31 janeiro 2014

O TOBOGÃ DO POLÍCIA DE CHOQUE

A verdadeira realidade pode ter formas bastantes contraditórias de se apresentar: nas imagens acima, um polícia de choque ucraniano parece aproveitar um intervalo dos momentos tensos que se têm vivido em Kiev para se divertir na neve, usando o seu escudo de protecção como se fosse um tobogã. Estas imagens de Kiev são tão reais quanto as muitas outras que têm alimentado a informação, mas estarão em completa dessintonização com aquilo que da União Europeia nos pretendem transmitir, não adoptando o estilo que o famoso Artur Albarran definiu certa vez (de uma forma destinada a tornar-se célebre) por: O Drama! A Tragédia! O Horror!

A ESPIA DO PRESIDENTE

Na Biografia de Jorge Sampaio de José Pedro Castanheira pode ler-se este interessante parágrafo (p. 512):

Com Otelo nunca tive relações. O cuidado em manter o maior número possível de contactos e pontes leva alguns membros do grupo¹ a visitar o general Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do Comando Operacional do Continente (COPCON), no quartel do Alto do Duque. O encargo é atribuído a João Cravinho e à discreta Maria José Ritta. Ela chegou-me a casa a dizer que era o fim do mundo, que o Otelo estava convencido que controlava tudo – quando, na verdade, não controlava nada… Para Maria José, o choque não foi tanto pelo esquerdismo, até porque não tinha nenhum preconceito político contra o Otelo. O que me chocou foi a desorientação geral e o excesso de voluntarismo. «Isto assim não vai longe!», pensei.

Mais uma vez se parece comprovar o aforismo que estabelece que por detrás de um (não muito...) grande homem costuma estar uma grande mulher. A evolução dos acontecimentos veio confirmar a descrição: que aquilo que existia à volta de Otelo não passava de um enorme carnaval desorganizado, que tinha que ser levado em conta mas por causa da imprevisibilidade provocada pela desorganização.

¹ Grupo de dissidentes do MES (Movimento da Esquerda Socialista), conhecidos sucessivamente por ex-MES, depois por GIS (Grupo de Intervenção Socialista), finalmente por IS, antes de aderirem em bloco ao PS em Fevereiro de 1978.

30 janeiro 2014

O BURRO E ELA

A fotografia é de Jacques-Henry Lartigue (1894-1986) e a canção (Arre Burro, de 1936) é interpretada por Beatriz Costa (1907-1996).

«BLOODY SUNDAY»


Hoje completam-se 42 anos sobre os acontecimentos da Irlanda do Norte que vieram a ficar conhecidos pela designação de Bloody Sunday. O episódio, popularizado pela canção dos U2 de 1983 (acima), terá reunido tudo o que devia para se poder transformar num marco simbólico e sangrento da discriminação a que a comunidade católica minoritária da Irlanda do Norte se via então submetida: não foram apenas as mortes injustificadas (14), foram sobretudo os esforços posteriores do governo britânico para desculpabilizar a conduta dos soldados paraquedistas autores da chacina. Actualmente parece ter-se assentado numa análise simples e unidimensional das causas para o que aconteceu, com os algozes e as vítimas perfeitamente identificados, a que se adicionou uma revisão finalmente razoável dos factos, desmascarando os relatórios de cobertura originais, a que seguiu um pedido de desculpas formal por parte do primeiro-ministro britânico Cameron em 2010 que lhe terá valido alguns pontos de bónus nos índices de popularidade. Reviravoltas da história, agora há quem tenha de se dispor a defender publicamente a inoportunidade do julgamento dos militares envolvidos.
Ora, se houve algum ensinamento que se devia ter retirado daquilo que aconteceu há 42 anos, é que os responsáveis britânicos nunca deveriam ter recorrido o emprego de forças militares em substituição das desacreditadas forças policiais da Irlanda do Norte. Apesar destas últimas (conhecidas por RUC) serem reconhecidamente parciais (porque compostas por 92% de protestantes e apenas 8% de católicos), um erro não se deve corrigir com outro. E é um erro recorrente dos protagonistas políticos (que costuma sair muito caro em caso de azar), o de se considerar os militares como uma espécie de polícia musculada para missões especiais onde as polícias regulares falharam. É que, numa situação de aperto, como normalmente são as que exigem esse género de decisão, os decisores tendem a esquecer-se que a preparação tradicional dos militares (ao contrário da dos bombeiros, por exemplo), não inclui qualquer preocupação com o bem-estar do inimigo (antes pelo contrário...). E isso é um risco que se costuma pagar em sangue quando as situações se descontrolam. Mas, sobre esse risco político que correu mal, é improvável que assistamos ao mea culpa de David Cameron em nome dos seus antecessores…
A verdade é que o problema nuclear era, além de político, de cariz policial (o da sua neutralidade) e devia ter sido resolvido por forças policiais neutras vindas do resto do Reino Unido. Convém acrescentar que é precisamente para essas situações que existe a vantagem da existência de forças paramilitares, como serão os casos da nossa GNR, da Gendarmerie francesa ou dos Carabinieri italianos, cuja existência era, porém, estranha à tradição anglo-saxónica. Pode-se hoje especular se, naquelas circunstâncias e naquele dia, um destacamento de uma hipotética força paramilitar teria tido um desempenho menos sangrento do que o dos paraquedistas, uma unidade de combate de elite do exército britânico. A intuição induz-nos a acreditar que sim, mas torna-se impossível de comprovar essa impressão. O que já se torna evidente é que, depois disso, os sucessivos governos britânicos não consideraram útil a criação de uma unidade com essas características para eventualidades semelhantes. É por isso que, se se repetirem os distúrbios que tiveram lugar em todo o Reino Unido em Agosto de 2011 (abaixo) e a polícia dessa vez não conseguir controlar a situação, é garantido que se tornará a ver a nata dos combatentes do exército britânico a perseguir de arma em punho os saqueadores… E adivinhe-se lá quem vai ficar com as culpas das mortes se elas se tornarem impopulares?...

29 janeiro 2014

SLOGANS CARREGADOS DE IRONIA – 1

Não só Cavaco Silva terá desenvolvido na época da fotografia um trabalho de preparação de Portugal de que ele bem se pode orgulhar como ainda, já francamente entrados no Século XXI, ele ainda por cá continua em lugar privilegiado para o vermos a avaliar os frutos desse seu trabalho de preparação

SLOGANS CARREGADOS DE IRONIA – 2

Embora totalmente condenada pela História quaisquer hipóteses da Guiné continuar a carregar consigo aquele epíteto de portuguesa, não deixa de se poder (e, se calhar, dever) questionar para que género de felicidade alternativa estavam fadados os habitantes daquele país…

28 janeiro 2014

A EXPANSÃO AUSTRONÉSIA

Este mapa-mundo, que abrange cerca de ¾ da superfície do nosso planeta, mostra-nos a extensão daquela que é uma das mais desconhecidas expansões da Humanidade: a dos povos austronésios. Tratou-se, como aconteceu com os povos indo-europeus que vieram a povoar a Europa, o Próximo Oriente e o Subcontinente Indiano, de processos desencadeados pelo crescimento demográfico das populações, mas um crescimento muito lento, que se processou paulatinamente e se arrastou por milénios. Fazendo parte da pré-História, tudo o que neste momento se pensa saber sobre esses processos resulta dos trabalhos da arqueologia, das investigações da linguística e, mais recentemente, das da genética.
Uma das maiores surpresas da expansão austronésia é a localização do seu berço. Embora haja outras teorias – há-as sempre nestas circunstâncias – a predominante coloca a origem dos povos austronésios nas costas orientais da Formosa. Não há como iludir a ironia: a ilha é hoje maioritariamente povoada por chineses (98%) e constitui, como República da China e como expressão da recusa da aceitação da supremacia comunista no continente (a República Popular da China), uma das últimas expressões da Guerra-Fria. Mas é a sua praticamente ignorada população aborígene (2%) que é a depositária de uma saga que, iniciada há cerca de 5.000 anos, hoje abrange cerca de 400 milhões de pessoas.
Em contraste com a dos indo-europeus do mapa acima, a expansão dos povos austronésios foi predominantemente marítima e veio a prolongar-se até períodos que já eram históricos noutras partes do Mundo: a sua chegada a Madagáscar já será contemporânea com o Império Romano e a chegada à Nova Zelândia coincidirá com a nossa época das Cruzadas. A expansão fez-se inicialmente para os arquipélagos das Filipinas e da Indonésia que já se encontraram povoadas por imigrantes anteriores, povos de tez mais escura, que seriam aparentados com os actuais aborígenes da Austrália e os papuas da Nova Guiné. Só depois a expansão prosseguiu com a colonização de ilhas até então despovoadas.
Só os especialistas é que conseguem dar uma aparência de lógica de parentesco (veja-se o quadro acima, clicar para o ampliar) a um conjunto de quase um milhar de línguas actualmente faladas, exercício esse que comprovará uma raiz comum a elas todas. Ali aparecem idiomas falados na Indonésia, na Malásia, nas Filipinas, o tétum, que é o idioma coloquial de Timor-Leste, e ainda o maori neozelandês, idiomas falados em Madagáscar e outros falados quase do outro lado do Mundo, nos vários arquipélagos do Pacífico, tão longe quanto o estado norte-americano do Hawaii. O único lapso desta gesta é que não existe nenhuma potência – a Indonésia prefere o Islão... – que pretenda explorar os efeitos propagandísticos deste feito (pré)-histórico.
Já em jeito de aditamento e aproveitando para republicar o mapa inicial, valerá a pena chamar a atenção para algumas peculiaridades dos contornos geográficos da expansão. Uma delas é o facto dos austronésios nunca se terem conseguido implantar na Nova Guiné, um fracasso que Jared Diamond terá explicado satisfatoriamente num capítulo (17) de um livro que recomendo a leitura a interessados: Armas, Germes e Aço. Outra peculiaridade, essa por explicar satisfatoriamente, são as condições em que os austronésios terão conseguido colonizar Madagáscar vindos de Bornéu, percorrendo uma distância marítima superior de 7.000 km sem, como se pode acima verificar, quaisquer possibilidades de escalas para reabastecimentos.

TV NOSTALGIA – 77


A ideia de base para a série Dinky Dog era excelente: um cachorrinho de aspecto irresistível que, depois de adoptado e, como se ouve na banda sonora, cresceu, cresceu, cresceu até se tornar num colossal desastre ambulante. Todavia, os desastres provocados pelo Dinky eram, na grande maioria das vezes, previsíveis e, por isso, perdiam a graça. Foi uma série medíocre que só vale esta evocação por poder ser, de uma certa forma, levada à conta de uma fábula dos tempos políticos recentes, acautelando-nos contra a adopção de cachorrinhos que se podem tornar muito maiores que os donos.

27 janeiro 2014

POR UMA HOMOGENEIDADE AUTOCLÍSMICA DO ATLÂNTICO AOS URAIS

 Há que reconhecer que os anglo-saxónicos possuem uma sensibilidade única para implicar com os excessos disparatados da burocracia, fenómeno que, no seu idioma, assume a bizarra forma coloquial literal de fita vermelha (red tape). Qualquer jornal britânico adora publicar histórias a esse respeito; então se elas tiverem origem em Bruxelas, torna-se ouro sobre azul! Aqui há uns três meses, o The Telegraph resolveu gozar à grande com o presidente da Comissão e com um texto que ele publicara naquele jornal, onde se vangloriara dos progressos da Comissão em desburocratizar uma legislação comunitária considerada absurdamente detalhada e inútil. Nem chegou a decorrer uma semana antes do correspondente em Bruxelas escrever um apropriado artigo de resposta, tendo por tema central um cuidado relatório de 122 páginas da autoria de uma respeitável comissão de trabalho que tivera por objectivo a regulamentação das capacidades dos autoclismos nos países da União: cinco litros de água para as sanitas, um litro para os urinóis, devendo os primeiros dispor de uma opção económica (meia carga?) de três litros… A causa – a poupança de água – adivinha-se nobre, assim como também se adivinham as piadas e insinuações – essas aí já menos próprias – a que um tal tema se pode prestar.
Contudo, o tal estudo também contém alguns dados estatísticos interessantes sobre as infra-estruturas à disposição dos europeus para se aliviarem. Fica-se a saber que, se todos os 80 milhões de alemães sentissem simultânea e disciplinadamente aquele mesmo aperto, aconteceria uma catástrofe, porque só há 77 milhões de sanitas e urinóis em todo o país. Em contraste, e apesar de ser um país do Sul, os 47 milhões de espanhóis têm uma capacidade excedentária de mais de 2 milhões daquelas mesmas instalações, provavelmente alocadas para turistas ingleses em férias. Estes últimos devem apreciar o conforto, pois vêm de um país onde, por sua vez, o acto parece ser mais dificultado, consideradas os 45 milhões de instalações disponíveis para um total de 65 milhões de potenciais utilizadores. Mas há que dizer que o país a visitar precavidamente e onde se deve andar mais vezes de pernas unidas será a França, onde os seus 66 milhões de habitantes têm ainda menos 3 milhões de sanitas (e urinóis) à sua disposição do que os britânicos. Para os 59 milhões de italianos os 46,5 milhões de instalações existentes não devem ser problema, considerada a conhecida capacidade italiana para a improvisação. Será toda uma maneira diferente de olhar para o aperto da Europa, literalmente de calças na mão

RETOQUE GELADO NUMA SITUAÇÃO ESCALDANTE

Embora já estejamos acostumados a fotografias de destruição como as que agora nos chegam de Kiev, há por vezes pormenores que eu nunca antes vira e para os quais creio que vale a pena chamar a atenção, como a curiosa formação de estalactites de gelo que se vêem suspensas do tecto do autocarro incendiado à esquerda, consequência muito provável da água nele despejada pelos bombeiros para apagar o incêndio... e das baixas temperaturas que se fazem sentir.

26 janeiro 2014

O «PULMÃO COMILÃO»


A demonstração de ignorância em si já incomoda mas o que torna verdadeiramente constrangedora toda a cena acima são as tentativas desastradas da concorrente para tentar justificar posteriormente aquilo que é injustificável. Porque, no sentido lato de ausência de escolaridade, e mesmo considerando o grau cada vez menos sofisticado das audiências e das frequências das televisões generalistas, isto acaba por ser também uma demonstração de analfabetismo funcional.

A SATISFAÇÃO DO COELHO

Embora as palavras fossem sobretudo de cautela, a pose e a linguagem corporal de Pedro Passos Coelho no discurso da sua reeleição ontem (acima) só me fizeram lembrar o coelhinho da direita do desenho abaixo…

REFLEXÕES ESCRUTINADAS SOBRE A ACTUAL REPRESENTATIVIDADE DOS PARTIDOS POLÍTICOS

Pedro Passos Coelho foi Sábado à noite reeleito presidente do PSD “com 15.524 votos, quando faltavam apurar 32 secções", o que representaria "cerca de 88 por cento dos votos”, de um universo de 46.430 eleitores, em que votaram 17.662 (militantes) sociais-democratas. (da comunicação social)

Recorde-se, para comparação, que nas últimas eleições legislativas, o cabeça de lista do Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) pelo círculo de Lisboa, Paulo Alexandre Esteves Borges, não conseguiu ser eleito deputado, mesmo que a lista que encabeçava tivesse recebido então 16.913 votos. Donde se conclui que a votação nacional agora averbada ao primeiro-ministro nas eleições internas do seu partido não lhe asseguraria sequer, num contexto de eleições legislativas, um lugar no parlamento¹.

Embora se possa sempre alegar que as duas votações não são de natureza escrupulosamente semelhante, a conclusão que se pode extrair destes números é, como se escrevia no título de um artigo de opinião saído há cerca de um ano no Público, que Mais de 99% dos portugueses nunca votaram nas eleições para escolha dos candidatos a primeiro-ministro (directas do PS ou PSD). A maioria provavelmente não quererá, mas mesmo quem o queira não pode, a não ser que se disponha a filiar num daqueles partidos.

Uma das formas como se procura condicionar o debate sobre este tema da representatividade das nossas organizações políticas é começar por estabelecer quase em jeito de axioma aquele estafado lugar-comum que diz os partidos políticos são indispensáveis para a democracia. A montante de qualquer debate sério sobre o seu conteúdo esta frase tem a virtude (para os que defendem este status quo) de conseguir deslocar de antemão o cerne do problema, confundindo e associando sem distinção os meios (os partidos) e os fins (a Democracia).

Essa confusão parece patente na hierarquia das duas soluções apresentadas pelo artigo de opinião mencionado acima: 1) A entrada da sociedade civil nos nossos principais partidos, como militantes de pleno direito para votarem e se candidatarem nas suas eleições internas; 2) Abrir as eleições directas partidárias para escolha da liderança a todos os simpatizantes e eleitores do partido (…). Como Maomé e a montanha, com a primeira solução visivelmente esgotada e a montanha inamovível, terá que ser Maomé e os partidos a mexerem-se, abrindo as suas eleições internas.

Vale a pena perceber e comparar o que pode ser o envolvimento popular nesses processos de eleições partidárias internas abertas, um processo que já foi adoptado, por exemplo, pelo Partido Socialista Francês nas últimas eleições presidenciais, mas de que os grandes pioneiros terão sido os norte-americanos, quando se inaugurou a tradição (que, saliente-se, ainda não tem 50 anos…) de realizar eleições primárias entre os activistas e os simpatizantes para a selecção do candidato presidencial.

Numas eleições primárias disputadas, como foram as de 2008, o total de eleitores envolvidos pôde atingir 19,1 milhões entre os democratas (mais 13,1 entre os republicanos), o que será o equivalente a 6% (e 4%) de toda a população norte-americana. Também os 2,9 milhões de participantes nas primárias francesas de Outubro de 2011 dão-nos uma taxa de participação próxima quando comparada com a população: 4,5%. Mas não será justo comparar eleições disputadas como estas foram com reconduções de desfecho previsível.

Tanto como a reeleição de Pedro Passos Coelho, também as primárias democratas de 2012 foram um passeio para o presidente Barack Obama. Dá-se até a coincidência de, em votação popular, os 89% dos votos recolhidos por Obama no final se aproximarem dos 88% de Passos Coelho. A diferença é que, mesmo em eleições tépidas, a recandidatura presidencial de Barack Obama foi legitimada por mais de 6 milhões de votos populares (2% da população) o que em Portugal corresponderia a uns 200 mil votos…e Passos Coelho recebeu um pouco mais de 15 mil.

¹ Os 23.903 votos averbados, por sua vez, a António José Seguro nas eleições internas do PS em 2011 assegurar-lhe-iam esse lugar e só esse, o que me faz supor que o panorama possa não se apresentar substancialmente melhor apesar disso, para quem se propõe liderar bancadas parlamentares constituídas por uma centena de deputados.

25 janeiro 2014

OS PAPAS COM OS SEUS SUCESSORES

Este poste é apenas um encadeamento de coincidências curiosas: fotografias dos sucessivos papas acompanhados daquele que viria a ser o seu sucessor.
Nesta primeira fotografia, é Pio X (1835-1914), que foi o primeiro Papa a ter sido eleito no Século XX (1903), numa cerimónia em que consagra como bispo aquele que lhe viria a suceder como Bento XV (ao centro, de báculo).
Excepcionalmente, e porque não encontrei nenhuma fotografia em que aparecesse Bento XV (1854-1922) simultaneamente com o que foi o seu sucessor imediato Pio XI, insiro esta fotografia onde ele consagra o sucessor deste, Pio XII.
Porém, as fotografias de Pio XI (1857-1939) acompanhado de Pio XII são felizmente muito mais fáceis de encontrar, porque o segundo pertenceu à Cúria Romana. Note-se o aspecto de aluno aplicado junto do mestre do futuro pontífice.
E observe-se a diferença da sua atitude para esta fotografia onde o mesmo Pio XII (1876-1958) aparece acompanhado daquele que viria a ser João XXIII. A mesma pose, de mãos cruzadas, não disfarça a diferença de personalidades.
Na fotografia seguinte, em que João XXIII (1881-1963) está a ser cumprimentado pelo futuro Paulo VI, a deferência do Papa para com o seu interlocutor parece tornar difícil distinguir quem será o pontífice, quem será o cardeal…
Em contraste, parece existir uma verdadeira convivialidade descontraída neste instantâneo em que Paulo VI (1897-1978) conversa com aquele que lhe sucederia como João Paulo I.
E o mesmo acontece nesta outra fotografia, tirada provavelmente muito pouco tempo depois da eleição de João Paulo I (1912-1978), quando o futuro João Paulo II o cumprimenta.
Mas já não acontece na seguinte, onde João Paulo II (1920-2005) aparece acompanhado do futuro Bento XVI numa relação mestre discípulo semelhante à que se viu mais acima entre Pio XI e Pio XII.
Finalmente, uma fotografia reunindo Bento XVI (1927-    ) e Francisco (1936-    ), quando ainda do pontificado do primeiro, o único – e raro – caso em que o antecessor presenciou a eleição de quem lhe sucedeu.

24 janeiro 2014

MAIS DEPRESSA SE APANHA UM MENTIROSO QUE UM COXO

Há o ditado popular que estabelece que mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo. E em história também se pode dizer algo semelhante: o mapa acima pode não ser defeituoso, empregando daqueles dados falsos que teria sido preciso morosamente conferir, mas é mentiroso por aquilo que lá não está, e é por causa dessa omissão que é mais facilmente detectado como falso. Pretenderá mostrar o fenómeno da escravatura, representando as melhores estimativas do volume do tráfico de escravos de África para as Américas e Europa, agrupando-o por grandes regiões de origem e de destino. Mas o grande problema do mapa não é a grossura das setas desenhadas sobre o Oceano Atlântico; é a ausência delas sobre o Oceano Índico.

Sabe-se que sob a Civilização Muçulmana também se praticava a escravatura e o tráfico de escravos africanos da África Oriental para a Península Arábica e o Egipto ter-se-á iniciado mesmo uns séculos mais cedo do que no caso do Cristianismo, embora se reconheça que o volume de escravos nunca tenha atingido as proporções do da África Ocidental. Mesmo assim, ainda há uns seis meses me referi aqui neste blogue a Tippu Tip, mercador de escravos e uma das grandes fortunas da Tanzânia do Século XIX, que possuía pessoalmente cerca de 10.000 escravos, para além das outras dezenas de milhares que exportou no decorrer da sua actividade. Ora de todos esses escravos não se vêem nem sequer vestígios no mapa abaixo…
É o tipo de omissão que distingue um mapa preocupado com o rigor científico histórico de um desenho de propaganda em prol de uma causa política – aqui perfeitamente identificável, mas que omite o envolvimento do Islão em relação ao fenómeno que pretende mostrar.

A CRISTOLOGIA DO NOSSO TEMPO

Contrariamente ao que eventualmente se possa imaginar, os cidadãos romanos dos Séculos V e VI eram pessoas civicamente muito conscientes. O que nos pode parecer hoje bizarro é a expressão desse civismo, que se exprimia em posições muito firmes e convictas sobre as grandes controvérsias da Cristologia. A figura de Jesus Cristo, a existência (ou não…) de duas naturezas (humana e divina) na sua pessoa, foram (apresentados aqui de uma forma excessivamente simplificada) pretextos para controvérsias acérrimas, que todo o cidadão atento devia acompanhar (ou fingi-lo…) por causa das suas implicações políticas sérias. Um equivalente actual, tanto pelo exotismo como pela impenetrabilidade, serão as yields da nossa dívida pública.
Como acontecia com os teólogos de há 1500 anos, também no caso da formação e evolução das cotações das dívidas dos países soberanos, a compreensão do fenómeno estará reduzida a uns quantos eleitos, embora todo o cidadão se farte de mandar palpites (de preferência com ar grave e circunspecto), quando, na verdade, todos nos mostramos inseguros quanto aos alicerces daquilo que verdadeiramente sabemos sobre o assunto: quase nada. Tanto assim é que, ainda na Terça-Feira, os jornais destacaram cabeçalhos dedicados à quebra da fasquia dos 5% (acima) quebra que depois os gráficos da Blomberg (fonte primária para esse tipo de informações) não corroboraram (abaixo), mas a contradição nem sequer parece despertar celeuma…

23 janeiro 2014

FOTOGRAFIAS ENGRAÇADAS DE CONGRESSOS

É uma felicidade o par de fotografias acima, feitas por ocasião dos congressos dos respectivos partidos, a começar pelas cores dominantes em cada uma, o vermelho do PCP (à esquerda) e o azul do CDS/PP, mas também sobretudo pelos instantâneos: um secretário-geral respeitado (Jerónimo de Sousa) galvanizando os seus camaradas com um dos seus (sempre atentamente escutados) discursos, enquanto o ecrã por detrás apela pela inserção de uma (outra) cassete; e, à direita, um idolatrado presidente (Paulo Portas) acostado por um acólito (João Almeida) numa pose que quase parece equívoca, sugerindo um enternecimento que será despropositado para as circunstâncias e para a expressão do visado, enquanto no ecrã por detrás deles a face da oposição tolerável discursa.

...E UMA PARÓDIA A ESSA SEMÂNTICA

Na sessão da Bolsa de ontem as cotações das acções da banca sofreram uma desvalorização abrupta: as do BCP desceram 10,3%, 7,6% as do BANIF, 5,1% as do BES e 4,2% as do BPI, arrastando com isso o índice bolsista (o PSI20) para uma queda anómala de 3,3% numa só sessão, aquilo que no calão bolsista costuma ser classificado por um valente tropeção. Acontece, e nem sempre a contento dos calendários das agendas políticas. Mas, para adoptar a novilíngua governamental (numa área em que o governo parece ter comprovada relutância em intervir restritivamente), pode dizer-se que os mercados recalibraram o valor das acções dos bancos, recalibrando com isso as expectativas dos sinais - sempre ténues - de recuperação da economia portuguesa...

22 janeiro 2014

A SEMÂNTICA GOVERNAMENTAL...

Leia-se atentamente a notícia supra, retirada ainda agora do site de notícias da RTP e maravilhemo-nos com o benefício de 99 euros de que o hipotético pensionista da reforma bruta de 1800 euros beneficiará. Note-se que até se poderia acolher aquele género de raciocínio se se estivesse, por exemplo, a referir a um réu condenado a X anos de prisão a que um qualquer indulto tivesse reduzido a duração da pena – disso, sem dúvida, aceita-se que seria um benefício para o visado. Mas quero crer que os pensionistas (ainda) não foram condenados a pena alguma, e assim, denominar por benefício o que não passa da diferença entre duas reduções de rendimento impostas pelo governo, uma mais e outra menos severa, se não for uma demonstração de analfabetismo funcional, é (mais) um gozo governamental descarado à custa de traulitadas na semântica, na continuação dos desvios em linha ou das recalibragens.

OS RECURSOS PLETÓRICOS DE UM EXÉRCITO

Vietname, Janeiro de 1969. O fotojornalista alemão Horst Faas mostra-nos um instantâneo de um exército norte-americano pletórico de recursos, onde um helicóptero pesado CH-54 se prepara para aerotransportar um obus M-114 de 155 mm de/para uma posição isolada algures na selva. Para os veteranos do exército português, que travando por aqueles mesmos anos uma guerra contra-subversiva de características semelhantes à do Vietname e a quem faltavam muitas vezes os meios helitransportados para evacuar os feridos (esqueça-se lá o material…), estas imagens devem chegar a parecer, retrospectivamente, obscenas. O que não impediu um mesmo desfecho em qualquer dos conflitos…

AS VELHAS AMEAÇAS À NOVA EUROPA

Há cerca de 75 anos a mediar entre estes dois mapas da Europa e, sinal de como os tempos e a conjuntura nos forçam a mudar substancialmente de opinião, o posicionamento estratégico que considero mais adequado evoluiu da defesa de um centro moderado e democrático face aos dois extremismos totalitários que pretendiam repartir entre si o continente em 1940 até à opção por qualquer um daqueles extremos ideológicos – agora menos ameaçadores… – face a um centrismo hegemónico cada vez menos democrático e que, mais uma vez e de uma outra forma menos ostensiva, está de novo a ameaçar abafar os particularismos europeus em 2014.

21 janeiro 2014

OS COMENTADORES «BIRDIE NUM NUM»

The Party (1968) foi um filme que começou periclitante – o guião tinha originalmente apenas 56 páginas – e passou ao lado do sucesso na bilheteira até se ter transformado com os anos num daqueles filmes de culto. Realizado por Blake Edwards e protagonizado por um Peter Sellers a quem se terá dado carta-branca para criar as cenas disparatadas que estendessem o filme das 56 páginas para uma hora e meia de duração, já o vi ser comparado aos filmes contemporâneos de Jacques Tati. Talvez, mas o resultado final é sobretudo um show de gags de Peter Sellers.

Mas o destaque, que me levou a dar o título ao poste classificando muitos comentadores com uma expressão que retirei do filme (birdie num num), vai inteiro para a cena acima: como a personagem de Sellers, parece haver uma apreciável percentagem dos nossos comentadores que têm a mesma compulsão dele para o microfone, que se embriagam com o som da própria voz ao verem os traços erráticos na linha do ecrã do osciloscópio, e não conseguem prescindir mostrar ter uma opinião sobre tudo, nem que ela possa ter a pertinência de...um birdie num num.

OS CASTRADOS E OS OUTROS

Embora as primeiras referências datem dos finais da Antiguidade e venham de Constantinopla, é só desde o período barroco, no Século XVIII, que existem certezas documentadas sobre um encantamento musical pelas vozes masculinas agudas, aqueles cantores que são normalmente conhecidos pela sua designação italiana de castrati. O termo é o plural da operação cirúrgica a que eles eram submetidos antes de atingir a puberdade – a castração – que implicava por seu lado, para a preservação da voz de infância, também a assexualidade do intérprete. Evidentemente que na actualidade se baniu a prática mas sem se eliminar o encantamento por aquele género de vozes (acima), que agora é preenchido por aqueles que a natureza espontaneamente dotou com elas (embora normalmente em registos algo diferentes). Mas não deixa de ser engraçado verificar como alguns dos favorecidos não se prestam a deixar quaisquer equívocos sobre a sua sexualidade: é o caso da exuberância pilosa do cantor grego Demis Roussos que vemos a actuar no vídeo abaixo:

20 janeiro 2014

O MUNDO PULA E AVANÇA…

O relâmpago globular – uma descarga eléctrica atmosférica que assume uma forma esférica – ainda não se encontra devidamente explicado cientificamente, mas que já ultrapassou as fases de maior cepticismo onde se encontrava envolta há uns cinquenta anos – as ilustrações são de SOS Meteoros, uma aventura de Blake & Mortimer desenhada em 1958.
Notícias recentes – por sinal, discretas – dão-nos conta que dois cientistas chineses conseguiram pela primeira vez realizar uma análise espectral de um desses raríssimos fenómenos. Evocando António Gedeão e o final da sua Pedra Filosofal, é assim que o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança. Veja-se o vídeo abaixo.

A PROPÓSITO DE HOLLANDE, RECORDAM-SE DE GARY HART?

Gary Hart (1936-) foi um Senador democrata norte-americano, oriundo do estado do Colorado, que ocupou aquelas funções durante dois mandatos perfazendo doze anos (1975-1987), mas que sempre mostrara ter ambições mais elevadas. Já por ocasião das primárias para as eleições presidenciais de 1984, Hart se batera até ao fim com o candidato que viera a ser escolhido pela Convenção de São Francisco, Walter Mondale, que fora o vice-presidente de Jimmy Carter de 1977 a 1981. No final da disputa, percebeu-se que fora a ele, afinal, que saíra o lado do pão que tinha a manteiga: saíra dela como uma hipótese muito séria de uma futura candidatura vencedora e não sofrera a humilhante derrota averbada a Mondale quando da reeleição triunfal de Ronald Reagan nas eleições presidenciais desse ano.
 As movimentações para a eleição de Novembro de 1988, onde Ronald Reagan já não se podia apresentar, começaram cedo, desde Janeiro de 1987. Hart já não se apresentara à reeleição para o seu cargo de Senador pelo Colorado em Novembro anterior e, depois de formalizar a sua candidatura em Abril de 1987, resolveu atacar de peito feito aquele que seria dos seus pontos fracos eleitorais: um casamento de 28 anos muito instável, repleto de rumores de infidelidades recíprocas: numa entrevista ao New York Times desafiou a comunicação social a segui-lo para descobrir os seus rabos de palha e profetizando o quanto aquela se iria aborrecer. Enganou-se. Semanas depois, fotografias de Gary Hart com uma modelo de 29 anos chamada Donna Rice no colo encheram as páginas dos jornais...
Hart terá aceitado a derrota talvez com precipitação demasiada. Embora houvesse sondagens que acusavam uma abrupta queda de 10% nas suas simpatias, outras indicavam uma apreciável (64%) maioria da opinião pública a considerar que o tratamento que lhe fora dado era injusto e (53%) que a infidelidade conjugal era um assunto que pouco influiria na capacidade de um presidente exercer o cargo. Mas, mesmo assim, o episódio veio a saldar-se por uma vitória da opinião publicada sobre a opinião pública e quando Gary Hart procurou regressar à corrida presidencial já a dinâmica original se perdera. Hart veio a deixar o desejo numa sua autobiografia que, se a comunicação social fosse marginalmente mais tolerante quanto às complicações das relações pessoais, então talvez a nação pudesse ter melhores líderes.

19 janeiro 2014

«THE BIG AMERICAN AND THE LITTLE ASIAN»

Acima vê-se a capa da edição de 25 de Agosto de 1967 da revista LIFE e, não se tratando de inspiração, será uma tremenda coincidência – não só visualmente mas também pela sugestão de incomunicabilidade benigna entre o norte-americano e o asiático – que ela se pareça repetir na cena abaixo de Lost in Translation, que só veio a ser filmada 36 anos depois. Por curiosidade: o companheiro de Bill Murray estará a perguntar-lhe há quantos anos é que ele estava no Japão; todos aqueles seus gestos onomatopaicos serão esforços para reproduzir a hipotética viagem de vinda de Murray; e as senhoras lá atrás estão genuinamente perdidas de riso.

18 janeiro 2014

«ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS»

Esta fotografia foi tirada em Simla, na Índia, data dos princípios de Julho de 1972 e reúne os dirigentes de então do Paquistão e da Índia, respectivamente Zulfiqar Ali Bhutto (1928-1979) e Indira Gandhi (ao centro, 1917-1984) e ainda a filha do primeiro, Benazir (1953-2007). Esta última virá a dirigir posteriormente o Paquistão e o mesmo acontecerá também na Índia com o filho de Indira, Rajiv (1944-1991, ausente da fotografia). Todos os quatro, filhos e progenitores, virão a morrer violentamente. Parafraseando o título do filme de sucesso dos irmãos Cohen, na política e tão impressionante quanto a hereditariedade, aquele subcontinente não é para velhos.