31 outubro 2013

RUÍNAS DE ESPERANÇA

Trata-se de uma daquelas fotografias típicas da propaganda de guerra soviética da Segunda Guerra Mundial, mas, pelo composição, percebe-se que já se está na sua fase final (1944 ou 1945). As ruínas já não se destinam a destacar a barbárie do comportamento dos invasores alemães e apresentam-se por isso com uma aparência estranhamente composta, limpa de detritos, como se fossem campos lavrados antes de um lançar da semente (da reconstrução) à terra. Mas porque é que nem disso Pedro Passos Coelho ou Paulo Portas conseguem nos persuadir?…

UM HINO AO RÂGUEBI E À AMIZADE


Este é um poste mais destinado aos apreciadores da modalidade, para que se deliciem com quinze minutos condensados de um jogo fabuloso, o último África do Sul – Nova Zelândia disputado no princípio deste mês para o Campeonato de Râguebi que envolve as grandes potências do hemisfério Sul, um jogo onde houve alternância no marcador e nove(!) ensaios bem distribuídos pelas duas equipas (4/5). Mas é também um poste à amizade porque, não estando a ver o jogo, tive a sorte de ter alguém que me telefonasse para me alertar para a espectacularidade do jogo que estava a decorrer.

30 outubro 2013

VICTÓRIA, VICTÓRIA

Com um título a fazer um trocadilho evidente com a comédia musical Victor/Victória, apresento-vos a evolução substantiva que o look da ex-spice girl Victoria Adams (tornada Victoria Beckham) registou ao longo de alguns anos e de algumas plásticas (da esquerda para a direita). E para aqueles mais imaginativos, atreitos a descobrir parecenças, posso-vos assegurar que não, a senhora da esquerda não é Assunção Cristas. Ambas têm a mesma idade, ambas têm quatro filhos, mas Victoria Beckham não faz nada de importante, nem sequer pretende (não chegar a) legislar sobre bichos domésticos

29 outubro 2013

CÃES E GATOS

Apesar de recorrentemente se invocar o caracter de emergência da situação nacional, há, pelos vistos, no governo quem considere prioritário que se proceda à revisão do Código do Animal de Companhia, preocupado, entre outras coisas, a fixar o número máximo de cães e gatos autorizados por apartamento. Não será o tão aguardado guião da reforma do Estado mas mostra trabalho e preocupações sociais que, pelos vistos, a ministra Assunção Cristas parece ter regressado da licença de parto cheia de ternuras de puérpera. Estou com curiosidade de saber o que sobre o assunto noticiará o Imprensa Falsa, o blogue que melhor recicla estes disparates.

Adenda de 31Out.: E quem se esmerou mais uma vez foi o Vasco Palmeirim... (muito obrigado pela sugestão, André)

28 outubro 2013

O EMBATE DAS ÁGUIAS

Como de costume, as manchetes actuais com o escândalo das escutas a Angela Merkel já esqueceram como ele começara há quase quatro meses atrás (acima). Na altura houve até quem quisesse utilizar o assunto da descoberta dos milhares de escutas diariamente efectuadas pela NSA na Europa como uma arma de arremesso político para as eleições alemãs que se viriam a realizar em Setembro. Porém, o tópico rapidamente pareceu abafar-se espontaneamente e desaparecer dos cabeçalhos. Hoje já se pode desconfiar que o objectivo dos alemães nestes meses transcorridos tivesse sido outro, o de investigar tão profundamente o assunto que as provas obtidas impedissem os desmentidos que o decoro obrigaria os Estados Unidos a fazer quando ele regressasse à superfície devidamente trabalhado anunciando-se, por exemplo, que o telemóvel de Angela Merkel fora escutado.
No mundo da política que, como o da espionagem, também é amoral, nunca ninguém se impediu de desmentir um acto embaraçoso com uma mentira rotunda. Mas, se a Casa Branca não se atreveu a fazê-lo desta vez no que diz respeito às escutas feitas a Angela Merkel poderá muito bem ser porque suspeitará que os alemães dispõem de provas irrefutáveis das acções americanas e que estariam na disposição, à laia de desforra, de as apresentar publicamente para fragilizar Barack Obama, passando-o por um mentiroso. Aliás, é pertinente questionarmo-nos se a nova onda de novidades, que acrescenta o detalhe de Barack Obama saber pessoalmente das escutas a Merkel e de procurar ter-se utilizado delas para benefício negocial, não fará parte dessa ampla manobra alemã de retaliação para deixar a imagem internacional dos Estados Unidos claramente em maus lençóis.
Há alguma ironia em toda esta situação porque, havendo países tradicionalmente mais (mal) reputados pelo seu descaramento no mundo da espionagem (exemplifiquemos com os casos da Rússia ou de Israel), os Estados Unidos, por contraste, têm tido o mau gosto de vir pregar moral e mostrar ultraje quando descobrem redes de espionagem de países aliados a trabalhar contra si – o caso mais mediático terá sido o de Jonathan Pollard que espiava para os israelitas e que hoje cumpre uma pena de prisão perpétua. É essa falsa moralidade que agora fragiliza a posição norte-americana num ramo de actividade que, como dito acima, é amoral: alguém duvida que, houvesse oportunidade, os alemães aproveitariam para escutar as comunicações de Obama? Mas o ramo de actividade tem regras severas e uma delas é que ser-se exposto é uma derrota e todas as derrotas se pagam caro...

OS DEZASSETE MINUTOS QUE JUSTIFICAM UM PRETÉRITO


Por muito que a dificuldade de Sir Humphrey em explicar que ao Primeiro-Ministro (a um político...) que ele mentira ao Parlamento seja a passagem que desencadeia mais gargalhadas nesta cena acima, a continuação da conversa torna-se muito mais significativa para alguns aspectos recentemente suscitados pela actualidade internacional:

Quereria ele dizer, perguntei a mim próprio, (escreveria posteriormente o Primeiro-Ministro James Hacker no seu diário a respeito do episódio acima) que andamos mesmo a escutar (ilegalmente, o deputado) Hugh Halifax? Não sabia a resposta, por isso perguntei-lhe (a Sir Humphrey). Acenou afirmativamente com a cabeça.
- Andávamos.
- Andávamos?... – Fiquei aterrado. – E quando é que o deixámos de o fazer?
Humphrey olhou para o relógio. – Há precisamente dezassete minutos.

Recordar esta passagem do episódio A Teia (The Tangled Web) da incontornável série televisiva Yes, Prime MInister é perfeitamente curial, considerada a redacção do comunicado da Casa Branca emitido a respeito das escutas efectuadas aos telefones de Angela Merkel, focando-se enfaticamente em desmentir intenções de a escutar presentemente e para o futuro mas evitando referir-se ao que acontecera no passado...

27 outubro 2013

«TWINS»

Será só a minha imaginação a conceber Marco António Costa como o outro lado (formal, velhaco e desprovido de humor) de Nuno Markl?

26 outubro 2013

A FRONTEIRA DA VIDA

Estranhos tempos e estranho dia noticioso este em que se dá como ferido um afogado que chegou ao hospital já em paragem cardio-respiratória, para ser reanimado e depois internado com um prognóstico muito reservado para vir a ser dado como morto horas depois; ao mesmo tempo, Jerónimo de Sousa, discursando na inauguração de um congresso organizado a pretexto do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, anuncia a presciência do homenageado e a ressurreição luminosa do projecto comunista.

AS VIRTUDES TERAPÊUTICAS DE UMA FOTOGRAFIA

Tirada a 25 de Agosto de 1944 aquando da libertação de Paris e, ainda por cima, por alguém com a reputação de Henri Cartier-Bresson, esta fotografia terá para os portugueses a virtude terapêutica adicional de exibir um conjunto dócil, disciplinado e temente das consequências de funcionários alemães de mãos alçadas, em salutar contraste com as dos seus netos que se passeiam regularmente, inquisitivos, de pasta, por Lisboa.

25 outubro 2013

O HOMEM DO «COCKPIT»

Se são tradicionais as representações metafóricas de grandes líderes conduzindo os destinos de seus países de mãos ao leme - acima é Estaline e o CCCP do leme lê-se URSS: União (das Repúblicas Socialistas) Soviética(s) - a modernidade, mas também uma certa forma de estar (cada vez mais acentuada) aconselha-nos a adaptar isso quando a figura do grande líder for a do nosso Mário Soares: para ele melhor mesmo é o Homem do Cockpit

«O QUE É DETERMINANTE PARA A UNIDADE É A IDEOLOGIA E NÃO A GEOGRAFIA»

Retirei estas duas fotografias da internet e, parecendo idênticas, com a imagem de Agostinho Neto ao lado de Fidel Castro, não considero inocente o (re)corte que foi aplicado à de cima. De facto, o que existe de mais interessante na fotografia do que parece ser um daqueles comícios institucionais onde se celebrava a amizade angolana-cubana em Luanda algures entre 1976 e 1979 é o conteúdo da mensagem que encima o cartaz, sub-repticiamente desaparecida no entretanto.
Lido com distanciamento e sem dogmas de fé marxistas-leninistas, aquilo que lá está escrito como slogan justificador da presença militar cubana em Angola também pode ser encarado como uma apologia de qualquer outra ideologia que pugnasse por projectos políticos transcontinentais – como também o era, à sua maneira, o colonialismo… Nunca é demais relembrar que Cuba esteve engajada militarmente em Angola durante tanto tempo quanto Portugal com efectivos equivalentes¹.

¹ Portugal de 1961 a 1974, com um máximo de 65.000 efectivos em 1973. Cuba de 1975 a 1989, com o mesmo máximo de 55.000 efectivos em 1988. Note-se porém que os efectivos portugueses incluíam cerca de ⅔ de soldados de origem metropolitana e ⅓ de angolanos de recrutamento local enquanto os militares cubanos eram todos de origem.

24 outubro 2013

«GOSTO DEMASIADO DE ACÇÃO PARA A SUBORDINAR AO PENSAMENTO»

Não sei se será uma narrativa (alternativa) mas pode ser decerto um enredo cinematográfico…

O TESTE DA MAMINHA

Só quando li o Público recentemente é que me inteirei que no Facebook não há maminhas mas há decapitações. Sobre decapitações nada posso dizer mas agora sobre as maminhas registo a experiência de um poste que aqui e lá publiquei há uns meses enfeitado com dois pares delas dissimuladas num limoeiro repleto. Mas não cheguei a dar pela censura, coisa que sempre se pode reexperimentar, já que o Público, como aparece sempre nestas coisas denominado por jornal de referência, merece-nos uma atenção redobrada antes de ser desmentido por essa outra faceta da vida que atrapalha algum jornalismo de referência e que se chama realidade.
A minha escolha deliberadamente provocatória vai para esta fotografia acima, um pouco antiquada e mais atrevida do que sensual de Helen Mirren, em que o negligé deixa apreciar os contornos de uma das suas maminhas. Para acirrar a censura do Facebook creio ter feito uma escolha que é tão provocatória quanto iconoclasta: não é frequente que se exibam assim as maminhas de uma respeitável Dame Commander do Império Britânico (DBE), actriz mais reconhecida ultimamente por interpretar papéis respeitáveis e régios, como Isabel I e Isabel II, rainhas de Inglaterra. Nesse sentido, há um pouco de lesa-majestade na fotografia. Vamos aguardar o que o Facebook fará dela…

23 outubro 2013

OS SACERDOTES E AS ABSOLVIÇÕES


Há que reconhecer quão espirituosa é esta comparação que Vítor Bento fez numa entrevista à Antena 1. Embora concordando com ele que os juízes não são sacerdotes, pergunto-me se não haverá por aí uma outra classe religiosa que unge e absolve os disparates proferidos por pessoas como Vítor Bento, atente-se apenas ao cabeçalho abaixo, escolhido para uma outra entrevista de Vítor Bento dada há apenas três anos. Sob o mote de Entrevistas sobre o futuro, o dito parecia apresentar-se tão risonho que o tema dominante era a importância da construção do novo aeroporto…
Pergunto-me quem serão os clérigos e de que templo serão originárias as indulgências para os disparates proferidos por Vítor Bento, e que o permitem continuar a passear-se impunemente por aí?...

21 outubro 2013

O DIA EM QUE A TERRA PAROU...

OS AUTOCARROS DA FNAT

Confesso que, para além da mensagem mais evidente de contestação ao governo, toda aquela concentração de autocarros na ponte montada Sábado passado pela CGTP me fez lembrar um certo género de animação popular organizada, uma ressurreição do estilo genuíno da original e saudosa FNAT¹.
¹ FNAT: Federação Nacional para a Alegria no Trabalho. Depois do 25 de Abril aburguesou-se e foi rebaptizada de INATEL.

«TOUS LES GARÇONS ET LES FILLES»


A emissão televisiva da RTF de 28 de Outubro de 1962 destacou-se por ter dado início ao primeiro grande sucesso musical de Françoise Hardy, Tous les garçons et les filles. Mas as atenções da emissão, de que a canção não passava de um simples interlúdio recreativo, concentravam-se no acompanhamento do – lento – escrutínio do referendo que tivera lugar nesse Domingo. Tratava-se de um referendo envolto numa enorme controvérsia: o presidente Charles de Gaulle pretendia alterar a forma de eleição do cargo que ocupava, para que passasse a ser eleito directamente por sufrágio universal em vez de o ser por um colégio eleitoral alargado de 80.000 grandes eleitores como aquele que o elegera em 1958.
Porém, para que a Constituição fosse alterada havia que contar com a concordância de uma maioria absoluta das duas câmaras (Senado e Assembleia Nacional) do parlamento francês, maioria absoluta essa que os gaulistas não dispunham. Por isso de Gaulle optou pela ideia de submeter a alteração a referendo, numa iniciativa que o próprio conselho constitucional e a maioria que se lhe opunha no parlamento considerava… inconstitucional. Com o agudizar da tensão política, o governo acabou por ser derrubado através de uma moção de censura no princípio de Outubro de 1962. Inabalável, de Gaulle dissolveu a Assembleia e marcou novas eleições, mas manteve a realização do referendo, prevista para final daquele mês.
Por isso, quando Françoise Hardy cantava Tous les garçons et les filles na televisão existia uma espécie de duplo sentido no refrão da canção, associado à ocasião em que todos os rapazes e raparigas haviam sido convocados a pronunciar-se sobre um embate maior dentro da própria classe política, com os gaulistas a apresentarem-se praticamente isolados contra todas as outras correntes históricas – comunistas, socialistas, radicais. A vitória de de Gaulle e a aprovação da emenda foi bastante convincente, recolhendo 62,25% dos votos com uma maioria superior a cinco milhões. A classe política clássica francesa encaixou a derrota como se consegue subentender neste cabeçalho do Le Monde de um dos dias seguintes¹.
A crise política prosseguiu, mas o que nos interessa é que os problemas da constitucionalidade formal ou não foram ultrapassados, para colocar a questão como o presidente do Senado o fez, quando se considerou incompetente para apreciar a conformidade constitucional de uma lei que fora aprovada directamente pelo povo francês. O episódio ensina-nos que, ao contrário do que se possa temer por aí, há sempre possibilidades de, em democracia e de forma democrática, implementar soluções que podem ser formalmente inconstitucionais antes de aceites. O que é decisivo para isso, como de Gaulle o fez, é tentar obter a concordância do eleitorado… algo que até agora não vi ninguém disposto a tentar sequer.

Adenda: E vale a pena acrescentar que o verdadeiro problema político dos juízes do tribunal constitucional português não é o facto deles gozarem de um estatuto sacerdotal como ironiza Vítor Bento, mas o de as suas posições contra as reformas apresentadas pelo governo reflectirem as predominantes na opinião pública. Se em França em 1962 foram as esquerdas que levaram uma lição de humildade democrática, em Portugal em 2013 é a direita liberal a precisar de levar uma.

¹ No título superior o anúncio da vitória do Sim é a redacção mais sóbria e factual que pode existir enquanto no título inferior o destaque dado ao anúncio à vitória do Não em 14 departamentos encobre o facto da vitória do Sim nos 76 departamentos restantes.

20 outubro 2013

ALTOS & OUTRAS COISAS

Mesmo aqueles que se vêm obrigados a concordar com as reduções de salários e pensões apresentadas para o próximo orçamento, não têm apresentado argumentos muito mais desenvolvidos a justificá-las do que a necessidade imperiosa de reduzir o défice publico em largas centenas de milhões de euros. É por isso que medidas que se anunciem e que tenham um impacto contrário a esse imperativo precisam ser justificam detalhadamente e não podem ser apresentadas com a leveza borbulhante do qualificativo de notícias positivas como se pode ler acima na notícia publicada nos altos & baixos do caderno de economia do Expresso.
Lê-se mais adiante (p.14) no mesmo caderno que o governo estima que a redução da taxa de IRC de 25 para 23% acima enaltecida acarrete uma diminuição da receita fiscal de 70 milhões; noutro local (p.10) que o corte nos pensionistas se estima em 891 milhões. A pergunta que se impõe, ideológica, é a razão para que Paulo Núncio tenha optado por vir a transferir no próximo ano aqueles 70 milhões dos bolsos dos pensionistas para as caixas das empresas. A resposta, que eu suspeito impopular, é importante e seria só mediante ela que o jornalista Pedro Lima teria condições para colocar o secretário de estado onde quisesse na sua coluna de altos & baixos

AS LIMOUSINES

A pretexto da contestação protagonizada pela CGTP e de alguns exageros dos contestatários (que ouvi hoje a informação a deixar passar acriticamente) quanto à natureza anti-democrática do nosso regime (um exemplo visual é a imagem no fim deste poste), lembrei-me de um episódio de Tintin e os Pícaros, quando o Capitão Haddock insiste em ir comprar pessoalmente o seu tabaco de cachimbo à tabacaria, sem ter consciência que a sua teimosia iria provocar a confusão que se pode apreciar na imagem acima, essa sim, típica de um regime ditatorial.
Mas, mais do que os transeuntes removidos a cano de espingarda, parece ser a limousine, simbolizando a distância entre os privilegiados e o cidadão comum, o elemento principal da cena. Hergé preferiu desenhá-la neutra, embora não queira deixar dúvidas quanto à sua origem, através da marca do bigode estilizado identificativo da Bordúria. Mas quanto ao desenho da viatura, essa resulta de um sincretismo entre um Mercedes 600 capitalista alemão (acima) e um ZIL-114 comunista soviético (abaixo).
Há e houve ditaduras instauradas invocando valores muito diferentes, mas um aspecto tende a caracterizá-las a todas: não costumam permitir queixas a seu respeito nos seus órgãos de informação nacionais... O senhor que empunha o cartaz devia saber disso antes de fazer a analogia que exibe. É que com o senhor da esquerda do seu cartaz foi tranquilamente para casa no fim da manifestação; se mandasse o outro senhor tenho fundadas dúvidas que sequer conseguisse ir lá dormir nos dias seguintes...

19 outubro 2013

«(REMEMBER THE DAYS OF THE) OLD SCHOOLYARD»


Atente-se como, na canção acima e em geral, as recordações são dos dias e, mesmo assim, não de todos os dias que se passaram numa velha escola. Aquilo que actualmente pensemos sobre a evolução dessa velha escola é de um domínio outro que não o emocional.

18 outubro 2013

A IMPORTÂNCIA DE JAKOB FUGGER

Actualmente poucos serão os europeus que sabem quem foi Jakob Fugger (1459-1525) que nos aparece acima representado numa estátua edificada na sua Augsburgo natal. Contudo, a acção de Fugger é considerada determinante para a evolução da História na Europa quando, em Julho de 1519, os sete príncipes-eleitores do Sacro Império Romano Germânico elegeram como Imperador o jovem – 19 anos – Carlos V de Habsburgo em detrimento da candidatura rival de Francisco I, Rei de França. Jakob Fugger foi o promotor e o maior contribuinte de um sindicato que emprestou a Carlos V 850.000 florins de ouro (quase três toneladas daquele metal precioso) que permitiram a sua eleição¹. Se a eleição foi determinante para a evolução da História da Europa do Século XVI e os eventos do reinado de Carlos V são conhecidos, a história do reembolso do empréstimo é-o bastante menos, embora seja fácil de deduzir, para quem conheça os eventos, quão acidentada terá sido, prolongando-se por décadas, até que, logo no ano seguinte ao da abdicação de Carlos V (1556) e já sob Filipe II, seu filho, a Espanha declarou a bancarrota pela primeira vez… das quatro vezes em que o fez até ao final do Século XVI.
Ganhemos algum distanciamento do quotidiano e compenetremo-nos que, quanto for contada daqui por vários séculos a História da Europa deste princípio do Século XXI, a importância dela nunca será a questão de dinheiros e de insolvências dos Estados membros que agora tanto nos parece avassaladora, o que interessará aos nossos descendentes será, como sempre, aquilo que é intemporalmente importante: a questão do Poder continental…
¹ O orçamento de Francisco I era apenas de 300.000 florins de ouro.

17 outubro 2013

VOLTA MOURINHO, ESTÁS PERDOADO¹…

Passaram-se escassos meses desde a saída de José Mourinho do cargo de treinador do Real Madrid e já os cabeçalhos da imprensa se fazem com o mesmo género de discursos que haviam conduzido àquele desfecho: Carlo Ancelloti proclama como o seu antecessor que a equipa não joga (Não se pode jogar pior do que temos feito) e as estrelas da equipa continuam a amuar e chantagear quando confrontadas com a sua falta de categoria (Casillas admite deixar Real Madrid se “em três meses” continuar suplente). Por essa altura em que Mourinho partiu para Londres também por cá se produziam mudanças convulsivas e promessas políticas de uma espécie de chicotada psicológica… que agora se descobre não parecer ter surtido grande efeito. A analogia entre a economia e as finanças de Portugal e o futebol do Real Madrid parece-me óbvia. Depois de no passado muito se ter temido a politização do futebol, aquilo a que agora assistimos é o fenómeno inverso: é a futebolização da política…

¹ Para que não se leve a analogia longe demais esclareça-se que Mourinho, porque conquistou títulos, estará perdoado; Vítor Gaspar, que o máximo que conseguiu fazer foi consolidar um défice de 8,3% para 7,1% em dois anos, não.

ELEVADOR «ORÇAMENTADO»

Esta caixa de comando de elevador pode passar por uma excelente metáfora do orçamento recentemente apresentado para discussão: para a troika, que não usa o elevador, o importante é que ali exista uma caixa e que ela faça o elevador parecer funcionar; para o governo, que montou a caixa, o importante é que a mesma pareça operacional, especialmente para aqueles que não usam o elevador – os temidos mercados; o dilema principal fica para o fim, para nós utilizadores, a tentar usá-la e a descobrir a que andar se irá parar quando se carregar, por exemplo, na tecla 8

16 outubro 2013

ACREDITAR

A Fé leva milhares a Fátima mas não os faz votar nos crentes nem move as montanhas prometidas pelo ditado popular. Recorde-se que a pequena revolução profetizada por Nuno Cardoso se veio a cifrar em 1.255 votos, o equivalente a 1,08% dos votos dos portuenses.

MAPAS COLONIAIS

O mapa de cima mostra-nos qual a proporção da população de origem europeia em relação à população total por circunscrição na Argélia em 1954. O de baixo mostra-nos um cálculo semelhante, embora à escala provincial, para a população branca em Angola em 1960. As semelhanças das distribuições não surpreendem, a concentração no litoral e sobretudo onde existiam as maiores concentrações urbanas.

«MIGHTY QUINN»


Ainda na mesma onda de fazer trocadilhos com os títulos dos sucessos passados dos Manfred Mann, eis aqui a evocação de Mighty Quinn, outro cover de uma canção alheia, desta vez de Bob Dylan. Temos um vice-primeiro-ministro que aspira a ser como o poderoso Quinn (não confundir com Queen...) que transforma o desespero em alegria e o caos em calma...

15 outubro 2013

«BLINDED BY THE LIGHT»


Passaram-se décadas até eu descobrir que o Blinded by the Light que eu conhecera como sucesso dos Manfred Mann era afinal um original de Bruce Springsteen. Ainda hoje mantenho o mesmo carinho nostálgico pela música na versão que conheci originalmente (acima), mas o facto de se tratar de um cover passou a exprimir um outro conceito por causa daquela minha descoberta: a capacidade de, pegando numa obra original, através de retoques subtis (como a letra ou os arranjos musicais), conseguir torná-la em algo que se torna muito mais agradável para o que se pensa ser o gosto da assistência. Tenho-me lembrado ultimamente do processo, cada vez que Paulo Portas aparece institucional nas televisões a anunciar em meias-verdades as medidas de austeridade. Usando o título original da canção para um trocadilho em inglês sobre os retoques brilhantes que Portas adiciona às suas comunicações: We’re being blinded by the light¹

¹ Estamos a ser cegados pela luz.

FOTOGRAFIA E PROPAGANDA DURANTE A GUERRA CIVIL CHINESA

Duas fotografias de momentos de vitória na Guerra Civil chinesa (1945-1949) mostram como os comunistas precisavam que aquilo que fosse fotografado do seu lado do conflito tivesse não apenas uma estética mas quanto ela fosse ortodoxa. Na imagem acima, trata-se de uma coluna de infantaria que se aproxima de Pequim quando da conquista da cidade em Janeiro de 1949. Na de baixo aparece uma unidade de cavalaria que acabara de conquistar Xangai em Maio desse mesmo ano. Esta última, será possivelmente muito mais espontânea do que a anterior, mas ideologicamente desinteressante: os soldados do Exército de Libertação Popular perdem a humildade de classe quando montados a cavalo e a obrigatória referência às origens camponesa da Revolução dilui-se numa paisagem completamente urbana, onde um edifício com mais de uma dúzia de andares dá uma evidente (mas incómoda) nota de sofisticação.

14 outubro 2013

É TUDO GENTE FINA!

Jorge Coelho cumprimenta efusivamente Manuel Dias Loureiro com Joaquim Pina Moura em fundo. A história destes três homens é feita dos aproveitamentos das suas carreiras políticas que estão longe de ser recomendáveis mas há que reconhecer que, noutras condições, deveriam ter sido distintas as sanções sobre eles, considerando a gravidade dos percursos empresariais percorridos por cada um. Nesta altura dos acontecimentos porém, já será muito tarde para condenar apropriadamente quem o devia ter sido e para evitar que a opinião pública considere que, sento tudo gente fina, não é da mesma fineza para que não se considere tudo farinha do mesmo saco.

«MUCH ADO ABOUT NOTHING (2)?»

Se há defeito que os portugueses não podem ser acusados é o do Orgulho. Não estou a conceber muitos países europeus que se dispusessem a tolerar uma reinvestigação por parte de uma polícia estrangeira (britânica) como está a acontecer com o caso do desaparecimento de Madeleine McCann, para mais quando essa investigação está a ser a feita com um estardalhaço mediático tal que só pode insultar os anfitriões. Por acaso, emoções à parte, creio que a nossa atitude até será a atitude mais correcta de adoptar. Embora muito me surpreendesse se viesse a haver qualquer evolução substantiva no caso com estas iniciativas, é sempre salutar que exista um escrutínio público, uma espécie de controle de qualidade às capacidades de investigação das nossas polícias. No fim, resta esperar que, na eventualidade infeliz desta iniciativa nada produzir, as autoridades e a polícia britânica venham a dar mostras da uma humildade simétrica àquela por ora demonstrada pelas suas congéneres portuguesas...
Entretanto, quem já se animou ainda antes do aparecimento de notícias, foi o circo da informação: há uma nova versão sobre o desaparecimento da criança, há retratos-robot de uma pessoa misteriosa, há mesmo quem tenha sido detido por se ter gabado em privado de ter estado com a criança este Verão na Grécia, está prometido um programa televisivo em prime-time na BBC para o serão de hoje. Uma atitude colectiva tão tipicamente inglesa que já William Shakespeare lhe parece ter dedicado uma peça de teatro no Século XVI a que deu o título de Much Ado for Nothing (acima: Muito barulho para nada). Na verdade e por uma questão de equidade a respeito deste mesmo assunto que, recorde-se, já se arrasta há quase seis anos e meio e sempre com uma visibilidade mediática invejável, há uma pergunta que nos surge instintivamente e que não encontrei nem perguntada nem respondida no meio do barulho: além deste, quantos casos de crianças desaparecidas em Inglaterra existem por resolver desde Maio de 2007 para cá?...

13 outubro 2013

O ESTILO CALOROSO DE ARGUMENTAR QUE O CALOR É NO «ESTILO»


Convém começar por realçar que tudo não passa de um mero concurso. Onde os autores das perguntas parecem tão dessintonizados da actualidade que se esqueceram que os Xutos & Pontapés não passam hoje de umas velharias. Mesmo assim, o concurso e a apresentadora Manuela Moura Guedes tiveram direito aos seus 15 minutos de interesse por ocasião de uma pergunta (mal elaborada) colocada a uma das concorrentes (acima). O que considero mais engraçado, porém, não é o disparate (lapso?) da expressão calor no estilo, é antes o estilo caloroso como Manuela Moura Guedes argumenta no final, censurando a opção da concorrente, em favor do óbvio da resposta certa que está errada. É engraçado como calor no estilo, por oposição a rigor na substância, é simultaneamente o tema em discussão e uma descrição feliz da atitude de Manuela Moura Guedes, que se revela ali de uma monumental ignorância já suspeitada, mas sobretudo capaz de argumentar em defesa de tudo, de tudo mesmo.

12 outubro 2013

REAGAN E OS BOMBONS

A existência da fotografia acima é uma confirmação evidente da forma como certos sectores da Administração Reagan entendiam a distribuição de forças logo imediatamente depois da sua tomada de posse em Janeiro de 1981. Ao centro da fotografia aparece o Secretário de Estado Alexander Haig, à sua direita vê-se o Conselheiro para a Segurança Nacional Richard V. Allen mas aquilo que é mais significativo na fotografia é a expressão travessa do Presidente Ronald Reagan, surpreendido a surripiar alguns doces de um frasco no centro da mesa numa sugestão subtil de senilidade (Reagan tinha então 70 anos) e/ou da sua incapacidade para a assunção das responsabilidades do cargo. Contudo, essa arrogância da dupla Haig/Allen acabou por se virar contra eles quando publicamente assumida durante a conferência de imprensa promovida por Alexander Haig (fotografia abaixo) na sequência do atentado e hospitalização de Ronald Reagan ocorridos em 30 de Março de 1981, ocasião onde se tornou memorável o comentário de Alexander Haig de que era ele que, por agora, estava no controlo na Casa Branca (As of now, I am in control here, in the White House.).
A atitude e a ousadia, apesar de defensável, visto o Vice-Presidente George H. W. Bush estar naquele momento ausente de Washington, parecia constituir uma ultrapassagem descortês das regras formais estabelecidas para a sucessão na presidência no caso da incapacidade de um Presidente. O episódio e o seu impacto negativo na opinião pública e publicada, constituiu uma oportunidade para que os rivais da entourage de Reagan formassem uma coligação de quase todo o resto da Administração contra a dupla. Após o restabelecimento e o retorno de Reagan às funções presidenciais três semanas depois, nunca mais cessaram as intrigas contra os dois: Richard Allen não chegou a completar um ano em funções, demitindo-se em princípios de Janeiro de 1982 e Alexander Haig só conseguiu durar mais seis meses, até Julho de 1982. Uma outra fotografia tirada do mesmo local mas com outro enquadramento, mostra-nos essa outra realidade, com Ronald Reagan (naturalmente) ao centro, a dupla Haig e Allen de um lado e, do outro, os seus rivais William P. Clark (Subsecretário de Estado), James A. Baker (Chefe de Gabinete) e Caspar Weinberger (Secretário da Defesa).

11 outubro 2013

O NOBEL DA ECONOMIA PARA GOSCINNY

O anúncio encadeado dos vencedores dos Prémios Nobel deste ano despertou-me o desejo de os parodiar, especialmente o da Economia, por ora ainda não atribuído, e que desejaria que o fosse ao argumentista René Goscinny (1926-1977)¹ por causa da profunda influência de alguns dos seus trabalhos para o pensamento económico predominante na actualidade. Costuma referir-se muito a influência da escola austríaca nesse pensamento, mas atente-se ao trabalho de Goscinny, um amador onde as suas raízes judaicas e leste-europeias podem explicar toda uma verdadeira intuição genial para as questões económicas.
Em Jesse James, Goscinny criou um vilão homónimo que é dilacerado por um problema de natureza redistributiva: sendo ele um assaltante que se propunha agir em função de profundos princípios éticos, copiados de Robin dos Bosques, que roubava aos ricos para dar aos pobres, como é que ele evitava a armadilha de dar aos pobres, enriquecendo-os e, com isso, tornando-os por sua vez alvos dos seus assaltos? A solução é dada pelo irmão Frank James (acima): cria-se um sistema rotativo alternado rico-pobre entre os membros da família. A benemerência é assegurada, com a vantagem, como diz o próprio, de o dinheiro nunca sair da família.
Mais adiante, nessa mesma obra e já abandonado o dilema da redistribuição do saque entre ricos e pobres, somos confrontados com o corolário das leis da redistribuição da riqueza de Jesse James que estabelece que, para efeitos de um assalto, vários pobres, quando se quotizam, equivalem a um rico. Esta norma de tabela de conversão entre pobres e ricos tem vindo a ser desenvolvido desde esta sua conceptualização e tem-se vindo a descobrir, para efeitos de tributação e agora de consolidação orçamental, que a quotização de vários pobres parece ter tornado preferível à colecta de um rico, por muito que isso pareça contra-intuitivo numa democracia, onde os votos dos vários pobres valem mais do que o de um rico.
Um outro exemplo presciente é a censura, aparecido em A Cidade Fantasma, de que dar tiros no dinheiro é imoral. Não será para a interpretar literalmente, mas é curioso como as análises da estrutura da despesa pública que se lêem por aí, tendo em vista quais as grandes rúbricas que se devem cortar têm uma singular tendência para omitir da análise as parcelas respeitantes a juros e despesas de capital. O contraste é tanto maior quando essas análises se pretendem iconoclastas, desafiando os fundamentos do estado social em todas as despesas, mas, no que diz respeito à hipotética redução da parcela do pagamento dos rendimentos do capital, são de um respeito religioso...
Haverá ainda muito mais exemplos, como este outro contributo teórico, aparecido em Astérix e o Caldeirão, com a noção de que proclamações recheadas de princípios e veementemente encenadas podem servir de substituto a preocupações genuínas dos grandes actores económicos com os interesses nacionais dos seus países de origem. Mas suponho ter conseguido transmitir a ideia de que existirá uma (espécie de) doutrina económica na obra de Goscinny a merecer a atenção da Academia das Ciências de Estocolmo¹.

¹ A sério e em rigor, como aqui se explica, convém esclarecer que os Nobel só podem ser atribuídos em vida do laureado.