, tinha que se passar primeiro por Liubliana na Eslovénia e mesmo até por Budapeste na Hungria, se o tráfego fosse de mercadorias; não havia ligações ferroviárias entre a Dalmácia e a Croácia (actualmente as duas regiões fazem parte da Croácia) e também não havia praticamente nenhumas entre a Dalmácia e a Bósnia. À medida que o Século XIX evoluía e que o processo de industrialização acentuava as vantagens da estandartização, o Império Austro-Húngaro dissociava-se dessa tendência, cultivando os seus particularismos regionais e elevando a burocracia daí decorrente a um patamar que se pretendia ser de excelência. Recorrendo a um outro exemplo, enquanto as restantes potências europeias se encaminhavam para uma homogeneidade progressiva dos seus equipamentos e armamentos militares, fardando-se por igual e empregando o mesmo armamento, um traço identificativo cultivado pelos austro-húngaros continuava a ser a variedade dos seus uniformes militares…
Ao contrário do Império russo, de que apenas um censo (o de 1897) chegou a ter lugar, no Império Austro-Húngaro realizaram-se vários e as variações de uns para outros alertam-nos para os critérios tendenciosos como eram efectuados, favorecendo umas nacionalidades em detrimento de outras. O critério que servia de base à classificação era o idioma, um conceito que, excluída a hipótese do uso de mais de um, se prestava, como se imagina, a classificações criativas. O correspondente britânico do jornal The Times em Viena, muito provavelmente neutro quanto às disputas nacionais do Império Austro-Húngaro viu-se classificado nesse censo como alemão, por ser essa a língua que usava quando ia às compras… Mas, exceptuando alguns casos mais bizarros, especialmente na Hungria, onde a contagem das aldeias eslovacas tinha tendência a minimizá-las, os resultados dos censos nas regiões rurais, que constituíam uma substancial maioria da população e onde essa população tendia a exprimir-se num só idioma, são consideradas aceitáveis. O mesmo já não acontecia com os das cidades, onde a população era multilingue e tendia a responder em função da valia social dos idiomas que empregava. Os censos reportavam maiorias germânicas em cidades como Praga e Budapeste que, como os factos posteriores a 1918 comprovaram, rapidamente desapareceram porque muitos dos que as constituíam não passavam de checos e húngaros que reassumiram o seu idioma materno mal o alemão perdeu a sua valia social. Outros assimilados a alemães eram os judeus cuja língua materna era, na esmagadora maioria das vezes, o iídiche, foneticamente aparentada com o alemão, mas que não aparecia identificada separadamente nos censos, apesar do judaísmo ser a religião de cerca de 4,5% da população do Império.
Talvez o mais aborrecido de tudo aquilo que se escreveu até aqui sejam mesmo os resultados dos censos. No de 1910, o último que teve lugar antes do desmembramento do Império, numa população de 51,4 milhões de habitantes com que ele então já contava (praticamente dobrou a população que havia um século antes: 27 milhões), 12 milhões foram classificados como alemães (na realidade, e como se viu acima, declararam falar predominantemente o alemão em contactos sociais), 10 milhões como húngaros, 6,4 como checos, 5,0 como polacos, 4,4 servo-croatas, 4,0 ucranianos, 3,2 romenos, 2,0 eslovacos, 1,3 eslovenos e 0,8 italianos. A completar, uma maioria substancial confessava-se católica (39,4 milhões – 76,6%), mas havia minorias significativas de protestantes e ortodoxos (4,6 e 4,5 milhões), além de 2,3 milhões de judeus espalhados por todo o Império e ainda 700 mil muçulmanos no Sul. Claro que estes censos são genuinamente democráticos no sentido em que contam pessoas, não distinguindo o seu estrato económico cultural e social que influencia normalmente a sua consciência política e que na Austro-Hungria se tornava num sinónimo de consciência nacional. Havia nacionalidades que possuíam as suas próprias elites (alemãs, húngaras, polacas, até mesmo checas e italianas), outras não, as elites que existiam eram forçadas a exprimir-se - e assim contabilizadas - num outro idioma; as eslovacas, por exemplo, em húngaro; as romenas, em alemão. Mas, mesmo ficando-me por aqui, suponho que deixei algumas pistas que podem explicar porque a Europa Oriental evoluiu como evoluiu, não só no período entre as duas guerras (1919-1939), como nos anos que se seguiram (1945-1989), quando uma nova potência imperial, dessa vez a Rússia, a veio de novo hegemonizar.