30 abril 2013

A CRISE DE BIZERTA

A Tunísia foi um protectorado francês desde 1881 até 1956. Quando a França lhe concedeu a independência, a 20 de Março de 1956, reservou para si o usufruto da base naval de Bizerta. A cidade de Bizerta era um daqueles portos naturais de fundação fenícia que ganharam depois relevância comercial durante o apogeu dos cartagineses e cuja localização se pode apreciar no mapa acima, dispensando as explicações sobre a sua importância no Mediterrâneo central.
Essa concessão da independência à Tunísia por parte da França também deve ser relacionada com a Argélia vizinha e com a guerra subversiva que lá se começara a travar para a sua independência desde há ano e meio. A França aliviara-se das suas duas outras possessões no Magrebe, Marrocos e Tunísia (acima), para se concentrar na Argélia, onde existia uma comunidade de um milhão de europeus que  coabitava com uma maioria muçulmana de oito milhões.
Porém, a causa da solidariedade árabe depressa povoou as regiões fronteiriças da Tunísia com locais de treino e refúgio dos insurrectos argelinos da FLN (os triângulos do mapa acima) com a base naval à ilharga a incomodar a sua logística. Mas em 1961, quando se desencadeou a crise de Bizerta, quase tudo mudara. A França, agora dirigida por de Gaulle, desistira de se manter na Argélia e ela parecia enfraquecida, houvera até um pronunciamento militar em Argel para derrubar o governo.
Pelo menos fora esta a leitura do presidente tunisino, Habib Bourguiba, aos acontecimentos de Abril de 1961 em Argel, quando agora pretendia forçar a nota em proveito do seu país através de um pretexto: os franceses haviam procedido a obras de ampliação da pista de aviação sem o participar. A escalada que se seguiu atingiu o seu clímax a 20 de Julho de 1961 com três dias de violentos combates entre os militares franceses e a mistura político-militar tunisina¹ que se lhes opunha.

O desfecho – a captura da cidade propriamente dita pelos franceses – pode ser vista no vídeo acima. Mas, como já acontecera em 1956 no Egipto com a Crise do Suez e estava em vias de acontecer com a Argélia vizinha, a superioridade táctica francesa não se conseguia concretizar numa superioridade política equivalente. O que ali se conseguiu foi o privilégio de determinar a data de abandono da base, em 15 de Outubro de 1963, só depois da independência da Argélia.
¹ No final desses combates os franceses tinham aprisionado 780 tunisinos, dos quais apenas 419 eram militares, 361 eram civis capturados com armas.

29 abril 2013

O GRANDE MUÑOZ GRANDES

O general Muñoz Grandes (1896-1970), que na fotografia acima vemos à esquerda num encontro com Adolf Hitler acompanhado de um tradutor, foi o comandante da 250ª divisão de infantaria do exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial (1941-42), uma unidade totalmente constituida por voluntários espanhóis e alcunhada de divisão azul por causa disso (azul era a cor das camisas dos membros da Falange, a componente política do franquismo). A 250ª permaneceu na Frente Leste, uma divisão entre mais de duzentas que ali estiveram engajadas do lado do Eixo, combatendo contra os soviéticos até Outubro de 1943, quando a evolução do conflito fez com que o prudente Franco, antecipando o desfecho da Guerra, lhe desse ordem de retirada. A esta intervenção espanhola ao lado da Alemanha costuma ser dado um incontornável significado político, mas o seu impacto militar para o desfecho da Guerra, o que houve de grande, perdoe-se-me o trocadilho, só mesmo as grandes orelhas do general Muñoz Grandes...    

O FOGUETÃO DO SOCIALISMO EXPLORADO PELO CAPITALISMO

Já neste blogue me referi à Corrida Espacial especialmente à Corrida à Lua (acima), que os norte-americanos venceram por falta de comparência, embora eu já me tivesse entretido aqui a juntar os dois programas lunares como se a disputa tivesse chegado a ser ombro a ombro. Esse poste que então escrevi torna-se um bom princípio para introduzir ao leitor alguns aspectos técnicos essenciais para escrever o actual. Como se observa pela fotografia abaixo que de lá recuperei, os dois foguetões dos programas, o Saturno V norte-americano (à esquerda) e o N1 soviético, eram enormes e de dimensões muito semelhantes (110 e 106 metros de altura).
Havia porém uma diferença significativa nas características dos respectivos primeiros andares: enquanto o do foguetão norte-americano era equipado com cinco enormes motores F1 com 690 toneladas de potência cada, o foguetão soviético era equipado com nada menos de que trinta(!) motores NK-15 debitando 154 toneladas cada (abaixo). Fazendo contas, o primeiro andar dos soviéticos era cerca de um terço mais possante que o dos norte-americanos (154 x 30 = 4.620 e 5 x 690 = 3.450) mas tornava-se muito mais propenso a acidentes pois exigia-se que houvesse uma sincronização perfeita entre os trinta sistemas.
Simplificando a história que é necessariamente mais complexa, os desenvolvimentos do NK-15 que precisava de ser 100% fiável para que o N1 pudesse descolar só se concluíram quando a corrida para a Lua já fora definitivamente perdida e o modelo já se designava por NK-33. O N-1 nunca chegou a descolar com sucesso e entretanto a alteração das prioridades do programa espacial soviético fez com que se tivessem acumulado dezenas de motores NK-33 sem préstimo. Até ao fim da União Soviética. Nos anos 90, uma companhia privada norte-americana comprou (e a Rússia vendeu...) alguns desses motores, interessada em os continuar a desenvolver.
Há menos de duas semanas foi anunciado, com um espavento que não considerei inócuo ideologicamente, o lançamento inaugural por parte de uma empresa aeroespacial norte-americana denominada Orbital Sciences Corporation de um foguetão baptizado de Antares, mais um argumento em prol da privatização progressiva do negócio do espaço, um dos poucos ainda reservados a actores institucionais. Torna-se irónico identificar na ficha técnica deste novo sucesso da iniciativa privada um primeiro andar que é constituído (abaixo) por um par de evoluções dos velhinhos HK-33 socialistas e soviéticos dos tempos da Corrida à Lua

28 abril 2013

QUEM TEM MEDO DO COMUNISMO?

Algumas canções de intervenção assumiram importantes funções pedagógicas, procurando desenraizar o medo das massas populares pelo comunismo, como este caso injustamente esquecido de Quem tem medo do comunismo? de 1975 da autoria de Fernando Tordo e José Jorge Letria e interpretada pela própria dupla de autores. Trata-se de uma interrogação que é também a resposta aos justos anseios intelectuais das classes trabalhadoras. Um verdadeiro tesouro entre as canções mais genuínas do Processo Revolucionário Em Curso (PREC), que hoje se encontra infelizmente esquecido. Também não serão de perder algumas notas finais que acrescentei à transcrição da letra. 
 
Anastácio Pimpinela em roupão de cetim
Atirou-se da janela pensando que era o fim
E escreveu no testamento com tinta perfumada
Que ninguém o privaria da propriedade privada
 
Quem tem medo do comunismo?
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
 
Agapito Rapazote¹ grande latifundiário
Pendurou-se num barrote para não pagar o salário
E o resto da canalha, capatazes e polícias,
Embarcou para o Brasil para reforçar as milícias  
 
Quem tem medo do comunismo?
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
 
Eleutério Pintassilgo¹ que roubou o que podia
Tirou bilhete de ida e foi fazer queixas à CIA
Foi dizer que os comunistas são do pior que há
Mas socialismo em liberdade² ainda vá que não vá
 
Quem tem medo do comunismo?
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
 
E as seitas dos traidores do monóculo no olho³
Foi fazer guerras civis³ para o meio do restolho
Mas o perigo continua aqui mesmo à nossa porta
Enquanto a reacção não estiver morta e bem morta
 
Quem tem medo do comunismo?
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
São os latifundistas, são os monopolistas, são os colonialistas
Enfim… os parasitas!
Enfim… a reacção!

¹ Pode ser coincidência mas alguns apelidos mais bizarros usados parecem coincidir com os de alguns dignitários do regime deposto a 25 de Abril, nomeadamente Gonçalves Rapazote, antigo ministro do Interior e Maria de Lourdes Pintassilgo, procuradora à Câmara Corporativa. Ironicamente, esta última veio a ser posteriormente sob o regime democrático não apenas primeira-ministra (1979-80), também candidata à presidência da República (1985) apoiada pela extrema-esquerda (7,4%) e ainda eurodeputada (1987-89) pelas listas socialistas.
² Socialismo em liberdade era o slogan então empregue pelos socialistas portugueses para se distinguirem dos comunistas. Ironicamente, o autor da letra, José Jorge Letria, depois de abandonar o PCP em 1991, veio a filiar-se no PS em 1995 e a desempenhar funções autárquicas eleito por esse partido.
³ O monóculo no olho é uma referência ao general António de Spínola. Ironicamente quando o país veio a ficar efectivamente à beira de uma guerra civil como a letra refere (em Novembro de 1975), Spínola já estava exilado e distanciado do cerne da disputa política em Portugal.

27 abril 2013

BAPTISMO DE VOO

Esta fotografia de 1960 de António Sena da Silva coloca-nos à hora de almoço (13:01) no átrio de um aeroporto da Portela então muito diferente, sob a tutela de um logotipo de então da TAP (ao fundo), muito antes dos períodos de espera se diluírem em revistas à pessoa e aos seus pertences, mas quando os nervos dessa espera – muito bem dissimulados na fotografia – se justificavam muito mais do que hoje, pois para uma maioria dos passageiros tratava-se do seu baptismo de voo.

O SOUSA CAIADOR MAIS CONHECIDO POR...

O pide que eu conheci quando já deixara de ser pide dava pelo nome de Sousa. Bom, não seria propriamente Sousa, mas era um outro apelido igualmente curto e suficientemente vulgar para que na sua terra de origem tivesse havido a necessidade de lhe acrescentar uma alcunha para o distinguir de toda a parentada próxima e homónima: caiador. Era o Sousa Caiador… A alcunha não se revestia de nenhum conteúdo profissional ou profissionalizante (como hoje se diria), muito menos era resultado de uma sua actividade predilecta para amealhar mais uns tostões naqueles tempos de dificuldades, mas era tão-somente a evocação de um episódio menos feliz, dos tempos em que ele frequentara o seminário (que fora fonte de estudos para muita família mais ambiciosa mas menos abonada da região), em que a falta de material e a urgência da ocasião o fizera socorrer-se das mãos com uma finalidade tão específica que estas deixaram traços que lhe deram uma reputação que o acompanharia para o resto da vida. Apesar de ter acontecido no seminário, longe de casa, é evidente que todos os seus conterrâneos conheciam a história que lhe granjeara a identidade própria entre os Sousas…
Mais do que isso, o celebrado episódio que estava por detrás da alcunha permitia que ele fosse designado coloquialmente tanto pela versão mais suave, caiador, como pela outra mais cáustica, cagão, conforme as circunstâncias e os sentimentos de quem a ele se referia. Tendo entrado para os quadros da temida PIDE, o tratamento por Sousa Caiador quase desapareceu do léxico local, entalado entre o Sousa Cagão que só se pronunciava em surdina e apenas com quem de confiança e o Sousa Sem-Mais-Nada, adequado a quem reconhecia as forças em presença e não se queria meter em aborrecimentos. Contam os relatos, mesmo os mais imparciais, que nesses tempos da sua glória, o Sousa se comportou de forma arrogante, mais Cagão do que Caiador. Depois veio o 25 de Abril e a desforra, época em que o tratamento por Caiador, mais aceitável socialmente, ficou reservado a uma minoria de conterrâneos mais urbanos e menos vingativos. Mas o Sousa continuou até ao fim comportando-se para que os outros o continuassem a tratar pela sua alcunha hard, azedo com o Mundo e com a ingratidão dos homens, ele que tantos favores fizera quando estivera na polícia internacional àqueles que agora o desprezavam…

26 abril 2013

AS ABÓBORAS E OUTRAS CUCURBITÁCEAS QUE DESABROCHARAM EM ABRIL

É reconfortante descobrir que a fotografia acima pôde desencadear as memórias e a disposição para uma maravilhosa história aparecida no Âncoras e Nefelibatas sobre um pai boa pessoa, que arranjou uma porção de problemas ao seu casamento para desaparecer por um par de dias em Agosto de 1974 para uma caçada no Alentejo. A história começara semanas antes, quando de outra caçada, essa legítima, que fora interrompida pelo aparecimento de dois pides evadidos de Alcoentre, surpreendidos a comer abóboras ainda verdes com os meios que a natureza lhes dera. Esta outra caçada destinava-se a fazer os foragidos atravessarem clandestinamente a fronteira para Espanha numa inversão assaz irónica do enredo de Cinco Dias, Cinco Noites de Álvaro Cunhal.    
 
Se os temos lá matado não se perdia nada que eles eram uns malandros que desgraçaram prá’í a vida a tanta gente.
E a mim não ma desgraçaram porque não calhou, que ainda pensaram em judiar comigo.
É pá, mas porra!
Os homes a comerem abóboras às mãos juntas que é coisa que a gente dá aos porcos!
Tal era a fome, pois que fartura traziam eles nenhuma…, todos rasgados dos matos e das silvas dos rios…
Tivemos dó deles.
Sem me parecer aspirar a quaisquer pretensões literárias, mas porque se lhe reconhece aquele travo de autenticidade e se vai sempre a tempo de não deixar apagar a memória, aprecie-se o contraste entre a severidade compadecida da atitude e do depoimento acima e a ternura distraída invocada pela poesia abaixo de José Carlos Ary dos Santos nas quadras que são por ele declamadas previamente à interpretação de Fernando Tordo do Fado de Alcoentre, fado esse que tem por tema precisamente a fuga dos 89 pides, o lote de onde faziam parte os dois comedores de abóboras. 
 
Mas enquanto homens lutavam com uma entrega total
Outros homens conspiravam contra o novo Portugal
Essas hienas que apertavam o garrote da tortura
Enquanto a Democracia se distraía em ternura
Esses homens que hoje saem da prisão em liberdade
Cães que rosnam, cães que traem, e passeiam na cidade

Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
 
Os pides desceram pela corda alegremente. Os guardas andavam passeando em Alcoentre.
E a esquerda levou com mais um corno pela frente. Esta maldade não se faz à gente.
Que merda!
 
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
 
As grades foram todas serradas a preceito. A fuga aproveitou-se do que era imperfeito.
E a esquerda, por causa da vergonha deste feito, pode apanhar uma bala no peito…
Que merda!
 
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
 
Quem foram os que de fora das grades ajudaram? Quem foram os que dentro das grades os armaram?
A esquerda não esquece tubarões que a torturaram. Não pode perdoar se a enganaram.
Que merda!
 
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
 
Agora, a vigilância é tudo o que nos resta. Pr’ós pides, a vida na prisão… era uma festa.
E a esquerda tem mais do que razão quando protesta, pois pode apanhar um tiro na testa…
Que merda!
 
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…
Que se passa? Então isto não é uma ameaça?
Ali andou mãozinha de reaça. Deixaram fugir mais oitenta e nove…

Refira-se, para rematar, que teorias da conspiração sobre aquela fuga há para todos os gostos: veja-se esta que até dispensa fascistas.

25 abril 2013

AINDA IMAGENS DO 25 de ABRIL ORIGINAL: A PRISÃO DO PIDE

O rebranding que fora promovido em 1969 sob Marcello Caetano nunca funcionara: a antiga Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) mudara o seu nome para Direcção Geral de Segurança (DGS), mas a manutenção de tudo o resto, competências, estrutura, director (major Silva Pais) fizera com que, a justo título, a instituição e os seus agentes continuassem a ser designados pelo nome de sempre: a PIDE, um pide. Na fotografia é um deles que é preso por quatro soldados diante de uma assistência de outros tantos populares que parecem assistir, não da bancada mas do peão, à Revolução que se desenrola a 25 de Abril. A roupa a secar numa varanda e meio anúncio luminoso de uma loja de Gazcidla (o gás engarrafado consumido pelas classes baixas) confirmam o retoque popular da imagem.

O BLINDADO DO OUTRO LADO

Depois de ter sabotado as fotografias de alguns festejos do 25 de Abril apontando-lhes o pormenor dos cravos andarem a ser postos em armas erradas, deixem-me aproveitar nova comemoração da data para outros pormenores que não interessarão a ninguém, nomeadamente o da fotografia acima, onde um popular de dedos em V, sinal de vitória, aparece a celebrar antecipada e exuberantemente o sucesso da Revolução numa das ruas da baixa lisboeta, precisamente diante de um carro de combate M-47 que partira do quartel do Regimento de Cavalaria 7 propositadamente para a esmagar…

24 abril 2013

CASAMENTOS QUE PARECEM ALEGRAR A HUMANIDADE (PELO MENOS PARTE DELA…)

Eu sei que o Uruguai é um país que fica na América do Sul e que a sua capital é Montevideu. Sei até que é uma democracia presidencialista mas já tenho que recorrer a consultas para saber o nome do presidente (José Mujica) e qual o partido com maior representação parlamentar (Frente Ampla). Sei muito mais sobre a França, país que nos está muito mais próximo, cultural e geograficamente. Mas mesmo assim, foram precisos terem-se passado quase dez anos depois da sua aprovação para descobrir que existia no Direito civil francês uma figura chamada Pacto Civil de Solidariedade, que me parece uma espécie de casamento civil em versão suave. Mas suspeito que, não fosse o facto do ex-casal François Hollande / Ségolène Royal terem desfeito esse mesmo pacto que os unia, e ainda não teria sabido da sua existência. O direito civil vigente nos variados países do Mundo não costuma ser assunto digno de alimentar noticiários, nem mesmo quando exótico, como por exemplo o caso da poligamia na África do Sul, reconhecível porque o presidente Jacob Zuma tem quatro esposas

É assim que parece totalmente desproporcionada a exuberante cobertura noticiosa que é dada quando das extensões dos direitos civis do matrimónio aos casais homossexuais, seja na África do Sul, no Uruguai ou agora em França. Serão excelentes notícias para uma minoria (suponho que os heterossexuais ainda sejam maioritários…) de estrangeiros (esse direito já está consagrado em Portugal desde 2010), mas a relevância do acontecimento não passará desse pouco, e o empolamento só se pode compreender pela militância ou pela incompetência. Exemplificativamente: se num ano a nossa comunicação social não chegará a dar relevo a uma dúzia de notícias que sejam oriundas da Nova Zelândia, por que será que dessa parca dúzia uma delas será a da aprovação dos casamentos homossexuais? Acredito que quantos mais homossexuais se puderem casar em mais países mais aumentará a onda de alegria que grassa nesse segmento da Humanidade, mas será que o assunto é assim tão sério que ombreie (e às vezes desaloje…) a guerra civil na Síria ou a situação na Coreia?  

Desta vez acabo por onde costumo começar: a fotografia inicial é de um casal, ela é Erika Mann (1905-1969), escritora e actriz alemã, filha do escritor Thomas Mann; ele é W.H. Auden (1907-1973), poeta de origem inglesa que se veio a radicar nos Estados Unidos naturalizando-se norte-americano. A fotografia datará da segunda metade dos anos 1930, pois os dois casaram-se em 1935. Tratou-se de um casamento de conveniência, visto que Erika era lésbica e Auden homossexual, mas foi a forma dela adquirir nacionalidade britânica e fugir às perseguições que estava a sofrer na Alemanha nazi. Curiosamente, para um casal que nunca o foi, este outro casamento de homossexuais durou 34 anos, até à morte de Erika. 

23 abril 2013

A COMUNICAÇÃO PRESIDENCIAL


Há precisamente 52 anos, a 23 de Abril de 1961, um Domingo, um General de Gaulle acossado por um pronunciamento militar que sublevara as forças armadas directamente engajadas no conflito argelino vem socorrer-se mais uma vez da rádio e, pela primeira vez em larga escala, da televisão. O histórico debate presidencial entre Kennedy e Nixon do outro lado do Atlântico tivera lugar apenas há oito meses e em atenção a este último meio de comunicação, um de Gaulle sempre actualizado aparecia propositadamente fardado com a sua desactualizada farda de general da Segunda Guerra Mundial. O discurso que proferiu corroborava aquilo que se via pelo ecrã: 

Um poder insurrecto estabeleceu-se na Argélia através de um pronunciamento militar.
Os culpados da usurpação exploraram a paixão dos quadros de certas unidades militares, a adesão inflamada de uma parte da população de origem europeia assustada por temores e mitos, a impotência das autoridades submergidas pela conspiração militar.
Este poder tem uma imagem: um quarteto de generais reformados. Exprime também uma realidade: um grupo de oficiais facciosos, ambiciosos e fanáticos. O grupo e o quarteto mostram ter um desembaraço expedito mas limitado. Mas eles não vêem nem compreendem a Nação e o Mundo senão através da deformação do seu frenesim. O seu empreendimento só pode conduzir a um desastre nacional.
Porque o enorme esforço de recuperação da França, iniciado desde o fundo do abismo a 18 de Junho de 1940, prosseguido até que, apesar de tudo, a Vitória foi alcançada, a independência assegurada, a República restaurada; repegada desde há três anos, a fim de refazer o Estado, de manter a unidade nacional, de reconstituir o nosso poder, de reestabelecer a nossa posição no exterior, de prosseguir a nossa obra no Ultramar através de uma descolonização necessária, tudo isso se arrisca a ser em vão, mesmo em vésperas de ser alcançado, pela aventura odiosa e estúpida dos insurrectos na Argélia. Eis o Estado violentado, a Nação desafiada, o nosso poder minado, o nosso prestígio internacional rebaixado, o nosso lugar e o nosso papel em África comprometidos. E por quem? Veja-se lá, veja-se lá! Por homens cujo dever, honra e razão de existir deveria ser servir e obedecer.
Em nome da França ordeno que todos os meios, e realço todos os meios, sejam empregues em todo o lado para bloquear o caminho a esses homens, até eles serem dominados. Proíbo todo o francês, a começar por qualquer soldado, de obedecer às suas ordens. O argumento de que pode ser necessário aceitar o seu comando pontualmente sob o pretexto de obrigações operacionais ou administrativas não deverá enganar ninguém. Os únicos chefes, civis e militares, que têm o direito de assumir responsabilidades são aqueles que foram devidamente nomeados para o efeito e que, precisamente, os insurrectos estão a impedir de agir. O destino dos usurpadores não deverá ser mais do que aquele que lhes for destinado pelo rigor das leis.
Diante da infelicidade que paira sobre a Pátria e a ameaça que pesa sobre a República, tendo ouvido as opiniões oficiais do Conselho Constitucional, do Primeiro-Ministro, do Presidente do Senado e do Presidente da Assembleia Nacional, decidi accionar o artigo 16 da nossa Constituição. A partir de hoje, irei tomar, conforme as necessidades, as medidas que parecerem exigíveis pelas circunstâncias. Através delas, assumo-me, tanto hoje como amanhã, como guardião da legitimidade republicana que a nação me conferiu, que manterei aconteça o que acontecer, até ao fim do meu mandato ou até que me faltem, quer as forças, quer a vida, caso em que assegurarei que ela se mantenha depois de mim.
Francesas, franceses! Vejam para onde se arrisca a ir a França, em comparação com aquilo em que ela se estava a tornar.
Francesas, franceses! Ajudem-me.

PASSO DE GANSO

A pretexto de uma notícia da actualidade, a futura (mas ainda contestada) fusão do Colégio Militar com o Instituto de Odivelas, permitam-me inserir esta fotografia tirada em Odessa em 1982, nos bons velhos tempos da União Soviética. Não sei de que cerimónia se tratará mas é uma cerimónia socialista em todo o seu rigor de inspiração marxista-leninista, desde o aprumo impecável da rapariga que está a marchar à igualdade dos géneros numa formatura que é composta por rapazes e por raparigas até ao indispensável retoque dialéctico final, que desmente essa igualdade, pois só os rapazes é que estão armados… – com PPSh-41, segundo creio.

22 abril 2013

SOARES O INTELECTUAL E O DESTINO DOS POLÍTICOS «COLABORACIONISTAS»

Nem mesmo num país tão pouco exigente como o nosso, e apesar do seu percurso político notável, nunca Mário Soares conseguiu implantar uma imagem de alguma (mínima) substância intelectual. A imagem intelectual que eu tenho de Mário Soares adequa-se a estas fotografias que escolhi: acima, aparece encostado a uma Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira em 40 volumes, obra com um encadernamento sóbrio que fica bem numa estante de qualquer sala de estar, mas de que já se celebraram as bodas de diamante das edições dos volumes inciais, e abaixo, por ocasião de um doutoramento Honoris Causa, onde contracena com esse vulto do pensamento norte-americano moderno que dá pelo nome de Stevie Wonder.  
Soares nunca foi muito dado a esse tipo de coisas, sobre ele ganhou fama a frase que dizia que não lia os dossiers, sem se especificar sequer qual o conteúdo ou a pertinência dos ditos. Mas os resultados de uma atitude de quem, diante de um assunto que mal se conhece, preferir dizer uma coisa qualquer em vez de se ser mais prudente comprovava-se em exemplos como os de preconizar a integração de Timor-Leste na Indonésia (em Portugal Amordaçado, por analogia com o caso de Goa, Damão e Diu e da Índia) ou a extinção do Colégio Militar (constante do programa do Partido Socialista em 1973) sem sonhar com as implicações políticas dessas medidas. A idade porém (88 anos), cada vez mais desculpa aquilo que Mário Soares diz publicamente.  
Até se cair no extremo oposto. Negligenciam-se por sistema as afirmações proferidas em seu nome porque sim, porque Soares está senil, porque Soares já era assim antes de estar senil. A referência ao assassinato de Carlos I (acima), que se tornou objecto de gozo, explicar-se-á pelas suas obcecações contra Cavaco Silva mas também pelas limitações académicas da entourage que agora se exprime em seu nome. Contudo, a observação torna-se pertinente nestes tempos de extremismo político, se a depurarmos do aspecto pessoal. Não foi a eles, os que se servem de Soares, que se têm ouvido comentários públicos, que se têm multiplicado, questionando o patriotismo e a transparência dos objectivos de Vítor Gaspar, promovido ao verdadeiro cérebro governamental.
Quase ninguém reconhecerá as fotografias de Matthias Erzberger (1875-1921, acima à esquerda) e de Walther Rathenau (1867-1922), dois políticos alemães – e como me dá prazer evocar estes exemplos alemães! – que foram assassinados pelo seu alegado colaboracionismo nos anos imediatos ao fim da Primeira Guerra Mundial. Aceite-se que se estava numa época em que se assassinava ministros com facilidade, recorde-se o caso de António Granjo (1881-1921) em Portugal, mas a Erzberger e Rathenau também lhes pareceria naquela conjuntura de uma Alemanha derrotada e exausta que não haveria qualquer outra alternativa política a que se cumprisse escrupulosamente os pagamentos das indemnizações de guerra exigidas pelos vencedores no Tratado de Versalhes.
Acresce, à semelhança do exemplo de Vítor Gaspar e muito antes do Excel, que Walther Rathenau também fora um técnico reputado, responsável pelo sucesso da organização da produção de guerra da Alemanha imperial (acima, um relatório de 1915). Mas, em tempos de paixões políticas inflamadas, esse género de argumentos racionais não foram suficientes para a reflexão entre os nacionalistas mais exaltados que assassinaram os dois políticos a tiro. Gostamos de nos idealizar como um povo pacífico, tendemos a querer esquecer os feitos de João Brandão ou de Zé do Telhado, e contudo neste caso, discordo do desdém geral que saudou o título da entrevista que Mário Soares deu ao jornal i. São tempos da segurança assegurar a segurança de quem é profundamente odiado.

21 abril 2013

OUTRA FORMA DE CONSTATAR QUE A GUERRA-FRIA ESTÁ ENCERRADA

Se a Segunda Guerra Mundial foi apenas uma, sempre se considerou que ela se concluiu com duas vitórias separadas: a da Europa em que o vencedor principal foi a União Soviética e a da Ásia onde o vencedor principal foram os Estados Unidos. Nesta sua especificidade, as duas fotografias acima, adoptadas para as simbolizarem foram também uma antecipação do distanciamento e progressivo antagonismo que se seguiria ao triunfo: a Guerra-Fria. Mas quando na Rússia actual se promove uma campanha publicitária de cartazes de exterior para reavivar o orgulho patriótico pela VITÓRIA contra a Alemanha de há 68 anos atrás (Это Наша ПОБЕДА traduz-se por É a Nossa VITÓRIA) embora usando a OUTRA fotografia ao contrário, é sinal de que foi dada liberdade em excesso aos criativos e que os Símbolos e a Memória já não são o que eram.

A REELEIÇÃO DO OCTOGENÁRIO

Por muitas explicações razoáveis que possa haver – e o caso que destacarei não é excepção – há qualquer coisa de profundamente malsão em qualquer país quando a solução política passa pela recondução de um octogenário para a presidência, um cargo que tem uma duração que vai de quatro a sete anos. Em Portugal, felizmente que aconteceu o que aconteceu com Mário Soares aos 81 anos em 2006 (acima), mas esta recente reeleição de Giorgio Napolitano em Itália aos 87 anos, faz lembrar estranhamente, pela imagem de desnorte e de falta de alternativas políticas que transmite, a reeleição de Paul von Hindemburg na Alemanha em 1932 quando ele já completara 84 anos (abaixo)… e que teve o desfecho que se sabe. Estarão as democracias da Europa meridional ameaçadas?

20 abril 2013

AINDA O «BITCOIN» E AS MOEDAS PRIMITIVAS

Depois de ter colocado o poste de ontem a propósito deste mesmo assunto apercebi-me da conveniência de ter sido um pouco mais didáctico e metódico quanto às características que um artigo deve ter para ser usado como moeda. Não ajudará a compreender o que é o bitcoin mas consolidará a compreensão das características básicas do que deve ser uma moeda. Afinal há um conjunto de razões para que durante milénios a Humanidade tenha utilizado para moeda pequenos pedaços de metal dos mais diversos desenhos e não necessariamente redondas: no Katanga, por exemplo, eram cruzes de um formato específico (abaixo), tão identificativas que foram incorporadas na sua bandeira nacional quando da tentativa secessionista da região (1960-63).
O que parecia mais importante é que os pedaços de metal fossem pequenos e transportáveis. Para referência, diga-se que ainda hoje as pessoas das sociedades baseadas na economia pecuária tendem a acumular a sua riqueza em cabeças de gado. Mas estas só servem para as grandes transacções porque é incómodo ir a uma feira e trazer uma manada ou um rebanho atrás… Por outro lado, o valor das vacas ou de outros animais não é homogéneo: depende da idade e da sua capacidade de produzir carne e leite. Por outro lado ainda, para serem mantidos precisam de ser alimentados. Mas mesmo com todos esses inconvenientes e apesar dos custos de manutenção, os animais continuam a ser uma boa referência da riqueza por se tratar de algo escasso.
É precisamente essa questão da escassez que poderá fazer compreender a razão para ter havido algumas sociedades que, antes das peças de metal, chegaran a adoptar outros artigos como meios de transacção, caso, por exemplo, das conchas (acima). Mas isso apenas fazia sentido naquelas sociedades que habitavam a muitas centenas de quilómetros do mar, onde aquelas fossem raras. Porém, com a revolução metalúrgica, as pequenas peças de metal, apesar dos custos de produção, superiorizavam-se na função de meio de trannsacção a outros artigos escassos que eram usados, não apenas por serem muito mais resistentes, mas também por poderem ser produzidas em quantidade e em unidades idênticas.
A preferência deslocou-se, à medida que a capacidade de trabalhar os metais evoluiu, para os metais que eram mais escassos: o ouro, a prata, o cobre ou uma sua liga mais resistente, o bronze, numa hierarquia de valores que até hoje vemos perpetuada nas cerimónias protocolares de qualquer evento desportivo (abaixo). Além disso, os metais, ao contrário de outros artigos escassos resultantes de extracção, caso dos diamantes e das pedras preciosas, podiam ser fundidos e combinados em peças de pesos diferentes mas proporcionais, criando umas de menor valor, mais convenientes para as transacções e outras de maior, mais concebidas para serem entesouradas.
Claro que havendo moedas feitas de metais diferentes houve que se convencionar câmbios de conversão do valor entre diferentes metais (como já aqui expliquei mais longamente no blogue relativamente ao ouro e à prata), mas como se usavam os mesmos metais, o câmbio de qualquer moeda nova que aparecesse seria sempre fácil de calcular conjugando o seu peso e composição em metal para a relacionar com as que estavam em circulação. É assim que, por exemplo, se aceitavam as moedas romanas na China sem que os dois impérios comerciassem directamente entre si, muito menos que as respectivas direcções políticas tivessem contactos diplomáticos regulares.
Esta pequena síntese histórica sobre a adopção gradual da moeda metálica pelas sociedades antigas pode ter dado uma impressão incorrecta por se cingir estritamente aos aspectos económicos. Importa acrescentar-lhe alguma profundidade política. Não se deduza do que aqui se escreveu que a profissão de moedeiro foi apenas uma vulgar actividade artesã de quem fornecia um bem de que a sociedade precisava (moeda) e que se foi adaptando às necessidades da procura. O Estado, mesmo nas suas formas mais embrionárias da Antiguidade, sempre a procurou manter sob sua tutela, como aconteceu de resto com a actividade metalúrgica em geral, pois por ali também passava a produção de armamento.