28 fevereiro 2013

CAVALOS DE COMIDA


Tanto se tem falado deles em carne em sucessivas notícias, que não me surpreenderia que alguém, desperto para a mesma associação de ideias que tive, já tivesse usado algures num outro blogue o trocadilho acima com os cavalos, um trocadilho um pouco primário, admita-se. O primarismo parece-me contudo ajustado à melodia e à lírica dos UHF históricos, com versos como, por exemplo, Agora é que todos eles aplaudem, usando um calço para esticar o verso em duas sílabas extra para que a letra se encaixe num dos poucos sítios da canção em que isso era conveniente. Para contraste, a liberdade do refrão fez com que os cavalos fossem de corri-hi-hi-da, num relinchar imaginativo mas inapropriado para animais que se lançam num esforço ou, nesta versão actualizada, que se escondem num prato, seja ele de almôndegas ou de lasanha...  

27 fevereiro 2013

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E OUTRAS GUERRAS AINDA MAIORES

(…) Os gendarmes do Luxemburgo pouco mais podiam fazer do que chamar a atenção para o facto de a Wehrmacht estar a violar a neutralidade do país, antes de serem feitos prisioneiros. O grão-duque e a sua família conseguiram escapar a tempo, sem serem reconhecidos pelos Brandenburgers.
(pp. 126-127) 
 
Sobre a passagem supramencionada, suponho não ser irrelevante chamar a atenção para o facto do grão-duque em questão usar saias e responder pelo nome, aparentemente exótico nessa perspectiva, de Charlotte… Charlotte de Nassau-Weilburg (1896-1985).
(…) o rei Leopoldo (III) decidiu capitular. No dia seguinte, rendeu-se incondicionalmente ao Sexto Exército. O Generaloberst Von Reichenau e o chefe de estado-maior, o Generalleutnant Friederich Paulus, ditaram as suas condições no seu quartel-general. A próxima rendição que Paulus acompanharia seria a sua, em Estalinegrado, menos de dois anos mais tarde.
(p. 157)
 
Quanto a esta passagem, a rendição do rei Leopoldo III da Bélgica teve lugar a 27 de Maio de 1940. A de Paulus em Estalinegrado virá a ter lugar em 31 de Janeiro de 1943, passados 32 meses, ou seja, muito mais do que dois, quase três anos depois.
Estando a iniciar a sua leitura, estas são duas passagens que encontrei casualmente com erros factuais de A Segunda Guerra Mundial, best-seller internacional, livro da autoria do reputado e popular historiador britânico Antony Beevor. Não acompanhei exaustivamente o acolhimento que o livro recebeu, mas não me parece que, num meio que às vezes parece tanto gostar de picuinhices, ele tenha recebido o escrutínio rigoroso, como obra de não ficção, que outras obras populares, essas de ficção histórica, receberam no passado por pessoas exigentes como Vasco Pulido Valente 

26 fevereiro 2013

O VALOR RELATIVO DO OURO E DA PRATA

Poder-se-ia construir uma razoável biblioteca com os volumes dedicados à evolução no curso da História dos valores relativos atribuídos aos dois principais metais preciosos: ouro e prata. Durante milénios, amoedados, eles foram as referências da circulação monetária de consecutivas civilizações. E o valor relativo que lhes era atribuído através  das moedas uma forma de medir a prosperidade e estabilidade das respectivas economias. Com os romanos, amigos de legislações e de contas redondas, o rácio rondou durante séculos os 12:1 – o ouro valia uma dúzia de vezes mais do que a prata. Atingindo-se a Idade Moderna com a inundação da prata andina no Século XVI e XVII, o rácio na Europa nos séculos seguintes passou a situar-se nos 15,5:1.
Uma proporção da mesma ordem de grandeza (15:1) constava de legislação promulgada em 1792 no Estados Unidos. Os gráficos que aparecem disponíveis na internet com a evolução histórica do rácio (e que, sendo normalmente de origem norte-americana, mostram apenas a sua evolução depois do aparecimento desse país…) evidenciam que o fim dessa estabilidade apenas teve lugar a partir de finais do Século XIX, com o fim de um sistema monetário baseado nos dois metais que foi conhecido pelo bimetalismo, quando da adopção generalizada das notas de banco em substituição do metal precioso amoedado (abaixo uma nota portuguesa de mil reis – prata! – de 1891).
Os metais preciosos passaram a estar armazenados e o rácio entre ouro e prata passou a registar um comportamento mais volúvel, desde máximos próximos de 100:1, quando da Segunda Guerra Mundial, até mínimos que se situaram abaixo de 20:1, atingidos em várias outras ocasiões. Refira-se, que se se levasse em conta a abundância relativa dos dois metais na natureza (cerca de 19:1), ela apontaria para cotações próximas destes mínimos, mas o valor médio ao longo do século XX é muito superior: 47:1. Os mercados são... os mercados. E sobre a contribuição racional e emocional para a fixação destes valores, reflicta-se a despropósito, sobre um outro rácio, esse de 4:1, afixado na porta de um banheiro de lanchonete no Brasil…

25 fevereiro 2013

O ARTISTA E A SUA OBRA

Claude Monet (1840-1926), por volta de 1900. Quem o vê assim sentado numa cadeira de palhinha, pensativo, de pernas cruzadas, sonhador, de cigarro (sem filtro) na mão, quase patusco, dificilmente o consegue imaginar como autor obcecado de dúzia e meia de quadros tendo por tema o portal da catedral de Ruão (abaixo, um trio deles e uma fotografia actual da fachada com o ultrapintado portal sob um jogo de sombras).




24 fevereiro 2013

FRASE LAPIDAR 5

Ricardo Araújo Pereira, comentando a validade dos grandes pressupostos macro-económicos do Orçamento de Estado de 2013, cinquenta dias da sua entrada em vigor (programa humorístico Governo Sombra,  22/Fev./2013, aos 22:30) 

23 fevereiro 2013

E NESTE CASO ABAIXO, «QUEM É QUE MAIS ORDENA»?


Talvez vendo estas imagens acima, de que se cumpre hoje o 32º aniversário (golpe de 23 de Fevereiro de 1981), alguns daqueles que mais se entusiasmaram com recentes episódios folclóricos protagonizados em assembleias democraticamente eleitas, só por causa da alteração da filiação ideológica dos folclóricos, se consiga aperceber da importância do respeito pelas regras da Democracia. 
Tende-se a esquecer como a Democracia, a verdadeira, não se esgota com o exercício livre das escolhas no acto eleitoral. Ela prolonga-se depois com o primado da Lei no exercício do poder por quem foram os vencedores. Foi, por exemplo, o que não aconteceu na Alemanha em 1933, ou nos países da Europa de Leste depois de 1945, quando nazis e comunistas chegaram ao poder legitimados por eleições.
Nesses países, naquelas circunstâncias, reconheço que seria legítimo contestar frontalmente o regime porque os detentores do poder não se mostravam dispostos a manter as mesmas regras que lhes haviam permitido alcançá-lo. Mas era perigoso: quem se dispusesse a contestar publicamente Hitler ou Bierut do mesmo modo como hoje se faz com Miguel Relvas arriscava-se a acontecer-lhe algo desagradável
Ora, para além de uma política financeira desastrada que está a gerar a discordância de uma esmagadora maioria da população portuguesa, é difícil argumentar que o funcionamento da nossa Democracia esteja em perigo. A não ser pelas invocações das ideologias totalitárias dos extremos do espectro, que são sempre tão lestas a arranjar pretextos para não cumprir as suas regras e vir para a rua

22 fevereiro 2013

VÃO-SE OS ANÉIS E O QUE É QUE FICA?...

O Estado vendeu a última parcela de 4,14% do capital da EDP que detinha. Se se pode compreender um certo secretismo prévio quanto à decisão da venda, evocando evitar prejuízos no preço de transacção das acções, o que já não se compreende é o silêncio informativo e a ausência de discussão após essa transacção se ter realizado, para além das expectáveis auto-congratulações da praxe pelo palerma da praxe, mormente quando o preço contratado é ⅓ inferior ao contratado há um ano com a chinesa Three Gorges

Aditamento: Os meus agradecimentos a quem me notou que as auto-congratulações de António Mexia seriam expectáveis (que se podem esperar) e não espectáveis (dignas de serem vistas) o que, neste segundo caso, também seria verdade, embora apenas para aqueles mais apreciadores do abuso de brilhantina no cabelo.  

21 fevereiro 2013

O AVIÃO QUE ATERROU SOZINHO

O F-106 Delta Dart foi um daqueles aviões emblemáticos da Guerra-Fria, era uma aeronave de intercepção concebida para abater os bombardeiros soviéticos no caso da eclosão de uma guerra nuclear como se vê na foto acima. Para isso, o F-106 fora concebido com capacidade de descolagem muito rápida, uma grande velocidade em voo, nomeadamente a ascensional, e um armamento poderoso, capaz de derrubar mesmo as grandes aeronaves inimigas.
Mas, para que isso fosse possível, não era um avião nem estável nem muito manobrável e quando, no pino de um dia do Inverno de 1970, um deles entrou em vrille, enquanto realizava exercícios sobre o Montana, o seu piloto tinha tão poucas hipóteses de corrigir a trajectória descendente que acabou por se ejectar do aparelho depois de ensaiar as manobras preconizadas para aquela situação de emergência. Só que, no caso, o aparelho acabou por sair espontaneamente da vrille
As análises posteriores atribuíram o facto ao reposicionamento do centro de gravidade da aeronave provocada pela saída do piloto conjuntamente com a sua cadeira de ejecção. Sem ninguém a bordo, o avião continuou a perder altitude mas agora gradualmente e paralelo ao solo até vir a cair, com o trem de aterragem recolhido e com o motor ainda funcionando, num milheiral que estava por essa altura coberto de neve. Ali ficou, até ao combustível se esgotar, uma hora e 45 minutos depois.
O avião sem piloto acabou por realizar uma proeza que, estivesse ele a ser pilotado, mais provavelmente não seria bem sucedida. Reconhecendo a excepcionalidade do desfecho mas atravessando nós em Portugal uma situação excepcional, com alguns pilotos a darem a imagem de não fazer a mínima ideia daquilo que se propõem fazer (compare-se o que dizem em Março de 2012 e em Fevereiro de 2013), às vezes apetece desabafar: porque é que não se deixa o avião voar sozinho?...
 
Obs.: A parte final deste poste deve ser lida apenas pela laracha, que o poder político não é nenhum avião, tem aversão a vácuos, a ausências de pilotos e a povos que mais ordenam

20 fevereiro 2013

RECORDANDO O QUE DEVE SER RECORDADO

Relembrando aquilo que aqui há dois meses me dispus a mais tarde recordar, por causa do disparate de previsões macroeconómicas em quem já ninguém acreditava à época, parece que Vítor Gaspar admitiu hoje aos deputados no Parlamento que naturalmente haverá que fazer também uma revisão das perspectivas de desemprego, na sequência de lhes ter anunciado (abaixo) que a sua previsão sobre a dimensão da recessão para este ano vai passar para o dobro do que fora inicialmente estimado (-2%). O que me parece mais perigoso para a Democracia não são propriamente as assuadas que passaram a acolher os membros do elenco governamental. Quem se adivinha por detrás delas só à força aprendeu a respeitar as regras da Democracia em 25 de Novembro de 1975. O que me incomoda é que, por causa de tanta asneira teimosa, já não aparece quem se disponha a defender, nem que seja por uma questão de princípio, os insultados... 

«FROM RUSSIA WITH SKILL»

Se a Rússia perdeu nos últimos vinte anos a sua posição de Vanguarda da Humanidade na experiência da transição para uma sociedade sem classes, há que reconhecer que restam aspectos em que ela reteve uma atitude pioneira como no caso da busca de soluções imaginativas para os equipamentos sociais de rua do Século XXI, em exemplos que aqui se podem apreciar. Acima temos uma cabina pública multifuncional conhecida por Taksofon que permite conjugar uma telefonadela com uma mijadela – ou vice-versa… – alívio que os telemóveis de última geração ainda não proporcionam. Abaixo é uma caixa automática (de seu nome Bankomat), que tem a vantagem sobre os nossos frágeis multibancos de rua de frustrar completamente quaisquer assaltantes que violentamente, com explosivos ou retroescavadoras, dali queiram extrair dinheiro…

19 fevereiro 2013

UMA NOTÍCIA BEM REDIGIDA

Aprecie-se a notícia acima, retirada do site da TVI24 e excelentemente redigida pela Nestlé, onde se demonstra a sua preocupação institucional para que não nos seja mais servida carne de cavalo em alguns dos produtos pré-preparados com o seu nome, actualmente a ser comercializados em Itália e Espanha. A redacção é tão cuidada que se fica com a impressão que a) a carne de cavalo aparece apenas residualmenteb) que a responsabilidade do aparecimento da carne de cavalo nos produtos comercializados com o nome da Nestlé é de uma terceira empresa que se não se chega a perceber se é alemã, belga ou brasileira.
 
Com uma segunda leitura mais atenta, aperceber-nos-emos que a Nestlé, descartando a responsabilidade pelo sucedido, também a) não nos diz ser sua intenção investigar quem a terá por ter adicionado tais vestígios de carne de cavalo aos produtos a que empresta o seu símbolo, b) nem nos chega a precisar qual é a verdadeira proporção desses vestígios de carne cavalar, apenas que eles são superiores a 1%, o que pode dar para muito... 

18 fevereiro 2013

O PRÓXIMO CONCLAVE

aqui escrevera, longe de premências jornalísticas, sobre conclaves, as reuniões de cardeais onde se procede à eleição dos papas. Poste esse onde acabo com uma conclusão que o futuro se encarregaria de desmentir completamente: a de que a pressão mediática (a propósito dos escândalos da pedofilia) não teria consequências na alta hierarquia da Igreja Católica, para mais especificando: a começar pela abdicação do Papa… Pode-se argumentar especulando sobre o que terá motivado Bento XVI a resignar, se teria sido outra coisa que não a pressão mediática, mas o que é importante é que ele resignou – e que eu me enganei. É imbuído de um espírito de modéstia correspondente que eu faço este meu contributo para que quem leia forme uma opinião sobre o desfecho do próximo conclave. Construí aquele quadro acima (clique-se em cima dele para o ampliar), reportando-me às últimas quinze eleições papais, que se estendem do Século XIX ao Século XXI. As colunas (da esquerda para a direita) indicam o nome escolhido pelo Papa eleito, o ano de nascimento, o ano da entronização e a idade do novo papa; os dias de duração do conclave que o elegeu, o número de eleições necessárias para o efeito (o papa é eleito por uma maioria qualificada – normalmente ⅔) e o números de cardeais (eleitores) presentes.
 
Olhando para o quadro, que pretendi composto por dados objectivos e desprovido de opiniões (muito menos de previsões…), percebe-se que houve uma mudança para a modernidade quando do conclave de 1846. Nesse ano, era previsível que a escolha do Cardeal Ferreti (com fama de liberal e que viria a ser o Papa Pio IX) viesse a ser vetada em nome do Imperador austríaco (quando tais vetos eram ainda possíveis). Só que, quando adoptando o ritmo dos conclaves anteriores, o cardeal austríaco disso encarregado chegou a Roma para participar no conclave (e eventualmente boicotá-lo…) já ele terminara… O truque não se pôde tornar a repetir, mas a partir daí os conclaves duraram sempre menos de uma semana, mesmo naquelas eleições que se vieram a revelar mais complicadas, onde foi necessário experimentar vários candidatos à procura de um que gerasse o consenso de ⅔ dos cardeais, como as de Pio XI (14 escrutínios em 1922), João XXIII (11 em 1958) ou Bento XV (10 em 1914). Note-se simultaneamente, que o ritmo dessa procura de um candidato consensual não parece ter sido afectado pelo aumento (que chegou à duplicação) do número de participantes no conclave, como se veio a verificar depois do último terço do Século XX.    
 
Outro factor interessante é o da idade dos escolhidos, que se situou normalmente entre os 60 a 70 anos. Repare-se acessoriamente como Bento XVI foi, com 78 anos, aquele que mais tarde foi eleito Papa nos últimos 200 anos, detalhe que ele não desconheceria. Quem lhe faz agora elogios pelo seu desapego ao poder, deveria acrescentar que, se isso for verdade hoje, não o seria em 2005. Uma palavra nesse sentido do Cardeal Ratzinger e os seus pares procurariam outro sucessor para João Paulo II… Porém, mais importante que a personalidade ou a idade do futuro papa, o que parece encantar a comunicação social é a sua nacionalidade. E aí, a procura de um furo jornalístico parece prevalecer sobre a realidade dos factos históricos do quadro acima: quanto mais exótico o candidato, tanto melhor. Depois da monotonia de papas italianos, os de uma outra nacionalidade europeia parecem já se terem tornado numa banalidade e agora procuram-se extra-europeus, de preferência coloridos… Creio, porém, que as listas que desdobram os cardeais pela sua nacionalidade de origem cometem um erro fundamental: tendem a juntar cardeais de natureza diferente; há os que dirigem as suas dioceses nos seus países de origem e há os que residem no Vaticano.
 
Estes últimos cardeais, pertencentes à Cúria Romana (eram 28 no último conclave de 2005, ou seja ¼ de todo o colégio), porque se contactam com mais frequência que os restantes, podem ter uma influência no desfecho de uma eleição superior ao seu número. É à internacionalização da Cúria no último terço do Século XX¹ que se deverá o aumento das probabilidades de eleição de papas não italianos. Mas não deixa de ser curioso assinalar que, ao contrário do que se pode ler, as probabilidades de eleição de um papa europeu aumentaram porque os cardeais dessa origem passaram, de 2005 para cá, de 50 para 60% do total dos membros do colégio. Mas o que parece o traço mais comum dos quinze últimos conclaves é como a inspiração do Espírito Santo (que alegadamente orienta a eleição dos cardeais) pôde ser tão circunstancial, a ponto de eleições separadas por escassos dois meses (Agosto e Outubro de 1978) terem tido desfechos tão diferentes. Conta-se a propósito dessa época que o Cardeal Casariego, um guatemalteco apartado um pouco daquelas coisas, perguntava à chegada: Ouvi falar de um cardeal chamado Bottiglia (garrafa) ou qualquer coisa parecida. Quem é ele? Pouco mais tarde, Karol Wojtyla, o tal Bottiglia, viria a ser eleito Papa…       
¹ Os cardeais oriundos da Cúria eram compostos por 90% de origem italiana no conclave de 1922 e ainda no de 1958, mas apenas por 32% no de 2005.

17 fevereiro 2013

O QUE OS METEORITOS NOS PODEM ENSINAR SOBRE A VIDA NA TERRA


Quando se vê uma selecção de imagens do aparecimento de um meteorito sobre Cheliabinsk, uma cidade da Rússia profunda, apercebemo-nos que uma apreciável percentagem delas foi recolhida por câmaras de automóveis que circulavam aquela hora da manhã (9H20). Essas câmaras tornaram-se actualmente num acessório muito comum nos automóveis russos, por causa do apuramento de responsabilidades em caso de acidente, numa verdadeira lei da selva que se parece ter instalado no trânsito na Rússia…

O POVO É QUEM MAIS ORDENA


Neste poste nem me pretendo pronunciar sobre a pertinência do episódio da semana, quando um grupo coral de visitantes da Assembleia da República irrompeu a cantar Grândola, Vila Morena enquanto o primeiro-ministro discursava (acima). Do que quero falar é do topete revolucionário de um dos barítonos mais mediáticos do grupo, o advogado Garcia Pereira, que se terá dialecticamente esquecido que foi por vontade do povo, o tal que é quem mais ordena, que ele não teve assento nas cadeiras mais abaixo do hemiciclo quando para isso se candidatou¹ há menos de dois anos. É que dessas outras cadeiras mais centrais, até se pode cantar sozinho, mas canta-se com toda uma outra legitimidade… Mas a boa notícia numa verdadeira Democracia, daquela onde o povo dá regularmente algumas ordens nas urnas em vez de o fazer em trinados revolucionários, é que Garcia Pereira está sempre a tempo de voltar a tentar dar voz aos que ele achar que a não têm...
¹ Recebeu apenas 14.419 votos (1,23%), quando precisaria de um pouco mais de 22 mil…

16 fevereiro 2013

ESTRANHA FORMA DE RENÚNCIA

Com a anunciada renúncia de Bento XVI no final deste mês, o jornalismo vaticanista tornou-se um activo cobiçado pelas redacções. Numa manifestação desses saberes privados que irrompem nestas épocas a agência EFE divulgou ontem um estudo de um cónego catalão, professor de História da Igreja, que enumera um total de vinte e dois papas que renunciaram ou foram obrigados a isso antes de Bento XVI. Acontece que nessa lista muitos portugueses reconhecerão o nome de João XXI (r. 1276-1277), o mais famoso dos dois papas originários deste nosso canto da Península Ibérica, cuja brevidade do pontificado (oito meses) se sabe dever-se a um desabamento que lhe foi fatal. Se a expressão estranha forma de vida, tão popularizada por Amália Rodrigues (abaixo), pode ser aqui adaptada para estranha forma de morte, mesmo a propósito quando se trata do que aconteceu a um papa português, não consigo acompanhar a imaginação do cónego catalão que quererá, no mínimo, que consideremos uma estranha forma de renúncia quando quem renunciou o terá feito porque apanhou com uma parede em cima e morreu…

«SKATING IN THE RAIN»

O tempo mostra-se inclemente mas o patinador, qual um novo Gene Kellly exprimindo a sua paixão, não prescinde de dar mostras do seu virtuosismo técnico na forma estilizada como curva cruzando as pernas, indiferente à intempérie. A fotografia é do norte-americano Peter Turnley.

15 fevereiro 2013

EMIRATOS DO GOLFO PÉRSICO – OS MILAGRES DA DESSALINIZAÇÃO

Quando Christian Godard (1932-    ), o desenhador de Martin Milan, concebeu originalmente a aventura O Emir dos Sete Beduínos, na qual o seu herói visitava um imaginário (e riquíssimo) emirato de Kahk-Haweit, estava-se em 1971 e alguns dos emiratos que lhe poderiam ter…
…servido de inspiração (como o Abu Dhabi, o  Bahrein, o Dubai, ou o Qatar), tinham acabado de se tornar independentes. A riqueza em Kahk-Haweit é excessiva, e Godard não se poupa a ironias para a realçar, a começar pelo Mercedes do varredor de ruas até à sobrelotação dos bancos…
O problema de tal paraíso seria a falta de água. A água que é rara, obtida industrialmente e que não presta. A associação dessa falta de água com a riqueza torna-se pretexto para mais algumas piadas com os chafarizes de Kahk-Haweit a dispensarem champanhe Moët & Chandon de 1952, a rega…
…agrícola a ser feita usando sumo de ananás e com os motores a serem refrigerados com vinho novo Beaujolais… Mas o humor da história aflorava um dos grandes problemas de sempre naquela região do Mundo: a falta de água potável, que fizera que a região fosse escassamente habitada.
Contudo, com as grandes (e eficazes...) unidades de dessalinização construídas com a prosperidade do petróleo ultrapassou-se finalmente o problema. Nos últimos 40 anos, a população do Bahrein multiplicou-se por 6 vezes, a do Qatar por 16 vezes, a do Abu Dhabi e do Dubai por 30!
Agora, não havendo falta de água, que esta tem qualidade e não sendo preciso sequer que sejam os varredores locais a varrer as ruas, o novo problema político é que os privilegiados de ascendência local já se tornaram numa pequena minoria de somente 20% da população residente…

14 fevereiro 2013

EXPRESSÕES QUE SE PODEM TORNAR POPULARES

Se não for por causa daquilo para que foi eleito, Pedro Passos Coelho é capaz de assegurar um lugar alternativo na história por causa das suas malversações da língua portuguesa. Assim, quando, a propósito das últimas estatísticas sobre (des)emprego e (de)crescimento económico, o ouvimos comentá-las dizendo que Os números são preocupantes, estão razoavelmente em linha com as previsões do governo, fica-se com uma ideia nítida daquilo que poderá significar estar-se razoavelmente em linha: um fiasco.
 
Se a expressão de Passos Coelho cair no goto do povo não tardaremos a ouvir que, quem acertar em um ou dois números do euromilhões (e nenhuma estrela...), estará razoavelmente em linha com a chave sorteada nessa semana. Ou então, os calotes também poderão passar a ser execuções orçamentais em linha, com ou sem razoabilidade, conforme a intenção (ou não) de pagar depois… Recorde-se como o português do Século XIX se enriqueceu com a expressão ir para o maneta em circunstâncias muito parecidas…
Para quem achar a fotografia inicial despropositada com o conteúdo do texto, faço notar que o condutor também orientou o automóvel razoavelmente em linha com o muro…

13 fevereiro 2013

UM PORTUGAL QUE VIROU À ESQUERDA MAS QUE SE CONTINUOU A IMAGINAR PLURICONTINENTAL

Se a famosa intenção de que Angola fosse nossa é hoje identificável com o regime deposto a 25 de Abril de 1974, a verdade é que a mentalidade popular portuguesa, mesmo a da fracção do povo que se consciencializou mais depressa imediatamente depois daquela data, permaneceu amarrada a uma visão pluricontinental do que seria o espaço nacional em termos da recém descoberta intervenção política.
Assim, nesta fotografia feita em Fevereiro de 1975 na redacção do jornal República, o camarada lá do fundo, que dá mostras daquela predilecção de enfeitar as paredes junto ao seu local de trabalho com cartazes de organizações das suas simpatias, mostra-se tão adepto do progressismo doméstico do MDP/CDE quanto do nacionalismo progressista da FRELIMO moçambicana.
E mesmo um ano mais tarde, ainda se podia encontrar o mural acima no Cacém, vitoriando um MPLA que assumia então os seus primeiros passos como vanguarda dirigente da revolução angolana, a que não queria saber dos ex-colonialistas para nada, enquanto na esquerda portuguesa se continuava romanticamente a ignorar qual o verdadeiro significado da expressão autodeterminação dos povos

12 fevereiro 2013

O JORNALISMO FUTEBOLÍSTICO PÓS-MODERNO


Antes de ser mundialmente famoso como Dr. House, pode-se apreciar este sketch com quase 20 anos de Hugh Laurie, em que ele se faz passar por uma fracassada estrela do futebol da década de 70 que veio a fundar uma escola para crianças como então era moda. De assinalar que os treinos são sem bola e incidem sobre a arte de simular faltas. Mais: quando um dos formandos aparece com uma, Laurie avisa os seus pupilos para se manterem afastados daquilo. O jornalismo futebolístico português comunga da mesma lógica: não se trata de jogos, trata-se de arbitragens.      
 
Já há muito que me pergunto, e não é por causa de incidentes como este da expulsão e das palavras trocadas previamente entre o árbitro Pedro Proença e o jogador Óscar Cardozo, quando é que o nosso jornalismo futebolístico (também alcunhado de desportivo…) assumirá uma atitude verdadeiramente pós-moderna e transitará directamente para a fase da discussão das arbitragens pelos paineleiros de Segunda-feira, prescindindo-se de noticiar a bagatela dos episódios que envolvam a bola propriamente dita, tal qual faz Hugh Laurie acima, que nem sequer sabe chutar?... 

A PRIVACIDADE ou O CARNAVAL É QUANDO UM HOMEM QUISER

Há quem queira elevar a decoração de interiores ao nível de uma actividade tão sofisticada quanto púdica, mas não haverá divisão da casa onde se exija mais funcionalidade objectiva dos equipamentos do que a casa de banho, onde, por isso, se conseguem edificar os exemplos mais descarados da estupidez humana

CARROS ALEGÓRICOS DE OUTROS CARNAVAIS

Por causa dos corsos de Carnaval que este ano terão de ter lugar com mais frio ainda do que é costume (a que se adicionam ameaças de chuva), lembrei-me de afixar este poste alegórico com fotografias de alegres foliões (com destaque para as folionas...) enfeitando alguns carros alegóricos de outrora, participando em celebrações festivas sob climas ainda menos clementes do que o nosso, porém em sociedades muito mais avançadas que a nossa...  

11 fevereiro 2013

É CARNAVAL, NINGUÉM LEVA A MAL

Há mais de cinco anos e meio (em Maio de 2007, ainda não havia crise…), alguém que se assina apereira2005 teve a amabilidade de carregar o vídeo abaixo no Youtube, destacando um momento de um recôndito telejornal com um pouco mais de dois minutos e meio de duração, onde se notícia a estreia como ficcionista (com uma obra intitulada Diário de um Deus Criacionista) daquele que viria a ser um controverso mas interessante ministro da Economia no futuro: Álvaro Santos Pereira. Assinale-se a coincidência das iniciais do autor da obra e de quem carregou o vídeo, que poderá não passar disso mesmo: duma coincidência…

Há cerca de cinco meses, alguém que se tem vindo a afirmar no firmamento da blogosfera, António Araújo, recupera no blogue Malomil o interesse por aquela mesma obra, entretanto relegada para um injusto esquecimento, como se comprova por aquela estampilha de 2,00 € na capa, algo que representa uma desvalorização de 89% sobre o preço inicial do livro, talvez sintoma da crise que o autor procura debalde resolver na sua outra faceta de economista. Igual a si mesmo, António Araújo escalpeliza (dolorosamente para os protagonistas) não apenas o conteúdo da obra mas também recensões e outra actividade promocional. Mas o assunto já voltara a morrer pela internet quando…
…subitamente Marcelo Rebelo de Sousa o ressuscitou – por assim dizer... – na sua intervenção semanal de ontem na TVI. Bem pode parecer que Marcelo não é um comparsa dos blogues, que não os lê (o que até nem é verdade…) ou que chega atrasado àqueles acontecimentos que são happenings blogonáuticos. Mas em frente das câmaras ele supera-se, tornando-se numa espécie de Lucky Luke da leitura (aquele que dispara mais rápido que a própria sombra): segundo as próprias palavras, esteve a lê-lo ontem à noite e ao segundo dia (lembremo-nos que mesmo Cristo esperou pelo terceiro para ressuscitar…) mostrava-se presto para comentar todas as suas 273 páginas nos 1:15s finais do seu programa.
Saboreava-se ainda o requentado dessa intervenção à despedida de ontem quando os Sinais radiofónicos de Fernando Alves na TSF desta manhã repegam por 2:25s o tema: Fernando falando de Marcelo a falar de Álvaro por causa do livro que este escrevera, juntando mais um elo à cadeia de comentários sobre um livro com mais de cinco anos e meio. Não deixou de ser patente perceber-se como qualquer das duas intervenções mediáticas, a televisiva e a radiofónica, terão ido buscar a inspiração ao texto e ao trabalho de pesquisa original de António Araújo, por acaso o único autor na cadeia que não foi remunerado pelo que fez… Mas no Carnaval é normal que ninguém leve a mal…