31 março 2013

MENINO-GUERREIRO-ESQUECIDO

Acabei de ouvir mais uma de uma dúzia de análises que se fizeram às consequências da entrevista desta semana de José Sócrates na RTP (no caso, foi o Bloco Central da TSF) e, mais uma vez, ouvi repetir-se o argumento das consequências acrescidas do comentadorismo futuro de José Sócrates quando comparado com o dos seus rivais Marcelo Rebelo de Sousa ou Luís Marques Mendes, por causa de se tratar de um ex-primeiro-ministro.
Todas as vezes que já ouvi repetido o argumento, que esquece as voltas por aí de Pedro Santana Lopes, não pude deixar de pensar como isto constituirão facadas para o seu ego de comentador (também de ex-primeiro-ministro) esquecido. Coitado, se há imagem que ele deixou depois da sua breve (e inglória) passagem pelo poder, foi a de insegurança (acima) e a de uma predisposição para se vitimizar (abaixo).

PÁSCOA 2013

Sintetizada numa fotografia a que se pode atribuir um significado tanto político como meteorológico. O autor é o belga Michiel Hendrickx.

30 março 2013

OS ENTREVISTADORES

Agora, que já terão passado as ondas de choque da entrevista de José Sócrates, regresse-se ao tema para falar daquilo que não vi referido e que considero o pior de toda a entrevista: os entrevistadores. A mesma dupla já fizera o mesmo há seis meses quando entrevistou Passos Coelho, por isso não se poderá acusar Paulo Ferreira e Vítor Gonçalves de parcialidade, mas creio que o estilo de questionar alguém que eles parecem considerar seu antagonista não os leva a lado nenhum. Faz-me lembrar aquelas jogadas de futebol americano onde a equipa que defende placa todos os adversários: o que tem a bola e quem a não tem mas pode vir a ter. Ali, não contei nem cronometrei quantas vezes os entrevistados conseguiram ultrapassar a marca de um minuto concedido a falar sem interrupções mas o padrão, repetido, era o de uma nova pergunta encadeada na anterior, uns vinte a trinta segundos depois de começarem a responder. Ora reconheça-se que a esmagadora maioria de qualquer opinião precisa de mais do que isso para ser expressa…
Ajuda admitir, ao contrário do que se ouviu a Paulo Ferreira nesta última, que aquilo não é uma conversa: é uma entrevista. O jornalista não está ali em pé de igualdade com o entrevistado. O que atraiu a atenção dos espectadores naqueles dois casos foi a presença do primeiro-ministro ou de um ex-primeiro-ministro e não propriamente a fundamentação das opiniões contraditórias dos entrevistadores (quem é Paulo Ferreira?) que, encadeadamente, se fizeram notar ao longo das entrevistas. Eu poderia concluir, notando quanto o método é pouco inteligente se a intenção for apanhar o entrevistado em falso, pois aquelas placagens em cima impedem-no de ganhar velocidade, quando o efeito de uma rasteira se tornaria mais espectacular… Mas prefiro realçar quando esta opinião sobre a mediocridade da prestação dos profissionais envolvidos não parece ter sido compartilhada pelos maiores vultos da opinião publicada, num sinónimo de solidariedade corporativa, neste país onde a incompetência não é apenas da classe política...

29 março 2013

A ILHA DE PÁSCOA - O ELENCO GOVERNAMENTAL

Por causa da Páscoa, falemos da ilha do mesmo nome que tem um pouco mais de 160 km² e se localiza no Oceano Pacífico, num dos locais mais remotos do Mundo: a mais de 2.000 km de distância da região habitada mais próxima, a ilha de Pitcairn, e a mais de 3.500 km do continente mais próximo, a América do Sul, e das costas do Chile, país de que é dependência. Apesar de tudo isso, e de se estimar que a sua população jamais tenha ultrapassado os 15.000 habitantes, as suas estátuas de pedra em formato humano (acima), conhecidas por moai, são mundialmente famosas. Há quase 900 na ilha, e são os vestígios da época de apogeu da ilha. Como nunca se conseguiu decifrar o seu sistema de escrita, aquilo que se pode saber sobre a história da ilha de Páscoa vem das tradições orais e de fontes indirectas (datação por radiocarbono, análises de ADN, etc.). Mas apenas se podem adiantar hipóteses para as causas do colapso civilizacional e demográfico que fizeram com que a população se tivesse reduzido de 10 a 15.000 habitantes nos séculos anteriores para 2 a 3.000 no Século XVIII (1722), quando a ilha foi visitada pela primeira vez por europeus¹. As explicações mais plausíveis associam-se à sobre utilização dos recursos disponíveis, mas a maioria delas têm a correcção política de não querer aprofundar a forma violenta como os ilhéus entraram numa guerra civil sangrenta e prolongada por recursos que eram cada vez mais escassos (uma excepção: A History of Warfare, John Keegan, pp. 24-28), até ao colapso da civilização: não há moais erigidos depois de 1500. É por ter havido esse ambiente autodestrutivo e pela sua semelhança com o actual momento político português que me lembrei de dar o título irónico à fotografia inicial dos moais alinhados (de Michael Kenna) de O Elenco Governamental: é uma dúzia de estátuas impávidas a olhar para o que parece ser o colapso do país…          
 
¹ A captura de escravos e as doenças trazidas pelos europeus viriam a reduzir a população local a um mínimo de 111 habitantes em meados do Século XIX (1877).

28 março 2013

A ENCENAÇÃO DA HISTÓRIA

Na fotografia acima, a legenda esclarece-nos que se trata alemães dos Sudetas acabados de expulsar dos seus lares na Checoslováquia, enquanto caminham para uma estação ferroviária para aí serem enviados para a Alemanha. Mas, ao contrário de outras fotografias sobre a Segunda Guerra Mundial, a violência desta é cínica, quando se notam os despropositados sorrisos – como foram eles obtidos? Será que quem sorri não é cúmplice de quem fotografa? – daqueles que se aprestam a tornar-se refugiados num Mundo destruído e com um futuro incerto…

O FURO JORNALÍSTICO

Acima é a do prestigiado Expresso, abaixo a da dinâmica TSF, mas a asneira, grosseira, é precisamente a mesma nas duas notícias, indiciando origem comum: a confusão entre o pretérito imperfeito do conjuntivo do verbo furar (furasse) e o presente do indicativo do mesmo verbo, embora conjugado na forma reflexa (fura-se). Pior: nem sequer se põe o problema da homofonia das duas conjugações, que se pronunciam distintas. É ignorância pura de quem escreveu. E ignorância decantada de quem a publicou sem a detectar, tornando-a sua, à asneira da Lusa. Quando se industrializa a produção de informação e algo corre mal, acontece isto: chama-se (e não chamasse…) jornalismo em manada

O PRUSSIANO QUE ENSINOU O MUNDO A ASSALTAR BANCOS

Neste momento dramático em que o tópico bancos domina a atenção da comunicação social, quer sobre as formas heterodoxas de salvar os falidos, quer sobre o aumento das vezes em que se assaltam os ainda abertos, vale a pena evocar uma daquelas grandes figuras discretas da História Mundial, o alemão Herman K. Lamm (1890-1930), que emigrou em 1914 para os Estados Unidos, para onde veio ensinar ao submundo local, e depois ao do resto do Mundo, a assaltá-los, aos referidos bancos. Na sua Alemanha natal, Lamm cumprira o seu serviço militar no exército prussiano de onde fora expulso. Não há certeza quanto à sua patente, embora para a lenda seja conveniente que tivesse sido um oficial. Nos Estados Unidos, terra de todas as oportunidades, Lamm veio a adquirir um ascendente – a ponto de ser conhecido como o barão Lamm – ao introduzir o planeamento táctico militar nos assaltos aos bancos.
Lamm transformou um assalto a uma dependência bancária numa verdadeira operação militar, antecedida de um reconhecimento às instalações e da formação de uma equipa onde cada membro tinha uma função específica durante o assalto que já fora devidamente ensaiado e cronometrado. A duração do assalto torna-se um factor tão crucial que ultrapassa em importância o montante roubado embora o factor primordial seja a fuga, para o qual se adopta não só um plano principal mas outros de contingência. Foi o fracasso destes que levou à sua morte em Clinton, Indiana em 16 de Dezembro de 1930. Contudo, Lamm deixou escola, de que um exemplo muito popularizado foi a dupla Bonnie & Clyde (abaixo). Como se vê, ele há alemães na jogada, tanto nessa época em que alegadamente se assaltavam bancos em prol das pessoas como os há agora, nesta época em que alegadamente se assaltam pessoas em prol dos bancos

26 março 2013

PSICOSSOMATISMO POLÍTICO

Fui acompanhar alguém que foi ao lançamento do último livro de Francisco José Viegas. Constatei quanto o antigo secretário de Estado da Cultura parece estar melhor após ter abandonado há cinco meses aquele cargo por razões de saúde. Não estou habilitado para diagnosticar se a doença debilitante tivesse sido de origem psicossomática mas, observado de fora e numa superficialidade assumida, é o que parece. Por outro lado e se assim tiver sido, a milagrosa recuperação daquele ex-governante será uma demonstração prática que ninguém permanece num governo contrariado...

POLÓNIA IRREDENTA

Já não é a primeira vez que insiro o mapa acima, mostrando as enormes modificações fronteiriças da Polónia após a Segunda Guerra Mundial, quando o país viajou para Oeste, perdendo os territórios assinalados a azul claro para a União Soviética por troca com os assinalados a amarelo conquistados à Alemanha. A configuração da Polónia antes (com as fronteiras a azul) e depois (com as fronteiras a vermelho) da Segunda Guerra Mundial é, por isso, totalmente distinta. Estes preliminares servem para explicar o interesse desta imagem televisiva de um boletim meteorológico de uma televisão polaca onde a fronteira ocidental do país é a moderna mas a oriental é a de 1939, mostrando como seus territórios que fazem parte actualmente da Bielorrússia, da Lituânia (que é parceira da Polónia na União Europeia…) e da Ucrânia. Não dei pelas notícias do escândalo mas decerto que, a ter havido um, o que houve foi uma fracção daquele que haveria se tivesse sido uma televisão alemã a fazer precisamente o mesmo…

25 março 2013

«DO THE RIGHT THING»


Do the Right Thing (traduzido para Não Dês Bronca) é um filme de Spike Lee sobre os negros norte-americanos (1989). A personagem que acabou por dominar o filme na minha memória foi um negro enorme (o actor Bill Nunn tem 1,92 mts...), que se passeava com um rádio (de tamanho proporcional…) de onde saía uma música hip hop no máximo e onde os versos do refrão pareciam ser um apelo incessante: Fight the Power, Fight the Power,…, Fight the Power that be (Lutem contra o Poder, Lutem contra o Poder,…, Lutem contra o Poder existente). O acumular das tensões no bairro iria explodir na cena abaixo onde, à destruição do rádio e à cena de pancadaria generalizada na pizzaria, se seguirá uma espiral autodestrutiva provocando a morte do dono do rádio e a destruição do restaurante – que era o único das redondezas…    

Não sei se estarei a ser demasiado rebuscado – e se chegarei a ser compreendido… – quando estabeleço este paralelo entre as relações raciais que se apresent(av)am então na sociedade norte-americana e a evolução das relações nacionais na União Europeia. Mas parece-me encontrar por detrás de qualquer dos dois casos, na veemência com que se proclamava lutar-se contra o poder e agora se pretende correr com a troika, o mesmo melindre de quem recusa as regras de uma sociedade que os vê, na prática, com um estatuto subalterno quando na teoria esse estatuto deveria ser idêntico ao de todos os restantes membros. São comportamentos tão emocionais que, ao invés do título escolhido por Spike Lee, suspeito que nem vale a pena desejar que se faça o que for mais correcto: muito possivelmente vai dar bronca

24 março 2013

«JINGLES» ANTIGOS PARA DONAS DE CASA MODERNAS


Nesta época moderna em que os acasos dos despedimentos estão a subverter cada vez mais a ordem natural das responsabilidades pelos trabalhos domésticos, uma evocação àqueles tempos antigos em que a questão nem se punha, mas onde a publicidade já apelava a que a mulher fosse moderna, usando um junex para cozinhar com uma silampos.

23 março 2013

ARGO

Ontem finalmente vi o filme Argo, o grande vencedor da noite dos óscares. E não gostei. Por diversas razões. A menor delas é o descuido com os pormenores, inaceitável num filme com um orçamento de 35 milhões, que fez com que um Boeing 747 da Swissair (cena acima) fosse pintado à época (1980) …mas com a pintura errada (abaixo a pintura correcta). Ora numa equipa daquele preço parece-me obrigatório que quem pesquisa seja profissional. Se, naquela mesma cena acima, os automóveis acompanham em velocidade o Boeing 747 até à descolagem (+ 250 km/h), aí saímos do domínio da incompetência para passarmos para o do absurdo, incómodo num filme que pretende basear-se em factos reais. O faz de conta acentua-se quando o argumento ultrapassa o facto das autoridades iranianas, depois de se descobrirem ludibriadas, não fazerem descolar a sua aviação militar para interceptar o avião que acabara de descolar… Fiquei com a impressão que, tivesse havido porrada, Argo não se distinguiria estruturalmente de um daqueles filmes de acção de Steven Seagal ou Chuck Norris… Ben Affleck, pelos vistos, conferiu respeitabilidade à coisa

NEM SEQUER ERRADO ESTÁ…

Durante muitos milénios a economia mundial quase não cresceu, e mesmo os surtos de desenvolvimento localizado, como o associado ao Império Romano, incorporaram taxas de crescimento hoje negligenciáveis (0,2% ao ano).
(José Manuel Fernandes, Público, 15 de Março de 2013)

Mesmo faltando corroboração de outras fontes, esta frase revela-se interessante por aquilo que expõe quanto à fundamentação teórica dos conhecimentos de quem a escreveu. De uma penada, José Manuel Fernandes mostra-nos a superficialidade do que aprendeu sobre História e sobre Economia. Sobre esta última, mostra não ter compreendido quanto indicadores económicos como o PIB assentam em convenções contabilísticas que são difíceis de converter para outras realidades tecnológicas: como se contabilizará o custo mão-de-obra do trabalho escravo, por exemplo. E sobre História, deduz-se que José Manuel Fernandes nem terá percebido quanto escasseiam os dados demográficos e (ainda mais os) económicos antes do Século XIX. Se ele lesse livros que lhe dessem o devido lastro ao que decerto achará que sabe (como o da capa acima), descobriria no fim das suas 400 páginas que não lhe aparecera um número sequer... Para além destes há, de facto, estudos quantitativos sobre as economias antigas mas que não podem ser mais do que hipóteses de trabalho. Usá-los, e a preciosismos como taxas de crescimento de 0,2% ao ano, é demonstrativo de que não se compreenderam as raízes do argumento que se está a invocar. Por exemplo: o que se poderá dizer com segurança sobre a taxa de crescimento da economia europeia no tempo de Carlos Magno?... Resposta: Nada. Estes são aqueles argumentos que, na célebre classificação de Wolfgang Pauli, são tão estúpidos que nem sequer estão errados.

22 março 2013

QUISLINGS

Quisling é uma palavra (hoje infelizmente esquecida) que teve um grande significado durante a Segunda Guerra Mundial como sinónimo de traidor, político colaboracionista com a ocupação alemã. O Quisling inspirador da expressão chamava-se Vidkun Quisling (1887-1945) e foi um político norueguês de extrema-direita que se dispôs a colaborar com as autoridades alemãs quando da invasão e ocupação do seu país pela Alemanha, desde 1940 até ao fim do conflito.    
Vale a pena explicar que, ironicamente e mau grado a sua dedicação à causa e mau grado a impopularidade que por causa disso adquirira junto de adversários e inimigos, o poder efectivo do governo dirigido por Quisling nunca passou de uma sombra, permanentemente tutelada por um Reichskommissar alemão residente na Noruega chamado Josef Terboven (1898-1945). Ele é que foi o verdadeiro detentor do poder nesses 5 anos: realpolitik é uma palavra de origem alemã!  
É a propósito dessa mesma realpolitik e destes precedentes históricos que me pergunto o que pretenderá o presidente da comissão europeia com declarações manifestando a satisfação com a avaliação da troika e insistências na eficácia do funcionamento dos programas de ajustamento no seu próprio país? Ainda não se apercebeu que, querendo regressar, as declarações não o tornam cá popular e quem o pode apoiar preferirá sempre um Reichskommissar alemão?

21 março 2013

CÂMBIOS DE OUTRORA

Pode ser um exercício divertido usar esta tabela afixada em data incerta numa montra de uma casa de câmbios de Lisboa e procurar datá-la. Por exemplo, sabendo que é anterior a Fevereiro de 1961, ano em que a África do Sul adoptou como moeda o rand em substituição da libra que aparece na primeira linha do quadro. E pode ser mesmo anterior a 1958, ano em que Marrocos adoptou o dirham como moeda em substituição do franco. Porém, esta última informação contradiz a cotação que aparece atribuída ao franco francês, uma moeda que, à custa de sucessivas desvalorizações, na década de 1950 tinha um valor unitário mínimo (próximo do da lira italiana), antes que a introdução de uma nova moeda designada novo franco em 1 de Janeiro de 1960, equivalente a 100 dos francos franceses antigos, a tornasse mais pesada (para empregar uma expressão de de Gaulle). Uma outra informação, ou antes a ausência dela, reforça a hipótese 1960: a ausência de cotações para o franco congolês, atribuível à crise desencadeada naquele país com a sua independência nesse ano. Finalmente, quando se descobre que o franco marroquino circulou em paralelo com o dirham até 1974, o obstáculo à aceitação da data de 1960 parece desaparecer. 
 
Repare-se como a selecção das moedas já expressa a integração europeia da nossa economia e a distribuição da diáspora portuguesa: Argentina, Brasil, Canadá, Congo Belga, África do Sul - mas ainda não Venezuela. E aquele que viria a ser o colosso industrial japonês e o seu iene ainda está ausente. Para rematar e apenas por curiosidade, note-se que o câmbio médio do marco alemão naquele dia de 1960 é de 7$20. Quase quarenta anos depois, quando da fixação dos câmbios para a entrada no €uro, era de 102$50 e há quem agora defenda que até assim o escudo ainda estava sobrevalorizado...

20 março 2013

PUTIN E O PASSADO

Ao encontrar-se na quinta-feira passada com uma delegação de historiadores militares, o presidente russo Vladimir Putin declarou, a propósito da comemoração dos 73 anos do fim da Guerra de Inverno contra a Finlândia (1939-40), que a mesma se podia justificar pela intenção do seu antecessor Estaline em rectificar os erros que haviam sido cometidos no traçado da fronteira soviético-finlandesa, estabelecida originalmente em 1917 quando da secessão daquele país do Império Russo. Prosseguindo, Vladimir Putin admitiu os erros militares iniciais dessa campanha, apenas para os fazer contrastar com a mobilização que se seguiu que fez com que a Finlândia sentisse todo o poderio do estado russo (então soviético). Em remate, expressou o seu apoio à construção de um memorial em homenagem aos mais de 125.000 soldados do Exército Vermelho que tombaram naquele conflito.
Esta Guerra de Inverno travada entre a União Soviética e a Finlândia tornou-se um exemplo canónico de uma guerra imperialista, em que a potência mais forte impõe a sua vontade ao mais fraco. Também a parte do traçado da fronteira que mais incomodava os soviéticos, a sua proximidade de São Petersburgo (então Leninegrado), não data de 1917 como se depreenderia das palavras de Putin, mas de 1815 e do Tratado de Viena que estabeleceu a anexação do Grão-Ducado da Finlândia pelo Império Russo. Mas todos estes lapsos empalidecerão se imaginarmos, para comparação e em paralelo, o que aconteceria se Ângela Merkel se decidisse a apoiar a construção de um memorial aos soldados alemães tombados na campanha da Polónia em 1939, argumentando que a iniciativa se justificaria com a intenção do seu antecessor Hitler em rectificar erros dos traçados fronteiriços do Tratado de Versalhes…
Seria o assunto tratado desta mesma forma recatada pela comunicação social de todo o mundo? Ou não? É para equilibrar os pesos nesta balança histórica desequilibrada que nunca me canso de chamar a atenção neste blogue para as virtudes da dialéctica… As denúncias dos crimes dos fascismos e do nazismo já estão muito bem servidas.

FERIADO BANCÁRIO

Imagem típica dos anos 30 e consequência directa da Crise de 1929 são estas filas de depositantes à porta de bancos que permanecem fechados. As ocasiões designavam-se eufemisticamente por feriados bancários, uma terrível ironia quando se costuma associar a palavra feriado a algo positivo. É o que está a acontecer em Chipre. Nesta fotografia em concreto, estava-se em Fevereiro de 1933 e o novo presidente Franklin D. Roosevelt já fora eleito mas só tomaria posse no mês seguinte. Talvez houvesse uma centelha de esperança.   

19 março 2013

É MELHOR SEM SOM...

Como os verdadeiros grilos, também a canção sobre O Grilo da Zirinha e a controvérsia que lhe está associada, que envolve  um par de chapadas da Alzira no vizinho Miguel e um par de processos judiciais, do Miguel à Alzira e da Alzira ao Miguel, tem muito mais graça contada do que cantada.

A canção é insuportavelmente medíocre e o melhor que se pode ouvir do incidente é a intervenção do presidente da junta local (Podem dizer o que quiserem mas eu sou o presidente da Junta de Padim da Graça e só conheço uma Zirinha na freguesia) a invocar o inesquecível gag de Herman José.

Queriam os gajos da troika extinguir freguesias quando nós somos congenitamente um país de presidentes da junta...

O «PÉNIS» DE CHIPRE

A língua portuguesa pode ser muito traiçoeira quanto aos géneros dos países. Há muitos do género feminino (a Espanha, a França, a Itália, a Grécia, etc.), há uns poucos do género masculino (o Brasil, o Canadá, o México, o Irão) e os restantes, a começar pelo nosso próprio país, Portugal, são neutros (Angola, Moçambique, Cabo Verde): não se utiliza artigo definido quando a eles nos referimos, nem masculino, nem feminino. Aprendi e sempre ouvi referir-se Chipre (um país pequeno, pouco referido, por sinal), seguindo esta última regra. Foi a regra que adoptei aliás, quando o mencionei neste blogue. Mas foi só com estas últimas notícias de lá provenientes que descobri, não apenas que o emprego do género masculino (o Chipre) será também aceitável, como até que essa regra de masculinizar Chipre estará mais à moda, considerada a sua adopção pelos jornais de referência. Há quem (com graça) ironize com esta criatividade jornalística, e nos prepare para futuras referências à Malta, esse outro pequeno país mediterrânico da zona Euro a que ninguém se refere e que também está ameaçado de se ver catapultado um dia destes para as primeiras páginas dos jornais. Mas muito mais interessante - e com impacto no idioma comum... - seria mesmo antecipar o efeito de uma referência mediática criativa à Angola ou ao Moçambique…

18 março 2013

SOBRE AS CRÍTICAS À PROFISSIONALIZAÇÃO DOS JOTINHAS PARTIDÁRIOS

É filho de um tamanqueiro. O seu primeiro nome é uma homenagem a Waldeck-Rousseau por quem, explicará mais tarde nas entrevistas, o seu pai manifestava uma grande admiração. Depois do seu serviço militar, exerceu a profissão de hortelão. Adere às juventudes comunistas em 1923 e em 1924 ao partido comunista francês. Em 1931 frequenta a escola do partido em Moscovo. Torna-se secretário do partido em Lião, depois vai para Paris. Representa Colombe-Nanterre (Sena) na Câmara de Deputados de 1936 a 1940. Funda o jornal A Terra em 1937.
 
Poucos saberão actualmente quem foi Waldeck Rochet (1905-1983), o secretário-geral do partido comunista francês (PCF) entre 1964 e 1972. O texto acima é a tradução do francês do primeiro parágrafo da sua biografia existente na Wikipédia. São entradas que costumam ser preservadas e vigiadas com zelo militante (que alguém experimente contribuir com menor ortodoxia na página de Álvaro Cunhal da Wikipédia para ver o que acontece ao seu contributo!…). Desde o princípio se nota como a redacção é cuidada. O pai de Waldeck Rochet poderia ser classificado como um sapateiro (é isso que acontece na versão inglesa), mas fazer tamancos de madeira confere ao filho um suplemento de humildade que é sempre benéfico na imagem de qualquer futuro dirigente comunista. Assim como é importante que o dirigente tenha exercido uma profissão humilde antes de imergir na política: Waldeck foi hortelão (assim como Jerónimo de Sousa afinou máquinas). Mas o encadeamento dos acontecimentos tal qual está redigido induz em erro. Por ordem cronológica, aos 18 anos Waldeck aderiu às juventudes comunistas (1923), com 19 tornou-se militante do PCF (1924), com 20 (em 1925) foi chamado a cumprir o serviço militar como acontecia com todos os jovens franceses da época, e só um ano e meio depois (1927) é que se terá tornado hortelão. Contudo em 1931, aos 26 anos, alguém já lhe reconhecera potencial para ir estagiar (e não propriamente horticultura...) para Moscovo. Antes dos 30 anos ocupava um cargo cimeiro da organização comunista na terceira maior cidade de França e aos 31 fora eleito deputado (a mesma idade de Vital Moreira quando se estreou na Assembleia Constituinte em 1975).
 
Quando ouço descrever como fenómeno novo a profissionalização desde a juventude do ofício de político, e como ele é protagonizado pelos membros das juventudes partidárias, e como isso se vem a reflectir numa enorme falta de entrosamento e empatia da classe política com a sociedade no seu todo, apetece-me replicar com estes exemplos que já têm antiguidades de 90 anos e que mostram quanto a profissionalização dos políticos não é afinal novidade nenhuma.

17 março 2013

A COLISÃO E O AFUNDAMENTO DO HMS VICTORIA

O HMS Victoria foi um navio de guerra britânico lançado à água em 1887, assim baptizado em homenagem às bodas de ouro da rainha britânica, Vitória (1837-1901). Mau grado a sua configuração bizarra, tratava-se de um navio típico da época da corrida naval entre potências, que precedeu e que veio a culminar na Primeira Guerra Mundial. Contudo e infelizmente para os seus construtores, o HMS Victoria teve uma história curta e celebrizou-se por ter sido o protagonista de um grande acidente naval durante manobras da Royal Navy realizadas no Mediterrâneo oriental, ao largo do Líbano, em Junho de 1893, que custou a vida a metade da sua guarnição de mais de 700 homens.
Não terá importância detalhar aqui a manobra que fez com que dois navios de guerra se abalroassem (está esquematizada acima). Mas vale a pena explicar que, para além dos respectivos capitães, os dois navios envolvidos na colisão contavam com a presença do Comandante-Chefe da Frota do Mediterrâneo, o Vice-Almirante Sir George Tryon (mais abaixo, presente no HMS Victoria) e do seu segundo, o Contra-Almirante Sir Albert Markhan (no outro navio envolvido, o HMS Camperdown). Tryon afundou-se com o navio, mas o interessante da história, pertinente para uma análise da psicologia destas organizações diante de fiascos, foi o julgamento em tribunal marcial que se seguiu.
O tribunal concluiu que: a) a colisão se devera a uma ordem expressa do Almirante Tryon; b) após o acidente, tudo fora feito para salvar o navio e preservar as vidas da tripulação; c) não havia culpas a atribuir ao Capitão e à tripulação do HMS Victoria; d) não se conseguia apurar a razão pela qual o navio se virara antes de afundar; e finalmente, e) era impressão vincada do tribunal que, embora se devesse lamentar vivamente que o Contra-Almirante Markhan não tivesse levado por diante a sua intenção inicial de assinalar ao Comandante-Chefe as suas dúvidas quanto à manobra, seria fatal para os interesses da Royal Navy culpabilizá-lo por ter implementado as directivas do seu chefe, pessoalmente presente.
A redacção desta última conclusão¹ é um monumento à duplicidade. Se Markhan se tivesse oposto a cumprir as directivas de Tryon, só não teria sido julgado por insubordinação se este último se viesse a aperceber do erro que se poderia cometer; obedecendo, a condenação que recebeu (e com ela, a carreira de Markhan foi destruída) torna-se um reconhecimento implícito que o cumprimento diligente das ordens, mesmo na Royal Navy, se torna num conceito mais flexível quando se atingem os escalões superiores da hierarquia. É um contraste e um dilema que me tem ocorrido a propósito da conduta de Vítor Gaspar, só que aqui a colisão e o afundamento são mais graves: são-no de toda a economia portuguesa…
 
¹ The court strongly feel that although it is much to be regretted that Rear Admiral Albert H. Markham did not carry out his first intention of semaphoring to the Commander-in-Chief his doubts as to the signal, it would be fatal to the interests of the service to say that he was to blame for carrying out the directions of the Commander-in-Chief present in person.

16 março 2013

A TENEBROSA NOITE FASCISTA

Nos anos que se seguiram a 1974 o problema do que fora realmente a vida sob a tenebrosa noite fascista não se punha porque, apesar da propaganda, todos tinham as suas memórias próprias, tanto as que queriam lembrar como também as que queriam esquecer. Contudo, escoaram-se 33 anos daquela mesma lengalenga ideológica até que séries televisivas como Conta-me como foi (2007) mostrassem a quem já não o conhecera que o Portugal de antes do 25 de Abril não fora uma distopia do passado (acima), ao jeito dos mundos imaginados de Huxley ou de Orwell. Não fora essa preocupação em continuar a dominar ideologicamente esse passado por parte de uma mesma geração e o livro Os Filhos do Zip-Zip abaixo perderia uma parte substancial da sua importância como relato documentado por exemplos de época daquele Portugal de 1968 a 1974. Mas assim, torna-se num livro tão informativo quanto interessante, que vale a pena ler por outras razões que não as nostálgicas. Parece-me ser mais do que tempo que essa tal geração – que hoje sofrerá de mais reumático do que uma famosa brigada de generais que foi apresentar cumprimentos a Marcello Caetano em Março de 1974 – respeite as opiniões das gerações que lhes sucederam: que opinam, por exemplo, que o mítico Maio de 68 não passou de uma inconsequente birra de meninos ou que depreciam o festival de Woodstock de 1969.

15 março 2013

OS SALTEADORES DA ARCA VAZIA


Suponho que não conferirá estatuto intelectual ir-se buscar um exemplo pedagógico a um filme tão corriqueiro como Os Salteadores da Arca Perdida de Steven Spielberg. Mesmo assim, e partindo do pressuposto que todos já vimos aquele filme, não conheço melhor cena  que a de cima, e o contraste das atitudes de Marion e do seu rival no concurso de bebidas, para representar a falta de confiança que os portugueses desenvolveram na sua equipa governamental, especialmente a das finanças. Marion, exibindo a sua fraqueza em encaixar aquele último copo, representa a seriedade do ministro das finanças de que Portugal estaria à espera, atendendo às dificuldades e seriedade do momento que vivemos e aos sacrifícios já pedidos; o seu oponente faz lembrar Vítor Gaspar, afivelando um confiante sorriso esfíngico e camuflando as fraquezas até desabar banco abaixo: nesta 7ª avaliação da troika, descobriu-se que o sucesso do cumprimento do deficit orçamental de 2012 afinal foi um fiasco